Blogs e Colunistas

Paulo Augusto Moreira Lima

27/07/2012

às 19:17 \ Direto ao Ponto

A Justiça se rendeu ao atrevimento do bandido apaixonado e sua mulher-noiva

A Justiça de Goiás homenageou Carlos Augusto Ramos Araújo, o Carlinhos Cachoeira, com duas capitulações em menos de um mês. A primeira consumou-se no momento em que o juiz federal Paulo Augusto Moreira Lima rendeu-se às sucessivas ameaças de morte e se afastou do caso. Moreira Lima entrou na alça de mira de Cachoeira por ter autorizado a Polícia Federal a gravar telefonemas do chefão e, depois, determinado a prisão do bando.

A segunda capitulação foi formalizada nesta quarta-feira, já no começo da audiência em Goiânia, quando o prisioneiro afrontou impunemente o juiz Alderico Rocha Santos. “É uma pergunta difícil”, debochou Cachoeira quando o magistrado indagou se é casado. E aproveitou a deixa para uma troca de frases melosas com sua mulher Andressa Mendonça, presente ao tribunal e à disposição dos fotógrafos.

“Eu te amo”, ele disse. “Também te amo!”, ela exclamou. Ela a pediu em casamento. Ela aceitou. Ele prometeu cumprir a promessa assim que recuperar a liberdade. “Achei gostoso”, derreteu-se a mulher que, já casada, virou noiva. O que houve na audiência não tem parentesco com histórias de amor. O que se ouviu foi um hino ao cinismo, composto por um meliante que faz em Goiás o que quer e desdenha ostensivamente dos três Poderes.

Faz sentido. Quem preenche cargos importantes na administração estadual e fecha negócios suspeitíssimos com o governador não pode ter respeito pelo Executivo. Quem compra deputados e senadores só pode desprezar o Legislativo. Quem intimida, desafia, desmoraliza ou aluga juízes e desembargadores não pode temer o Judiciário.

Como registra o comentário de 1 minuto para o site de VEJA, o juiz Rocha Santos deveria ter interrompido Cachoeira na primeira vírgula da resposta atrevida, enquadrado o delinquente por desacato à autoridade e determinado à escolta policial que o devolvesse à cela onde está hospedado. Por não ter feito o que devia, o magistrado liberou o bandido apaixonado para o espetáculo da cafajestagem que desferiu outro tapa na cara do Brasil decente.

21/07/2012

às 1:40 \ Direto ao Ponto

A pressa dos sherloques torna ainda mais estranho o assassinato do agente da Polícia Federal que investigou Cachoeira

O juiz federal Paulo Augusto Moreira Lima, que autorizou a Polícia Federal a gravar clandestinamente as conversas entre Carlinhos Cachoeira e seus subordinados, e depois decretou a prisão do bando, afastou-se do caso depois de sofrer ameaças de morte.

A procuradora Léia Batista, representante do Ministério Público de Goiás na apuração do caso, também foi ameaçada de morte. Pediu proteção ao Conselho Nacional de Justiça.

Citado em várias conversas gravadas pela Operação Monte Carlo, o delegado Hylo Marques Pereira, da Polícia Civil de Goiás, está desaparecido há seis dias.

Nesta terça-feira, o agente da Polícia Federal Wilson Tapajós Macedo, um dos participantes da Operação Monte Carlo, foi morto com dois tiros em Brasília, ao lado do túmulo do pai. Sobre o episódio, o jornalista Carlos Brickmann escreveu, sob o título “Coisa estranha”, a nota transcrita em itálico:

Um especialista em Polícia Federal, daqueles que já viram urubu ficar branco e passarinho comer onça, estranha muito o assassínio do agente federal num cemitério de Brasília. Considera pouco habitual um agente visitar o túmulo dos pais num dia normal, no horário de serviço. Talvez houvesse ali um encontro marcado.

O fato é que o assassínio de um agente envolvido em investigações de tamanho porte gera necessariamente uma cachoeira de suspeitas.

O comentário de 1 minuto para o site de VEJA registra que, minutos depois do assassinato, os policiais de Brasília incumbidos de apurar o caso haviam decidido que ocorreu um latrocínio ou um crime passional. A menos que tivessem resolvido o mistério antes que a morte acontecesse, deveriam ter acrescentado de imediato duas outras hipóteses bem mais convincentes: vingança e queima de arquivo.

Só pensaram nisso nesta sexta-feira, quando as sombras que envolvem a história foram escurecidas por outra tragédia: Fernando Spuri Lima, 34 anos, escrivão da Polícia Federal e colega de trabalho de Tapajós, foi encontrado morto com um tiro na testa na casa onde morava em Brasília. O delegado encarregado de apurar o que houve já avisou que foi “um suicídio clássico”. Mais um caso exemplar de açodamento. Mais uma conclusão comprometida pela ligeireza esperta ou pela superficialidade irresponsável.

