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Olívio Dutra

25/04/2011

às 12:51 \ Sanatório Geral

Novilíngua companheira

“Entendo que foi um erro, embora não vá discutir nunca a decisão do presidente de aumentar sua base. Mas entendo que tínhamos um projeto próprio para as cidades que acabou não sendo posto em prática”.

Olívio Dutra, ex-prefeito de Porto Alegre, ex-governador do Rio Grande do Sul e ministro das Cidades no primeiro mandato de Lula, destituído do cargo para que o chefe doasse ao PP uma vaga no primeiro escalão,  ensinando que, no dicionário da novilíngua companheira, “aumentar a base” significa assinar contratos de aluguel ou de arrendamento com qualquer um.

26/10/2010

às 16:48 \ O País quer Saber

Radiografia de uma fraude (3): a secretária virou ministra porque Lula aprovou a sugestão de Lula

Doutor em Física, com mestrado em Engenharia Nuclear, coordenador do grupo que fixou as metas do setor de minas e energia no programa do candidato do PT, o professor Luiz Pinguelli Rosa já escolhera o terno para a festa da posse quando soube que fora preterido. Por motivos ignorados tanto pelo quase ministro quanto pelos demais integrantes da equipe de transição acampada no Centro de Treinamento do Banco do Brasil, em Brasília, a vaga no primeiro escalão foi presenteada a Dilma Rousseff, secretária de Minas e Energia do Rio Grande do Sul.

O que teria levado o dono do time a alterar a escalação minutos antes da entrada em campo?, intrigaram-se os Altos Companheiros. Lula se instalara havia semanas no gabinete presidencial quando se dispôs a desvendar o mistério. “Já no fim de 2002, apareceu lá uma companheira com um computadorzinho na mão”, contou com a placidez de quem está narrando uma história para crianças. Lá era o Centro de Treinamento do BB. “Começamos a discutir e percebi que ela tinha um diferencial dos demais, porque ela vinha com a praticidade do exercício da secretaria. Aí eu fiquei pensando: acho que já encontrei a minha ministra”.

Simples assim. Se Dilma Rousseff fora secretária do governador Olívio Dutra, ponderou Lula ao presidente eleito, por que não promover a companheira do computadorzinho a ministra? Boa ideia, concordou com Lula o presidente eleito. O maior governante desde a chegada das caravelas entende de minas e energia tanto quanto entende de gramática e ortografia. Dilma Rousseff não entende do assunto muito mais que o chefe. Do que trataram nas conversas a dois? O que teria ouvido Lula para julgar dispensáveis consultas a especialistas no ramo e pedidos de informações a quem convivera de perto com Dilma?

Ela se limitou a duas frases ao referir-se à conversa numa entrevista em 2007: “O presidente perguntou como tinha sido o apagão do Fernando Henrique no Rio Grande do Sul, e eu contei que lá não teve apagão”. Mitômanos, quando não mentem simplesmente, contam só um pedaço da verdade. Sim, os gaúchos não foram submetidos ao racionamento de energia imposto em 2001. Nem os catarinenses e os paranaenses, deixou Dilma de dizer. Como não faltaram chuvas, tampouco faltou água nos reservatórios da hidrelétricas da região Sul. Os três Estados escaparam das medidas de emergência não pela competência dos secretários, mas pela clemência da natureza.

Sem chances de concorrer com quem derrotou até o apagão, Pinguelli conformou-se com a presidência da Eletrobrás. Caiu fora em pouco tempo para não continuar exposto ao mau humor da ministra. “Essa moça formata o disquete a cada semana”, ironiza. Para permanecer no emprego, teria de engolir pitos sem engasgos, soluços nem queixumes, como aprendeu a fazer Mauricio Tolmasquim. Quando aceitou ser o secretário-executivo do ministério, ele mal conhecia a escolhida por Lula. Semanas depois da posse, Dilma já estava à vontade para trocar o tratamento cerimonioso por gritos e repreensões. “É o jeito dela, não é pessoal”, conforta-se Tolmasquim. ”Em cinco minutos, fica tudo bem”.

“Nunca tive simpatia pela maneira como Dilma trata as pessoas”, diz o professor Ildo Sauer, demitido pela ministra da Diretoria de Gás e Energia da Petrobras. “Ela não conversa, só dá ordens. Mas é um doce com quem está acima dela”. Como a guerrilheira obediente aos comandantes dos grupos clandestinos, como a mulher dócil no trato com os maridos, como a secretária que nem piava nas reuniões do governo gaúcho, a ministra sempre sabe com quem está falando. Sabe, portanto, a hora do grito e a hora do sussurro.

Num e-mail endereçado aos amigos, Sauer confessou que foi uma das vítimas do conto da Unicamp. No fim de 2002, os integrantes do grupo de energia do Instituto Cidadania, do PT, entregaram à direção da entidade os currículos atualizados. Sauer leu o apresentado por Dilma e conferiu o ponto mais vistoso: tinha mesmo concluído o curso de doutorado?, perguntou. Diante da resposta positiva, quis saber se a doutora toparia participar da banca que examinaria a tese de um candidato a doutor. “Não tenho tempo para essas coisas”, recusou com rispidez a convidada.

“Hoje compreendo”, disse Sauer na mensagem pela internet. “O desprezo e o desdém eram ferramentas para encobrir a impostura… Há outras”. Quais seriam? Sauer não quer divulgá-las agora. “O que já se sabe é suficiente para mostrar que Dilma não é nada do que se imaginava”, explica. É só uma fraude.

(Texto publicado em 08/12/2009)

14/08/2010

às 20:00 \ Direto ao Ponto

Os restos mortais do Fome Zero se espalham pela cidade onde nasceu

Memorial do Fome Zero (foto: André Pessoa)

Concebido pelo presidente Lula, o Programa Fome Zero nasceu em 3 de fevereiro de 2003 num palanque armado na única praça de Guaribas, interior do Piauí. Morreu dois anos depois sem ter saído do berço, mas nunca teve sepultamento cristão. Ninguém providenciou o velório, o atestado de óbito não foi expedido. Só existe a certidão de batismo, assinada pelo governador Wellington Dias e por quatro ministros que, na festa eleitoreira promovida há sete anos e meio, enxergaram no recém-nascido a cara do Brasil-Maravilha inventado pelo maior goverrnante de todos os tempos.

Depois da discurseira do governador, depois do falatório dos ministros Ciro Gomes (Integração Nacional), Benedita da Silva (Assistência e Promoção Social), José Graziano (Segurança Alimentar) e Olívio Dutra (Cidades), os quase 5 mil habitantes souberam como seria, no máximo até dezembro de 2006, a vida de quem tivera a sorte de vir ao mundo no lugarejo promovido por Lula a Capital do Fome Zero. Um vidaço de Primeiro Mundo.

Em um ano, todos teriam direito a três refeições por dia. Em dois, a cidade seria premiada com médicos, um hospital, postos de saúde, uma farmácia, escolas, esgoto, água, luz, telefone, calçamento, um hotel, uma estrada asfaltada de 53 quilômetros, um programa de fortalecimento da agricultura familiar, outro de capacitação profissional. Quem não ganhasse dinheiro no campo prosperaria na cidade como artesão ou costureira. Uma empresa do governo, Emgerpi, seria criada na semana seguinte para cuidar exclusivamente do mundaréu de canteiros de obras. E para administrar com especial carinho o Memorial do Fome Zero, colosso arquitetônico destinado a eternizar a lembrança do dia em que tudo mudou.

As coisas se arrastaram até 2005, quando o governo Lula descobriu que o Bolsa-Família era bem mais simples e rendia muito mais votos, matou o Fome Zero de inanição e tentou sumir com o corpo. Não conseguiu, comprovou há um mês a jornalista Tânia Martins, da Tribuna do Piauí. A reportagem publicada em julho expôs o cadáver em decomposição da fantasia oportunista. Espalhados pela cidade iludida, os restos mortais do Fome Zero fazem de Guaribas uma prova contundente de que a visão do Brasil real é obscurecida por um país do faz-de-conta que só existe na propaganda oficial.

Lula repete no comício de todos os dias que os miseráveis não existem mais. Dilma Rousseff recita desde o começo da campanha que os pobres foram transferidos para a classe média. Se no país do presidente e da candidata as guaribas sumiram, no Brasil verdadeiro continuam assoladas pelas carências de sempre. E flageladas pela mesma fome crônica que segue assombrando a capital do Fome Zero.

Passados sete anos e meio, há em Guaribas, além da multidão faminta, um posto de saúde, um médico, nenhum hospital, três enfermeiros, nenhuma farmácia, três escolas, cinco telefones públicos, uma lanchonete, uma mercearia, uma agência do Bradesco. As calçadas são contadas em metros, as ruas continuam sem pavimentação, só existe água em poucas casas, falta energia elétrica, um vasto arquipélago de fossas negras denuncia a inexistência de rede de esgoto no aglomerado de 942 residências, incluídos os casebres miseráveis que o governador e os ministros prometeram erradicar.

O programa de capacitação profissional parou nas máquinas de costura que enferrujam perto da praça. A agricultura familiar nunca desceu do palanque: neste ano, a safra se resumiu a um punhado de sacos de milho. A estrada não foi pavimentada. A construção do memorial ficou no esqueleto. Esquecido pelo PAC, que entre o que não vai construir incluiu até um trem-bala, o monumento virou ruína sem ter sido inaugurado.

Como as 805 bolsas-família são insuficientes, a fome aumentou e a  população diminuiu. “As pessoas estão indo embora em busca de trabalho”, lamenta o secretário de Administração da prefeitura, Edmilson Pereira Maia, que atribui o fiasco do Fome Zero ao descaso do governo federal. “Eles montaram aqui uma administração paralela e depois abandonaram tudo”, informa. O escritório ocupado pela Emgerpi está com as portas lacradas há mais de ano. Manoel Gomes, dono do imóvel, avisa que só vai devolver a mobília e os objetos que reteve quando receber o aluguel atrasado.

Lula prometeu visitar Guaribas duas vezes. Nunca deu as caras por lá, mas viu as caras dos crédulos quando mandou importar alguns nativos para uma audiência em Brasília. Carmelita Rocha, hoje com 70 anos, foi embarcada com a comitiva. Jamais soube exatamente o que foi fazer na capital, mas garante que viveu os melhores momentos da vida. Viajou de avião, comeu bem, dormiu num quarto de hotel, passeou em carros de luxo. Foi a primeira vez que viu como é a vida longe da miséria. E a última.

Viúva há três meses, sustenta a própria família e a da irmã, que também enviuvou recentemente, com os R$ 400 da aposentadoria que herdou do marido, enterrado na cova rasa com o corpo envolvo numa rede. “Compro um saco de arroz, café, açúcar, massa de milho, sabão e só”, diz Carmelita. “Não estamos passando fome rachada, mas são vários dias que não temos o que comer”. Ela recorda nitidamente do comício que lhe prometeu três refeições por dia. Se conseguisse uma, Carmelita ficaria muito feliz.

Carmelita Rocha (foto: André Pessoa)

06/12/2009

às 1:47 \ Direto ao Ponto

Radiografia de uma fraude (2): a secretária renegou o padrinho para garantir o emprego

A Dilma Rousseff dos relatórios hiperbólicos dos órgãos de segurança nunca foi vista pelos dois maridos de Dilma Vana Rousseff, filha da mineira Dilma Jane, dona-de-casa, e do búlgaro Pedro Rousseff, advogado e empresário.  A papelada policial se derrama em fantasias sobre as proezas e o estilo da jovem promovida arbitrariamente a “grande líder da VAR-Palmares”, grupo clandestino que se definia como “uma organização político-militar de caráter partidário, marxista-leninista, que se propõe a cumprir todas as tarefas da guerra revolucionária e da construção do Partido da Classe Operária, com o objetivo de tomar o poder e construir o socialismo”. Essa Dilma os dois maridos não conheceram.

Sorte deles. Caso fosse ela a noiva, acumulariam derrotas devastadoras na guerra conjugal travada contra a superguerrilheira enérgica, voluntariosa, onisciente,  nascida para comandar e conduzir, que distribuía ordens e pitos entre marmanjos de alta periculosidade empenhados em derrubar a ditadura militar a bala. Como se casaram com a Dilma de verdade, ambos conviveram com a mineira de Belo Horizonte que sempre falou pouco, jamais abrilhantou encontros de combatentes com intervenções luminosas, só jogou na segunda divisão da luta armada e percorreu sem queixumes nem amuos os caminhos riscados pelos maridos.

Levada pelo primeiro, o também mineiro Cláudio Galeno de Magalhães Linhares, Dilma filiou-se a uma organização comunista chamada Política Operária, a Polop, e depois se transferiu para o Comando de Libertação Nacional, o Colina. Levada pelo segundo, o gaúcho Carlos Franklin Paixão de Araújo, juntou-se à Vanguarda Popular Revolucionária-Palmares e em 1973, depois de três anos na prisão, foi para o Rio Grande do Sul e para o PDT de Leonel Brizola. Ali, seguiu o script escrito de ponta a ponta pelo parceiro influente no partido.

O primeiro emprego público relevante veio em 1986, quando o prefeito Alceu Collares, a pedido de Carlos Araújo, instalou na Secretaria da Fazenda de Porto Alegre a correligionária que mal conhecia. Ao deixar o cargo dois anos mais tarde, para dedicar-se à campanha do marido candidato à prefeitura, recomendou ao jornalista Políbio Braga que recusasse o convite para substituí-la. “Não assume não, que isso pode manchar a tua biografia”, avisou. “Eu não consigo controlar esses loucos e estou saindo antes que manche a minha”.

Políbio admitiria depois que talvez devesse ter examinado a sugestão com mais carinho — mas por outros motivos: “Ela não deixou sequer um relatório. A secretaria era um caos”. Esse arranhão no auto-retrato da superexecutiva foi ampliado no ano seguinte com a curta passagem pela diretoria-geral da Câmara de Vereadores. “Eu a exonerei porque houve um problema com o relógio de ponto”, lembra o ex-presidente Valdir Fraga. “Ela chegava atrasada todo dia”, traduz um assessor. De novo pelas mãos de Araújo, saiu do limbo em 1990, com a chegada de Collares ao governo gaúcho. Depois de presidir por três anos a Fundação de Economia e Estatística, assumiu em 1993 a Secretaria de Energia, Minas e Comunicações.

A ascensão poderia ser menos demorada se o marido não se tivesse equivocado em 1986. Em vez de apoiar Pedro Simon, adversário histórico do regime militar e candidato a governador pelo PMDB, Dilma também defendeu a aliança com o PDS de Nelson Marchezan, que ofereceu ao PDT a vaga de vice. Dilma não viu nada de estranho na parceria com o parlamentar que comandara a Câmara dos Deputados durante o governo do general João Figueiredo? Nem com o partido que dera sustentação parlamentar à ditadura? “Marchezan foi líder da ditadura, mas nunca foi um enragé“, desconversou vinte anos depois da derrota. “A ala Marchezan era a ala da pequena propriedade radicalizada. E ele era um cara ético”. Ninguém entendeu, mas, como Dilma falava só de vez em quando, os ouvintes acabaram assumindo a culpa: deveriam ter prestado mais atenção à sumidade.

Assim seria em 2000. Dois anos antes, a bordo do acordo entre o PDT e o PT do governador Olívio Dutra, Dilma voltara à secretaria de Energia. Forçada a decidir-se entre Alceu Collares e Tarso Genro, que disputavam a prefeitura de Porto Alegre, optou pelo PT para continuar no emprego. Contrariou o marido pela primeira vez, renegou o padrinho, fez de conta que a aliança com Marchezan não existiu e caprichou no palavrório: “Não aceito alianças neoliberais e de direita”. Brizola mirou na testa dos pedetistas que, como Dilma, migraram para o PT depois da vitória de Tarso no segundo turno: “Eles se venderam por um prato de lentilhas”.

Ao fim de uma reunião do PDT gaúcho de que Dilma participara, Brizola confessou que, “talvez porque essa moça fale pouco”, não conseguia entender direito o que ela dizia. Morreu sem saber que ninguém entende dilmês.

25/11/2009

às 14:08 \ Sanatório Geral

Toda exceção tem regra

“Lula tem certeza de que em um segundo governo da esquerda uruguaia, comandada por Mujica, a relação entre nossos povos será mais produtiva e rica, especialmente na área do Mercosul”.

Olívio Dutra, ao aplaudir o apoio do presidente brasileiro ao candidato José Mujica, explicando que Lula, quando diz que “não se mete em assuntos de outros países”, enuncia uma regra que é válida para o Irã mas, como todas, tem exceção, o que permite discurseiras eleitorais sobre a Venezuela, os Estados Unidos, o Paraguai, Honduras e qualquer outro lugar do mundo em que o cara resolva intrometer-se.


 

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