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28/06/2011

às 19:54 \ Feira Livre

‘Lá’, um texto de Noemi Jaffe

TEXTO PUBLICADO NA REVISTA SERROTE DE MARÇO

Noemi Jaffe*

Minha mãe, que é húngara, quando fala comigo ao telefone e diz que vem até minha casa, fala assim: “Estou indo pra lá”. Ela, no Brasil há 60 anos, não conseguiu aprender a especificidade do termo “aí”, o que a faria dizer: “Estou indo aí”. Aí é o aqui do outro: um advérbio muito sofisticado e bem brasileiro, de difícil apreensão por um falante não nativo. Portadores do aqui do eu e do aqui do outro, para nós o “lá” fica reservado para usos e significados que considero, de forma chauvinista, mas amplos e poéticos do que, por exemplo, o there ou o do francês, que estranhamente também é “aqui”. Ao lá, em português, dispensado de ser o aqui do outro, ficou reservada uma distância que é, e ao mesmo tempo não é, indicativa. Lá pode ser um lugar determinado, mas também é, simultaneamente e sempre, um lugar incerto, todo ou nenhum lugar, uma distância física e imaginária, um lugar solto e sozinho no espaço e também no tempo. Afinal, se não fosse também uma indicação de tempo, por que dizemos “até lá” referindo-nos a uma data? Porque é, misteriosamente, um lugar no espaço e no tempo. É ─ para onde as coisas vão e de onde as coisas vêm, e ao dizer “até lá” é como se pudéssemos finalmente, como promessa e como cumprimento, por uma vez, alcançá-las. Quando chega o momento de cumprir o “até lá”, quando aquele vira agora e aqui, estranhamente o permanece intacto, uma fonte inexaurível que não cessa de se distanciar. Se não fosse assim, por que então, em vez de simplesmente dizer “não sei”, dizemos muito mais enfaticamente: “Sei lá”? “Sei lá” é não sei e não quero saber. É uma declaração de que meu interesse pelo assunto está e de não vai sair. Foi para ; portanto, não vai voltar. O contrário disso, entretanto, é a expressão “linda, lá vou eu”, indicando, agora sim, um desejo potente e confiante de, nesse caso, ir para . “Lá vou eu” é o enfrentamento de um desafio, é um aqui e agora carregado de , portanto mais nobre e temerário. A própria inversão da frase ─ lá vou eu, em vez de “eu vou lá” ─ já empresta nobreza e coragem ao sujeito que lá vai. É como um “seja o que Deus quiser” laico, cujo resultado é, no mínimo, engrandecedor. Quem diz e realiza a promessa do “lá vou eu” pode dizer que esteve . Gertrude Stein, enriquecendo a pobreza do inglês, pelo menos nesse sentido, diz que não ficaria nos Estados Unidos,  porque “there is no there there”. É verdade. O inglês, forçado ao pragmatismo, perdeu o sentido longínquo e incognoscível de um there maciço, inexpugnável. There se tornou simplesmente o contrário de here, deixando de compreender a beleza de uma expressão como there is, para querer dizer somente “há”. Em português, felizmente, além do “há”, também mantivemos o “lá está”. Penso que uma tradução totalmente não literal, mas de alguma forma fiel a “there is no there there”, poderia ser “lá lá lá”, não só porque ela mantém os três “lás”, mas principalemte porque ela diz, de forma bem brasileira, que aqui ainda há . Talvez seja porque é também uma nota musical. Sempre me lembro da tradução da canção do filme A noviça rebelde, em que ela ensinava aos filhos do sr. Von Trapp as notas musicais. Para o lá, em português, a letra dizia: “Lá é bem longe daqui”. Em inglês é “a note to follow so”. Quero que seja para sempre bem longe daqui e que fique mantido naquele lugar que está perfeitamente traduzido na piada dos dois caipiras, que veem pela terceira vez um elefante voando bem alto no céu, em direção ao leste, e então um deles diz: “Acho que o ninho deles é pra lá”.

