Blogs e Colunistas

O Globo

29/07/2011

às 16:07 \ Feira Livre

‘Coragem e generosidade’, um artigo de Nelson Motta

TEXTO PUBLICADO NO GLOBO DESTA SEXTA-FEIRA

Lula é ovacionado no congresso da UNE

Nelson Motta

Se o futuro do Brasil está nas mãos dos estudantes e quem os representa é a UNE, então é bom começar a pensar em um plano B. Em artigo no GLOBO, o novo presidente, Daniel Iliescu, nem tão novo assim, porque tem 26 anos e já poderia estar formado e trabalhando, nega ser chapa-branca argumentando que a UNE é preta, vermelha, amarela, de todas as cores. Que fofura! Igualzinha ao comercial do agrobusiness com Lima Duarte na televisão.

O companheiro Iliescu afirma o pluralismo da entidade, que tem filiados de todos os partidos, embora seja um braço do PCdoB governista há mais de nove anos. Para ele a presença de 10 mil estudantes no congresso de Goiânia “é indicativo de uma juventude corajosa, generosa e mobilizada”. Que coragem ! Que generosidade ir a uma boca-livre oferecida pela Petrobras. Mas ao menos ele reconhece que a grande maioria dos estudantes não se interessa pelos partidos nem pela UNE. Melhor assim. A UNE está cada vez mais parecida com um sindicato lulista.

A pérola de seu artigo é a justificativa do patrocínio oficial à UNE comparando-a aos principais veículos da imprensa brasileira, “que recebem milhões de reais em verbas publicitárias e não têm sua independência e seu senso critico questionados”. A grande midia pode ser independente porque não vive só de anuncios oficiais, como os “blogueiros progressistas”. A Petrobras precisa anunciar para vender mais óleo e gasolina e não para comprar opiniões. Talvez nem seja o caso de estudar mais, bastaria ler jornais e revistas.

O pior é tentar fugir da chapa-branca alegando que “as principais bandeiras da UNE têm pontos de dissenso com o governo federal”, tipo o governo quer dar 7% do PIB ao Plano Nacional de Educação e a UNE quer 10%. Mas hoje o que mais falta para a educação não é dinheiro, é bom uso dos recursos, menos roubo e melhor qualidade do ensino.

A UNE também é “radicalmente contra as abusivas taxas de juros do Banco Central e a favor de mais investimentos e desenvolvimento”, mas quem não é? Resta aos caras-pintadas ir para as ruas com coragem, generosidade e mobilização, e derrubar os juros.

19/07/2011

às 17:25 \ Feira Livre

Sem solução

ARTIGO DE MERVAL PEREIRA PUBLICADO NO GLOBO DESTA TERÇA-FEIRA

Merval Pereira

Está ficando claro que a tentativa da presidente Dilma de resolver o caso do Ministério dos Transportes “por dentro”, sem romper com o PR, mantendo um ministro, Paulo Sérgio Passos, que faz parte do esquema do partido desde 2004 mas se transformou em seu homem de confiança, não vai dar certo. O ministério está todo corroído, a cada dia surgem novas denúncias, inclusive envolvendo o próprio ministro atual, numa briga de grupos dentro da estrutura funcional que se assemelha a brigas de gangues por um mercado de falcatruas.

Se a presidente Dilma estivesse mesmo disposta a fazer o que seria uma “limpeza” do setor, teria de fazer uma ação vigorosa, nomeando um interventor com plenos poderes para acabar com a influência do Partido da República.

Só começando tudo de novo haveria condições de sanear esse setor de transportes que, há oito anos nas mãos do PR, se transformou em um antro de ladroagem e incompetência.

Mas os sinais não vão nessa direção, pois no próprio Palácio do Planalto há uma disputa política, com o ministro Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência, atuando a favor da manutenção de Luiz Antonio Pagot à frente do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), defendendo a posição política de Lula, que tem interesse em preservar o PR.

A questão ética mais uma vez perde para a questão política. Mesmo que seja verdadeira a vontade da presidente de livrar-se dessa “herança maldita”, ela não tem condições políticas de fazê-lo declaradamente.

Por isso, sua atitude errática. Negar que tenha recebido uma “herança maldita” até é compreensível para a manutenção da relação direta com o ex-presidente Lula, mas anunciar que quer fazer uma limpeza no setor e, ao contrário, deixar que o mesmo partido continue à frente do ministério é demonstração de fraqueza política.

Para não restarem dúvidas sobre seu comprometimento, a presidente Dilma disse em recente encontro que o PR mora em seu coração.

A frase é tão exagerada quanto uma de Lula, que, depois de ter sido obrigado a ouvir um recital do então deputado Roberto Jefferson na casa do próprio, disse que tinha tanta confiança no presidente do PTB que seria capaz de dar-lhe “um cheque em branco”.

Dias depois, estourou a bomba do mensalão, com uma entrevista do mesmo Roberto Jefferson abrindo toda a sordidez que rolava por baixo dos panos na base aliada do lulismo.

Sempre que um presidente é obrigado a fazer esse tipo de malabarismo, com frases de efeito comprometedoras, é porque o grau de risco que seu governo corre se abandonar aquele aliado político é muito grande.

Ninguém consegue dizer no governo, por exemplo, se Luiz Antonio Pagot está ou não demitido do Dnit. Sabe-se, por informações indiretas, que a presidente Dilma está resolvida a demiti-lo, mas mesmo assim a ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, não tem certeza para garantir nada: “Tudo indica que sim, até pelas reiteradas vezes em que ela tem se comportado dessa forma” é o máximo que consegue dizer, jogando a batata quente para a presidente Dilma.

Por enquanto, Pagot está de férias e, tecnicamente, não pode ser demitido, o que não impediria que sua demissão, logo na volta das férias, fosse anunciada.

O que o governo procura é ganhar tempo para negociar o silêncio de Pagot, que já foi comparado a um “homem-bomba” pelas informações que teria acumulado sobre as atividades ilegais do Dnit e o dinheiro desviado, também, para as campanhas eleitorais do PT, inclusive, dizem, para a presidencial que levou Dilma ao Palácio do Planalto.

O caso mais emblemático do estado de desorganização funcional que impera no Ministério dos Transportes, especialmente no Dnit, é o de Frederico Augusto de Oliveira Dias, o Fred, “assessor do diretor-geral” desde 2008.

Ele na verdade é o “representante legal” da eminência parda do ministério e do PR, o deputado-mensaleiro Valdemar Costa Neto.

Com sala própria e direito a fazer parte de comitivas oficiais — acompanhou Paulo Sérgio Passos, quando este era ministro interino, em uma viagem à Bahia —, Fred negociava com prefeitos e vereadores, e encaminhava suas reivindicações aos órgãos competentes.

Quando a presidente Dilma, como sempre alertada por denúncias da chamada grande imprensa, decidiu demiti-lo, descobriu que não poderia fazê-lo porque ele simplesmente nunca havia sido nomeado.

A presidente, para cumprir seu desejo, precisaria seguir o exemplo de famoso patriarca de um império jornalístico.

Reza a lenda que, no auge do prestígio do seu grupo, subiu no elevador do prédio recém-construído, projeto de renomado arquiteto, e não gostou de ver um homem que comia um sanduíche de mortadela sujando-o com as migalhas do pão.

Irritado, chamou a atenção do “funcionário”, que não ligou para a admoestação, no que foi sumariamente demitido pelo “patrão”.

Acontece que o sujeito era um visitante, não um empregado do grupo. Decepcionado com a ineficácia de seu gesto, o patriarca não pestanejou: deu ordens para que o porcalhão fosse contratado, para que pudesse demiti-lo em seguida.

18/07/2011

às 15:30 \ Feira Livre

Mestre do engodo

COLUNA DE RICARDO NOBLAT, PUBLICADA NO JORNAL O GLOBO DESTA SEGUNDA-FEIRA

Ricardo Noblat

Que raciocínio tosco o de Lula ao traçar um paralelo entre gastos do governo com anúncios em rádio, televisão e jornal, e gastos com patrocínio de congressos como o da União Nacional dos Estudantes (UNE) realizado na semana passada, em Goiânia. Lula está cansado de saber que feijoada com paio nada tem a ver com Cid Sampaio. Mas como aposta na ignorância alheia…

Cid Sampaio foi um político da extinta União Democrática Nacional (UDN). Governou Pernambuco entre 1959 e 1963. Químico industrial e usineiro, se opôs ao golpe militar de 1964, mas em seguida aderiu à Arena, partido do governo. Elegeu-se deputado federal. E, mais tarde, como suplente, assumiu uma vaga no Senado.

Entrou nessa história por causa do paio, que ganhou lugar aqui por causa da mania de Lula de apelar para falácias. É mestre do engodo. Por que o governo gasta muito dinheiro com anúncios? Ora, para “vender suas realizações”. Em muitos casos, para contar também com a boa vontade de uma imprensa servil, colaboracionista e chapa-branca.

Anunciar, portanto, atende aos seus interesses – dos legítimos aos inconfessáveis. Um veículo de comunicação só pode se comportar com independência, exercendo seu papel de fiscal rigoroso dos poderes públicos e privados, se for economicamente independente. É uma pena que por toda parte tão poucos de fato o sejam.

Mas desses, registre-se, não se queixam políticos como Lula. Pelo contrário.Queixam-se, sim, daqueles que não podem controlar de um jeito ou de outro. Daqueles que não se orientam por sua cartilha ideológica. Daqueles que acertando ou errando teimam em tentar corresponder às expectativas do distinto público.

A presidente Dilma Rousseff tem demonstrado compreender melhor do que Lula para que serve a imprensa. Um governo sábio tira partido das críticas da imprensa para tentar governar melhor. Um governo sábio enxerga na imprensa um aliado e aproveita suas denúncias para corrigir o que anda mal.

Quanto ao Congresso da UNE… O dinheiro gasto com ele por ministérios e empresas estatais atende a um único e censurável objetivo: o de manter sob rédea curta, curtíssima, a mais conhecida das entidades estudantis. Cooptá-la já não é mais preciso. Cooptada ela já foi desde que chegaram ao poder os partidos que a dominam.

Até o golpe militar de 1964, a UNE freqüentava os salões da República, mas não era sócia dos seus donos. A eles se opunha com alguma freqüência e com maior ou menor virulência. Talvez por isso fosse respeitada e temida. Mais de uma vez os presidentes Juscelino Kubistchek e João Goulart, por exemplo, foram obrigados a negociar com ela.

Formalmente extinta pelo golpe, a UNE sobreviveu ao incêndio de sua sede no bairro do Flamengo, no Rio, articulou-se com o resto da oposição e liderou em todo o país gigantescas manifestações de massa contra o regime dos generais. As reivindicações específicas dos estudantes cederam a vez à reivindicação coletiva por liberdade.

Em 2003, o partido que manda na UNE há décadas, o PC do B, subiu a rampa do Palácio do Planalto junto com o PT de Lula. E foi a partir daí que a UNE esqueceu a sua história e vendeu sua alma. Apequenou-se. Acabou entrando para o elenco dos chamados “movimentos sociais”, todos eles alimentados por verbas do governo.

A lei da anistia só prevê reparações de caráter pessoal a familiares e vítimas da ditadura de 64. O governo Lula aprovou outra lei no Congresso para permitir que a UNE recebesse a título de reparação uma bolada de R$ 44.6 milhões destinada à construção de sua nova sede – um prédio de 13 andares, projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer.

Hoje, a UNE que em 1940 defendeu o fim da ditadura do Estado Novo, que em 1942 pregou o apoio aos Aliados contra o nazismo, que em 1956 combateu nas ruas do Rio o aumento do preço da passagem dos bondes, e que no início dos anos 60 criou o Centro Popular de Cultura, não passa de uma fotografia desbotada pela ação do tempo.

15/07/2011

às 2:51 \ Direto ao Ponto

Lula continua invocado com a imprensa. Que tal criar coragem e enfrentar a entrevista coletiva que sempre evitou?

Convidado para animar o segundo dia da quermesse da União Nacional dos Estudantes em Goiânia, Lula repetiu nesta quinta-feira o numerito obrigatório nas apresentações para plateias amestradas: uma discurseira contra a imprensa livre, sempre adaptada às circunstâncias. Já no terceiro minuto, entusiasmou o auditório ao indignar-se com a pouca importância atribuída ao evento pelos grandes jornais, que não descansarão até convencer os leitores de que a UNE é uma irrelevância comprada pelo governo.

Mas não é preciso perder o sono com a grande imprensa, ressalvou o palanque ambulante. De olhos postos no presidente da entidade, Augusto Chagas, ensinou que parece grande mas não é. “Você, Chagas, não tenha preocupação com quem diz que vocês são chapa branca”,  ordenou. “Você pensa que o jornal tem caráter nacional. Não sai do Rio de Janeiro. Vai na Baixada Fluminense e vê quantos jornais chegam lá”. Sempre evitando identificar os destinatários, estendeu à Folha e ao Estadão o recado remetido ao Globo: “Os grandes de São Paulo quase não chegam ao ABC, que está a 23 quilômetros da capital”.

A continuação do palavrório revelou que, embora não ultrapassem os limites da capital paulista, o que sai nos jornais chega pelo menos ao apartamento em São Bernardo, o B do ABC, onde mora a família do ex-presidente. Ou por ter superado por alguns instantes a ojeriza a leituras, ou porque algum amigo lhe fez o favor de ler trechos em voz alta, Lula ficou sabendo (e não gostou), por exemplo, do noticiário sobre seu desempenho na crise que resultou no segundo despejo de Antonio Palocci.

“Eles aproveitam qualquer coisa pra me comparar com a Dilma e dizer que a Dilma é fraca”, decidiu.  “Só diz que ela é fraca quem não conhece a personalidade dela. Se o babaca que escreveu isso já tivesse sentado com a Dilma dez minutos, ele ia saber que ela pode ter todos os defeitos do mundo, menos ser fraca”. Ao perceber que acabara de admitir que a sucessora tem defeitos, engatou uma quinta marcha e acelerou em direção ao tema predileto: Lula. “Já faz seis meses que eu deixei a Presidência, mas eles não saem do meu pé”, irritou-se. Eles, presume-se, são os jornais. E arrematou o desabafo com a advertência tremenda: “Eu estou ficando invocado”.

Lula jura que, quando ficou invocado com George Bush, telefonou para a Casa Branca e ordenou-lhe que mantivesse longe do Brasil a crise econômica nascida nos Estados Unidos. Pouco tempo depois, invocado com Barack Obama, mandou o colega importar o modelo do SUS para resolver os problemas do sistema de saúde americano. Como agora anda invocado com a imprensa, deveria criar coragem e convocar a entrevista coletiva que evita há mais de oito anos. Uma entrevista de verdade, sem restrições espertas, franqueadas a genuínos jornalistas providos, livres para tratar de qualquer assunto e com direito a réplica.

Se tal duelo ocorresse logo depois da apresentação em Goiânia, por exemplo, não ficaria em pé sequer uma vírgula da discurseira no congresso financiado por empresas estatais, diante de uma plateia composta por figuras tão representativas do universo estudantil quanto instrutores de grupos de escoteiros. Dez minutos de perguntas e respostas bastariam para que até o presidente da UNE admitisse que Lula reduziu a velha sigla a um departamento universitário do governo, dirigido por jovens pelegos recrutados no PCdoB, corrompido por subvenções repulsivas,  empregos federais, verbas escandalosas, até dinheiro para a construção da sede nova.

Como o palanqueiro já voltou de Goiânia, a UNE é coisa do passado. Caso aceite a ideia, a entrevista se ocupará de questões  muito mais urgentes, mais relevantes, sobretudo mais complicadas. Em menos de meia hora, Lula descobrirá a diferença que existe entre um sarau com blogueiros estatizados e uma conversa com jornalistas independentes.

14/07/2011

às 16:20 \ Feira Livre

‘Não precisa fazer, basta anunciar’, de Carlos Alberto Sardenberg

ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL O GLOBO DESTA QUINTA-FEIRA

Construção da refinaria Abreu e Lima (PE): obras se arrastam desde 2005

Carlos Alberto Sardenberg

Corria o ano de 1978 e o grande debate nacional era sobre a lei de anistia, que indicava o começo do fim do regime militar. Na economia, a discussão era igualmente intensa: como o país deveria reagir à crise internacional? Outro ponto, porém, chamava a atenção: onde construir o novo aeroporto de São Paulo, destinado a ser o principal do Brasil e da América do Sul?

Viracopos, em Campinas – foi a resposta dada pelo então ministro da Aeronáutica, Délio Jardim de Mattos, em entrevista nas páginas amarelas de “Veja”, a mim concedida. Mas Campinas está muito longe de São Paulo – tal era a objeção que todos faziam. Isso já foi estudado, tem solução fácil e já encaminhada, garantia o ministro.

Qual? Adivinharam, o trem rápido para São Paulo. Como verificam os leitores, não é de hoje que os governantes garantem projetos e obras que depois ficam rodando por aí. No caso, o novo aeroporto acabou sendo o de Guarulhos, também com a garantia de um trem fazendo a ligação com o centro de São Paulo. Viracopos, hoje, está de novo nos projetos do governo federal para se tornar o maior aeroporto da América do Sul – 33 anos depois! – e o trem evoluiu. Agora é um trem de alta velocidade, e que ligará o aeroporto a São Paulo e daqui até o Rio de Janeiro – esse mesmo cuja licitação acaba de fracassar.

Se é para não fazer, melhor projetar uma coisa grande, não é mesmo? Não faz do mesmo jeito, mas o anúncio dá muito mais propaganda. Aliás, os diversos anúncios.

Este projeto é mais recente. O governo Lula começou a falar disso em 2007. Em janeiro de 2008, anunciou que o trem-bala seria licitado em março de 2009. Seis meses depois dessa data, em agosto de 2009, novo anúncio, agora mais ambicioso, ou seja, com mais propaganda: o edital sairia em outubro de 2009, o contrato em janeiro de 2010 e o trem começaria a rodar no início de 2014, a tempo da Copa. Nessa época, custava em torno dos R$10 bilhões – o número redondo indicando que se tratava de uma, digamos, suposição.

Foi também em 2007 que o governo Lula anunciou pela primeira vez a refinaria de petróleo Abreu e Lima, a ser construída em Pernambuco por uma associação entre a Petrobras e a venezuelana PDVSA. Ficaria pronta em três anos e custaria cerca de US$4 bilhões.

A refinaria foi “inaugurada” várias vezes por Lula e Hugo Chávez: no projeto, no memorando de intenção, no acordo em princípio, na placa do início da terraplenagem.

Só que a PDVSA simplesmente ainda não entrou no negócio. Não formalizou sua participação, não colocou dinheiro e está duvidando das contas da Petrobras, que garante ter feito 35% da obra, aplicando cerca de R$7 bilhões.

No intervalo, a data de inauguração foi empurrada para frente e o preço já pulou de US$4 bilhões para US$14,4 bilhões.

Como o trem-bala, que ficaria pronto para a Copa e, agora, nem para a Olimpíada, e isso se tudo estivesse dando certo. E o preço, do governo já saltou para R$35 bilhões, considerado subestimado pelas companhias privadas nacionais e estrangeiras interessadas no negócio.

Se isso não é improvisação, o que seria?

O ainda diretor do Dnit, Luiz Antonio Pagot, em depoimento no Congresso nesta semana, apresentou outra resposta para essa ampliação dos prazos e, sobretudo, dos preços: “mudança de escopo”.

Sabe como é, no andar do projeto o pessoal verifica que faltou um trecho, que se poderia ampliar a capacidade, mais uma mão de tinta – e pronto, o preço triplica. Novo escopo, novo preço, novas licitações, e assim vai.

Tudo considerado, há uma mistura de improvisação, incompetência técnica, corrupção e… propaganda.

Sabe-se como a propaganda é importante para a política. E sabe-se que uma das maiores habilidades de um governante é escapar de desastres. No caso de planos cujos objetivos não são realizados, a receita é direta: lance um novo plano, ainda mais ambicioso.

Um milhão de moradias no primeiro lançamento do Minha Casa, Minha Vida. Não deu? Pois agora são dois milhões. Não saiu o trem Campinas-São Paulo? Pois agora é Campinas-São Paulo-Rio e de alta velocidade.

Por essas e outras, Lula conseguiu realizar tarefas que pareciam difíceis, inclusive a eleição de Dilma Rousseff. E ainda convenceu boa parte das pessoas que se tratava de profissional e política muito competente, especialmente para tocar obras como o trem-bala.

12/07/2011

às 16:54 \ Feira Livre

Por que os brasileiros não reagem?

TEXTO PUBLICADO NO JORNAL O GLOBO DESTA SEGUNDA-FEIRA

Juan Arias *

O fato de que em apenas seis meses de governo a presidente Dilma Rousseff tenha tido que afastar dois ministros importantes, herdados do gabinete de seu antecessor Luiz Inácio Lula da Silva (o da Casa Civil da Presidência, Antonio Palocci – uma espécie de primeiro-ministro – e o dos Transportes, Alfredo Nascimento), ambos caídos sob os escombros da corrupção política, tem feito sociólogos se perguntarem por que neste país, onde a impunidade dos políticos corruptos chegou a criar uma verdadeira cultura de que “todos são ladrões” e que “ninguém vai para a prisão”, não existe o fenômeno, hoje em moda no mundo, do movimento dos indignados.

Será que os brasileiros não sabem reagir à hipocrisia e à falta de ética de muitos dos que os governam? Não lhes importa que tantos políticos que os representam no governo, no Congresso, nos estados ou nos municípios sejam descarados salteadores do erário público? É o que se perguntam não poucos analistas e blogueiros políticos.

Nem sequer os jovens, trabalhadores ou estudantes, manifestaram até agora a mínima reação ante a corrupção daqueles que os governam.

Curiosamente, a mais irritada diante do saque às arcas do Estado parece ser a presidente Rousseff, que tem mostrado publicamente seu desgosto pelo “descontrole” atual em áreas do seu governo e tirou literalmente – diz-se que a purga ainda não acabou – dois ministros-chave, com o agravante de que eram herdados do seu antecessor, o popular ex-presidente Lula, que teria pedido que os mantivesse no seu governo.

A imprensa brasileira sugere que Rousseff começou – e o preço que terá que pagar será elevado – a se desfazer de uma certa “herança maldita” de hábitos de corrupção que vêm do passado. E as pessoas das ruas, por que não fazem eco ressuscitando também aqui o movimento dos indignados? Por que não se mobilizam as redes sociais?

O Brasil, que, motivado pela chamada marcha das Diretas Já (uma campanha política levada a cabo durante os anos 1984 e 1985, na qual se reivindicava o direito de eleger o presidente do país pelo voto direto), se lançou nas ruas contra a ditadura militar para pedir eleições, símbolo da democracia, e também o fez para obrigar o ex-presidente Fernando Collor de Mello (1990-1992) a deixar a Presidência da República, por causa das acusações de corrupção que pesavam sobre ele, hoje está mudo ante a corrupção.

As únicas causas capazes de levar às ruas até dois milhões de pessoas são a dos homossexuais, a dos seguidores das igrejas evangélicas na celebração a Jesus e a dos que pedem a liberalização da maconha.

Será que os jovens, especialmente, não têm motivos para exigir um Brasil não só mais rico a cada dia ou, pelo menos, menos pobre, mais desenvolvido, com maior força internacional, mas também um Brasil menos corrupto em suas esferas políticas, mais justo, menos desigual, onde um vereador não ganhe até dez vezes mais que um professor e um deputado cem vezes mais, ou onde um cidadão comum depois de 30 anos de trabalho se aposente com 650 reais (300 euros) e um funcionário público com até 30 mil reais (13 mil euros).

O Brasil será em breve a sexta potência econômica do mundo, mas segue atrás na desigualdade social, na defesa dos direitos humanos, onde a mulher ainda não tem o direito de abortar, o desemprego das pessoas de cor é de até 20%, frente a 6% dos brancos, e a polícia é uma das que mais matam no mundo.

Há quem atribua a apatia dos jovens em ser protagonistas de uma renovação ética no país ao fato de que uma propaganda bem articulada os teria convencido de que o Brasil é hoje invejado por meio mundo, e o é em outros aspectos. E que a retirada da pobreza de 30 milhões de cidadãos lhes teria feito acreditar que tudo vai bem, sem entender que um cidadão de classe média europeia equivale ainda hoje a um brasileiro rico.

Outros atribuem o fato à tese de que os brasileiros são gente pacífica, pouco dada aos protestos, que gostam de viver felizes com o muito ou o pouco que têm e que trabalham para viver em vez de viver para trabalhar.

Tudo isso também é certo, mas não explica que num mundo globalizado – onde hoje se conhece instantaneamente tudo o que ocorre no planeta, começando pelos movimentos de protesto de milhões de jovens que pedem democracia ou a acusam de estar degenerada – os brasileiros não lutem para que o país, além de enriquecer, seja também mais justo, menos corrupto, mais igualitário e menos violento em todos os níveis.

Este Brasil, com o qual os honestos sonham deixar como herança a seus filhos e que – também é certo – é ainda um país onde sua gente não perdeu o gosto de desfrutar o que possui, seria um lugar ainda melhor se surgisse um movimento de indignados capaz de limpá-lo das escórias de corrupção que abraçam hoje todas as esferas do poder.

* Juan Arias é correspondente do do jornal espanhol EL PAÍS no Brasil

11/07/2011

às 16:15 \ Feira Livre

‘Reféns de Pagot’, de Ricardo Noblat

COLUNA DE RICARDO NOBLAT, PUBLICADA NO JORNAL O GLOBO DESTA SEGUNDA-FEIRA

Ricardo Noblat

Quem tem medo de Luiz Antonio Pagot, Diretor do Departamento Nacional de Infra-Estrutura (Dnit) do Ministério dos Transportes, que a presidente Dilma Rousseff tentou afastar do cargo? Pagot bateu o pé e não se afastou. A Casa Civil da presidência da República achou melhor autorizá-lo a entrar de férias. O Congresso ouvirá Pagot esta semana.

O coração do governo bate acelerado. Pagot fazia parte do bando dos quatro auxiliares do ex-ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, desalojados dos seus postos por suspeita de envolvimento com irregularidades – licitações fraudulentas, contratos superfaturados, enriquecimento ilícito e cobrança de comissão para o PR.

Os outros três membros do bando acataram a decisão de Dilma. Pagot, não – desafiou Dilma e venceu por ora. Voou para Cuiabá, onde tem casa. E ameaça jogar titica no ventilador. É o que assombra Dilma, Lula, a quem Pagot deve o cargo, ministros e o PT, dono de uma das diretorias do Dnit.

Bem feito! Quem mandou nomear um sujeito como Pagot para administrar um dos maiores orçamentos da República? O Dnit tem para gastar R$ 17 bilhões somente este ano. Pagot foi parar no Dnit em 2007 a pedido de Blairo Maggi, na época governador do Mato Grosso, de quem foi sócio e a quem serviu como secretário de Estado.

Na ocasião, o Ministério Público do Mato Grosso investigava um negócio suspeito feito entre Pagot quando era Secretário de Infra-Estrutura, e Moacir Pires, secretário de Meio Ambiente. Empresa de Pires ganhou licitações na secretaria de Pagot. Dois anos antes, Pires havia sido preso pela Polícia Federal e denunciado por extração ilegal de madeira.

O negócio suspeito: Pagot admitiu à Justiça ter morado de graça durante 22 meses em um apartamento de Pires. Disse que levou quase três anos para comprar o apartamento a prestações. E que pagou por ele R$ 205 mil com dinheiro que guardava em casa. E que entregou o dinheiro em mãos de Pires. E, por fim, que não tinha recibo da transação.

Quer mais? Entre abril de 1995 e junho de 2002, Pagot servira no Senado como secretário do senador Jonas Pinheiro (DEM-MT). No mesmo período era acionista e diretor da Hermasa Navegação da Amazônia, empresa do grupo empresarial de Blairo, com sede em Itacoatiara, a 240 quilômetros de Manaus.

Além de carecer do dom da ubiqüidade para estar ao mesmo tempo em Itacoatiara e em Brasília, separadas por 3.490 quilômetros, Pagot não poderia acumular a função de servidor do Senado com a de sócio de uma empresa privada, segundo a lei 8.112 que “dispõe sobre o regime jurídico dos servidores públicos civis da União”.

Crime de falsidade ideológica ocorre quando se omite “em documento público ou particular declaração que dele devia constar”. Para trabalhar no Senado, Pagot omitiu que era sócio e trabalhava para Blairo. Quando precisou da aprovação do Senado para assumir o Dnit, omitiu no seu currículo que fora servidor do Senado.

Lula desconhecia o passado de Pagot quando o nomeou para o Dnit? E Dilma quando o manteve ali? Que nada! Antes de o Senado aprovar a nomeação, o passado de Pagot foi dissecado pelo senador Mário Couto (PSDB-PA) em inflamados discursos. Lula, primeiro, e Dilma depois, queriam, sim, agradar Blairo, que doou dinheiro para suas campanhas.

Como chefe da Casa Civil, Dilma monitorou de perto os ministérios com maior número de obras do Programa de Aceleração do Crescimento – e o dos Transportes era um deles. Lula disse que Dilma era melhor executiva do que ele. Então pergunto: escapou a Dilma o que se passava nos Transportes? De nada sabia? Nada mesmo? Só acordou quando soube que a Polícia Federal colecionava provas da bandalheira e estava perto de agir? Foi quando disse que o ministério precisava de babás quando na verdade precisava de uma rigorosa faxina?

Pagot avisou aos interessados que eram colegiadas as decisões tomadas no Dnit. E que muitos contratos foram superfaturados para ajudar a pagar despesas da campanha de Dilma. Será possível? Por sua vez, Dilma mandou dizer ao PR que o ministério dos Transportes continuará sob o controle do… PR. E despachou emissários para acalmar Pagot. Triste começo de governo. Mas coerente com o anterior.

06/07/2011

às 21:54 \ Feira Livre

Sudão, onde a vida tem destino incerto

TEXTO PUBLICADO NO JORNAL O GLOBO EM 1º DE JULHO DE 2011

Nicholas D. Kristof *

A capital mundial de crimes contra a Humanidade este mês provavelmente não é a Líbia ou a Síria. São as Montanhas Nuba, no Sudão, de onde surgem relatos do que parece ser uma viciosa campanha de limpeza étnica, assassinatos e estupros.

Em seu esforço para evitar testemunhas, o governo sudanês impediu o acesso de organizações humanitárias e ameaçou derrubar helicópteros da ONU. Soldados sudaneses chegaram a deter quatro capacetes azuis da ONU e submetê-los a um falso esquadrão de fuzilamento. Um relatório da ONU diz que as autoridades sudanesas envergam uniformes do Crescente Vermelho — a versão islâmica da Cruz Vermelha — para ordenar aos refugiados que se afastem do complexo das Nações Unidas. Eles são então levados a um estádio na cidade de Kadugli, onde seu destino é incerto.

Trabalhadores humanitários ocidentais foram obrigados a fugir e há relatos de que tropas governamentais e milícias árabes apoiadas pelo governo estão caçando e matando sistematicamente integrantes do grupo étnico Nuba, de cor negra.

Um ocidental com larga experiência no Sudão relatou-me, por e-mail, “execuções porta a porta de civis inocentes e indefesos, muitos com a garganta cortada por forças especiais de segurança”. Ele não quer ter seu nome revelado por temer perder o acesso aos locais onde isso está acontecendo.

O reverendo Andudu Elnail, um bispo episcopal nas Montanhas Nuba, disse-me que o governo sudanês tem tido como alvo muitos cristãos da região. As forças sudanesas queimaram sua catedral, afirmou o bispo Andudu, que está temporariamente nos EUA, mas permanece em contato diário com os moradores da área. “Eles estão matando pessoas com instrução, especialmente os negros, e não gostam da igreja”, declarou. Mulheres são estupradas rotineiramente, acrescentou o religioso, para quem o número de mortos está na casa de alguns milhares em todo o estado sudanês de Kordofan do Sul.

Não se trata de uma guerra religiosa, porque muitos moradores das Montanhas Nuba são muçulmanos e também têm sido vítimas de ataques — outro dia, uma mesquita foi bombardeada. Os militares têm jogado bombas em mercados e poços de água de aldeias.

A pista de pouso que eu usei quando visitei as Montanhas Nuba foi bombardeada para evitar que organizações humanitárias enviem suprimentos de emergência; os mercados que visitei estão agora desertos. Pelo menos 73 mil pessoas fugiram de suas casas, segundo a ONU. Uma rede de pessoas corajosas, virtualmente em toda parte, tem secretamente tirado fotos, transmitindo-as para organizações de direitos humanos no Ocidente. Meu computador foi inundado por fotos de crianças sangrando, atingidas por estilhaços de bombas. Samuel Totten, que estuda genocídios para a Universidade de Arkansas, Fayateville, visitou as Montanhas Nuba há um ano para reunir material sobre assassinatos em massa pelo governo sudanês nos anos 90. Agora, diz, começa a acontecer tudo de novo.

“Vejo a comunidade internacional hesitar, enquanto o povo de Nuba está sendo morto e reina a impunidade”, afirma o professor Totten.

O governo sudanês firmou um arcabouço de entendimento que pode ser um passo à frente para pôr fim à violência em Kordofan do Sul, mas não houve acordo sobre cessação das hostilidades. O Sudão tem uma longa história de assinar acordos e depois rompê- los (tanto no Norte quanto no Sul). O país se prepara para se dividir em dois no dia 9 de julho, quando o Sudão do Sul emergirá como uma nação independente depois de décadas de guerra intermitente entre Norte e Sul. As Montanhas Nuba permanecerão no Norte quando o Sul se separar, mas muitos de seus habitantes ficaram ao lado do Sul na guerra e ainda servem numa força militar rebelde escondida nas montanhas.

A maior parte da violência em Nuba foi protagonizada pelos árabes do Norte, mas há relatos também de rebeldes atacando civis árabes. Há risco de a violência alcançar o estado vizinho do Nilo Azul e acabar levando a uma guerra total Norte-Sul, embora os dois lados queiram evitá-lo. É crítico que a ONU mantenha sua presença. O presidente do Sudão, Omar Hassan al-Bashir, indiciado por genocídio em Darfur, está agora em visita à China, e os líderes chineses precisam insistir com ele que pare com a matança de civis e permita que a ONU funcione. Os apelos dos habitantes de Nuba hoje parecem um eco angustiante daqueles de Darfur há oito anos. A Bolsa Samaritana, uma organização cristã que trabalha há tempos na região, disse ter recebido uma mensagem de um pastor: “Com pesar, informo que a igreja nova foi queimada. Perdemos tudo. A casa onde mora minha equipe foi saqueada e os escritórios, queimados. Muitos fugiram daqui, alguns ficaram. Não há água nem comida”.

*Nicholas D. Kristof é colunista do The New York Times

02/07/2011

às 14:39 \ Feira Livre

‘Perdidos no Cyberespaço’, um texto de Nelson Motta

TEXTO PUBLICADO NO JORNAL O GLOBO DESTA SEXTA-FEIRA

Nelson Motta

Quando vários sites do governo são invadidos e o ministro da Ciência e Tecnologia diz que quer convidar “os hackers” para um encontro no ministério “para ajudarem a construir os indicadores e a forma da transparência”, a coisa está feia: ou ele não sabe o que é um hacker ou pensa que pode usá-los como os “blogueiros progressistas”, pagando-os com patrocínios estatais.

Astuto e sagaz como um Suplicy, Mercadante pensa que um hacker é um cracker do bem, que pode ser cooptado. Ele quer conversar, ele acredita no diálogo democrático (rs). Ele nunca ouviu falar do cibergênio do mal Kevin Mitnick e de seu rival Tsutomu Shinomura, que protagonizaram o mais célebre e sensacional duelo de hackers da história digital. No final, Shinomura conseguiu rastrear Mitnick e o entregou ao FBI, mas depois também passou para o lado escuro do cyberespaço.

Hackers de verdade invadem redes de computadores de bancos, de cartões de crédito, de companhias telefônicas, de governos, roubam bases de dados, inventam sistemas diabólicos de multiplicação de spams, não são lúdicos grafiteiros digitais do ciberespaço, como crê o analógico ministro. Ele acha que os crackers são malvados que “invadem sistemas para divulgar mensagens políticas”, mas acredita que os hackers são bonzinhos, que vão adorar conversar com ele no ministério, todos com os seus crachás de “hacker”, tomar um lanche e acertar a data do “Hacker”s Day” patrocinado por uma estatal. Cuidado, ministro, se eles vierem, não são hackers: são nerds.

A ignorância e ingenuidade do ministro sobre temas básicos de sua pasta envergonha, mas não surpreende, é compatível com os conhecimentos de Edison Lobão sobre energia e a expertise de Pedro Novais em turismo.

Só com seus currículos e experiência na área, a maioria dos atuais 37 ministros não conseguiria emprego, mesmo mal pago, em qualquer empresa privada séria. E certamente não passaria em nenhum concurso público para cargos de terceiro escalão nas pastas que ocupam.

Quem sabe os hackers progressistas de Mercadante possam ser úteis nos “núcleos de inteligência” do PT nas próximas eleições?

30/06/2011

às 19:24 \ Feira Livre

‘Com uma pequena ajuda do governo’, um texto de Carlos Alberto Sardenberg

TEXTO PUBLICADO NO JORNAL O GLOBO DESTA QUINTA-FEIRA

Carlos Alberto Sardenberg

O negócio Pão de Açúcar/Carrefour só para de pé com a entrada do BNDESpar como um importante acionista da nova empresa. Ora, por que um banco público deveria se associar a uma rede de supermercados?

Para impedir uma desnacionalização – foi a primeira resposta que ouvi de pessoas diretamente envolvidas no negócio. Explica-se: o Pão de Açúcar está praticamente vendido ao Casino, uma rede multinacional de origem francesa. Há alguns anos, Abilio Diniz vendeu parte de sua rede ao Casino, que adquiriu também, no mesmo contrato, o direito de assumir o controle integral do Pão de Açúcar em 2012.

Se isso acontecer, tal é a argumentação, os três maiores supermercados atuantes no Brasil (o próprio Pão de Açúcar, atual número um, Carrefour e Walmart) estarão sob controle estrangeiro. E daí? Daí que varejo é estratégico para o país e não pode ficar assim, sempre segundo o argumento de fontes privadas brasileiras.

A tese não se sustenta. O setor tem uma estrutura interessante. Os três maiores faturaram no ano passado R$ 87 bilhões, isso representando 43% do total. Do quarto lugar para baixo, aparecem redes pequenas, regionais, em um mercado bastante pulverizado.

Por outro lado, os três grandes competem ferozmente entre si – e essa competição seria muito reduzida com a fusão Pão de Açúcar/Carrefour. Ou seja, em nome de uma suposta desnacionalização se promoveria uma concentração. O que interessa mais ao consumidor e ao país?

Além disso, não haveria propriamente uma nacionalização do Carrefour, pois o supermercado resultante da fusão pertenceria meio a meio ao Carrefour francês e a uma holding chamada NPA (Novo Pão de Açúcar). Esta seria integrada por Abilio Diniz, BNDESpar, banco BTG Pactual e o Casino, aliás com a maior participação acionária individual. Assim, somando-se a participação dos dois grupos franceses, o capital estrangeiro seria majoritário no processo.

O controle, porém, estaria na holding NPA e, conforme regras estatutárias já incluídas nas propostas, nenhum acionista controlador teria mais que dois votos. Ou seja, Abilio Diniz, com apoio do BNDES, do BTG e de outros acionistas no mercado local, poderia manter o controle sobre o supermercado fundado por sua família.

Adicionalmente, esse NPA teria algo como 11% do Carrefour francês e pessoas, brasileiras, envolvidas na negociação asseguram que isso daria grande influência sobre a rede multinacional, cujo capital é bastante pulverizado.

Ou seja, se tudo sair conforme os idealizadores do negócio, a sorte de Diniz muda completamente: se em 2012 ele poderia ficar sem supermercado, agora ficaria com um negócio ampliado aqui e lá fora.

Ou seja, o BNDES, com o suposto propósito de evitar uma desnacionalização, estaria de fato apoiando um empresário brasileiro que já havia vendido participação a empresa estrangeira e que pretende seguir na internacionalização.

Difícil argumentação, não é mesmo? Talvez por isso mesmo o governo, por meio do BNDES e do ministro do Planejamento, Fernando Pimentel, tenha recorrido a outras justificativas. Fala-se da suposta internacionalização da companhia brasileira, mas a tese principal sustenta que o negócio poderia impulsionar as exportações brasileiras.

Como? A parte brasileira colocaria produtos nas lojas da rede internacional associada. Também não faz sentido. Primeiro, porque a parte brasileira não é grande fornecedora de produtos locais. Segundo, porque o comércio mundial de alimentos, principal ramo do supermercado, é muito regulamentado por governos e instituições internacionais. A União Europeia em geral e a França muito em particular impõem pesadas barreiras à entrada de alimentos brasileiros – e isso depende de negociações entre governos e no âmbito da Organização Mundial de Comércio, não de fusões entre empresas privadas. Além disso, o Pão de Açúcar já é sócio de uma rede internacional e não há notícia de significativo ganho nas exportações.

Por isso, talvez, uma pessoa participante das negociações me disse: a coisa é simples, o BNDESpar vai ganhar dinheiro; vai pagar 70 e tantos reais por ações que, pós-fusão, valerão mais de R$100.

Se tudo der certo, portanto, será um grande negócio. Ora, se é assim, por que os interessados não atraíram sócios privados? Será que não há no Brasil empresas e pessoas que possam juntar os R$4 bilhões que o BNDES vai colocar?

Ocorre que a presença do governo brasileiro, via BNDES, dá aval à fusão e exerce pressão sobre a direção do Casino – a parte prejudicada da história.

Os brasileiros idealizadores do negócio dizem que o Casino vai ganhar. Em vez de ter “só” o Pão de Açúcar em 2012, terá essa rede mais o Carrefour brasileiro e uma participação no Carrefour francês, seu concorrente direto.

Só que seria trocar um lucrativo Pão de Açúcar, sobre o qual terá controle total em 2012, por um negócio maior, mais difícil (o Carrefour brasileiro perdeu dinheiro) e no qual sua participação será menor, sem controle, e com a entrada do concorrente francês. A diretoria do Casino já se manifestou contra a fusão, considerando a proposta ilegal. Mas os brasileiros acham que, com apoio do governo, conseguem dobrar os acionistas.

A ver. Mas mesmo que tudo saia conforme os planos dos brasileiros, fica a questão: está certo o governo alinhar-se assim em um negócio privado? O BNDESpar não teria uso melhor para esses R$4 bilhões, como o de apoiar nascentes empresas de tecnologia, sempre carentes de capital?


 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados