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popularidade

27/04/2011

às 19:59 \ Feira Livre

“O que interessa é carne no prato e farinha na cuia”, de José Nêumanne

TEXTO PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA TERÇA-FEIRA

José Nêumanne

O ovo de Colombo do marketing político mundial foi posto de pé pelo americano James Carville. Responsável pela campanha de Bill Clinton à presidência dos Estados Unidos, ele fez o candidato movimentar os lábios sem pronunciar a frase que atravessaria o planeta como um mantra: “É a economia, estúpido!” No caso de nações ricas, como a dele, a leitura labial da palavra economia lembra pleno emprego, tecnologia de ponta, alta produtividade, etc. Mas no de países emergentes, como o nosso, poucos desses fatores têm a importância de um só – a inflação. A perda do valor de compra da moeda, que significa menos proteína (e, com o passar do tempo, menos comida em geral) na mesa do trabalhador, e o retardamento da girândola faz-vende-compra que Fernando Henrique pôs para rodar e seu sucessor, Luiz Inácio Lula da Silva, usou com sabedoria para evitar que o tsunami da crise imobiliária americana chegasse a nossas praias tropicais, tornando-o “marolas”, devem ser evitados a todo custo.

O ex-presidente tucano promoveu a maior revolução social de nossa História recente com a solução genial do Plano Real para acabar com a deterioração do salário do operário. Ao envergar a faixa que era do antigo aliado transformado em adversário preferencial, o petista mostrou ter aprendido a lição ao traduzir para o “popularês” as fórmulas sofisticadas dos economistas que elaboraram a receita mágica da preservação do valor do dinheiro em seus inacessíveis idioletos acadêmicos. O sucesso da economia no mandarinato petê-lulista muito se deveu à profusão de fatores positivos nos oito anos de sua duração, dos quais se costumam destacar a conjuntura internacional muito favorável e o magnífico desempenho da agroindústria nacional. Nada disso, contudo, produziria o efeito espetacular que se traduziu em crescimento acima do esperado e prestígio político inusitado para o chefe do governo se este não tivesse dado demonstrações firmes e perseverantes de sensatez ao não deixar a herança do antecessor se dissolver na balela desenvolvimentista de muitos de seus interlocutores. Como Fernando Henrique manteve Pedro Malan, Lula nunca permitiu que fosse perturbada a rigidez dos preceitos liberais clássicos que conduziram sua política econômica sob a batuta de Henrique Meirelles.

Muita gente boa (inclusive o autor destas linhas) tem manifestado encantado júbilo com as diferenças de estilo entre a presidente Dilma Rousseff e o patrono que a inventou, lançou e elegeu. Como Lula falava pelos cotovelos, a boca fechada de Dilma faz soar uma melodia que nem sequer João Gilberto seria capaz de entoar melhor. O primado dos direitos humanos na política externa e a postura serena e digna no convívio com visitantes estrangeiros e visitados no exterior também a têm favorecido nessa comparação. Mas é provável que Dilma Rousseff – logo ela, a “gerentona” impecável, a cobradora implacável – desafine justamente na nota só do samba que sustenta a escala da economia. É isso mesmo: a inflação. Guido Mantega, um zero à esquerda no governo anterior, parece, de repente, ter sido deslocado para a direita; Alexandre Tombini dista anos-luz de seu antigo chefe; e o desfile parece descambar na desarmonia total.

O Tyrannosaurus rex da inflação dá sinais de que pode estar despertando do sono letárgico produzido pelas doses de realismo monetário injetadas entre suas escamas por Malan e Meirelles. Há uma certa tendência no Ministério da Fazenda e até mesmo no novo Banco Central a desdenhar do risco do despertar do monstro, com aquela conversinha para boi dormir da inflação importada, produzida apenas pelos fatores sazonais das safras agrícolas com consequências na produção de alimentos. Por mais que o boi durma, o dinossauro inflacionário zomba desse tipo de soporífero e já afia suas garras. O diagnóstico da autoridade monetária é parcial, como insiste em mostrar a coleguinha Miriam Leitão. “A economia vai bem, a inflação assusta e a política monetária parece ter produzido pouco resultado até agora”, resumiu magistralmente o companheiro Rolf Kuntz.

De Lula podia-se dizer que não fazia, só falava. Isso não significa necessariamente que, só por não falar, Dilma faça. Nunca antes na História deste país houve um político profissional que falasse tanto, embora não fizesse na mesma proporção, como o ex-dirigente sindical metalúrgico. Parte considerável de seu êxito eleitoral nas três últimas eleições federais, duas vitórias dele e uma de sua candidata tirada do nada, deveu-se à sua capacidade de se comunicar com o brasileiro do roçado, da favela, da cozinha e do quarto de empregada.

