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terremoto

16/01/2012

às 13:03 \ Direto ao Ponto

Se adotassem o Método Battisti, os haitianos virariam asilados políticos

Os haitianos que lutam pela sobrevivência escolheram o jeito errado de entrar no Brasil. O jeito certo foi descoberto por Cesare Battisti. Antes de deixar o país devastado pelo terremoto, cada um deveria ter-se filiado a alguma organização clandestina de extrema-esquerda, jurado de morte o imperialismo americano e justiçado pelo menos quatro inimigos do povo. Servem pequenos comerciantes ou policiais. Depois disso, os revolucionários se proclamariam perseguidos pela ditadura haitiana e rumariam para a potência emergente que acabou com a fome, depois com a pobreza, tornou-se a sexta maior economia do mundo, montou um sistema de saúde que está perto da perfeição, empresta dinheiro até ao FMI e tem emprego para todo mundo. Mas não pela rota que passa pelo Acre, e sim pela rota sul.

É mais longa, mas muito mais segura. Termina em Porto Alegre, mais precisamente no Palácio Piratini, onde Tarso Genro governa o Rio Grande e luta pela ressurreição do socialismo. Ele sabe o que fazer para transformar qualquer companheiro em asilado político. E só nega socorro a quem tenta escapar de Cuba.

10/04/2011

às 20:38 \ Direto ao Ponto

Na Região Serrana, cem dias parecem mil

Em 27 de janeiro, a presidente em começo de mandato voltou de uma ligeiríssima incursão à Região Serrana do Rio pronta para mostrar, na entrevista coletiva concedida ao lado do governador Sérgio Cabral, como seria o Brasil Maravilha com uma Dilma Rousseff no poder. Já que mulher é mais sensível que qualquer homem, caprichou na cara de luto em homenagem aos mais de mil mortos. Já que uma gerente-geral do governo Lula é de matar de inveja qualquer superexecutivo de multinacional, foi logo tirando da bolsa o kit de primeiros socorros que concebera em homenagem à multidão de flagelados.

O milagre mais vistoso tinha o selo de qualidade do programa Minha Casa, Minha Vida. “Vamos construir 6 mil unidades para as famílias desabrigadas”, avisou. O sorriso abobalhado de Sérgio Cabral informou que o parceiro de entrevista dividia o microfone com uma gestora incomparável. A foto da dupla merecia ilustrar todos os balanços dos 100 primeiros dias de Dilma publicados pelos jornais neste domingo. Com a seguinte legenda: “O governador do Rio contempla as casas que ninguém mais viu”.

Nenhuma começou a ser construída. Nenhuma família conseguiu sair dos abrigos improvisados. Mas nem se passaram três meses, vão certamente balbuciar os vigaristas, os devotos da seita e os iludidos vocacionais. Mirem-se no exemplo de países sérios, devem retrucar os brasileiros sensatos. Mirem-se, sobretudo, no exemplo recentíssimo do Japão, castigado em 14 de março por um terremoto seguido de um tsunami. Sem conversa fiada, o governo encomendou 4 mil casas pré-fabricadas. As primeiras 39 foram entregues em 9 de abril — menos de um mês depois da catástrofe.

Quando todos os japoneses surpreendidos pela tragédia estiverem sob um novo teto, milhares de sobreviventes da tragédia na Região Serrana ainda estarão aglomerados em abrigos provisórios. Os institutos de pesquisa deveriam averiguar o que acham do país e do governo. Podem acabar lucrando com a descoberta de que, ao contrário do que imaginam os eternos pessimistas, muitos flagelados estão confiantes no futuro no país, qualificam de “bom” (ou “ótimo”) o desempenho de Dilma e se sentem mais felizes nos acampamentos. Desde que sejam garantidas duas refeições a cada 24 horas, cem dias não parecem mil. Parecem cem minutos.

