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Tegucigalpa

26/09/2009

às 19:02 \ Direto ao Ponto

O mistério da máscara assombra o casarão ainda sem nome

Lula ainda está tentando aprender como se diz Pittsburgh em inglês. Celso Amorim convalesce do chilique na ONU com o pijama expropriado da Varig. Marco Aurélio Garcia espera ao lado de telefone a próxima ordem de Hugo Chávez. A trinca de estrategistas envolvidos na Operação Honduras foi momentaneamente desativada. Se é assim, cumpre à mais criativa equipe de comentaristas da internet tratar de duas urgências vinculadas ao casarão em Tegucigalpa que hospeda a tropa do presidente sem país a presidir.

A primeira é providenciar a certidão de batismo da criatura nascida do cruzamento de Hugo Chávez com mucamas da vizinhança. Como se deve chamar a coisa surgida no lugar onde funcionava a embaixada do Brasil? O nome provisório é Pensão Zelaya. Fica por conta de vocês a escolha do definitivo. A segunda urgência é devendar o mistério que assombra o casarão: por que os acampados deram de usar máscaras cirúrgicas o tempo todo?

O gerente diz que, sem o adereço,  a nação já estaria chorando a partida do herói popular e seus 50 voluntários da pátria, todos massacrados pela mistura de gás lacrimogêneo hondurenho e raios mortais disparados por agentes de Israel. Como nem Lula acredita nessa, é preciso descobrir o que está acontecendo. Medo da gripe suína? A falta de banho tornou o ambiente irrespirável? Alguém encontrou na despensa um carregamento de lança-perfume e resolveu antecipar o carnaval? Ou só cobriram parte do rosto para assaltar a pizzaria da esquina?

Vocês decidem.

24/09/2009

às 19:34 \ Direto ao Ponto

Um batalhão de mulatas resolve

Manuel Zelaya jura que, se o golpe tramado pela Irmandade Bolivariana der certo, não vai querer acrescentar ao prazo de validade os dois meses de férias compulsórias. Voltará para casa em janeiro, quando termina o mandato interrompido, depois de entregar o cargo ─ sem queixumes nem cara feia ─ ao sucessor escolhido nas urnas.

Zelaya também jura que, caso reassuma a chefia do governo, as eleições de novembro serão realizadas na data prevista. Juram enfim, que parou de pensar em plebiscito, desistiu de mexer em cláusulas pétreas da Constituição e sonha com uma anistia que restabeleça a paz entre todos os envolvidos na confusão. Até insinua que, no fundo, tem certa simpatia por Roberto Micheletti.

A soma de juras permite concluir que Lula se enfiou numa tremenda enrascada diplomática, nomeou-se síndico de Honduras e promoveu o governo interino a inimigo n° 1 da Humanidade porque o amigo queria passar o Natal e o Ano Novo no palácio em Tegucigalpa. Teria sido bem mais simples e mais barato acomodá-lo na suíte presidencial do Copacabana Palace, esticar a temporada até o Carnaval e animar as noites do nostálgico da pátria com a bateria da Mangueira. Pelo que anda dizendo, Zelaya não precisa de exércitos. Um batalhão de mulatas resolve.

23/09/2009

às 20:28 \ Sanatório Geral

Tremenda viagem

“O presidente voltou no porta-malas de um carro e passou por 20 postos de controle para chegar a Tegucigalpa. Foi uma operação bem planejada. Zelaya enganou os golpistas no porta-malas e em um trator”.

Hugo Chávez, em depoimento ao jornal venezuelano El Nacional, omitindo por motivos táticos e estratégicos os trechos em que Zelaya enganou o inimigo tripulando triciclos, patinetes, jet-skis, corvetas, jangadas, bondes, skates, motos, patins e aviões venezuelanos.

23/09/2009

às 18:03 \ Direto ao Ponto

A versão circense de Stalingrado

HONDURAS-BRAZIL-COUP-ZELAYA-RETURN

“Honduras sitia Zelaya em missão do Brasil”, entrou em combate o editor de Mundo da Folha no alto da página grávida de patriotismo beligerante. Ao lado de bravos funcionários do Itamaraty, à frente de quase 300 hondurenhos dispostos a dar a vida pelo chefe, o presidente Manuel Zelaya resistia aos agressores no interior do prédio sem luz, sem água e sem telefone. Do outro lado do muro, multidões desarmadas lutavam contra tropas a serviço do regime ilegal.

O Planalto, continuava o resumo da terça-feira medonha, exigia que o Conselho de Segurança da ONU interviesse de imediato na zona conflagrada ─ antes se consumasse o massacre iminente. O presidente interino Roberto Micheletti prometia não invadir o território brasileiro, mas como confiar em assassinos das liberdades democráticas? A embaixada em Tegucigalpa, comunica ao planeta a página 12 da edição desta quarta-feira, é a reprodução em miniatura do cerco de Stalingrado. É o episódio heróico em sua versão circense, corrige o noticiário da página 13.

Entre setembro de 1942 e janeiro de 1943, dezenas de milhares de soldados e civis fizeram a travessia do inferno na cidade russa engolfada pelo exército nazista. Além do bombardeio feroz e impenitente, além das ofensivas selvagens, resistiram à fome, ao frio, ao desespero e à impossibilidade do socorro. Conheceram provações inverossímeis durante os 150 dias de cerco. Mas Stalingrado sobreviveu até a chegada das tropas comandadas por Georgi Zhukov.

Na montagem cucaracha, o chefe da resistência é um paisano que usa chapéu e botas de fazendeiro urbano, cultiva com capricho o bigode de cafetão portenho, tem voz de apresentador de circo e mente como cigano de García Márquez.  ”Fiz uma viagem de 15 horas pelas montanhas, marchando e caminhando”, garantiu o marechal Zelaya ao pousar na frente de combate, sem esclarecer se pediu licença à tripulação do avião venezuelano para ficar zanzando no corredor durante o voo.

O ministro-conselheiro Francisco Catunda Resende, único diplomata brasileiro em Honduras, acumula agora as funções de subchefe do alto comando. Pelo celular, esse cearense de 61 anos revelou à jornalista Eliane Cantanhêde os piores momentos do drama. Num deles, “ao abrir a porta para uma mulher que gritava desesperadamente por socorro”, Catunda foi alvejado por uma lufada de gás lacrimogêneo. “Passei horas com os olhos vermelhos e ardendo”, contou.

Na batalha seguinte, rechaçou com um giro de maçaneta e um golpe de fechadura a ofensiva conjunta de um promotor e um oficial de Justiça, que atacaram a porta com batidas de mão.  ”Provavelmente, era uma ordem de captura, e eu não ia receber documento de um governo que o Brasil não reconhece”, explicou, com a mesma altivez demonstrada na guerra contra a fome:  ”A única comida em 24 horas se resumia a pizzas contrabandeadas por uma vizinha e ao resto de leite e biscoito de 12 hondurenhos que chegaram com Zelaya. Ainda há gente comendo resto de pizza fria da véspera”.

Catunda enfrenta o cerco em companhia dos três funcionários da embaixada que conseguiu recrutar: o assistente de chancelaria, o motorista e o mecânico que cuida do gerador de luz. No momento do relato, os quatro aguardavam, unidos na adversidade, a chegada de um lote de quentinhas prometido pela representação da ONU. Se depender dos perigosos inimigos, a vida dura na embaixada vai ultrapassar com folga os 150 dias do cerco de Stalingrado. ”O Brasil só precisa conceder oficialmente a Zelaya o status de asilado”, condiciona o presidente Micheletti. ”Se quiser, ele pode viver por lá cinco anos. Ou dez”.

“O ex-chanceler de Zelaya já fala em mortos”, noticiou o editor combatente na página 12. Até agora, sabe-se da morte de um hondurenho. O plural sugere que foram incluídos os milhões de espectadores que estão morrendo de rir e os incontáveis brasileiros mortos de vergonha.

22/09/2009

às 23:19 \ Sanatório Geral

Jânio perdeu essa

“Cinco mil pessoas eu junto só batendo lata no Viaduto do Chá”.

Jânio Quadros, que estaria repetindo a frase se soubesse que, no dia da volta a Tegucigalpa de Manuel Zelaya, a manifestação de boas-vindas ao golpista trapalhão não reuniu mais que mil hondurenhos, incluídos menores de idade, curiosos e transeuntes.

22/09/2009

às 19:01 \ Direto ao Ponto

O comando da Tríplice Aliança acabou na Ópera dos Malandros

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Terminada a montagem do plano destinado a infiltrar o companheiro Manuel Zelaya em Tegucigalpa e, na etapa seguinte, devolvê-lo ao gabinete presidencial, o comando da Tríplice Aliança combinou o que faria cada um dos envolvidos na Operação Honduras. A mesada do estadista desempregado, as despesas da família, os gastos com a comitiva e o transporte aéreo teriam o patrocínio da Venezuela. O apoio logístico para a viagem entre a fronteira e a capital seria garantido pela vizinha Nicaragua. Casa, comida e roupa lavada ficariam por conta do Brasil.

Distribuídos os encargos, os generais Hugo Chávez, Daniel Ortega e Lula decidiram o que ocorreria depois da instalação de Zelaya no prédio onde funcionou a embaixada brasileira. Multidões de patriotas exigiriam nas ruas a rendição incondicional dos golpistas e a restituição das chaves do palácio ao líder popular. Todas as nações do planeta celebrariam a bravura do país do futebol.

O presidente americano Barack Obama continuaria fazendo de conta que não sabe o que se passa na América cucaracha. Acuados, os usurpadores primeiro tentariam destruir a embaixada. Minutos mais tarde, rechaçados por batalhões de voluntários da pátria, estariam cruzando o Caribe a nado na direção de Miami. E Zelaya festejaria a segunda posse acenando o chapéu branco ao lado da trinca de estrategistas.

Faltou combinar com os hondurenhos. Os combatentes que se animaram a sair de casa produziram manifestações parecidas com procissão de cidade interiorana em dia útil. Os parceiros de sempre acharam que o Brasil fez bonito, mas se limitaram a pedir aos responsáveis pela deposição de Zelaya que voltassem para casa. Não foram atendidos. Em vez de atacar a embaixada, o presidente interino, Roberto Micheletti, mandou cortar por algumas horas a luz, a água e o telefone.

Só então o chanceler Celso Amorim lembrou que o Brasil decidiu faz mais de 50 dias não reconhecer o novo governo ─ e é complicado conversar com quem não existe. Se há queixas a fazer, portanto, devem ser encaminhadas ao quarto onde o presidente de verdade dorme durante a noite ou ao sofá onde cochila durante o dia (ao lado de uma bandeira do Estado do Rio). Ou ao bispo de Tegucigalpa. Ou ao Conselho de Segurança da ONU, como preferiu Amorim.

Enquanto o Itamaraty procura a saída do beco em que se meteu voluntariamente, é provável que o hóspede já tenha começado a reclamar do serviço da estalagem. Não lhe parece à altura da afamada hospitalidade brasileira. Ao contrário de Amorim e Lula, Zelaya sabe que há mais de 50 dias não preside coisa alguma. Mas decerto acha que qualquer ex-presidente merece algum conforto. Se os cortes forem reprisados, pode acabar convencido de que a cadeia é mais aconchegante.

O comando da Triplíce Aliança planejou o que deveria ter sido uma irretocável operação político-militar. Por enquanto, só compôs a ária mais bisonha da Ópera dos Malandros.


 

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