18/06/2013
às 16:50 \ Feira Livre‘O centro do debate’, um artigo de Marco Antonio Villa
PUBLICADO NO GLOBO DESTA TERÇA-FEIRA
MARCO ANTONIO VILLA
As manifestações ocorridas em São Paulo nas últimas duas semanas permitem algumas reflexões. Que o transporte coletivo é ruim e caro, para os padrões do serviço oferecido, ninguém discorda. Mas não é esta a questão que está no centro do debate. O que se discute é como combinar a defesa do Estado Democrático de Direito, a liberdade de manifestação e o direito de ir e vir. O que está ocorrendo em São Paulo não tem qualquer relação com as manifestações de Brasília ou do Rio de Janeiro. Nestas cidades, o centro das reivindicações são os gastos abusivos da Copa do Mundo e o abandono daquilo que afeta o cotidiano da população: a saúde, educação, etc. É como em 1968: enquanto no Rio a passeata dos 100 mil defendia a democracia, em São Paulo, no mesmo dia, teve o atentado terrorista contra o II Exército.
Na busca de paralelos onde eles não existem, já foi possível ler e ouvir relações entre as manifestações de São Paulo com o que aconteceu nos países árabes, na Turquia, ou até com 1968. Os mais exaltados apontaram que nada mais é que o mal estar da civilização com a globalização e que o capitalismo vive uma crise terminal (como profetizado desde o século XIX…). Os jovens seriam emissários desta nova ordem pós (sempre tem de ter um “pós”) globalização, uma continuidade do falecido movimento Ocuppy Wall Street. Lembram-se que, em 2011, diziam que o movimento iria se espalhar pelo mundo inteiro? O que aconteceu semanas depois? Nada. A tentativa de relacionar com momentos da nossa história onde inexistiam – como agora – um regime de amplas liberdades, é patética. Neste ritmo, logo veremos algum estudante de 68 gritando – quarenta e cinco anos depois, já idoso – pelas ruas de São Paulo: “a luta continua.” Qual luta?
A organização efetiva dos atos não é de um movimento autônomo, apartidário, de jovens insatisfeitos com a política e desejosos de encontrar alguma forma de participação. Nada disso. Quem efetivamente dá as ordens são pequenos grupos ultra-esquerdistas. E o fazem para dar alguma satisfação aos seus exíguos militantes. Estão há anos discutindo e escrevendo sobre a crise do capitalismo. Falam e não encontram adesão na sociedade. Continuaram só falando. E foram perdendo o ralo apoio que tinham. Sem crise econômica e um desemprego monstruoso, como em vários países europeus, restou a estes grupos encontrar algum móvel de luta, para que não desaparecessem. O aumento das passagens de ônibus – abaixo da inflação, registre-se – caiu do céu. Foi o meio que as lideranças obtiveram para obter a legitimação das bases cansadas de ouvir discursos revolucionários sem uma efetiva ação.
O ataque aos bens públicos e privados, a tentativa de linchamento de um policial militar na Praça da Sé, atos que não tem qualquer relação com o aumento das passagens, são vistos como ação revolucionária, de resistência ao capitalismo e ao seu poder opressor, a polícia. O vandalismo é o alimento destes grupelhos que agem de forma violenta, desprezando os valores democráticos e os direitos constitucionais. Sonham com um Brasil nos moldes de Cuba, Coreia do Norte. Não entendem que a liberdade de manifestação não se sobrepõem ao direito de ir e vir. E este é o desafio da democracia: garantir ambos os direitos. E agir com energia – dentro dos limites legais – quando qualquer um deles estiver sendo violado.
Nestes momentos de tensão – inerentes ao regime democrático – é que são testadas as autoridades. O governador de São Paulo não se omitiu. Presumo que saiba que tem um custo político a defesa da lei e da ordem democráticas em um país que valoriza e estimula tudo o que é ilegal. Temos uma propensão à marginalidade. No caso das manifestações há os que justificam o vandalismo como uma forma de protesto, de insatisfação, de jovens que são incompreendidos pelo que chamam de sistema. E a ação do Estado Democrático de Direito é demonizada. Como é possível conter a destruição de ônibus, lojas, bancas de jornais, bares, liberar ruas e avenidas, sem o uso da força? E os abusos cometidos pela ação policial deverão ser investigados e devidamente punidos.
É evidente a tentativa do governo federal de obter algum dividendo político das manifestações. As declarações dos ministros José Eduardo Cardozo e Ideli Salvatti visam desgastar politicamente o governador Geraldo Alckmin. Os mandriões atacaram quem simplesmente fez cumprir a Constituição. A pergunta é: quem vai ganhar, politicamente falando? Ou será que todos – os partidos constituídos – vão perder?
Não faltam praças para mostrar indignação contra tudo e todos. Por que não aproveitam e pedem a prisão dos mensaleiros, a começar pelo sentenciado José Dirceu? Mas não é esse o objetivo dos manifestantes em São Paulo, volto a dizer, diferentemente do Rio ou Brasília. Grande parte dos manifestantes – especialmente a liderança que se pronuncia pela imprensa – são da classe média. Da classe média mesmo, não daquela inventada pelo petismo, a tal “classe c.” Nas imagens não encontrei trabalhadores, pobres, negros. Não vi também, protegendo os próprios municipais, a Guarda Civil Metropolitana. Foram omissos, como o prefeito Fernando Haddad – e o aumento das passagens de ônibus é da esfera da prefeitura. E a Câmara Municipal? Mutismo total. Os 55 vereadores servem para que? Pode ser que a luz contra o marasmo venha do Rio ou de Brasília.
Tags: 1968, crise do capitalismo, educação, Geraldo Alckmin, Ideli Salvatti, José Eduardo Cardozo, manifestações, Marco Antonio Villa, O Globo, Ocuppy Wall Street, São Paulo, Saúde











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