Blogs e Colunistas

Palácio do Planalto

26/06/2014

às 15:13 \ Opinião

‘Aparências, nada mais’, de Dora Kramer

Publicado no Estadão desta quinta-feira

DORA KRAMER

Na condição de secretário-geral da Presidência da República, interlocutor do governo junto aos movimentos sociais e braço avançado de Lula no Palácio do Planalto, Gilberto Carvalho não seria quem é nem estaria onde está se andasse ou falasse em completa desconexão com os mandamentos do “projeto”.

Quando pareceu divergir do tom ufanista do PT estava dourando a pílula, contornando na superfície um discurso que no conteúdo reforça o lema central de ataque escolhido pelo partido para essas eleições. Senão, vejamos.

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23/06/2014

às 11:36 \ Opinião

‘Tudo culpa da mídia’, editorial do Estadão

Publicado no Estadão deste domingo

O PT não desiste: é tudo culpa da mídia. Depois de Lula ter proclamado aos quatro ventos que o lamentável episódio das ofensas dirigidas a Dilma Rousseff no jogo de abertura da Copa do Mundo foi obra da “zelite”, seu homem de confiança no Palácio do Planalto, o ministro Gilberto Carvalho, manifestou opinião diversa, mas não necessariamente divergente, que na verdade “aprimora” o argumento petista: a culpa é da “pancadaria diária” dos meios de comunicação no lombo do PT e de seu governo.

Ajudam a entender as intenções do ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência as circunstâncias em que ele se manifestou. Circunstâncias que, de resto, demonstram claramente o que o PT entende por “democratização da mídia”: uma reunião, no Palácio do Planalto – patrocinada, portanto, com recursos de todos os brasileiros -, com blogueiros e ativistas militantes ou simpáticos ao lulopetismo, convocados para tratar da necessidade de se articularem e unificarem o discurso contra a “direita militante que não havia antes”, para fazer “o debate da mídia para valer” (não ficou claro se o “para valer” se referia ao debate ou à mídia).

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27/05/2014

às 17:27 \ Vídeos: Entrevista

O Roda Viva com Eduardo Campos

O entrevistado do Roda Viva desta segunda-feira foi Eduardo Campos, ex-governador de Pernambuco e pré-candidato do PSB à Presidência da República. O programa foi o primeiro da série com os principais concorrentes ao Palácio do Planalto. No dia 2 de junho, estará no centro da roda o senador Aécio Neves, do PSDB.

A bancada de entrevistadores foi formada por Dora Kramer (colunista do Estadão), Maria Cristina Fernandes (editora de Política do Valor Econômico), Sérgio Dávila (editor-executivo da Folha de S. Paulo), Luiz Antônio Novaes (chefe da sucursal do Globo em São Paulo) e Felipe Patury (colunista da revista Época).

Veja também:

O Roda Viva com Aécio Neves

O Roda Viva com Alexandre Padilha

22/03/2014

às 16:21 \ Opinião

‘Autoinsuficiência’, de Dora Kramer

Publicado no Estadão desta sexta-feira

Não há mistério nem mérito na confissão da presidente Dilma Rousseff de que aprovou sem ler os termos do contrato de compra da refinaria de Pasadena, no Texas, quando era ministra da Casa Civil e presidia o Conselho de Administração da Petrobrás.

Ela simplesmente quis tirar o corpo fora de um negócio altamente suspeito, investigado pelo Ministério Público, Tribunal de Contas e Polícia Federal devido aos prejuízos causados à estatal, que pagou US$ 1,18 bilhão por uma refinaria negociada a US$ 42 milhões sete anos antes.

Pela singeleza da nota oficial divulgada pela assessoria de comunicação do Palácio do Planalto, transferindo sem mais nem menos a responsabilidade a um resumo “incompleto” da diretoria internacional da Petrobrás, a presidente da República acreditou-se na posse dos mesmos poderes do antecessor a quem todos se dobravam calados e reverentes.

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19/12/2013

às 17:59 \ Direto ao Ponto

O vídeo com as três lições de Dilma: a porta de saída é uma porta de entrada, pintar a unha acelera a inclusão social e a crise é um W com uma perna mais profunda

ATUALIZADO ÀS 17H59

Nesta quarta-feira, os jornalistas que dão plantão no Palácio do Planalto ganharam de Dilma Rousseff um café da manhã e uma entrevista coletiva. Durante mais de uma hora e meia, a presidente despejou sucessivas provas de que o Brasil é governado por alguém capaz de não dizer coisa com coisa sobre tudo. Seguem-se três dos melhores-piores momentos do falatório. Como parece mentira, quem duvidar pode conferir o vídeo, que reúne a trinca de declarações amalucadas, ou consultar a transcrição da conversa no Blog do Planalto. Breves observações do colunista aparecem entre parênteses:

NEURÔNIO LETRADO
“Então, do meu ponto de vista acho que 2013 foi o momento em que a chamada crise, que muitos… muitos economistas internacionais discutiam se era em U, se era em V, se era em W, né? Ela é, eu acho, que num W mais profundo para esse momento, se você olhar do ponto de vista da economia internacional como um todo. De alguma economia pode até dizer: olha, foi pior no primeiro momento, lá em 2009. Eu acho que foi pior quando se aprofunda a crise da Europa que se combina com a crise americana, e além disso, com uma redefinição da economia chinesa. E isso indica uma perna para baixo do W mais profunda”.

(Primeiro, Dilma esclarece que 2013 não foi um ano, mas o momento em que a “chamada crise” decidiu virar letra. Depois, avisa que estudou suficientemente o tema para garantir que a crise não é um U nem um V. É um W, só que diferente. Os interessados em conhecer a letra com cara nova precisam olhar ao mesmo tempo a confusão europeia, a crise americana e a economia chinesa. Quem faz isso enxerga nitidamente um W com uma perna para baixo e mais profunda. A doutora em nada não contou se a perna é a esquerda ou a direita).

NEURÔNIO EDUCATIVO
“A questão da educação é uma questão fortíssima no Brasil. Acho que ela é, o Brasil hoje é um país, do meu ponto de vista, que tem na educação o seu grande caminho, porque, através da educação eu estabilizo a saída da miséria e a ida pra classe média. Só através da educação que nós vamos estabilizar, e educação de qualidade, senão você não estabiliza, ou então a pessoa fica lá. Então, discutiam muito porta de sauída (sic). A grande porta de saída é uma porta de entrada: é a educação”.

(Segundo Dilma, a estrada que leva da miséria para a classe média, ou vice-versa, passa por uma porta que abre, fecha, ameaça cair ou esbanja estabilidade conforme os humores do sistema educacional. O Celso Arnaldo talvez saiba que lugar é esse onde “a pessoa fica lá”. Mas mesmo o nosso grande especialista em dilmês terá dificuldades para resolver a complexa charada exposta pelo neurônio solitário: se a porta de saída é uma porta de entrada, como alguém vai saber se entrou ou saiu?)

NEURÔNIO INCLUSIVO
“Nesse Pronatec do Brasil Sem Miséria nós já formamos 850 mil pessoas. E formar 850 mil pessoas é dar a eles condição de ter uma profissão. Você forma de ajudante para tratamento de idoso até a quantidade imensa de cabeleireira que tem nesse país, né meninas? Vocês sabem que nós somos um dos países com maior consumo na área de indústrias da beleza. E, não… e prolifera essa questão. É uma… é uma… Faz parte da inserção, eu acho, da mulher no mercado de trabalho. Não sei se vocês viram essa mulher formada no Pronatec, era engraçadíssima, a unha era desse tamanho assim, pintada assim, toda bonita pintada, e ela era torneira mecânica. Estava formando em torneira mecânica. Mulher vai para torneira mecânica de unha pintada. Acho que esse é um processo inclusivo”.

(“Estava formando em torneira-mecânica” tem jeito de enigma a ser desvendado por Celso Arnaldo, mas é só um besteirol à procura do “se” que sumiu. Também não deve perder tempo tentando descobrir o que significa “E prolifera essa questão”. É só outro desfile de vogais e consoantes sem começo, sem meio e sem fim. Mora na última frase o espesso mistério a decifrar: como é que se faz para transformar em “processo de inclusã”o uma unha pintada? E qual é a cor ideal para a unha de quem caça algum emprego que lhe permita trabalhar menos e ganhar mais?)

Não é fácil entender como alguém assim ganha uma eleição presidencial. Mais difícil ainda é entender como é que se consegue ser derrotado numa eleição por alguém assim.