Mas de nada lhe teria esse talento notório valido se não fosse o bom senso de não transigir quando se tratou de manter a política econômica de pé sobre os pilares dos templos do satanizado neoliberalismo. Ele falava de futebol, bajulava o amigo persa Mahmoud Ahmadinejad, não dava ouvidos a quem ridicularizava suas tiradas autoindulgentes e desdenhava de quaisquer críticas, catalogadas em seus arquivos particulares como intrigas da oposição. E se garantiu no topo da popularidade enxotando a golpes de pragmatismo o corvo inflacionário. Mas trouxe-o de volta anabolizando gastos públicos para eleger Dilma Rousseff.

Esta começou a semana dizendo: “Todas as nossas atenções estarão voltadas para o combate acirrado à inflação”. Mas de prático nada faz para impedir que riscos de corrosão do valor da moeda rondem os lares pobres. De acordo com a pesquisa do boletim Focus, divulgada pelo Banco Central, a expectativa para a inflação oficial continua distante de 4,5%, o centro da meta, flutuando de 6,29% para 6,34%.

Já é mais do que hora de ela passar de boas intenções à ação oficial, adotando medidas que ponham de novo o monstro para dormir. Agirá muito melhor se se preocupar menos com a Copa de 2014 e mais com a inflação: mais valem carne no prato e farinha na cuia do que bola na rede.

04/03/2011

às 15:30 \ Feira Livre

Governo Dilma não tem vida própria

TEXTO PUBLICADO NA FOLHA DESTA SEXTA-FEIRA

Marco Antonio Villa

O Brasil é um país fantástico. Os julgamentos políticos duram algumas semanas, se tanto.

Em dezembro, o PMDB era visto como um anteparo diante do autoritarismo do novo governo do PT. Dois meses depois, o mesmo partido virou o símbolo maior da corrupção. O mesmo se aplica à presidente Dilma Rousseff. Era considerada uma mera marionete de Lula. Cumpria a missão de segurar por quatro anos o lugar que deveria ser novamente de Lula.

Contudo, nas últimas semanas, foi incensada por políticos e jornalistas. O “poste” ganhou vida. Passou a representar a responsabilidade administrativa, a seriedade no trato da coisa pública e até um certo devotamento à cultura, pois seria uma apreciadora de cinema, de música e de literatura.

Numa hábil manobra, o governo conseguiu minar a oposição sem necessitar dos quinta-colunas, que durante anos fizeram de tudo para desestimular o debate político, usando velhíssimos argumentos regionalistas.

Bastou a presidente fazer alguns acenos -como reafirmar (e é preciso?) a defesa da liberdade de imprensa- para que uma verdadeira onda fosse criada realçando as diferenças entre ela e seu antecessor.

Numa curiosa dialética, seriam opostos mesmo fazendo parte do mesmo partido e tendo as mesmas ideias. A insistência para insuflar a criatura contra seu criador é patética. A oposição está jogando fora 44 milhões de votos ao procurar se aproximar da presidente.

É sabida a falta de combatividade de amplos setores oposicionistas, mas o que está acontecendo nas últimas semanas é mais um desastre anunciado. Dilma continuará fiel a Lula e a oposição vai ficar desmoralizada.

Lula e Dilma são apenas faces de uma mesma moeda. Representam os mesmos interesses partidários e empresariais. No máximo podem ter (e têm) estilos distintos.

Seria inimaginável Lula dar uma longa explicação com o auxílio de um “power point”. E no mínimo estranho Dilma passear em um palco relatando casos pitorescos da sua vida. A manobra governamental visa somente dar fôlego a Dilma.

Evitar que tenha de se confrontar com a oposição neste momento de recolhimento de Lula. Nada pior para ela do que fazer um discurso de improviso justificando algum erro do governo. Ou responder a perguntas incômodas de jornalistas.

Iria meter os pés pelas mãos, como ocorreu durante a campanha presidencial. Mas não: foi tratada como uma chefe de Estado exemplar. Isso apesar do apagão, do agravamento da superlotação dos aeroportos, da inoperância diante dos efeitos dos desastres naturais, da inflação, do corte fabuloso de R$ 50 bilhões (revelando enorme incompetência na elaboração do Orçamento) e de um ministério pífio, cinzento, sem cara, fraco e incapaz.

O governo Dilma não tem vida própria. É uma extensão do anterior, mero continuísmo. Não se deu conta de que a manutenção da mesma política econômica e social não será suficiente para enfrentar os desafios desta década.

Não é crível imaginar que seja possível simplesmente viver do prestígio do presidente anterior. Popularidade tem prazo de validade. E não é transferível para todo um governo, diferentemente de uma campanha eleitoral.

A sorte de Dilma é que a oposição não gosta do batente. Deixa para o dia seguinte a oposição que tem de ser feita hoje. Troca os 44 milhões de votos por um simples prato de lentilhas. Tem medo do poder, do enfrentamento, é adesista. Quando dá sinal de vida, confunde contundência com deselegância. Dessa forma, Dilma encontra um fértil campo para a colheita política.

09/11/2010

às 19:10 \ Sanatório Geral

Truque antigo

“Não pensem que o presidente Lula tem muita popularidade porque fica no gabinete lendo o jornal e conversando com jornalista. A minha popularidade é resultado do meu trabalho, de viajar, de conversar com o povo, de não ter medo de discutir qualquer assunto, em qualquer momento”.

Lula, durante aula de abertura da Universidade Aberta do Brasil, em Moçambique, enganando a plateia com o truque que transforma palanque em gabinete e palavrório em trabalho.

01/11/2010

às 22:25 \ Direto ao Ponto

Para sepultar o sonho presidencial de Serra, Lula ressuscitou a oposição

“Eu gostaria de uma eleição plebiscitária, ou seja: nós contra eles, pão pão, queijo queijo”, desafiou em outubro de 2009 o mais presunçoso dos presidentes, em êxtase com taxas de popularidade anabolizadas por comerciantes de porcentagens. Bastaria ensinar ao país que Dilma Rousseff era o codinome com que disputaria a própria sucessão para que o jogo começasse com o placar já assinalando 80% a 4%. Um oceano de brasileiros felizes contra a poça de insatisfeitos profissionais, imaginou o campeão da bazófia. A goleada estava garantida.

“A maior obra de um governo é eleger o sucessor”, avisou Lula em fevereiro passado, quando abandonou o emprego para virar animador de palanque fora-da-lei. Nos oito meses seguintes, o chefe de Estado reduzido a chefe de facção atropelou a Constituição, debochou da Justiça Eleitoral, afrontou o Ministério Público, zombou dos adversários, fez o que pôde e tudo o que não podia para impor ao país a vontade do monarca.

Para transformar em herdeira uma formidável nulidade, o presidente de todos os brasileiros açulou a radicalização maniqueísta, abençoou a beligerância das milícias, colocou a administração federal a serviço de uma candidatura, protegeu os estupradores de sigilo fiscal, aplaudiu a produtividade da usina de dossiês e redimiu previamente todos os pecadores para conseguir o que queria. Ganhou a eleição. Mas o Lula que vai deixando o governo é ainda menor do que o que entrou. E não foi pouco o que perdeu.

O país redesenhado pelas urnas do dia 31 informa que a estratégia do “nós contra eles” foi uma má ideia. Disfarçado de Dilma Rousseff, Lula sepultou os sonhos presidenciais de José Serra. Mas ressuscitou, com dimensões especialmente impressionantes, a oposição que não houve em seus oito anos de reinado. No mundo dos ibopes e sensus, os que não se ajoelham no altar do Primeiro Companheiro nunca ultrapassaram a fronteira dos 5%. Sabe-se agora que, nas urnas, 5% são 45%. Disseram não a Lula 43.711.388 brasileiros. Somados os que se abstiveram, anularam o voto ou o deixaram em branco, 80.050.565 ignoraram a determinação do reizinho.

Popularidade não rima com voto, reiterou a paisagem eleitoral. No Brasil das pesquisas, Lula vai beirando os 100% de aprovação (ou 103%, se a margem de erro for camarada). Na vida como ela é, a unanimidade foi rebaixada a 56% dos votos válidos. Dilma venceu na metade superior do mapa (veja ilustração acima). Foi derrotada na outra. Em lugarejos perdidos nos grotões, ganhou muito bem. Perdeu feio em regiões especialmente desenvolvidas.

Os candidatos do PSDB foram vitoriosos no Paraná, em São Paulo, em Minas Gerais, no Tocantins, no Pará, em Alagoas, em Roraima e em Goiás. Como o DEM venceu em Santa Catarina e no Rio Grande do Norte, a oposição vai governar 53% do eleitorado e a maioria da população brasileira. O Brasil insatisfeito é infinitamente maior que Serra, muito mais combativo que o PSDB. E está disposto a resistir energicamente ao prolongamento da Era da Mediocridade.

Se o PSDB não assimilar a partitura composta pela resistência democrática, que destaca enfaticamente valores éticos e morais, vai perder o bonde da história. Os eleitores que não compraram a dupla Lula-Dilma também rejeitam partidos que só agem ─ e com desabonadora timidez ─ quando começa a temporada de caça ao voto. Se os líderes tucanos não aprenderem a opor-se o tempo todo, não terão ninguém a liderar.

Os brasileiros inconformados descobriram que podem viver sem eles. E sabem o que querem. Não há esperança de salvação para políticos que se declaram adversários do governo mas não sabem, ou não querem, interpretar o pensamento e as aspirações da grande frente oposicionista.

12/06/2010

às 17:33 \ Direto ao Ponto

A vuvuzela brasileira

Os dois são onipresentes, barulhentos e, apesar do som incessante, tedioso, desagradável e sem nuances que produzem, bastante populares. Nunca dão trégua nem sossego aos que não se rendem à maioria de adeptos. Não parecem fazer sentido. Só fazem com que dois países pareçam pouco civilizados.

Lula é a vuvuzela brasileira. Ou vuvuzela é um lula africano. Tanto faz. O que importa é a confirmação de que um alto índice de popularidade pode ser apenas prova de primitivismo.

25/11/2009

às 18:51 \ História em Imagens

O campeão de popularidade e o Teste do Maracanã

Confiante nos institutos de pesquisa, Lula acha que a taxa de popularidade, entre o Natal e o Ano Novo, vai bater nos 100% (ou 103%, se a margem de erro oscilar inteira para cima). Desconfiada dos institutos de pesquisa, a oposição acha que só a multidão dos que desancam o governo na internet já passa de 10% da população nacional.

Resolvida a liquidar a controvérsia, a coluna propõe ao presidente uma segunda edição do Teste do Maracanã. O primeiro ocorreu na abertura dos Jogos Panamericanos de 2007 e, como comprova o video, custou ao campeão de popularidade uma vaia de constranger até juiz assumidamente ladrão. Os companheiros alegam que, na época, a taxa de sucesso era de apenas 60%.

Vem aí a última rodada do campeonato brasileiro. Para saber-se quem tem razão, basta que Lula entre no estádio discretamente, peça licença ao locutor e surpreenda a arquibancada com o cumprimento amplificado pelo sistema de som: “Boa tarde, companheiros e companheiras!” Como reagirá o distinto público? Com a ovação consagradora? Ou com outra vaia desmoralizante? 

Vai nessa, presidente.



30/10/2009

às 21:00 \ Sanatório Geral

Anta insistente

“Eu lamento que Lula saia e sei que no Brasil muitos também lamentam. Deixo a pergunta no ar: por que um presidente que está bem e tem 80% de popularidade tem que sair?”.

Hugo Chávez, sugerindo a Lula que siga os passos dos companheiros cucarachas, dê um pontapé na Constituição, convoque um plebiscito e consiga autorização para continuar no poder até ficar mais idoso que Oscar Niemeyer.

08/09/2009

às 18:09 \ Direto ao Ponto

A espécie a caminho da extinção começa a crescer nos ibopes

A pesquisa CNT-Sensus divulgada nesta terça-feira informa: ou o Brasil não soube da chegada iminente da Segunda Independência ou nem soube que seria proclamada. A popularidade de Lula caiu alguns pontos, Dilma Rousseff andou para trás, Marina Silva desobedeceu a Franklin Martins e não tirou votos de José Serra.

Enquanto meu amigo e vizinho Reinaldo Azevedo disseca os resultados com o brilho habitual, continuo à procura do entrevistado-pelo-instituto-de-pesquisa. Foi alentador saber que o Sensus encontrou mais brasileiros-descontentes-com-o-governo, espécie à beira da extinção de dois anos para cá. Pelo que diziam os ibopes, os exemplares restantes agonizavam em meia dúzia de blogs.

Os organizadores do levantamento juram que a raça a caminho do sumiço cresceu repentinamente graças a três derrapagens do governo: o avanço da gripe suína, o apoio de Lula a José Sarney e a descoberta de que Dilma Rouseff mente demais. Nada disso é novidade. As trapalhadas já se haviam consumado quando mais pesquisas seguiram desenhando a trajetória que levaria o maior governante de todos os tempos aos 100% de popularidade. Ou 103%, se a margem de erro oscilar para cima.

Anotem: os índices espantosos vão minguar a cada pesquisa. Não porque o país tenha acordado agora, nem porque o presidente tenha resolvido errar todas, e sim porque a eleição vem chegando. Em outubro de 2010, as previsões serão confrontadas com os resultados das urnas. A audácia dos alquimistas das porcentagens é de bom tamanho. Mas nunca será maior que o instinto de sobrevivência.


 

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