*Noemi Jaffe é escritora, professora de literatura e crítica literária. Escreveu Todas as coisas pequenas (Hedra, 2005), Do princípio às criaturas (USP, 2008), Folha explica Macunaíma (Publifolha, 2001), entre outros. Mantém o blog Quando nada está acontecendo.

26/06/2011

às 14:47 \ Feira Livre

Desonestidade é cultura

TEXTO PUBLICADO NO ESTADÃO DESTE DOMINGO

João Ubaldo Ribeiro

Sempre se tem cuidado com generalizações, para não atingir os que não se enquadram nelas. Às vezes o sujeito odeia indiscriminadamente toda uma categoria, mas, ao falar nela e, principalmente, ao escrever, abre lugar para as exceções, os “não-são-todos” e ressalvas hipócritas sortidas. Outros recorrem a gracinhas, como na frase do antigamente famoso escritor Pitigrilli, segundo a qual “as únicas mulheres sérias são minha mãe e a mãe do leitor”. No caso presente, decidi que as generalizações feitas hoje excluem todos os leitores, a não ser, evidentemente, os que desejem incluir-se – longe de mim contribuir para aumentar nossa tão falada legião de excluídos.

Antigamente, era muito comum ler ensaios e artigos escritos por brasileiros em que nós éramos tratados na terceira pessoa: o brasileiro é assim ou assado, gosta disso e não gosta daquilo. Em relação a maus hábitos então, a terceira pessoa era a única empregada. O autor do artigo escrevia como se ele mesmo não fizesse parte do povo cuja conduta lamentava. Até mesmo nas conversas de botequim, durante as habituais análises da conjuntura nacional, o comum era (ainda é um pouco, acho que o boteco é mais conservador que a academia) o brasileiro ser descrito como uma espécie de ser à parte, um fenômeno do qual éramos apenas espectadores ou vítimas. Eu não. Talvez, há muito tempo, eu tenha escrito dessa forma, mas devo ter logo compreendido sua falsidade e passei a me ver como parte da realidade criticada. Individualmente, posso não fazer muitas coisas que outros fazem, mas não serei arrogante ou pretensioso, vendo os brasileiros como “eles”. Não são “eles”, somos nós.

Creio que, feita a exceção dos leitores e esclarecido que estou falando em nós e não em inexistentes “eles”, posso expor a opinião de que fica cada vez mais difícil não reconhecer, vamos e venhamos, que somos um povo desonesto. Não conheço as estatísticas de países comparáveis ao nosso e, além disso, nossas estatísticas são muito pouco dignas de confiança. Mas não estou preparando uma tese de mestrado sobre o problema e não tenho obrigação metodológica nenhuma, a não ser a de não falsear intencionalmente os fatos a que aludo e que vem das informações e impressões a que praticamente todos nós estamos expostos.

Claro, choverão explicações para a desonestidade que vemos, principalmente nos tempos que atravessamos, em que a impressão que se tem é de que ninguém é mais culpado ou responsável por nada. Há sempre fatores exógenos que determinaram uma ação desonesta ou delituosa. E, de fato, se é assim, não se pode fazer nada quanto à má conduta, a não ser dedicar todo o tempo a combater suas “causas”. Essas causas são todas discutíveis e mais ainda o determinismo de quem as invoca, que praticamente exclui a responsabilidade individual. E, causa ou não causa, não se pode deixar de observar como, além de desonestos, ficamos cínicos e apáticos. Contanto que algo não nos atinja diretamente, pior para quem foi atingido.

Ninguém se espanta ou discute, quando se fala que determinado político é ladrão. Já nos acostumamos, faz parte de nossa realidade, não tem jeito. Alguns desses ladrões são até simpáticos e tratados de uma forma que não vemos como cúmplice, mas como, talvez, brasileiramente afetuosa. Votamos nele e perdoamos alegremente seus pecados, pois, afinal, ele rouba, mas tem suas qualidades. E quem não rouba? Por que todo mundo já se acostumou a que, depois de uma carreira política de uns dez anos, todos estão mais gordinhos e com o patrimônio às vezes consideravelmente ampliado? Como é que isso acontece rotineiramente com prefeitos, vereadores, deputados, senadores, governadores, ministros e quem mais ocupe cargo público?

Os políticos, já dissemos eu e outros, não são marcianos, não vieram de outra galáxia. São como nós, têm a mesma história comum, vieram, enfim, do mesmo lugar que os outros brasileiros. Por conseguinte, somos nós. Assim como o policial safado que toma dinheiro para não multar – safado ele que toma, safados nós, que damos. Assim como o parlamentar que, ao empossar-se, cobre-se de privilégios nababescos, sem comparação a país algum.

Em todos os órgãos públicos, ao que parece aos olhos já entorpecidos dos que leem ou assistem às notícias, se desencavam, todo dia, escândalos de corrupção, prevaricação, desvio de verbas, estelionato, tráfico de influência, negligência criminosa e o que mais se possa imaginar de trambique ou falcatrua. E em seguida assistimos à ridícula, com perdão da má palavra, microprisão até de “suspeitos” confessos ou flagrados. A esse ritual da microprisão (ou nanoprisão, talvez, considerando a duração de algumas delas) segue-se o ritual de soltura, até mesmo de “suspeitos” confessos ou flagrados. E que fim levam esses inquéritos e processos ninguém sabe, até porque tanto abundam que sufocam a memória e desafiam a enumeração.

Manda a experiência achar que não levam fim nenhum, fica tudo por isso mesmo, porque faz parte do padrão com que nos domesticaram (taí, povo domesticado, gostei, somos também um povo muito bem domesticado) saber que poderoso nenhum vai em cana. E é claro que, por mais que negue isso com lindas manifestações de intenção e garantias de sigilo (como se aqui, de contas bancárias de caseiros a declarações de imposto de renda, algo do interesse de quem pode ficasse mesmo sigiloso), essa ideia de esconder os preços das obras da Copa tem toda a pinta de que é mais uma armação para meter a mão em mais dinheiro, com mais tranquilidade. Ou seja, é para roubar mesmo e não há o que fazer, tanto assim que não fazemos. Acho que é uma questão cultural, nós somos desse jeito mesmo, ladravazes por formação e tradição.

17/06/2011

às 18:08 \ Feira Livre

A esperteza que institui a roubalheira secreta e sem risco de cadeia, defendida por Dilma, é desmontada por Gilberto Monteiro Mazot

Até o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, achou que o governo foi longe demais com a ideia de instituir a ladroagem secreta e sem risco de cadeia na gastança com a Copa do Mundo e a Olimpíada. “É escandalosamente absurdo”, resumiu nesta quinta-feira. “Como é que a sociedade pode ser privada do acesso a informações relacionadas a despesas públicas?” Nesta sexta, em Ribeirão Preto, a presidente Dilma Rousseff caprichou inutilmente na pose de quem está diuturnamente e até noturnamente a serviço da pátria: “Não se pode achar que o governo está tentando garantir a roubalheira”, recitou. Está, insiste a coluna, apoiada em argumentos irrefutáveis.

Alguns deles foram exemplarmente expostos no comentário enviado pelo leitor Gilberto Monteiro Mazot, um brasileiro que preza a decência, a lei e a verdade. O texto merece ser publicado aqui na Feira Livre. (AN)

RI$CO AO MEIO AMBIENTE E À TRAN$PARÊNCIA

Por Gilberto Monteiro Mazot

Aprovou-se ontem na Câmara dos Deputados um tal “Regime Diferenciado de Contratações Públicas” que prevê não a flexibilização, mas o afastamento da lei de licitações. Regime esse aplicável exclusivamente às licitações e contratos relacionados à Copa das Confederações (2013), Copa do Mundo (2014) e Jogos Olímpicos (2016).

Chama atenção, em primeiro lugar, o fato dessa matéria – que envolve bilhões de reais retirados dos nossos bolsos – ter interessado apenas pouco mais que 2/3 dos membros (351 de 513 deputados), o que significa que 1/3 dos eleitores brasileiros nem mesmo foi representado numa votação de tamanha importância, fato que nem mesmo é lembrado pela imprensa, que já considera natural esse comportamento dos parlamentares brasileiros.

Releva atentar para alguns pontos dessa legislação aprovada na Câmara.

Toda discussão tem girado em torno da norma que prevê o sigilo para a estimativa prévia de orçamento da obra, o que significa que a opinião pública ficará privada de conhecer o quanto foi inicialmente previsto para o custeio da obra em relação ao que será pago no final. É relevante, porém a meu sentir, não é o mais importante.

É importante porque a transparência de todo processo de licitação era um dos princípios com previsão expressa na Lei de licitações (art. 3º, §3º, da Lei 8666/93): “ A licitação não será sigilosa, sendo públicos e acessíveis ao público os atos de seu procedimento, salvo quanto ao conteúdo das propostas, até a respectiva abertura.”

Não se justifica o fundamento divulgado na imprensa de que o sigilo se deve ao “interesse do Estado” e o “interesse social”. Em se tratando de licitações para realização de obras públicas não é um fundamento lógico e não respeita, com todo o respeito, a “inteligência social”. Em toda a atividade governamental – com diferenças de importância – estão envolvidos interesses do estado e da sociedade. Logo, para perquirir se há um “interesse social” (conceito jurídico indeterminado) a justificar constitucionalmente que uma lei preveja a quebra do princípio da publicidade, se deve verificar se o sigilo é imprescindível à concretização de determinado fim público. E, nesse caso, a meu sentir a resposta é, definitivamente, negativa.

Não será o sigilo do orçamento que irá evitar a formação de cartéis, mesmo porque nada garante que esses valores “circulando internamente” não venham a vazar para os interessados. O que se deve fazer é impor um limite na margem de lucro para o custeio das obras. Não se pode esquecer uma informação elementar: grosso modo, preço é sempre custo somado à margem de lucro. A velha e boa empreitada integral já é um instrumento bastante, por si só, para diminuir o risco de descumprimentos porque o contratado fica comprometido com uma etapa inteira de um dado processo.

Entrementes, o mais importante do projeto de lei de conversão à MP 527, todavia, repousa, não na relevantíssima questão do sigilo de orçamento, mas em dois outros pontos. É que o projeto prevê, a exclusão pura e simples da lei de licitações, que é tornada subsidiária ao RDC, além de prever uma verdadeira cláusula de exclusão por responsabilidade aos danos ao meio ambiente e ao patrimônio histórico, cultural, arqueológico.

Poder-se-ía aventar inconstitucionalidade da futura lei ao prever que o “impacto negativo sobre os bens do patrimônio cultural, histórico, arqueológico e imaterial tombados, deverá ser compensado por medidas determinadas pela autoridade responsável, na forma da legislação aplicável”. No mínimo, mereceria uma interpretação conforme a constituição para que não se tenha por esvaziado o conteúdo de remédios constitucionais como a ação popular e a ação civil pública, em relação ao RDC, porque estaria – de antemão – a permitir danos (prevendo uma compensação) ao meio ambiente, além de danos irreversíveis a outros bens tutelados pelos remédios constitucionais, como o patrimônio cultural, histórico, arqueológico. Poderia ser lido tal dispositivo como uma verdadeira cláusula de exclusão de responsabilidade acerca desses danos sobre bens tutelados pela Constituição do Brasil.

Das várias indagações que restam desta proposta de legislação, sobressai uma pergunta: se ela traz tantos benefícios e em nada altera as cautelas legais, visando à lisura dos processos de licitação, por que razão está prevista apenas como um regime exclusivamente aplicável às obras das copas (confederações e copa do mundo) e olimpíadas? Por que não se revoga de vez a lei de licitações, que tanto “atrapalha” as obras públicas no Brasil?

É isso, amigos. O Ministério Público e o Poder Judiciário dispõem dos instrumentos necessários para agir. Ainda há tempo para impedir a consumação de mais uma bofetada no rosto do Brasil. (AN)

12/06/2011

às 17:28 \ Feira Livre

Pedro Malan comenta os 80 anos de Fernando Henrique Cardoso

Pedro Malan

“Quando quarenta invernos assediarem teu semblante” é a abertura de um dos mais belos sonetos de Shakespeare. À época, 40 anos era uma idade respeitável, a beleza era peregrina e, não mais que de repente, a força e o espírito da juventude se haviam esvaído. Hoje, chegar aos 80 invernos não é a raridade excepcional de antanho. Muitos – e muitas – o fazem. Mas chegar aos 80 mantendo extrema lucidez no infindável diálogo entre passado e futuro (seu próprio, do seu país e do mundo) é raro, muito raro. Quando, além disso, se chega aos 80 com invejável sentido de humor, marcante presença na vida política e no debate de temas de interesse público, é quase um desaforo.

Pois bem, é o que sempre fez, e faz hoje, nessa idade, o presidente Fernando Henrique Cardoso, com quem tive o privilégio e o prazer de trabalhar na última década de meus quase 40 invernos de serviço publico. A amizade, que já existia, só fez se consolidar desde então. Espero que, quando o Brasil puder alcançar um mínimo de perspectiva histórica sobre nosso passado recente, se possa fazer justiça a Fernando Henrique Cardoso – à sua pessoa e a seu governo. Que venham os 90 invernos. Afinal, como escreveu Chaucer, “tão curta a vida, tão longo o ofício de aprender”.

15/02/2011

às 20:25 \ Feira Livre

Texto enviado pela comentarista Eidia

Le repos des lunettes*

Ieda Dias

E mais um amigo se foi. Partiu antes do combinado mas, mesmo se tivesse ficado por muito mais tempo, jamais eu poderia assimilar tanta sabedoria, tanta inteligência e curiosidade. Mais uma biblioteca que se apaga.

A amizade foi crescendo devagarinho porque, quase todo ano venho aqui passar uns tempos. O lugar é calmo, reconfortante e revejo meus amigos queridos. Estive, ano passado, por dois meses e meio com ele e, agora em Nova York, voltando para o Brasil, não pensei duas vezes antes de pular pro lado de cá, e ficar mais um tikim, com aquele que já estava chegando ao finzinho da sua estrada, aproveitar as últimas gotas e “l’emmerder” (encher o saco dele), como ele mesmo dizia. E consegui mostrar alegria até o final. Fazê-lo rir, que era o que ele gostava.

Outro dia ele não queria comer e, eu, sacaneando, me ofereci pra fazer uma feijoada. Foi engraçado, ele puxou forças de onde não tinha mais, para falar forte:

─ Não ! Não e não ! (ele sabia que eu não tava brincando).

À mesa, sempre me sentava em frente a ele. Ele me chamava de “meu vis-à-vis” (o que tá em frente).

─ Onde está meu vis-à-vis?

Hoje almocei em frente a uma cadeira vazia. Espero que “meu vis-à-vis” esteja dormindo em paz.

Quando invernava de nevar, de manhãzinha, assim que ele se levantava, olhava para fora e repetia como se fosse um mantra ─ Oh! Tá nevando! Que beleza! (p… da vida porque neve, pra quem mora aqui, é quiném chuva contínua pra nós. Imagine 4 meses chovendo sem parar).

Não tinha uma só pergunta que ficasse sem resposta, mas não era uma resposta qualquer. Era resposta que acrescentava. E os vários dicionários que ele tinha eram consultados com a mesma frequência que você olha pro celular durante o dia. A explicação de uma simples expressão vinha ilustrada com uma história.