09/07/2013

às 11:41 \ Feira Livre

‘Freio de arrumação’, de Dora Kramer

Publicado no Estadão desta terça-feira

DORA KRAMER

Há um mês, desde que saíram as primeiras pesquisas de opinião registrando queda na avaliação positiva da presidente Dilma Rousseff – inicialmente de sete e, em seguida aos protestos, de 27 pontos porcentuais – o governo vive sob o efeito de um choque de realidade ao qual ainda não se adaptou.

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25/04/2013

às 18:49 \ Feira Livre

‘Dilma, o sol e a peneira’, Editorial do Estadão

PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA QUINTA-FEIRA

Com um despudor que daria inveja aos antigos coronéis da política brasileira, a presidente Dilma Rousseff nega que já esteja em campanha pela reeleição, “porque eu tenho obrigação durante 24 horas por dia de dirigir o Brasil”. É de imaginar o que faria se estivesse. Abordada pela imprensa depois da abertura de uma exposição do músico Carlinhos Brown, anteontem no Palácio do Planalto – decerto uma pausa excepcional na sua inesgotável jornada de trabalho –, Dilma disse, ainda sem corar, que deve ser “a única pessoa que não tenha interesse em discutir o processo eleitoral na metade do seu governo”.

Viagens e comícios disfarçados de solenidades pelo País afora, aparições no horário nobre, meticulosamente produzidas pelo seu marqueteiro João Santana, investidas recorrentes contra a oposição à maneira do seu patrono e mentor Lula – tudo isso, na versão da presidente, é “dirigir o Brasil”. Na mesma categoria há de se enquadrar o casuísmo recoberto de suas digitais para limitar drasticamente o acesso dos novos partidos – a começar pela Rede Sustentabilidade da ex-ministra Marina Silva, em fase de coleta de assinaturas para a sua criação – ao horário de propaganda eleitoral e aos recursos do Fundo Partidário.

Na mesma terça-feira em que Dilma invocou as exaustivas obrigações que não lhe permitiriam “discutir o processo eleitoral”, que dirá fazer campanha, a maioria governista na Câmara dos Deputados terminou de aprovar o projeto restritivo do deputado peemedebista Edinho Silva, ostensivamente encampado pelo Planalto. A proposta seria meritória, no combate à proliferação partidária, não fosse o seu objetivo reduzir o número de rivais da presidente nas urnas de 2014, para dar-lhe a vitória já no primeiro turno. É, por excelência, o caso de Marina. Na última disputa presidencial, concorrendo pelo nanico Partido Verde, ela amealhou perto de 20 milhões de votos, ou 19% do total.

Em si, a mudança das regras se justifica. As novas legendas não perdem o direito de arrebanhar quantos parlamentares queiram se filiar a elas, sem incorrer em infidelidade partidária. Descabido é o arranjo atual que facilitou a migração de dezenas de políticos para o PSD lançado em 2011 pelo então prefeito Gilberto Kassab. Isso porque, graças a uma insólita decisão do Supremo Tribunal Federal, ao arrepio da letra e do espírito da lei, eles puderam carregar na bagagem, como queria o governo, a parcela que lhes corresponderia de tempo de TV e dinheiro do Fundo, como se os seus mandatos lhes pertencessem e não às siglas pelas quais se elegeram.

Com a terceira maior bancada federal, a legenda cujo criador dizia não ser de esquerda, centro ou direita – mas assumidamente dilmista –, foi a quarta mais votada nas recentes eleições municipais. Agora, lado a lado com o PT e o PMDB, o PSD defende descaradamente a mudança da norma que o fez prosperar. As evidências que desnudam o oportunismo do projeto patrocinado pela presidente como parte de sua campanha são irrefutáveis. A primeira foi a rejeição, por 178 votos a 74, da emenda ao texto básico vitorioso na Câmara, semana passada, que adiaria para fevereiro de 2015 a sua entrada em vigor. A segunda é a sofreguidão da presidente em liquidar a fatura o quanto antes, em razão do que a base aliada no Senado dará à matéria regime de urgência, levando-a a plenário sem passar pelas comissões temáticas da Casa.

A terceira evidência foi a decisão da cúpula do PT de obrigar os seus senadores a votar na proposta como está, tão logo um deles, o próprio líder da bancada, Wellington Dias, fez saber que apoiava o adiamento da sua vigência para depois das eleições do ano que vem. A recém-surgida frente contra o casuísmo, aproximando os prováveis candidatos Aécio Neves, do PSDB, Eduardo Campos, do PSB, e Marina Silva, da Rede em formação, além de dissidentes do PMDB, não tem votos para prevalecer no Senado. Mas as suas denúncias, comparando o projeto ao “pacote de abril” baixado pela ditadura em 1977, que fechou temporariamente o Congresso, entre outras violências, são desmoralizadoras para Dilma. Assim também a sua patética tentativa de tapar o sol com a peneira.

18/04/2013

às 13:10 \ Feira Livre

‘Não para em Brasília’, editorial do Estadão

PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA QUINTA-FEIRA

A presidente Dilma Rousseff dorme e acorda pensando em reeleição. E passa dias fazendo campanha. Embora tenha um país a administrar, tem dedicado parte considerável de sua agenda dos últimos tempos a eventos eleitoreiros mal disfarçados de compromissos oficiais. Tendo como seu 40.º ministro o marqueteiro João Santana, a presidente não dá um passo com outro objetivo que não seja o de consolidar sua candidatura precocemente oficializada e avançar em redutos de seus possíveis adversários. Os problemas do Brasil – e de todos os brasileiros – que esperem.

Esta semana começou com campanha. Já na segunda-feira, a presidente, que tinha apenas despachos internos em sua programação naquele dia, deixou o Palácio da Alvorada às 10 horas em carro descaracterizado, isto é, sem identificação da Presidência. Foi a um estúdio a 10 quilômetros do Palácio do Planalto, onde ficou mais de uma hora gravando sua participação no programa partidário do PT, cuja íntegra vai ao ar no dia 9 de maio e cujas inserções diárias serão veiculadas a partir do próximo dia 27. Em seguida rumou para Belo Horizonte, onde passou o resto da tarde e o dia seguinte fazendo campanha de palanque, escoltada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Belo Horizonte é o reduto principal de Aécio Neves, pré-candidato tucano à Presidência. O evento era mais um seminário para celebrar os dez anos do PT no governo federal, mas seu objetivo escancarado era confrontar Aécio, que já acusou Dilma, mineira, de ser uma “estrangeira” em Minas. No dia seguinte, a presidente entregou unidades do programa Minha Casa, Minha Vida em Ribeirão das Neves, na região metropolitana de Belo Horizonte, discursando como se a eleição fosse amanhã.

Já é difícil de dizer onde termina a presidente e onde começa a candidata. Como as condições da economia podem ameaçar uma reeleição que parecia tranquila, apesar da alta popularidade da presidente, Lula apressou-se a antecipar o calendário eleitoral e tirou Dilma do gabinete, colocando-a no palanque. Obediente, a presidente vestiu o figurino populista e saiu a prometer mundos e fundos, inclusive ocupando para isso o horário nobre em cadeia nacional obrigatória de rádio e TV. Nesses pronunciamentos, que mais pareciam comícios, nos quais Dilma tratou de atacar “aqueles que são sempre do contra”, a presidente anunciou medidas que tinham o objetivo de reduzir os preços da cesta básica e baratear as contas de luz. “Não descuido um só momento do controle da inflação”, bradou a presidente, referindo-se às críticas provocadas pela escalada de preços.

Há já algum tempo que Dilma, carregando seu saco de bondades – que inclui a doação de retroescavadeiras e motoniveladoras para municípios com até 100 mil habitantes –, saiu em périplo por regiões do País onde possíveis candidatos oposicionistas são fortes o bastante para representar dificuldades à sua reeleição. Somente neste ano, mais da metade de suas viagens foi para o Nordeste, onde o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), desponta como estrela ascendente e incômoda.

Apesar de ser da coalizão de Dilma, Campos está construindo sua candidatura com base em críticas ao governo, dizendo que “é possível fazer mais”. Além disso, embora o PT tenha avançado na região, seus candidatos foram derrotados em diversas capitais e em cidades importantes na eleição municipal de 2012. Então, tome promessas eleitoreiras: em meio a mais uma grande seca no Nordeste, Dilma anunciou um pacote de R$ 9 bilhões. Não importa que a maior parte desse dinheiro fosse “velha”, isto é, que se tratasse de verbas já empenhadas e de benefícios já existentes. O que importa é o impacto do número vistoso, feito sob medida para a propaganda de João Santana.

No segundo semestre, o foco de Dilma deverá ser São Paulo, Estado que é uma obsessão de Lula. O Planalto torce para que, até lá, as medidas cosméticas para estimular a economia tenham surtido algum efeito, ao menos o suficiente para que possa ser convertido em capital eleitoral, graças à prestidigitação marqueteira de um governo que tem tomado suas decisões exclusivamente de olho nas urnas.

12/10/2012

às 13:29 \ Direto ao Ponto

Mostra de Caravaggio no Palácio do Planalto: Dilma Rousseff, crítica búlgara, analisa o mestre do claro-escuro com uma visão inédita e complexa: “Ele é, sem sombra de dúvida, um grande pintor”

CELSO ARNALDO ARAÚJO

A expertise da presidente como monitora de artes já tinha sido demonstrada na visita da finada Hebe ao Palácio do Alvorada – durante a qual, por muito pouco, ela não convocou o Inspetor Clouseau para investigar o súbito aparecimento do nome de uma certa Elenira num quadro da pintora Djanira ali exposto.

Ok, qualquer um pode tomar Djanira como Elenira ─ esta nunca existiu, a não ser na leitura apressada de Dilma, mas Djanira não é inconfundível. Agora estamos falando de Caravaggio, Michelangelo Merisi da Caravaggio, patrimônio da humanidade, membro do olimpo supremo de pintores de todas as eras, criador de estilo absolutamente próprio, revolucionário a seu tempo e para sempre.

Em cooperação com o governo da Itália, seis telas de Caravaggio, depois de expostas com grande sucesso em São Paulo e Belo Horizonte, agora fazem escala em Brasília ─ mais precisamente no Palácio do Planalto. E não é para menos: a anfitriã, detentora de uma alentada penacoteca ─ uma pinacoteca num pendrive ─ se diz caravaggista de carteirinha. Coube a ela, é claro, inaugurar a mostra, aberta ao público até domingo, dia 14.

Esperem: entre os presentes não está Carlinhos Brown? Sim, Caravaggio é do timbau. É a ele que Dilma se dirige, inicialmente:
“Sabe, Carlinhos, eu tô muito feliz de te receber aqui. Uma exposição dessa ela…”

Pausa. Construções sintáticas como “uma exposição dessa ela” já estão a merecer uma “instalação de dilmês” no Museu da Língua Portuguesa. Sigamos.

“Uma exposição dessa ela exige certos cuidados. Nós vamos ver seis obras de um grande, mas um dos maiores pintores, é, não só, que a Itália deu pro mundo”.

É a primeira vez que vêm à tona, no discurso de inauguração, as únicas três coisas que Dilma sabe dizer sobre Caravaggio: ele não só é um grande, mas um dos maiores pintores; e veio da Itália. Isso será repetido logo diante, para não deixar dúvidas e esgotar o assunto.

Mas por que Caravaggio no Planalto? É fácil explicar ─ menos para Dilma:
“Eu queria dizê que pra mim é um momento especial porque nós estamos aqui numa obra moderna, original, que é o Palácio do Planalto. E ao mesmo tempo estamos recebendo seis telas dum dos maiores pintores”.

Hum. Certamente terá a fã número 1 de Caravaggio tentado estabelecer uma dicotomia temporal entre a obra contemporânea do mestre Niemeyer e as seculares, do mestre italiano. Uma espécie de “chiaroescuro” entre dois momentos da história das manifestações artísticas humanas. Sabe um quadro de Velázquez no Masp da Avenida Paulista? De nada, presidente. Mas esse “estamos aqui” e “ao mesmo tempo” ficou muito esquisito.

Já está achando que Dilma entende tanto de Caravaggio quanto Carlinhos Brown? Você se surpreenderá ao ouvir a porção Robert Hughes da presidente, desafiando até o state-of-the-art da história da arte:
“Que tem gente que diz que (Caravaggio) é do barroco. E eu, pessoalmente, acho que ele é maneirista”.

Hum, hum. Esse “é do barroco” já soa como a versão barraco de quem não sabe o que é ser barroco. E o “gente que diz” inclui aí os maiores críticos de arte do mundo. Bem, se Dilma não quer que Caravaggio seja barroco, azar dos barrocos e de Caravaggio. Agora, se a crítica búlgara “acha” que ele é maneirista, ou seja, um representante do maneirismo, existe aí um pequeno problema cronológico. O dia foi corrido, ela não deve ter conseguido decorar bem a ordem dos termos. Como se ensina nas aulas de arte do ensino médio – se bem que isso pode ter mudado, não sei ─ Caravaggio foi justamente quem deu nova vida à pintura italiana rompendo os artifícios da velha escola maneirista. Ele opôs corpos reais, na bicromia claro-escuro, aos fantasmas maneiristas ─ figuras etéreas, ectópicas. Nas pinturas dele, santos ─ como o São Jerônimo exposto no Planalto ─ ganharam cara de gente comum. É o caso de dizer, Dilma: Caravaggio não foi, de maneira alguma, maneirista. Ao contrário.

Mas a aula de nossa guia não terminou. Depois de desafiar os historiadores, ela retorna ao conceito inicial, desta vez com um trocadilho sábio sobre o mestre do claro-escuro.
“Ele é, sem sombra de dúvida, um grande pintor”.
Perceberam o alcance do jogo de palavras? Claro, escuro, sem sombra, sem dúvida…

Faltava, porém, o toque mais pessoal da admiradora ─ ponto alto da apresentação. Sim, críticos também podem ter suas preferências:
“Eu queria dizê que ele é um dos pintores que na minha vida mais me impressionaram”, como se fosse possível que Caravaggio tivesse impressionado Dilma na vida de Marco Aurélio Garcia. Prossegue, mas vai complicar um pouco:

“Acho que ele tem um, uma própria, a vida dele é altamente dramática e, pra não dizer, em alguns aspectos, trágica”.
Dilma poderia estar falando de 98% dos pintores e artistas do milênio passado, sobretudo entre os séculos 15 e 19. Caravaggio tem algo especial:
“Mas ele foi sempre um grande, um grande (pausa dilmística)… degustador da vida. E isso tá expresso em cada pintura que ele nos legou”.

Claro, o homem inconvivível, que andava de cidade em cidade procurando briga, agredindo e sendo espancado, e que morreu aos 39 anos, da soma dos flagelos que recebeu, era um “degustador” da vida, na visão de Dilma e em “cada pintura que ele nos legou”. Veja apenas o “São Jerônimo que escreve”, exposto no Planalto: a caveira pousada sobre o livro faz parte do menu-degustação de Caravaggio, que também foi fio-condutor de outro submovimento, o tenebrismo.

No fim, apesar do momento festivo, não podia faltar uma bronca da dona da casa:
“Lamento,viu embaixador, que a que eu mais gosto não tenha vindo, que é o Cupido Adormecido”.

Taí, título fácil de ser decorado. O quadro, de fato, é uma beleza ─ se bem que quem realmente gosta e entende um tantinho de arte nunca usaria um “mais gosto” em relação à pintura de um grande mestre.

Atenção: a esplendorosa mostra Caravaggio no Palácio do Planalto só vai até domingo. Antes de sair de casa, certifique-se de que o horário escolhido não cai no plantão da guia Dilma.

PS: Acabo de me dar conta, numa segunda leitura da transcrição do video (sim, o dilmismo exige pesados sacrifícios), de um detalhe que confirma a absoluta e categórica falta de intimidade entre a crítica búlgara e Caravaggio: durante todo o discurso de inauguração da mostra de “um dos maiores pintores”, ela não menciona uma única vez o nome de Caravaggio. Nem certo, nem errado. Nenhuma vez.

Tenho a impressão de que, na história da República, em qualquer campo da atividade humana, jamais um presidente da República tenha inaugurado alguma coisa ou homenageado alguém sem mencionar o nome próprio da coisa ou da pessoa.

Ou não decorou ou não sabe como se pronuncia Caravaggio — ou é um fenômeno de elisão, próprio do dilmês.

08/08/2012

às 21:01 \ Sanatório Geral

Ele voltou

“Aqueles que apostam nesse processo para um desgaste desse projeto político se decepcionarão, porque o povo avalia sua vida, sua realidade, a justiça, e tem sabedoria para colocar cada coisa em seu lugar”.

Gilberto Carvalho, ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, sobre a reação dos brasileiros ao julgamento no Supremo Tribunal Federal, explicando em dilmês primitivo que a maioria dos eleitores do PT acha que a quadrilha do mensalão é igual a quadrilha de festa junina, só que dançada em agosto e setembro.

 

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