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pedra

10/06/2011

às 4:44 \ Sanatório Geral

Pedra & camburão

“A vida é uma luta permanente e não costumo me abater pelas pedras no caminho, avisados que fomos pelo poeta: havia e haverá sempre pedras em nossa caminhada”.

Antonio Palocci, no discurso de despedida, ensinando que, na novilíngua companheira, “pedra” quer dizer polícia; cadeia; camburão.

28/05/2011

às 14:17 \ Feira Livre

Um Manoel-de-barro

ENTREVISTA PUBLICADA NO JORNAL DO BRASIL EM 16 DE DEZEMBRO DE 2006

Mariana Filgueiras

Todos os dias, no quintal de casa, em meio ao Pantanal, Manoel de Barros cisma de inventar as tardes a partir de uma garça. Ou de um bem-te-vi. Vê um peixe e quase pega a sua voz. Perto de completar 90 anos, o senhor de fala pausada conhece como ninguém as intimidades da natureza. Confessa: falta muito pouco para tornar-se árvore. O fim não lhe mete medo. Nem a morte. “É preciso fazer parte da natureza que nem um cisco faz, que nem uma ema faz. Depois do cisco e da ema, falta pouco”. E o que esperar daqui para frente? Manoel faz graça: “Quero um DVD do último filme de Fassbinder, um CD de Nelson Freire com músicas de Bach e a última edição da obra de Guimarães Rosa”. Para celebrar a data, o Jornal do Brasil propôs ao poeta que respondesse algumas das provocações deixadas em diversas poesias. Os versos de seus livros foram transformados em perguntas. Diante do desafio, Manoel de Barros riu. Disse não ter tanta inspiração assim.  E assim, cheio de tesao pelas palavras, pediu permissäo aos sapos, retirou-se do quintal e respondeu às questões.

Como pegar a voz de um peixe?

Mais difícil do que pegar na fala dos peixes é o pegar na fala das coisas. Francis Ponge tinha o gosto de pegar na voz das coisas. É necessário cultivar o peixe em casa para se conseguir pegar na voz dele. Há que domesticar o peixe. Eu, certa vez, criei um peixe no bolso. Ele pedia pra sair do bolso e cair nágua. Mas há que insistir em prendê-lo no bolso. Assim o peixe implora. E nós podemos agarrar na voz. Não é fácil. Ele soletra as águas antes de falar.

Qual lado da noite umedece primeiro?

Uma vez um garoto, na Fazenda, falou que do lado da Bolívia estava a se formar uma chuva. Seria o lado oeste de onde estávamos. As chuvas sempre se formavam do lado da Bolívia. Por isso se falava no galpão que aquele era o lado mais úmido da noite. Por isso ainda a gente afirmava que era o lado mais úmido da noite. E como ninguém contestasse ficou sendo. Mas isso terá vindo a verso depois de 30 anos.

Aos 90 anos, o que o poeta falta para árvore?

Falta se entregar à natureza moda um sapo, moda uma pedra, moda um rio, moda um pássaro. É preciso fazer parte da natureza que nem um cisco faz, que nem uma ema faz. Depois do cisco e da ema falta pouco.

O homem que toca a existência num fagote tem salvação?

Acho que o verso fala da salvação pelo amor, pelo gosto de estar ouvindo e cantando no fagote. Mas eu não tenho fagote. Só o Outro do poeta que toca fagote.

Os jacintos ainda crescem sobre as suas palavras?

Em poesia a Razão é acessório. Quem manda em poesia é a visão. Nem o ver é fundamental. O ver também é acessório. Quem manda é a visão. A visão vem completada de loucuras, fantasias e bobagens profundas. Foi a visão que achou jacintos crescendo em minhas palavras. Acho que os jacintos ainda crescem nas minhas palavras.

As palavras ainda têm carne, aflição, pentelhos e a cor do êxtase?

Poesia é armação de palavras com um canto dentro. Eu sempre armei os versos meus com as aflições e os êxtases do ser humano. Entram portanto pentelhos também.

O vôo do jaburu é mais encorpado do que o vôo das horas?

A hora voa sem asa, por isso não dá pra gente saber. Acho que o vôo do jaburu é mais encorpado. O vôo das horas a gente não vê. Eu tenho vontade de concretizar uma hora. Eu botaria osso na hora. E botaria asas. Só de peraltice com as palavras. Depois eu faria uma pandorga da hora para ela voar. Mas eu não deixaria que a hora escapasse de mim.

São as dálias mesmo lésbicas?

Quando as dálias se encontram, elas se amam. Todas as flores se amam de flor em flor. Isso uma verbena me contou. Não posso garantir nem desmentir.