No Ano 9 da Era da Mediocridade, os ibopes e sensus repetem a cada pesquisa que milhões de brasileiros, sobretudo os alojados no miserável universo do Bolsa Família, aprenderam a renunciar ao sonho, a render-se sem lamentos ao assassinato da esperança e a contentar-se com o adiamento da morte. É suficiente a vida envilecida, sem horizontes, embrutecida. Uma vida não vivida.

 

29/03/2011

às 19:50 \ Feira Livre

A reprise do horror

Kobe, 17 de janeiro de 1995

Bruno Abbud

“Pai, teve um terremoto no Japão”, ouviu Takeshi Sogabe, 76 anos, assim que atendeu ao telefone às cinco da manhã de 11 de março em seu apartamento na Vila Mariana, zona sul de São Paulo. A filha, de saída para o trabalho no mesmo bairro, se referia ao terremoto seguido por um tsunami que devastou o Japão há menos de um mês e deixou, até agora, mais de 27.000 mortos e desaparecidos. Mas a frase transportou Sogabe imediatamente de volta à madrugada de 17 de janeiro de 1995. Naquela noite, um abalo sísmico na cidade de Kobe, no sul do país, matou 6.437 pessoas.

Desde que recebeu a notícia, Sogabe mantém o televisor sintonizado 24 horas na emissora japonesa NHK, cuja programação é inteiramente concentrada nas consequências do desastre. As imagens são parte da rotina do sobrado alugado na Rua da Glória, no bairro da Liberdade, reduto da comunidade japonesa em São Paulo. Ali, Sogabe comanda o escritório de Fukushima – uma das 47 províncias do Japão, a terceira mais afetada pelo terremoto. Sua principal atribuição é garantir trabalho e moradia para os japoneses que se transferem para o Brasil e organizar intercâmbios entre jovens dos dois países. Quem contempla seu corpo franzino, os cabelos acinzentados e o sorriso que expõe só a parte inferior da dentadura não imagina que alguém tão frágil sobreviveu a um dos mais terríveis terremotos da história do Japão.

Como desta vez, também foi por volta das 5h que o tremor em Kobe tirou Sogabe da cama. Um aparelho de televisão quase atingiu-lhe a cabeça. O cofre de 600 quilos que ficava no canto do apartamento caiu no meio da sala. “Minha primeira reação foi sair correndo”, conta. O barulho era ensurdecedor. Tudo durou segundos. Quando saiu para a rua, Sogabe viu árvores caídas, postes tombados sobre os telhados das casas e paredes lambidas pelo fogo. Ao lado de um amigo, começou a perambular pela cidade.

Um prédio partido ao meio permanecia surpreendentemente em pé, com a parte superior equilibrada sobre a inferior, como uma enorme sanfona na vertical. Uma das pontes estava completamente retorcida, em espiral. As pessoas não tinham onde dormir, comer ou tomar banho. Sogabe não lembra o valor exato, mas desembolsou muito dinheiro para lavar o corpo numa sauna. Faltava pão e os supermercados funcionavam precariamente.

“Eu pensei: de novo?”, diz Sogabe. “Comecei a lembrar de Kobe. Fiquei bobo”. Foi na sala de carpete marrom, com as paredes forradas de livros em japonês, que Sogabe começou a recuperar o equilíbrio. Telefonou para os escritórios das outras províncias e começou a arrecadar comida e dinheiro para os compatriotas do outro lado do Pacífico.

Sogabe nasceu em Nagai, cidade de 20 mil habitantes na província de Yamagata, ao norte de Tóquio. Estava lá em agosto de 1945, quando o presidente dos Estados Unidos Harry Truman ordenou o lançamento de bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki. Distante mais de 2 mil quilômetros do epicentro das explosões, não sofreu os efeitos da radiação. Mas recorda o sofrimento da família. “Lembro da minha mãe chorando quando o imperador anunciou pelo rádio que o Japão tinha perdido a guerra”. Foi a primeira vez que passou fome (a segunda foi em Kobe). Aos 11 anos, tinha de surrupiar caquis e batatas das plantações de vizinhos e, sempre que cruzava com um comboio do Exército americano que patrulhava o local, reunia os amigos para puxarem a farda dos soldados e pedir esmolas.

Em 6 de setembro de 1953, um navio saiu do Japão para desembarcar no Brasil 600 japoneses com 18 a 20 anos, todos solteiros. Sogabe era um deles. Como a Segunda Guerra reduzira a praticamente zero a chance de conseguir emprego no Japão, o governo brasileiro autorizou a entrada dos imigrantes. Getúlio Vargas impôs uma única restrição: teriam de trabalhar na lavoura por um período mínimo de quatro anos. Em 1995, Sogabe voltou ao Japão. Desta vez a bordo de um avião, chegou ao país para negociar com empreiteiras a contratação de brasileiros descendentes de japoneses – caminho oposto ao que fizera na década de 50. Arranjou um apartamento no primeiro andar de um prédio em Kobe. E foi ali que conheceu cada detalhe do horror que, hoje, assola mais uma vez a terra natal.

Sendai, 11 de março de 2011

19/03/2011

às 19:13 \ Direto ao Ponto

O Brasil está fora da zona dos terremotos, mas permanece na rota dos mercadantes

Abalado pela segunda surra eleitoral consecutiva, o companheiro Aloízio Mercadante ganhou do Planalto o antidepressivo prescrito para flagelados das urnas: uma vaga no primeiro escalão. Formado em economia, ele sonha com o Ministério da Fazenda desde que se tornou conhecido no berçário por não cumprimentar os bebês vizinhos. Como o desemprego torna menos exigentes até os mercadantes, o candidato derrotado ao governo paulista aceitou o Ministério da Ciência e Tecnologia com a animação de quem foi convidado para a presidência do Banco Central.

Essa estranha mistura de sabujice e arrogância precisou de dois ou três dias no emprego novo para virar especialista em coisas que ignora profundamente. Bastou-lhe uma ligeira mirada na Região Serrana devastada pelas tempestades, por exemplo, para avisar que isso não se repetirá. Dias depois, debitou na conta do aquecimento global o incêndio que destruiu os barracões de três escolas de samba do Rio. Nesta semana, um terremoto e um tsunami no Japão precipitaram o aparecimento da versão-2011 de Aloízio Mercadante: o doutor em acidentes naturais e questões nucleares.

A novidade estreou nesta terça-feira, numa entrevista coletiva em Brasília.  “No Brasil não tem os terremotos, tsunamis ou maremotos que têm no Japão”, começou a procissão de platitudes em mau português. “O Brasil não tem fronteira de placa tectônica. Tem chuvas, inundações e desmoronamentos, como já aconteceram em Angra dos Reis”. Seguiram-se tranquilizadoras comparações que, somadas, exibem a superioridade do colosso tropical sobre o Japão.

“O programa nuclear brasileiro tem uma linha de defesa mais rigorosa”, ensinou o ministro que até agora só foi visto em Angra dos Reis de calção, boné e sandálias havaianas. “São dois modelos de reatores distintos. O nosso reator é um pouco mais moderno. As paredes são mais robustas do que as do reator japonês e a nossa usina é capaz de aguentar tsunamis de até sete metros de altura e eventuais terremotos de 6,5 graus na escala Richter”.

A discurseira só reforçou a suspeita de que, na cabeça do ministro da Ciência e Tecnologia, fusível é um fuzil redigido por Emir Sader. Mas já na quinta-feira retomou-a, sem correções de rumo, num encontro de produtores de álcool e açúcar no Rio de Janeiro. “Vamos aguardar os desdobramentos no Japão, mas uma coisa é certa: vamos adotar todos os protocolos internacionais, que provavelmente ficarão muito mais rigorosos”, preveniu. Os ouvintes ainda tentavam adivinhar que protocolos são esses quando o orador tratou de ampliar o enigma.