Ano passado, faltando uns dois meses para o aniversário dele, ele começou a perguntar, a cada meia hora:

─ Que dia é hoje? Depois de alguns dias e várias vezes respondida a mesma pergunta, descobrimos que ele contava os dias para o aniversário. Queria completar 80 anos. E conseguiu com louvor! Quase fez 81…

A memória do presente já não durava mais que alguns minutos e eu ria e fazia ele rir. Outras duas perguntas constantes: ─ Quantas horas são? ─ Hoje é que dia? (como se alguma das duas respostas fosse mudar o rumo da vida dele). Um dia, alguns minutos depois de ter respondido a uma dessas duas perguntas, eu perguntei séria e queria uma resposta mais séria ainda: ─ Me diz a verdade verdadeira: jura que não se lembra de ter me perguntado, meia-hora atrás, a mesma coisa?

E ele, seríssimo:

─ Juro. Eu perguntei?

─ Só 2.500 vezes hoje.

Ele riu “até” (nunca vou saber se estava me gozando).

Às vezes, ele chegava perto e eu já ia dizendo: ─ São três e meia, hoje é quarta-feira, 5 de fevereiro e faltam x dias pro seu aniversário.

Ele ria “até”, mas dali a meia hora…

No Natal francês, eles comem, o tempo todo, uma bala muito gostosa chamada “papillote”, que vai durando até depois do Ano Novo. Parece uma bala de goma envolvida em chocolate e a embalagem é linda. Ele amava e comia quilos ─ às vezes com permissão da dona da casa, às vezes, escondido. E, quando queria comer, fazia quiném criança: me oferecia e, se eu aceitasse, ele tinha desculpa para comer outra. E eu aceitava mesmo sem vontade… rs.

À mesa, nos últimos tempos, com o apetite bem reduzido, era um divertimento só. Pra enrolar e não comer, ele inventava casos, contava histórias, lembrava-se de velhas canções, cantava, e eu não podia dar muita corda, senão apanhava da dona da casa. Como não podia o tempo todo, eu brincava de “vaca amarela” e ele ria. E eu dizia:

─ Pare de enrolar e coma, senão não tem sobremesa! (quiném a gente faz com criança) mas ele já estava pouco ligando para a sobremesa. Até o papillote já não fazia tanto sucesso.

Eu gostava de fazer ele rir, deitando-me com ele e fingindo que aproveitava enquanto a patroa estava distraída em algum lugar. Ele riiiia…

Esta semana eu acho que se lembrou disso e me disse com dificuldade:

─ Quer se deitar aqui comigo?

No que respondi:

─ Cê ficou maluco? Não tá vendo que sua mulher tá em casa?

Foi um dos poucos sorrisos que consegui arrancar dele. O humor continuou presente até o final.

Assim que cheguei, a mulher dele me disse:

─ Depois que você foi embora, em abril, pelo menos umas 10 vezes, ele me fez prometer que eu o levaria ao Brasil para te visitar.

Semana passada, depois de uma manhã sofrida, ele ficou olhando para a  janela com o olhar perdido, distante, e pensei que estivesse olhando para o nada, ou nada vendo. Passei a mão em frente aos olhos dele e ele disse imediatamente: ─ Tô enxergando! (com um minúsculo sorriso no canto da boca). Tentei ver se o divertia um pouco, mostrei dois dedos e perguntei:

- Quantos dedos você tá vendo? E ele : ─ 18.

Pra logo depois continuar : ─ Tô vendo o “V” da vitória.

Insisti na brincadeira e mostrei o dedo do meio. Ele fez uma careta de reprovação e deve ter pensado: “ela não me respeita mesmo. Em nenhuma situação”.

Acordou assustado há uns três dias e disse: ─ A guerra!

Tentei levantar a moral dele e perguntei:

─ Você se levantou pra ir ou tá correndo dela? Mas no final da minha frase, ele já dormia profundamente. Os mesmos medicamentos que aliviavam sua dor também o derrubavam como num nocaute. Só que, quando o nocaute chegou, já foi no 15º assalto (ele não era homem de ser derrubado tão facilmente assim).

Não deu pra você ir me encontrar no Brasil meu amigo, mas eu levo você no meu coração. Pra sempre. E pra qualquer lugar onde eu for.

*O descanso dos óculos

 

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