Ainda sente o cheiro do sol, a 15 metros do arco-íris?

Sei que as perguntas são para experimentar meus absurdos. Confesso, já confessei algumas vezes, que gosto mais de brincar com as palavras do que de pensar com elas. Para tanto precisei de aprender Absurdez. Falo e escrevo fluentemente Absurdez. Por isso descobri que o sol tem perfume.

Ainda dá tempo de inventar uma tarde a partir de uma garça?

Ontem eu vi um bentevi em cima de uma pedra. Ele estava fascinado pela solidão da pedra. Estou relendo o profeta Jeremias. As suas lamentações pelas desgraças da sua Jerusalém. No fim ele teve esta visão: Até as pedras da rua choravam.

26/10/2009

às 23:33 \ Direto ao Ponto

A pedra, o bagre e a perereca animam o show da ignorância

A data da inauguração do Brasil reconstruído ainda não foi marcada por culpa da máquina de fiscalização, acaba de informar o presidente Lula. O governo não para de fazer obra, repetiu o maior dos governantes desde Tomé de Souza. Só não consegue completar o serviço porque o Ibama complica e o Tribunal de Contas da União não deixa. O TCU  vê irregularidade em qualquer irregularidade. O Ibama já lhe jogou no colo um bagre amazônico, uma perereca gaúcha e, há dias, uma pedra da região de Cabrobó.

“A  hidrelétrica ficou parada porque alguém achou que uma pedra arredondada era machadinho de índio, e levou nove meses para descobrir que era só uma pedra”, contou. A plateia adorou a prova mais recente de que o Ibama virou uma catarata de excentricidades antipatrióticas. Melhor que esse, só o caso da perereca. “A gente estava fazendo um túnel de mil e poucos metros no Rio Grande do Sul e encontraram do outro lado do túnel uma perereca”, começa Lula a contar o episódio ocorrido na BR-101 e começa a plateia a soltar o riso.

A segunda frase abre a sequência de gargalhadas  que só terminará  com o ponto final. “Todo mundo aqui sabe o que é uma perereca”, continua a narrativa.  “Pois bem, aí resolveram fazer um estudo para saber se aquela perereca estava em extinção. Aí teve que contratar gente para procurar perereca, e procure perereca, e procure perereca… Sabem quantos meses demorou para descobrir que a perereca não estava em extinção? Sete meses. Sete meses e a obra parada”. Segue-se a gargalhada de encerramento.

“Lula não para de dizer besteiras”, lastima Célio Fernando Haddad, coordenador de Ciências Biológicas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Onde o narrador viu uma prosaica perereca, corrige Haddad, os cientistas encontraram quatro espécies de anfíbios ameaçadas de extinção. Os levantamentos que precedem o início de obras não existem para atender a caprichos de ambientalistas, mas por exigência da legislação federal, que protege a vida de espécies ameaçadas.

“O governo que comece a trabalhar mais cedo, não em véspera de eleição e passando por cima das leis”, recomenda Haddad.  ”Para um projeto, quase sempre há alternativas, mas uma espécie se perde para sempre”, sublinha Jansen Zuanon, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Ele reitera a lição desde que Lula declarou guerra a ”um tal bagre gigante do rio Madeira”, responsabilizado pelo atraso nas obras de usinas hidrelétricas. O nome do peixe é dourada, ensina Zuanon. E não é um bagre qualquer.

Dele dependem a sobrevivência financeira de milhares de comerciantes e a sobrevivência física de incontáveis moradores espalhados por quatro Estados brasileiros ─ Pará, Amapá, Amazonas e Rondônia ─ e porções consideráveis da Colômbia, da Bolívia e do Peru. “Para procriar, a dourada faz uma migração extraordinariamente extensa”, informa o cientista. O Ibama agiu para evitar a consumação de um crime ambiental gravíssimo: a interrupção irresponsável dessa viagem que perpetua a espécie também colocaria em risco a perpetuação da espécie humana na região.  

Em 2000, foram concedidas pelo Ibama 139 autorizações ambientais. Subiram para 477 em 2008 e, neste ano, já somaram 125. Lula só se queixa por malandragem. O TCU tem julgado  pendências com exemplar pontualidade. Lula só se queixa porque agir fora da lei apressa inaugurações e é bem mais rentável. O problema não é a perereca, nem o bagre, muito menos  a pedra. O problema é a incompetência do governo.

O ator no palco vai continuar contando casos inspirados em problemas imaginários, a plateia vai continuar gargalhando. A vassalagem voluntária não é menos desprezível que a ignorância presunçosa.


 

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