“Estamos diante de um paradigma”, alertou com cara de primeiro da classe e sublinhando com as sobrancelhas arqueadas  gravidade do aviso: “Há um risco que é dramático. Mas o Brasil vai discutir e acompanhar protocolos internacionais”. Antes que a turma dos canaviais saísse em disparada, à procura de abrigos subterrâneos e clínicas especializadas no tratamento dos efeitos da radioatividade, Mercadante transmitiu a grande notícia: o Brasil não tem motivos para preocupar-se.  “A presidente foi ministra de Minas e Energia”, lembrou. “Tem toda a competência técnica para tomar as decisões”.

Se alguma tragédia natural colocar em perigo as usinas de Angra, portanto, o país que está fora da zona dos terremotos mas permanece na rota dos mercadantes agora sabe que pode seguir dormindo em paz. O Japão precisou pedir ajuda ao resto do mundo. O Brasil Maravilha só precisará chamar Dilma Rousseff.

18/03/2011

às 7:08 \ Sanatório Geral

Neurônio em erupção

“Primeiro, acho que ficamos todos muito impactados. A comunicação global em tempo real cria em nós uma sensação como se o terremoto seguido do tsunami estivessem na porta de nossas casas. Nunca vi ondas daquele tamanho, o barco girando no redemoinho, a quantidade de carros que pareciam de brinquedo! Inexoravelmente, a comunicação faz com que você se coloque no lugar das pessoas! Essa é a primeira reação humana”.

Dilma Rousseff, em entrevista ao jornal Valor Econômico, reforçando a suspeita de que, quando o Japão é assolado por um terremoto e um tsunami, o neurônio solitário entra em erupção.

15/03/2011

às 16:03 \ Sanatório Geral

Brasil Maravilha

“Não temos nenhuma necessidade de revisão em nada a não ser aprender com o que ocorreu no Japão. As dificuldades que as usinas de lá tiveram as nossas não terão. As nossas têm uma proteção maior. Nós não temos razão nenhuma para preocupação maior. Vamos prosseguir com o nosso programa”.

Edison Lobão, vulgo Magro Velho, fantasiado de ministro de Minas e Energia, sobre as explosões ocorridas em usinas nucleares japonesas afetadas por terremotos e um tsunami, explicando que o Brasil Maravilha do cartório está muito mais preparado que o país mais desenvolvido do mundo em matéria de prevenção de desastres naturais.

12/03/2011

às 21:00 \ Frases

Natureza assustadora

“Achei que o chão ia se abrir e nos engolir”.

Indianara Akiyama, brasileira residente na cidade de Oizumi, contando o pavor que sentiu na hora do terremoto que atingiu o Japão.

12/01/2011

às 13:32 \ O País quer Saber

Um ano depois, as famílias dos 18 militares mortos no Haiti recebem as indenizações

Bruno Abbud

Há exatamente um ano, às 16h53 (19h53 no horário de Brasília) da terça feira 12 de janeiro de 2010, uma movimentação de placas tectônicas dez quilômetros abaixo da superfície e 20 quilômetros distante de Porto Príncipe, capital do Haiti, desencadeava um terremoto que devastou o país caribenho. Há exatamente um ano, 18 militares brasileiros que participavam da Minustah (Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti) ─ e outras 200 mil pessoas ─ morriam soterrados. Em 25 de janeiro de 2010, Lula prometeu R$ 500 mil, mais R$ 510 mensais para os filhos em idade escolar, às famílias dos militares mortos na catástrofe. O dinheiro demorou 11 meses e seis dias para começar a ser liberado.

A Coluna entrou na briga um mês antes. Em 1º de dezembro, a primeira reportagem da série mostrou a contradição entre os discursos de Lula e o real abandono das famílias dos heróis mortos. Dois dias depois, foi revelado o drama de Heloísa Camargos, viúva do subtenente (promovido a tenente depois de morto) Raniel Camargos, e de Ana Neckel, mãe do cabo Douglas Neckel. Também em 3 de dezembro, Cely Zanin, viúva do coronel João Elizeu Souza Zanin, contou o que sentiu depois de ler os relatos. Na semana seguinte, a quarta e última reportagem informou que os parlamentares da oposição ignoravam que as indenizações continuavam no papel e descreveu as reações tímidas de alguns deputados e senadores.

O anúncio das indenizações havia sido feito nove dias depois do terremoto, quando a Presidência da República enviou ao Congresso um projeto de lei determinando os pagamentos. Cinco meses depois, a promessa virou lei. Em agosto, no entanto, descobriu-se que não havia dinheiro para quitá-la. Lula enviou ao Congresso outro projeto de lei, desta vez pedindo uma abertura de crédito especial de R$ 10.119.340,00 em favor do Ministério da Defesa, responsável por pagar as indenizações. Só em 30 de dezembro de 2010 o projeto se transformou na lei 12.361/10, a quantia foi liberada e a promessa começou a ser cumprida.

Cely Zanin recebeu o dinheiro em 3 de janeiro. Contudo, ainda não sabe quando os dois filhos, de 17 e 18 anos, terão acesso à bolsa educação. Neste 12 de janeiro, o governo federal organizou uma homenagem aos 18 militares mortos há um ano. A solenidade acontecerá no Teatro Pedro Calmon, no Setor Militar Urbano, em Brasília. Nenhum familiar foi convidado.

No aniversário do terremoto, a Coluna publica o depoimento enviado pela viúva Heloísa Camargos em 17 de dezembro e comemora a promessa cumprida – mesmo com um ano de atraso.

Perdi meu esposo, o tenente Raniel Camargos, no horrível e trágico terremoto do Haiti, no dia 12 de janeiro de 2010. Era justamente o dia do aniversário de nossa filhinha, Giovanna. Meu marido organizava documentos para repassar a sua função a outro militar, que o substituiria na semana seguinte ao terremoto. Também acompanhava, da sala de trabalho dele no Haiti e por meio da internet, o aniversário de nossa filha. Foi quando a conexão caiu.

Eu não tinha a menor idéia do que estava acontecendo. Nunca imaginaríamos que, naquele momento, acontecia o terremoto. Nunca me passou pela cabeça que naquele instante ele estava morrendo. Sim, morrendo, pois permaneceu vivo por três horas depois de ser atingido pelo desabamento do quartel, dando forças aos colegas que tentavam salvá-lo. Ele pedia insistentemente que não o deixassem morrer. Dizia que os militares que trabalhavam no salvamento iriam conseguir resgatá-lo. Ele pedia para não morrer porque queria muito ver a gente, eu, a Giovanna e o Luís Gustavo, nosso outro filhinho. Infelizmente, não tiveram como socorrê-lo.

Foram dois andares em cima dele, a hemorragia interna e o poli-traumatismo ganharam a batalha pela vida do meu esposo, que não resistiu e morreu. Imagino agora todo o sofrimento pelo qual o meu esposo passou. Um homem e um marido maravilhoso, que gostava de ajudar outras pessoas, e por isso quis ir ao Haiti, de um caráter extraordinário,um pai exemplar e um profissional militar extremamente dedicado à carreira e à defesa da sua Pátria.

Meus dois filhinhos, a Giovanna e o Luís Gustavo, perguntam todos os dias pelo “papai” (“por que o papai ainda não voltou do Haiti, mamãe?”). Com o coração dilacerado, digo que o papai não voltará, que ele agora fez uma outra viagem, desta vez para ficar junto ao “Papai do Céu”. E quando a gente sentir saudades, devemos lembrar de tudo de bom que vivemos ao lado dele. As crianças não entendem muito bem, elas só têm 6 e 3 anos. Os 6 anos da Giovanna foram completados exatamente no dia da tragédia. Infelizmente.

Com tudo isso que nos aconteceu, com a tragédia maior que foi perder para sempre alguém muito especial em nossas vidas, ainda tivemos que passar por situações constrangedoras. O seguro de vida que nos pagaram, como se nossos maridos tivessem sofrido morte natural, ignora completamente o artigo 799 do Código Civil. A lei que nos concede auxílio financeiro e uma bolsa educação para nossos filhos ainda não foi cumprida. O governo federal prometeu essa indenização e, até agora, não cumpriu com a promessa.

Já falamos por diversas vezes (eu e as outras viúvas e mães) que nada e nem todo o dinheiro do mundo vão trazer nossos maridos e filhos de volta, mas só de saber que poderemos dar uma educação de qualidade e um futuro mais digno para os nossos filhos e familiares, isso nos conforta um pouco mais ─ apesar da dor e da saudade que sentimos. É muito importante para nós saber que podemos contar com a solidariedade humana, saber que ainda existem pessoas que praticam a empatia, que conhecem a nossa dor ou podem sentir a nossa dor.

Que Deus nos abençoe. Apesar de tudo que estamos vivendo (eu e as outras viúvas), eu acredito sim que podemos viver num mundo melhor, mais justo e mais digno. Só depende de nós e de nossas atitudes.

Beijos a todos.

Heloísa Chagas Maia de Camargos, viúva do tenente Raniel Camargos, um dos 18 militares mortos no Haiti.

03/12/2010

às 0:56 \ Direto ao Ponto

A dor não passa e a ajuda não chega

Na seção O País quer Saber, o repórter Bruno Abbud conta como tem sido a vida de duas brasileiras que integram o pequeno grupo de parentes dos 18 militares brasileiros mortos no terremoto no Haiti. Heloísa Camargos perdeu o marido, Ana Neckel perdeu um filho. Passados 11 meses, ambas continuam esperando que o governo cumpra o que prometeu. A dor não vai passar, mas a sobrevivência financeira ficará menos penosa.

Confiram o relato, amigos. Em seguida, leiam os três comentários enviados há alguns minutos por Cely Zanin, viúva de outro herói do Haiti, o coronel João Elizeu Souza Zanin. Essa briga é nossa. Voltarei ao tema no próximo post.

01/12/2010

às 19:05 \ Direto ao Ponto

O governo que festeja os soldados da hora humilha com o calote as famílias dos 18 heróis brasileiros mortos no Haiti

Pela segunda vez em 2010, o Café com o Presidente deste 29 de novembro foi dedicado a integrantes das Forças Armadas. Com a animação de passista de Carnaval antigo, Lula festejou a bem sucedida operação policial-militar no Morro do Alemão. Depois de avisar que faz questão de cumprimentar os vitoriosos na frente de batalha, que visitará em breve, o chefe de governo garantiu que haverá verba de sobra para as etapas seguintes do esforço de guerra.

Dinheiro para todos e palavrórios patrióticos — esses dois ingredientes também foram usados para tornar menos amargo o Café de 25 de janeiro, que tratou da morte no terremoto no Haiti de três civis e, sobretudo, dos 18 soldados que lutavam para impedir a consumação da agonia da nação caribenha. A apresentadora Anelise Borges quis saber como se sentia o homem que estivera no cenário da tragédia e presidira o sepultamento das vítimas brasileiras. Sem pausas, a voz roufenha que desde 2003 tem algo a dizer todos os dias caprichou no tom de quem conta como é enviuvar na lua-de-mel e foi em frente:

“Olha, Anelise, realmente é muito difícil a gente deixar de se emocionar ao falar das pessoas que morreram no Haiti. (…) Eu te confesso que poucas vezes eu fiquei emocionado como eu fiquei no velório daqueles soldados, porque eram pessoas que estavam no Haiti para prestar solidariedade, pessoas que estavam dedicando a sua vida para tentar ajudar as pessoas mais pobres, as pessoas que estavam mais deserdadas no Haiti. Por isso é que eu fiquei emocionado, porque muitos daqueles jovens estavam para voltar dentro de dois ou três dias quando aconteceu o terremoto e eles morreram”.

Um drama desse calibre, ressaltou, exigia mais que o coração dilacerado e a mão solidária do presidente da República. As famílias fulminadas pela perda mereciam também reparações materiais e o permanente amparo da União. Lula contou que, no dia 21, havia remetido à Câmara dos Deputados um projeto de lei que definia os benefícios que contemplariam os parentes dos 18 militares. Tudo somado, a conta ficaria pouco acima de R$ 10 milhões. Para quem naquele mesmo dia 21 perdoara R$ 316 milhões devidos por Moçambique, o auxílio aos mortos do Haiti era dinheiro de troco.

“Você sabe que além da solidariedade, nós estamos mandando ao Congresso Nacional um projeto de lei garantindo a cada família R$ 500 mil de indenização e uma bolsa-educação de R$ 510 para cada dependente até 24 anos”, continuou Lula. A indenização seria entregue às viúvas ou, no caso dos solteiros, à mãe. “É o mínimo que a gente pode fazer para ajudar a família dessas pessoas que estavam e estão desesperadas, e pessoas que estavam lá defendendo e honrando a bandeira nacional”.

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, entrou em ação para ordenar que tudo se fizesse em ritmo de Fórmula 1. “O dinheiro nunca vai compensar a ausência do pai ou do companheiro, mas supre em parte o papel do provedor, especialmente no apoio à educação dos filhos”, recitou também com cara de luto. Em 3 de fevereiro, o projeto foi aprovado pela Câmara e encaminhado ao Senado. O ano escolar estava prestes a começar, era preciso liberar com urgência a bolsa de estudos. Mas ninguém viu a cor do dinheiro.

SENTIMENTO DA VERGONHA
Jobim só retomou o assunto em 16 de agosto para esclarecer num comunicado que o pagamento só poderia ser autorizado depois que o Congresso aprovasse “um pedido de abertura de Crédito Especial de R$ 10.119.340,00 ao Ministério da Defesa”. Não explicou por que não pensara nisso em janeiro. O começo da campanha eleitoral adiou para depois de novembro miudezas encalhadas na pauta do Legislativo. Só em 24 de novembro o pedido para a abertura do crédito entrou na lista de votação do Senado. Faltou quórum. Ninguém sabe dizer quando será votado.

“Foi noticiado até na imprensa internacional, mas até hoje não recebemos nada”, lamenta Cely Zanin, 43 anos, mãe de dois filhos — um de 17, outro de 18. Viúva do coronel João Elizeu Souza Zanin, morto no desabamento do quartel-general da ONU. Cely imaginava que ao menos a ajuda de custo para os dois estudantes chegasse a tempo. “O ano está acabando”, sussurra a professora e bancária que faz o possível para continuar acreditando nas promessas. Nenhuma das famílias recebeu nada. Nenhuma conseguiu ser recebida pelo presidente da República.

A explicação para o calote afrontoso talvez esteja, paradoxalmente, no número de parentes das vítimas. São tão poucos que, caso morassem numa mesma cidade de pequeno porte, seus votos, somados, seriam insuficientes para eleger um candidato a vereador. Lula também sabe que não ouvirá cobranças da oposição, muito menos dos brasileiros comuns. No País do Carnaval, um herói deixa de sê-lo quando a imprensa muda de assunto. Os soldados da vez estão no Morro do Alemão. É lá que deve estar a cabeça de um caçador de assuntos politicamente rentáveis.

Para um governo desprovido do sentimento da vergonha, a hora dos 18 bravos lutadores tombados no Haiti já passou. Os parentes podem esperar. É o Brasil.


 

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