A Polícia Federal tem o dever de descobrir os motivos e identificar os autores da execução de um dos participantes da Operação Monte Carlo. Ainda que estejam fora dessa, Cachoeira e os oficiais graduados da quadrilha precisam permanecer na cadeia. Presos, eles continuam mobilizando comparsas em liberdade para a destruição de provas e obstrução da Justiça. Soltos, comandarão o serviço sujo com maior eficiência.

O advogado Márcio Thomaz Bastos seguirá reivindicando a soltura do cliente de R$ 15 milhões. O Brasil decente está obrigado a manter sob estreita vigilância os desembargadores e ministros que julgam os pedidos de habeas corpus formulados quase diariamente pelo doutor preferido da bandidagem dolarizada.

Quem libertar Cachoeira antes da hora é mais que um mau juiz. É cúmplice.

 

23/06/2012

às 15:05 \ Direto ao Ponto

O advogado mais caro do Brasil e um bandido barato ameaçam o Estado de Direito

Carlinhos Cachoeira começou a captura do Poder Executivo com a compra de governadores. Prosseguiu a ofensiva com a contratação de Márcio Thomaz Bastos, um advogado disposto a tudo para livrar da cadeia e de quaisquer punições o chefe da quadrilha desbaratada pela Polícia Federal que vivia elogiando nos tempos de ministro da Justiça do governo Lula. E completou o serviço quando o Planalto ordenou à maioria governista que transformasse a CPI batizada com o seu nome em mais um monumento à impunidade.

Carlinhos Cachoeira começou a captura do Poder Legislativo com o arrendamento de deputados e senadores, entre os quais Demóstenes Torres ─ hoje reduzido a uma caricatura carnavalesca do personagem de ficção que funde Dr. Jekyll e Mr. Hyde. A ofensiva prosseguiu na CPI, com a debochada performance produzida e dirigida pelo doutor em truques de tribunal. E será consumada com o naufrágio anunciado de uma comissão de inquérito administrada por cúmplices dos investigados (e dos que nem deixaram entrar na fila dos depoentes).

Carlinhos Cachoeira começou a captura do Poder Judiciário com o aluguel de comparsas  disfarçados de juízes. A ofensiva prosseguiu com a mobilização de magistrados decididos a condenar os xerifes, libertar os bandidos e enterrar no mausoléu dos absurdos jurídicos o colosso de provas colhidas pelos detetives. Nenhum deles pareceu tão sôfrego quanto o desembargador Tourinho Neto, do Tribunal Regional Federal de Brasília.

Enquanto tentava libertar o chefão, Tourinho tirou da cela os subchefes José Olímpio de Queiroga Neto e Vladimir Garcez. Devolvido às ruas em 16 de junho, o ex-vereador Garcez reassumiu a gerência do departamento de políticos subornados. Dois dias antes, Queiroga fora reinstalado no comando do setor de ações radicais, que persegue com o uso da violência o que o dinheiro não alcança. Ambos recuperaram o direito de circular em sossego que o juiz federal Paulo Augusto Moreira Lima acabou de perder.

Conversas gravadas pela Polícia Federal provam que Queiroga propôs a Cachoeira que endurecesse o tratamento dispensado a Moreira Lima, responsável pela prisão do comando da organização criminosa. As ameaças que o induziram a afastar-se do cargo informam que Cachoeira está pronto para completar a desmoralização da Justiça. Nessa hipótese, os delinquentes poderão festejar o sucesso da ofensiva contra os três Poderes.

“Não é o juiz quem tem de se afastar em nome de sua segurança, mas o Estado que precisa lhe garantir a vida, prender os autores das ameaças e assegurar condições para o desbaratamento dessa máfia”, adverte a jornalista Dora Kramer no artigo reproduzido na seção Feira Livre. “Qualquer coisa diferente disso equivale a transferir aos bandidos um poder de decisão que não lhes pertence e pôr de antemão o juiz (ou juíza) substituto sob suspeita ou risco de morte”.

A operação concebida por Cachoeira (e aperfeiçoada por um ex-ministro da Justiça) para a captura das instituições tem de ser neutralizada já. Ou os incumbidos de aplicar a lei e defendê-la cumprem seu dever sem delongas ou formalizam publicamente a rendição vergonhosa. Nada justifica a libertação prematura dos quadrilheiros. Não se pode conceder o direito de ir e vir a quem pretende usá-lo para obstruir investigações, destruir provas, silenciar testemunhas, submeter desembargadores e intimidar magistrados.

Cachoeira e seus comparsas têm de aguardar engaiolados a merecidíssima condenação a longas temporadas na cadeia. Se ocorrer o contrário, como constata o comentário de 1 minuto para o site de VEJA, o Estado Democrático de Direito terá sido algemado pela parceria que juntou o advogado mais caro do Brasil e um bandido barato, mas com dinheiro de sobra para pagar o que for preciso para continuar em ação.

Os R$ 15 milhões que estimulam a inventividade de Márcio Thomaz Bastos, por exemplo. Ou propinas que amansam figurões do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. Ou, como alertam a revelações feitas pelo juiz Moreira Lima, extorsões e assassinatos.

21/06/2012

às 14:05 \ Feira Livre

‘Desafio ao Estado’, por Dora Kramer

PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA QUARTA-FEIRA

Paulo Augusto Moreira Lima

DORA KRAMER

De um lado, a transferência ─ “por exposição junto à criminalidade” ─ do juiz Paulo Augusto Moreira Lima da 11.ª Vara Federal em Goiás para instância distante do processo.

Moreira Lima foi o responsável pela decretação da prisão de Carlos Cachoeira, pela autorização à Polícia Federal para interceptar telefonemas de suspeitos de integrar a quadrilha e pediu afastamento devido a ameaças diretas e indiretas a si e sua família.

A procuradora Léia Batista, que atua no caso pelo Ministério Público de Goiás, também se sente ameaçada e pediu ao Conselho Nacional de Justiça que tome providências para garantir-lhe a segurança.

De outro lado, as decisões do juiz Tourinho Neto, do Tribunal Regional Federal da 1.ª Região (Distrito Federal e Goiás, entre outros Estados), que provavelmente têm fundamentação jurídica não obstante deem margem a questionamentos por parte de seus próprios pares.

Tourinho Neto tem sido generoso com a defesa de Cachoeira: determinou cancelamento de depoimento do réu na Justiça, deu voto como relator a favor da ilicitude das escutas da PF e decretou a libertação do acusado que só continuou preso por força de mandado decorrente de outro inquérito policial.

No meio disso, uma CPI bamba, perdida em minúsculas picuinhas de natureza partidária e, se não se cuidar, em via de entrar para o rol dos suspeitos.

Por ação, omissão ou interpretação condescendente sobre a higidez do Estado de direito, se acumulam sinais de que o bando pode ser bem-sucedido nas investidas para obstruir a ação da Justiça e celebrar contente a impunidade no final.

Evidencia-se também o caráter mafioso da organização criminosa alvo de três inquéritos policiais, um processo judicial em curso e uma comissão parlamentar de inquérito composta por deputados e senadores.

Por que falar em máfia? Porque é do que se trata: empresa de fins criminosos que busca dar feição legal aos negócios mediante infiltração no Estado e cooptação de agentes públicos e privados. Movimenta-se com desenvoltura nos subterrâneos das instituições e usa de violência.

Nos contornos até agora conhecidos da rede montada por Carlos Augusto de Almeida Ramos, cuja qualificação como mero “contraventor” soa amena, faltava o fator violência.

Não falta mais. O juiz Moreira Lima, no ofício em que denuncia as pressões à presidência do Tribunal Regional Federal da 1.ª Região, fala em “homicídios” cometidos pela quadrilha por ele investigada.

A própria existência dessas ameaças remete ao caso da juíza Patrícia Acioli, assassinada por sua atuação em processos envolvendo policiais integrantes de milícias no Rio de Janeiro.

Evidente, pois, que a CPI que investiga o esquema Cachoeira e suas ramificações está diante de algo grande.

Tão grande que a comissão só tem um caminho: suspender as tentativas de proteger esse ou aquele grupo e retomar os trabalhos na próxima semana com a seriedade, compreendendo o que se passa debaixo de seu nariz.

Ou faz isso e prossegue nas investigações para valer apesar dos pesares que porventura venham a pesar sobre parlamentares, governadores, prefeitos, empresários e quem mais esteja envolvido, ou a comissão de inquérito terá sido cúmplice.

Qualquer recuo a partir de agora pode significar o acobertamento de ações do crime organizado dentro do Congresso Nacional e uma gravíssima agressão às instituições.

O que está em jogo é a autoridade do Estado, desafiada quando funcionários públicos são ameaçados no exercício de quaisquer funções, mais ainda se estas dizem respeito a apuração de crimes contra o poder público e nas entranhas dele.

Não é o juiz quem tem de se afastar em nome de sua segurança, mas o Estado que precisa lhe garantir a vida, prender os autores das ameaças e assegurar condições para o desbaratamento dessa máfia.

Qualquer coisa diferente disso equivale a transferir aos bandidos um poder de decisão que não lhes pertence e pôr de antemão o juiz (ou juíza) substituto sob suspeita ou risco de morte.

 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados