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Olimpíada

24/09/2012

às 19:00 \ Feira Livre

Diário da Dilma: Urubu que vai à praia volta de papo seco

PUBLICADO NA EDIÇÃO DE SETEMBRO DA REVISTA PIAUÍ

1º DE AGOSTO ─ É encantadora a cerimônia de abertura dos Jogos. As vaquinhas, as chaminés da Revolução Industrial, Shakespeare, Dickens, uma história tão bonita. Tudo muito apropriado. Só senti falta de um quadro mostrando Marx escrevendo Capital.

Um reparo: a rainha pulando do helicóptero eu não gostei, não. Não é coisa que orne. Já estou vendo a Daniela Thomas me pedindo para despencar do bondinho do Pão de Açúcar em 2016. Não, não e não. Se insistir, mando ela e o Paes para as minas de sal da Bulgária.

2 DE AGOSTO ─ Pegou mal ir de preto me encontrar com a rainha. A Ideli é que sugeriu. Quem manda seguir conselho de gente de Santa Catarina?

Fui fazer umas comprinhas em Londres, coisa pouca. Adoro aquelas calcinhas da Marks & Spencer! Mas pedi para a Paula comprar.

Imagina se me pegam na seção de lingerie?

3 DE AGOSTO ─ Fiquei emocionada ao visitar o museu de cera da Madame Tussauds. Parecia que estava entrando no Congresso: me lembrei do Sarney, Dornelles, Cafeteira, Simon…

4 DE AGOSTO ─ Hum, más notícias da Petrobras. Vou ter que falar com jeito com a Gracinha porque ela é muito emotiva. Ela diz que pegou a firma na maior bagunça e que está tentando arrumar…

Passei em frente à tevê e vi o Cielo chorando. Não sabia que ele era acionista da Petrobras.

5 DE AGOSTO ─ “A repaginação de Dilma teria se inspirado no visual chique da estilista Carolina Herrera.” Quem diz é a Vanity Fair. Dilminharules.

A Ideli veio jogar truco e deixei o iPad assim meio no caminho, com a minha cara estampada na capa da Vanity Fair on-line. Ela ficou mais vermelha do que passeata de sem-terra.

6 DE AGOSTO ─ Basta viajar para O Globo me aprontar uma reforma gráfica! Espero que não tenham sumido com a coluna do Caetano. E que a nova paginação facilite a compreensão da coluna do Caetano.

7 DE AGOSTO ─ Menina! Cortaram bem uns 30% do espaço do Merval! Concentrando bem, agora dá para ler a coluna em menos de uma hora!

8 DE AGOSTO ─ O Kalil enlouqueceu? Como assim dizer que “agora Lula pode sair de casa e ir para um palanque falar 24 horas”? Tenho certeza de que existe alguma convenção internacional proibindo esse tipo de coisa.

A Graça admitiu erros e a ação da Petrobras subiu. Hum. Se eu admitir que o Mantega é invenção minha, será que o país volta a bombar?

9 DE AGOSTO ─ Julgamento do mensalão, Olimpíadas, Avenida Brasil pegando fogo. Posso dissolver o Congresso e instaurar uma monarquia que ninguém vai notar.

Morreu o Magro do MPB-4. Nossa, como consumi literatura subversiva ao som de Tereza Tristeza

10 DE AGOSTO ─ Será que o Mercadante ficaria bem com esse bigodão mexicano do Giba?

11 DE AGOSTO ─ Falei com o Lula para dar um jeito nessas centrais sindicais. Ele meio que se fez de morto. Ficou apontando para a garganta. Ué, o Kalil não liberou?

12 DE AGOSTO ─ Essas coisas eu não digo em voz alta, mas confesso que meu coração acelerou um pouquinho com a vitória da Rússia sobre o Brasil na final do vôlei. Acho que ainda é o meu lado comunista.

Agora é esperar amanhã pelos nossos oito minutos na cerimônia de encerramento. Minha Virgem de Medjugorje, não permita que tenha capoeira e bumbum de mulata.

13 DE AGOSTO ─ Teve. Ai, que vergonha. E a Kate estava lá, defascinatore tudo.

14 DE AGOSTO ─ Está decidido: terei de dar um pitaco na abertura das nossas Olimpíadas. Não quero festa cabeça e muito menos exibição de fio-dental. Vou recomendar uma apresentação dos Periquitos em Revista. Eles são bárbaros. E os Canarinhos de Petrópolis, lindinhos! Aviso aos navegantes: se alguém tiver a maldita ideia de lembrar do saci-pererê, casso a cidadania; e Arnaldo Antunes, não… De incompreensível, basta a minha política econômica.

O Temer já mandou avisar que o PMDB quer duas vagas no carregamento da bandeira olímpica.

15 DE AGOSTO ─ Estou muito espontânea ultimamente. Soltei aquela “boxear o que atrapalha o crescimento” assim, sem pensar. Justo depois de receber aqueles dois que ganharam medalha no boxe. E diziam que eu não tenho carisma! O João Santana me ligou para dar parabéns.

16 DE AGOSTO ─ O Eike é uma graça mesmo. “O pacote é um kit felicidade.” Que amor. Escutaram, seus grevistas? Gente agradecida é tão melhor. O Esteves, o Odebrecht, o Eike… com esses a gente constrói um país.

17 DE AGOSTO ─ Não aguento mais explicar essa história de concessão e privatização. É tudo intriga daqueles mariquinhas do PSDB. Não é a mesma coisa. Por quê, não sei. Mas que não é, não é!

18 DE AGOSTO ─ Como é bocudo o Gilbertinho! Oh, herança maldita! Mandei todo mundo fechar o bico sobre o processo do mensalão. Mas ele não consegue! “Quem aposta no desgaste do governo vai se decepcionar.” Que governo, cara pálida? Ordenei silêncio total para ninguém ligar o nome à pessoa. Mas ele tem que abrir o bocão com aquele jeito de padre em encontro de casais.

19 DE AGOSTO ─ Essas reuniões com o povo do Mercosul testam minha veia diplomática. Na última, o Mujica me apareceu com uns sapatos que não dava nem para figurante de O Tempo e o Vento. Sapato de agricultor, segundo ele. Que preguiça desse populismo. E o Evo Morales nessa briga com a Coca-Cola me deixou apavorada. Será que vou ter que tomar o tal do mocochinche quando for à Bolívia? É o refresco novidade dele. De raiz… Já avisei ao Patriota: se Evo me aparecer com um daqueles grupos de flautinha andina, mando invadir.

21 DE AGOSTO ─ Esse Roberto Gurgel não é a cara do Jô?

22 DE AGOSTO ─ Saiu a lista da Forbes. Fiquei um pouco tristinha. Continuo em terceiro, mas estou bonitona na capa. E a Gracinha, hein? Vigésimo lugar. E sem cortar o cabelo nem dar um jeito na Petrobras.

23 DE AGOSTO ─ Meu são Domingos Sávio, dai-me paciência. Os grevistas agora deram de vir fazer arruaça aqui na porta do Palácio. É muita folga! Gente mimada do Lula… Vou cortar o ponto, taxar cerveja e pagode, e obrigar todas as empresas públicas a deixarem os aparelhos ligados na tv Brasil. Urubu que vai à praia volta de papo seco. Guerra é guerra.

24 DE AGOSTO ─ Estou querendo fazer umas aplicações de laser para ressuscitar o colágeno. Tem aqui em Brasília mesmo. É meio caro, 2.700 reais a sessão. Será que presidenta não leva um desconto? Depois eu peço para a Helena Chagas soltar em off o nome da clínica.

25 DE AGOSTO ─ Estou preparando uma surpresa para o Moreno. Ele sai do Ministério e vai ser presidente do Senado. É muito mais chic, aparece muito mais no Jornal Nacional, tem muito mais mordomia e sossego. Pergunto: o que aquela voz maviosa e porte imperial têm a ver com brocas, poços, hidrocarbonetos?

26 DE AGOSTO ─ Cada país tem o Assange que merece. O Battisti, pelo menos, é quieto. Deve ser o primeiro italiano triste desde Marco Aurélio.

27 DE AGOSTO ─ Será que fica muito ruim colocar uma blusa de oncinha? É lindo demais! Não sei se a liturgia do cargo, como diria o bisbilhoteiro do Sarney, comporta uma ousadia dessas.

28 DE AGOSTO ─ Tive que almoçar com o Lula. Era bacalhoada. Salgada até não poder mais… De noite precisei colocar as pernas pro alto porque fiquei inchada de tanto sal. Ainda bem que no dia seguinte já tinha marcada uma drenagem linfática.

15/08/2012

às 11:00 \ Feira Livre

‘Baixar a bola’, por J. R. Guzzo

PUBLICADO NA EDIÇÃO DE VEJA DESTA SEMANA

J. R. GUZZO

De quatro em quatro anos, por ocasião da Olimpíada e sob a influência do colossal volume de espaço e de tempo que os meios de comunicação decidem dedicar ao tema, o Brasil desenvolve uma súbita e desesperada paixão por esportes que não interessam praticamente a ninguém. Falando francamente: fora os próprios atletas, suas famílias e um magro círculo de aficionados, quem está ligando, por exemplo, para o futebol feminino, os 400 metros de nado medley ou as competições de arco e flecha? Uma ou outra modalidade, como vôlei ou basquete, ainda tem algum público fora dos Jogos, mas assim que acaba a cerimônia de encerramento tudo volta à apatia de sempre. De onde vem, então, essa agonia por medalhas que tortura tanta gente no período de disputa olímpica? O que se sabe, por enquanto, é que não são as competições, em si mesmas, a grande atração; o que interessa é a contabilidade de ouros, pratas e bronzes que “o Brasil” consegue levar para casa. Como essa soma, por melhor que seja em relação ao passado, nunca chega a colocar o Brasil no pelotão de frente, o público se vê condenado a ouvir que há uma “crise” grave em tudo aquilo que os brasileiros perdem, do basquete feminino ao remo masculino. Não passa pela cabeça de quase ninguém, em condições normais, que qualquer derrota dessas possa ser um problema. Por que seria? Durante a Olimpíada, porém, tudo se torna um caso de extrema-unção.

Se o que realmente interessa é o número de medalhas, e não o esporte, a situação fica realmente difícil, pois ninguém ainda descobriu como se faz para conseguir um número ideal de vitórias na Olimpíada. Não é prático, ao que parece, pensar na criação de um sistema de cotas para a distribuição das medalhas, apesar da alta estima que o governo brasileiro e seus admiradores têm por esse tipo de solução. Faltam negros nas universidades? Criam-se cotas para equilibrar os números. Faltam empregos para deficientes físicos? Criam-se cotas para forçar sua contratação pelas empresas. Faltam medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos? Por que não fixar, então, uma cota mínima de pódios para cada país participante? A triste verdade é que existe uma concentração indiscutível de medalhas, principalmente de ouro, nas mãos de uma minoria; num mundo com quase 200 países, os cinco primeiros ganhadores ficam com mais ouros que todos os outros somados. E o que dizer de casos extremos como o do nadador americano Michael Phelps? Com apenas 27 anos de idade, e apenas entre 2004 e 2012, o rapaz acumulou sozinho dezenove medalhas de ouro – não muito menos que o total ganho pelo Brasil inteiro, em todas as modalidades, desde que disputou sua primeira Olimpíada, em 1920. Onde está a justiça de um sistema que leva a tais desigualdades? Cotas iriam garantir, certamente, uma distribuição mais democrática das medalhas entre os competidores. Um jeito de fazer isso, por exemplo, seria obrigar Phelps a só cair na piscina quando os outros já estivessem na metade do percurso, ou segurar por cinco segundos a largada de Usain Bolt na corrida dos 100 metros livres. Outra solução, bem mais direta e segura, seria distribuir logo no início dos Jogos um número mínimo de medalhas a cada país, de acordo com critérios destinados a promover um pouco mais de igualdade social. O Brasil, em razão do tamanho de seu território, população de 190 milhões de habitantes e injustiças sofridas no passado, poderia começar, digamos, com pelo menos dez medalhas de ouro; o que conseguisse ganhar além disso seria lucro.

Como ninguém vai aceitar nada parecido, a começar pelos atletas brasileiros (e todos os demais), a saída mais razoável é iniciar, desde já, um esforço para encarar com um pouco mais de calma toda essa história de Olimpíada ─ até porque a próxima será no Rio de Janeiro, e os níveis de histeria em relação a medalhas já prometem superar tudo o que se viu até agora. O Brasil, principalmente por causa da pressão feita pela mídia, tem muita dificuldade para aceitar a ideia de que os adversários ganham uma competição por terem chegado na frente, saltado mais alto ou feito mais pontos. Tudo é uma questão de honra nacional ─ de “atitude”, “entrega”, “superação”, “vergonha na cara”.

O atleta tem de ser “guerreiro”, etc. Quando ganhamos alguma coisa, há uma gritaria alucinada: “É o Brasil! É o Brasil!”. Não é; é apenas o mérito individual de quem ganhou. Quando perdemos, é o mesmo barulho, só que ao contrário: faltou “raça”, “respeito”, “apoio”. Está mais do que na hora de baixar essa bola.

14/08/2012

às 21:22 \ Sanatório Geral

Neurônio olímpico (1)

“Meus cumprimentos a todos os atletas que ganharam medalhas para o Brasil, tanto os que ganharam medalha de bronze, como os que ganharam medalha de prata, como os que ganharam medalha de ouro”.

Dilma Rousseff, capturada por Celso Arnaldo no mesmo encontro, demonstrando que em dilmês é possível ganhar medalhas olímpicas quatro vezes numa única frase.

14/08/2012

às 19:33 \ Sanatório Geral

Neurônio olímpico

“Eu acho que o Brasil tem um objetivo: nós queremos elevar o número de medalhas”.

Dilma Rousseff, capturada por Celso Arnando em encontro com os boxeadores Yamaguchi e Esquiva Falcão no Palácio do Planalto, surpreendendo aqueles que sustentam que o Brasil deve fazer o máximo possível para reduzir suas medalhas nas Olimpíadas do Rio.

17/04/2012

às 20:00 \ Frases

Sem falsa modéstia

“O Brasil nunca ganhou um ouro olímpico porque nunca joguei.”

Pelé, em um surto de modéstia

29/10/2011

às 8:09 \ Sanatório Geral

Por pouco

“A orientação é procurar conduzir o ministério com os desafios que estão à frente do país: Copa, Olimpíada e todas as tarefas relacionadas com os programas do ministério.”

Aldo Rebelo, novo ministro do Esporte, garantindo que a Fifa e o Comitê Olímpico Internacional resistiram à tentação de cancelar a Copa de 2014 e os Jogos de 2016, ideia que os cartolas gringos acharam particularmente luminosa depois que souberam do que Orlando Silva e seus camaradas andaram fazendo por aqui.

25/07/2011

às 15:41 \ Feira Livre

É, sim, o dinheiro do povo

ARTIGO PUBLICADO NO GLOBO DESTA QUINTA-FEIRA

Ao lado do governador Geraldo Alckmin, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, descumpre promessa e assina lei de incentivo fiscal para o estádio do Corinthians, clube presidido por Andrés Sanchez

Carlos Alberto Sardenberg

Copa do Mundo sai muito caro para o país organizador. A maior parte do dinheiro sai do governo, ou seja, do bolso do contribuinte. Por isso mesmo, a decisão de pleitear a sede da Copa é política e vai além dos órgãos esportivos.

Que vai muito dinheiro público para a Copa de 2014 no Brasil — estamos verificando a cada dia. Também constatamos que foi praticamente inexistente o debate sobre a disposição de realizar (ou não) os jogos. O então presidente Lula carregou a candidatura brasileira como um esforço e, depois, uma conquista pessoal, sem enfrentar resistências. Quem podia ser contra a chance de recuperar o título numa final no Maracanã? Logo, hoje, não se pode reclamar dos custos cada vez mais elevados, não é mesmo? Verdade que algumas autoridades haviam garantido que não haveria doação de dinheiro público para os estádios da Copa. Mas essa tese não resistiria a dois minutos de conversa. Havia o precedente do Pan e, além do mais, autoridades sempre recorrem a um sofisma. Dizem que conceder financiamentos, empréstimos especiais e isenções de impostos não é doar dinheiro, mas fazer investimentos que resultarão em benefícios sociais e fiscais mais à frente.

Essa tese faz sentido. Com ou sem Copa, o país precisa de aeroportos maiores e melhores. A Copa faz dessa necessidade uma urgência. Depois dos jogos, permanecem os equipamentos urbanos à disposição do público. O tal legado. Cabe discussão. Um superaeroporto na cidade de Natal será uma adequada prioridade de gasto público? Um estádio na Zona Leste da cidade de São Paulo, o do Corinthians, é a melhor maneira de desenvolver aquela região? Ou seja, é possível que, por causa da Copa ou a pretexto dela, obras desnecessárias no momento tornem-se prioritárias e urgentes. São aquelas que se transformam em elefantes brancos. Tudo considerado, a verdadeira questão não é saber se e quanto dinheiro público vai para a Copa, mas se a coisa toda está sendo bem ou mal feita. Isso pode e deve ser discutido.

Estamos atrasados, é verdade. Mas vale a pena mesmo, ainda que seja como aprendizado. Não se pode esquecer que ainda temos as Olimpíadas pela frente. Por exemplo, está em tempo de reduzir o número de cidades que receberão jogos. Aquelas que estão muito atrasadas na preparação poderiam simplesmente ser eliminadas. É muito mais econômico concentrar mais jogos em menos estádios. E fazer menos arenas, claro.

A reforma do Maracanã, para ser no mínimo o palco da finalíssima, é muito cara mas passou assim como absolutamente natural. Caberia um debate sobre o que se poderia fazer com o dinheiro da reforma? Quantas UPPs, por exemplo? E a própria reforma? Não seria mais barato um estádio novo em algum outro lugar ou no lugar do atual? Mas não. Parece que há um consenso nacional: vamos ganhar a Copa no mesmo Maracanã, reformado, mas o mesmo de 1950. Se acontecer isso mesmo, será o modo mais caro do mundo de lavar a alma. Se perder… Em São Paulo, o prefeito Gilberto Kassab e o governador Geraldo Alckmin sustentam que a capital paulista não pode ficar sem a abertura da Copa e que isso exige investimentos públicos. Ora, por que não pode? Qual o prejuízo para os paulistanos? Orgulho ferido se a abertura (o jogo Espanha, atual campeã, contra um time menor) fosse em Belo Horizonte? O outro argumento diz que a realização da abertura traz negócios para a cidade. Mas que custo?

Tal como está montada a engenharia financeira até o momento, o estádio do Corinthias, para ser também o da abertura, tem dinheiro dos três níveis de governo. O federal, via BNDES, vai emprestar R$ 400 milhões, aos juros subsidiados. A prefeitura oferece R$ 420 milhões em incentivos. O prefeito dizia que era apenas isenção para o estádio. Mas não será simples assim. A prefeitura emitirá Certificados de Incentivo ao Desenvolvimento para o Fundo de Investimento Imobiliário responsável pela construção da arena. O Fundo poderá vender esses certificados para empresas que tenham IPTU e ISS a pagar. Assim, contribuintes que pagariam em dinheiro para a Prefeitura vão entregar Certificados comprados do Fundo. A Prefeitura deixa de receber os R$ 420 milhões, dinheiro que fica como financiamento para o Fundo aplicar no estádio. E finalmente, o governo paulista vai colocar algo entre R$ 60 e R$ 70 milhões para instalar na arena corintiana 20 mil lugares provisórios e assim chegar aos 68 mil necessários para um “estádio abertura de Copa”. Como dizem diretores do Corinthians: o timão precisa de um estádio de 48 mil lugares se a prefeitura e o governo estadual querem a abertura têm de pagar por isso.

É mais um dinheiro do contribuinte. Haverá muito mais país afora. E tudo na conta do “agora não tem mais jeito”. Não queriam ganhar a Copa aqui? E o pior de tudo é que o mais importante, a Seleção, não vai lá das pernas.

Sempre com dinheiro público, há Copas e Olimpíadas bem feitas e outras que deixam um rastro de desperdício. Ainda daria para salvar as Olimpíadas?

29/06/2011

às 10:33 \ Sanatório Geral

A serviço da nação

“Ao se colocar o termo sigiloso, que foi um cuidado para transformar em crime se houvesse o vazamento do preço licitatório, ficou a impressão que ninguém saberia  esses preços. Mas haverá o acompanhamento permanente da obra pelo órgãos de controle”.

Romero Jucá, líder do governo na Câmara, sobre a instituição da roubalheira secreta e sem risco de cadeia na gastança com as obras da Copa do Mundo e da Olimpíada, informando que o governo tentou tornar tudo mais transparente ao infiltrar o termo “sigiloso” no texto aprovado pelos parlamentares comparsas.

26/06/2011

às 18:17 \ Direto ao Ponto

A abulia dos brasileiros assaltados explica o crescente descaramento dos assaltantes

A legalização da gastança criminosa em segredo, decerto a mais obscena das pilantragens infiltradas no Regime Diferenciado de Contratações, vulgo RDC, talvez tenha sido escalada para o papel de bode na sala. Com a remoção do sigilo bandido, os brasileiros que pagam todas as contas podem acabar engolindo sem engasgos, por achá-la menos intragável, a abjeção aprovada pela Câmara. É tudo o que os gatunos querem.

Agir em sigilo é sempre mais confortável, mas furtar com cara de quem presta serviços à pátria é uma das especialidades da turma que organiza, com o olho rútilo e o lábio trêmulo, a Copa da Roubalheira e a Olimpíada da Ladroagem. O texto que regulamenta o assalto aos cofres públicos sem perigo de cadeia embute uma gazua em cada parágrafo. Uma das mais eficazes é a que elimina tanto a apresentação do projeto básico quanto a limitação das despesas. Favorecida pelas duas espertezas, a procissão de “gastos imprevistos” vai produzir milagres da multiplicação do patrimônio de matar de inveja um Antonio Palocci.

Os retoques que conseguiram tornar apavorante um horizonte desde sempre perturbador confirmaram que, para anabolizar a criatividade, nada melhor que a ganância. O deputado Jovair Arantes, do PTB de Goiás, emplacou uma emenda que estende as regras do RDC a todas as obras  executadas num raio de 350 quilômetros em torno de qualquer das 12 sedes de grupos da Copa. Como Brasília vai hospedar uma das chaves, por exemplo, a licença para roubar será estendida a Goiânia, onde Arantes caça votos. Excitada com a ideia, a bancada do PDT radicalizou: propôs a aplicação da malandragem em todo o território nacional.

No país dos desmemoriados profissionais, convém lembrar de meia em meia hora que o orçamento dos Jogos Pan-Americanos de 2007, realizados no Rio, começou em R$ 400 milhões e alcançou estratosféricos R$ 3,7 bilhões. Dez vezes mais. Tanto dinheiro por nada: a infraestrutura da cidade não herdou uma única obra relevante. Como sempre, a discurseira ufanista foi só a senha que anuncia a iminente ofensiva dos quadrilheiros.

O governo e o Congresso tiveram três anos para aperfeiçoar a lei de licitações. Nada fizeram. Deliberadamente, deixaram o tempo passar até que chegou a hora de transformar a pressa em pretexto para a reprise do roubo em escala ampliada. A abulia das vítimas explica a desfaçatez dos reincidentes. Com assaltados que não reagem a ataques sucessivos dos mesmos assaltantes, é natural que os larápios de terno nem confiram se há algum camburão por perto.

Eles nem imaginam que, não faz tanto tempo assim, seus colegas de ofício ao menos temiam que alguém chamasse a polícia.

24/06/2011

às 20:49 \ Direto ao Ponto

A lista dos 158 deputados que nem apareceram para votar na sessão que aprovou a roubalheira secreta

Na sessão que escureceu ainda mais a imagem da Câmara, só se livraram do desprezo dos brasileiros honestos os 76 deputados que votaram contra o projeto que institui a roubalheira secreta e sem limites na gastança com as obras da Copa e da Olimpíada. O espetáculo da infâmia foi protagonizado pelos 272 parlamentares que aprovaram a obscenidade, pela trinca que ficou empoleirada em cima do muro e por outros 158 que optaram pela cumplicidade covarde: esses nem deram as caras no plenário. Com o sumiço malandro, tentaram afagar o governo sem afrontar os eleitores que pensam. Confira a lista dos pusilânimes na seção O País quer Saber. E dê o troco na próxima eleição.

 

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