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O Globo

12/09/2011

às 17:12 \ Feira Livre

‘Vida de gado’, um texto de Ricardo Noblat

PUBLICADO NO GLOBO DESTA SEGUNDA-FEIRA

Ricardo Noblat

Deputados federais e senadores têm o direito de apresentar emendas ao Orçamento da União destinando verbas para a construção de pequenas obras em seus redutos eleitorais. Uma vez aprovadas, as emendas dependem da vontade do governo para se transformar em dinheiro vivo. Às vésperas de decisões importantes no Congresso ou depois que elas ocorrem, a levar-se em conta seu resultado, o governo libera parte das emendas dos parlamentares que votaram justamente como ele queria. Guarda o resto para outras ocasiões. E assim vai conduzindo seu gado. Muito bem. Agora me respondam: se isso não configura compra indireta de votos, configura mesmo o quê?

10/09/2011

às 15:07 \ Feira Livre

‘Querem uma imensa chapa-branca’, um artigo de Carlos Alberto Sardenberg

TEXTO PUBLICADO NO GLOBO DESTA QUINTA-FEIRA

Não se trata de censura à imprensa, mas de garantir uma imprensa de boa qualidade e empresas de comunicação sólidas e eficientes – é o que nos diz a recomendação aprovada no último congresso do PT.

Nenhum dos dois objetivos pode ser alcançado pela legislação, muito menos pela ação do governo, sob qualquer forma que esta se manifeste. O debate é antigo e já tem resposta: a lei deve garantir que a imprensa seja livre. A qualidade depende da sociedade e – me perdoem o palavrão – do mercado.

Considerem, por exemplo, a imprensa chapa-branca, aquela que vive do dinheiro do governo, transferido via publicidade ou benefícios fiscais. O jornalismo que sai daí obviamente não é livre. Do mesmo modo, as empresas que o veiculam não têm consistência econômica – pois não sobrevivem fora das verbas públicas, cuja doação depende dos governantes de plantão – e, assim, também não podem ser independente e isentas.

É engraçado: a imprensa chapa-branca produz jornalismo marrom – que privilegia uma determinada visão dos fatos, aquela sustentada pelo seu patrocinador.

Além do governo, o patrocinador pode ser um partido, um político ou uma igreja, conforme se vê na experiência brasileira dos últimos tempos. O que há de comum entre todos é a vinculação com alguma instância de governo, municipal, estadual e/ou federal.

O que distingue essa imprensa daquela livre e independente é o público e, de novo, o mercado. Jornalismo é caro. Por isso, produzir e veicular notícias tem que ser encarado como um negócio e uma missão.

Um negócio porque a liberdade e independência da empresa de comunicação dependem da rentabilidade no mercado privado – e não no mundo das verbas oficiais. É preciso ganhar dinheiro para gastá-lo com as reportagens.

Ora, por que gastar com reportagens (notícias, informação, opinião) e não, digamos, com salsichas? Comida dá mais lucro. Eis porque o jornalismo, o empreendimento, requer algo mais do que o objetivo de ganhar dinheiro. Mal comparando, como ouvi certa vez: é como o casamento, não pode ser só por dinheiro, tem que ter um pouco de amor.

Parece um pouco antigo e meio demagógico, mas jornalistas têm apreço por uma notícia bem apurada e publicada com destaque. Por isso, são jornalistas e não advogados, com todo o respeito. É importante que esse espírito seja também o dos acionistas e executivos de uma empresa jornalística.

Um executivo sem essa compreensão jamais autorizaria a despesa enorme para mandar um repórter ao centro de um evento (uma guerra, por exemplo) e veicular 40 centímetros ou dois minutos de matéria.

Mas continua sendo caro, inclusive – perdoem o parti pris – para remunerar bons jornalistas. E precisa ser financiado por anunciantes no maior número e na mais ampla variedade possível. Claro que pode ter publicidade de governo e de estatais, especialmente das que estão no mercado. Mas assim como não se pode depender do governo, também não se pode ter a receita concentrada em uma empresa ou um setor da economia privada.

E, lógico, precisa ter público consumidor, os leitores, ouvintes e telespectadores, que pagam de algum modo pelas informações.

Eis a receita, portanto: empresas atuando no mercado privado e livre da publicidade e o sentido do jornalismo livre e independente. E mais um público com liberdade para escolher seu jornal, sua rádio, sua tevê, seu site.

É isso que a lei deve garantir: a liberdade em todo o processo. Quanto à qualidade, de novo, vai depender da sociedade. O público sabe escolher os veículos que mais lhe dizem respeito. O mercado brasileiro oferece ampla variedade de escolha, desde veículos populares até os mais, digamos, elitizados. Não raro, essa variedade aparece em mesmo veículo.

Não há aqui, portanto, problema que exija uma legislação nova para supostamente corrigi-lo. Os direitos de pessoas ou instituições de algum modo atingidos pelo noticiário são amplamente protegidos pelas leis atuais. O governante acha que foi ofendido ou vítima? Sem problema, aos tribunais.

Mas há problema, sim, no uso de dinheiro público para financiar a imprensa chapa-branca e o jornalismo marrom. E esta é uma prática abusada: governantes de todos os partidos têm recorrido cada vez mais a esse recurso.

Podem reparar a quantidade de propaganda oficial que não anuncia nenhum produto nem campanhas (de vacinação, por exemplo). Apenas dizem que tal governo é uma beleza e que vai tudo bem por aqui.

Há problema, também, na transferência de recursos de uma igreja, qualquer uma, para suas emissoras. Pode parecer que não, mas reparem: igrejas são isentas de impostos, de modo que caracteriza o uso indireto de dinheiro público.

Deixar isso de lado e pedir a regulamentação da outra imprensa é simplesmente querer que tudo se transforme numa imensa chapa-branca.

09/09/2011

às 20:10 \ Direto ao Ponto

O Globo e El País comentam a largada do movimento contra a corrupção

As manifestações deste 7 de Setembro foram o tema do editorial do Globo desta sexta-feira e de uma reportagem de Juan Arias, correspondente do jornal espanhol El País no Brasil. Os dois textos estão na Feira Livre.

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09/09/2011

às 19:21 \ Feira Livre

Internet contorna cooptação lulopetista

EDITORIAL PUBLICADO NO GLOBO DESTA SEXTA-FEIRA

O feriado do Dia da Independência se tornou um marco na história das manifestações populares no país. Menos pela quantidade de pessoas que levou às ruas, e muito mais pela forma e contexto em que foram mobilizadas. Fica registrado que em 7 de setembro de 2011 alguns milhares de brasileiros decidiram protestar contra a onda de corrupção na esfera pública, sem atender qualquer das entidades outrora de praxe — UNE, sindicatos —, apenas conectando- se por meio de redes sociais, via internet. Aliás, decidiram fazer o que fizeram contra os interesses de UNE, sindicatos etc.

Este tipo de mobilização política espontânea entre cidadãos, à margem de governo, partidos e corporações, ganhou grande destaque mundial na luta (frustrada) da oposição iraniana contra a vitória eleitoral fraudada de Ahmadinejad, em 2009. Mensagens de twitter convocaram protestos, e cenas de conflitos registradas por telefones celulares foram transmitidas ao redor do mundo, fato inédito na fechada ditadura persa dos aiatolás. No final, venceu a ditadura, inclusive valendo-se de recursos de tecnologia de ponta para rastrear opositores e jogá-los nas terríveis masmorras do regime.

No Brasil, a internet não é usada contra uma ditadura, óbvio, mas, no 7 de setembro, para romper uma couraça criada nos oito anos de poder lulopetista a fim de proteger o governo e o PT de qualquer ameaça política.

Na Primavera Árabe, ainda em andamento, foi de vez institucionalizado o manejo da rede mundial de computadores, das mais diversas formas, para inimigos das ditaduras se comunicarem e planejarem ações.

Longe de ser o caso do Brasil, também é claro. A peculiaridade brasileira é que desde 2003, com a chegada de Lula ao Planalto, entidades estudantis, organizações ditas sociais como o MST e grandes centrais sindicais (CUT e Força) — apenas para citar os elos mais importantes desta cadeia fisiológica — passaram a ter assento no grande banquete pago pelo dinheiro do Tesouro Nacional (leia-se, o contribuinte). Na política de obter apoio em troca de vagas e verbas, o governo doou o Incra ao MST, o Ministério do Trabalho aos sindicatos, encheu os cofres da UNE de numerário, e, assim, chegamos ao ponto atual, em que, por conveniências bastante concretas, aguerridas entidades fingem que não há corrupção em Brasília. Tampouco que a multiplicação de casos em que o Tesouro é assaltado deriva do toma lá dá cá adotado em Brasília há oito anos.

Forjou-se, até, a anedótica comparação entre os que pedem hoje lisura no manejo do dinheiro do Erário com a UDN de Carlos Lacerda, da década de 50, na campanha contra Vargas, acusado de corrupção. Os momentos históricos são distintos como água e vinho.

No fundo, paira a visão de que o roubo de direita tem de ser denunciado, enquanto o roubo de esquerda deve ser tolerado, em nome da “causa”. Lamentável.

A mobilização que resultou nas quase 30 mil pessoas no asfalto de Brasília, sem que fossem admitidas faixas e cartazes alusivos a partidos, pode ser a ponta de algo maior existente no subsolo da sociedade. Merece alguma reflexão dos atuais donos do poder.

04/09/2011

às 21:40 \ Feira Livre

Nova CPMF não se justifica

EDITORIAL PUBLICADO NO GLOBO DESTA SEXTA-FEIRA

Senadores comemoram o fim da CPMF

Os recursos para os sistemas públicos de saúde têm aumentado significativamente em decorrência da vinculação de parte da arrecadação federal aos gastos desse segmento. A legislação estabelece que algumas contribuições, como a Cofins (incidente sobre o faturamento) e a Contribuição Social Sobre o Lucro, devem prioritariamente financiar despesas de saúde e seguridade social.

A receita obtida com a Cofins tem evoluído de acordo com a trajetória da economia, mas a da CSSL vem aumentando muitos pontos acima, até mesmo porque os grandes contribuintes auferiram bons lucros nos últimos semestres.

Não satisfeitos com essa arrecadação recorde, governadores articulam no Congresso – e, ao que parece, com apoio não explícito de áreas do governo federal, o que é contraditório diante do discurso favorável a uma desoneração tributária – a ressurreição da CPMF, de triste memória.

Como sempre, a aprovação de mais um tributo se justificaria por uma boa causa. A população mais pobre é mal atendida pelos serviços públicos de saúde, e não tem a quem recorrer. Os governantes, por sua vez, alegam que a Saúde custa caro e não podem oferecer melhores serviços por falta de recursos. Um tributo específico para o segmento resolveria, então, o problema. Ainda mais que seria uma alíquota baixa, quase imperceptível, incidente sobre movimentações financeiras.

Ora, o país já passou por essa experiência. O tributo surgiu inicialmente sob forma de imposto provisório, expirou, e ressurgiu como contribuição provisória (CPMF). Em ambos os períodos, não houve avanços significativos nos sistemas públicos de saúde. O dinheiro carimbado serviu apenas para que se protelassem mudanças de estrutura, organização e gestão que, quando foram postas em prática, ainda que modestamente, sob a premissa de escassez de recursos, contribuíram para avanços no setor.

A alíquota baixa não significa que o tributo seja inofensivo. Como o imposto ou a contribuição incide em cascata sobre as cadeias produtivas, pode chegar a onerar os preços em 3% ou mais, como correu com a famigerada CPMF, revogada pelo Senado em dezembro de 2007. Por essa razão, não se trata de um “ovo de Colombo”. É uma experiência que sequer tem sido cogitada por outros países em crise financeira, e que enfrentam também problemas para financiar seus sistemas públicos de saúde.

A Saúde deve merecer mais atenção dos governantes. Não há solução fácil para os problemas do setor, haja vista as dificuldades que até mesmo países ricos hoje enfrentam para assegurar sistemas públicos de qualidade. Mas existem exemplos no próprio Brasil de iniciativas bem-sucedidas e que deveriam ser multiplicadas.

A pior das saídas – e talvez a mais cômoda para os governantes e políticos – é a ressurreição de um tributo tipo CPMF. O país tem pela frente a perspectiva de evoluir economicamente nos próximos anos, alcançando um patamar de desenvolvimento que se refletirá nas questões sociais. Há ainda obstáculos nesse caminho, e uma nova CPMF seria mais um deles.

04/08/2011

às 16:34 \ Feira Livre

‘O enigma de Dilma’, de Merval Pereira

PUBLICADO NO GLOBO DESTA QUINTA-FEIRA

Merval Pereira

Vou acompanhando o desenrolar algo enigmático do governo Dilma, e cada vez mais me recordo das palavras com que Carlos Castello Branco, o maior colunista político brasileiro, explicava a natureza dos fatos políticos cotidianos: “Os fatos vão se criando, e as explicações, se multiplicando, ganhando coerência ou clareza à medida que os surpreendemos no seu aparecimento, no seu colapso, no seu ressurgimento, nessa permanente elaboração, fundada em contradições que nem sempre chegam a sínteses, que caracteriza a ação política”.

Seus atos, até agora, ora carecem de clareza ou coerência, ora parecem justificar a crença de que nada mudou em relação ao governo de seu sucessor e tutor político.

Mesmo quando parece que sua direção é contrária ao estabelecido anteriormente, logo um recuo determina os limites de sua ação autônoma.

Assim, a tal operação “faxina” que não teria limites dá lugar a uma grande manobra palaciana para impedir que o Congresso monte uma CPI para investigar as denúncias a que o próprio governo deu crédito, a ponto de demitir mais de 20 servidores dos Transportes e mais o próprio ministro.

De volta ao Congresso, Alfredo Nascimento fez um discurso cheio de insinuações contra o governo que diz ainda apoiar, mas do qual a bancada de sua sigla anuncia se afastar.

O de mais grave que disse, ainda carente de resposta, que não veio possivelmente por não ser possível rebater, é que os sobregastos ocorridos nas obras ocorreram sobretudo na campanha, quando Dilma Rousseff disputava o Planalto.

Ao acionar a máquina partidária para impedir a CPI, Dilma confirma que não pretende se afastar demasiadamente das raízes que a ligam ao lulismo, acatando os conselhos de Lula para não afrontar a base parlamentar costurada por ele de modo a ser a mais ampla possível para facilitar o governo de Dilma e não para ser confrontada permanentemente.

O PMDB sente-se novamente revigorado com a garantia de que não será incomodado e mostra-se unido em torno da demonstração de força dada pelo vice-presidente Michel Temer, cujo protegido, o ministro da Agricultura, Wagner Rossi, não será atingido nem mesmo por denúncias de um irmão do líder do governo no Senado.

Outra indicação de que laços que a ligam ao lulismo são mais fortes do que supõem os que imaginam que ela possa estar em busca de novas alianças é o programa de fortalecimento da indústria nacional. Reafirma visão de capitalismo de Estado que joga com a interferência do governo em setores-chave da economia que pode trazer prejuízos, como vem acontecendo com Vale e Petrobras.

A preferência para a produção nacional, quando a diferença de preços em relação aos competidores estrangeiros for de até 25%, é o retorno de reservas de mercado com viés nacionalista que afronta a livre concorrência, e pode ter consequências nocivas à competitividade da indústria nacional.

02/08/2011

às 17:34 \ Feira Livre

‘Limitações’, um texto de Merval Pereira

PUBLICADO NO GLOBO DESTA TERÇA-FEIRA

A presidente Dilma Rousseff: velho métodos para combater a crise

Merval Pereira

A presidente Dilma começou a utilizar os mesmos métodos que o seu tutor, o ex-presidente Lula, usava quando não queria resolver os problemas. Quando recebeu a denúncia da existência do mensalão, feita pessoalmente pelo então líder do PTB, Roberto Jefferson, o presidente Lula, em vez de acionar a Polícia Federal ou mandar abrir uma investigação através da Corregedoria Geral da União (CGI), pediu que o líder do PT na Câmara, Arlindo Chinaglia, e o ministro das Relações Institucionais, Aldo Rebelo, do PCdoB, investigassem o assunto.

Como era de se esperar, os dois não encontraram qualquer indício do fato, e o assunto morreu até que Roberto Jefferson denunciasse o esquema em uma entrevista à “Folha de S.Paulo”.

No caso do Ministério da Agricultura, feudo do PMDB, onde haveria uma “central de negócios” montada sob a chefia do ministro Wagner Rossi, a mudança de estilo em relação às atitudes que tomou contra a “central de negócios” montada pelo PR no Ministério dos Transportes foi significativa.

Até o momento, a presidente Dilma Rousseff vinha sendo mais diligente com as denúncias de corrupção: prometeu uma faxina “sem limites” no Ministério dos Transportes, dominado pelo PR, e garantiu que qualquer denúncia seria rigorosamente apurada.

É verdade que nenhum dos casos envolvendo corrupção naquele ministério foi descoberto pelos órgãos fiscalizadores do governo, embora a Polícia Federal viesse tratando do assunto há muitos meses, já no governo Lula, quando o esquema dos Transportes foi montado.

A inépcia do governo chegou ao ponto de nomear Marcelino Augusto Rosa para coordenador-geral de Operações Rodoviárias do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), ele que já respondia a processo disciplinar da Controladoria Geral da União (CGU), acusado de favorecimento de empreiteiras, e cuja mulher, Sônia Lado Duarte Rosa, representava empreiteiras em grandes obras.

Os dois eram conhecidos em Brasília como “casal Dnit”, mas foi preciso que O GLOBO denunciasse o escândalo dentro do escândalo para que Marcelino fosse demitido horas depois de ter sido nomeado.

De qualquer maneira, o governo vinha agindo rápido, até que o PMDB e, mais que isso, um ministro designado pelo vice-presidente Michel Temer entrassem na roda de denúncias.

Ontem pela manhã, na reunião dos líderes do governo, a presidente não se referiu publicamente às denúncias de que haveria um esquema de corrupção e cobrança de propina no Ministério da Agricultura, comandado pelo ministro Wagner Rossi, apadrinhado de Temer.

A denúncia, no entanto, tem a chancela de um Jucá, sobrenome ilustre do governo, dizem os desafetos que de qualquer governo.

Em vez de explicações, a presidente ouviu pedidos de desculpas do seu líder no Senado, Romero Jucá, que chamou as denúncias do irmão, Oscar Jucá Neto, de “besteiras”.

A conversa de Romero Jucá com Dilma e Temer aconteceu no final da reunião de coordenação do governo, no Palácio do Planalto. A presidente aceitou as desculpas, assim como o vice Temer, e disse que pediria ao próprio ministro da Agricultura que apurasse as denúncias.

Naquele ministério, segundo as denúncias de Jucazinho, o PMDB montou uma “central de negócios”. Seria o mesmo fenômeno constatado no Ministério dos Transportes e que obrigou o governo a fazer a tal “faxina” ilimitada.

Só a postura do governo está sendo diferente. Essa mudança, aliás, já havia sido anunciada dias antes pelo ministro Gilberto Carvalho, talvez o mais ligado ao ex-presidente Lula de todos os remanescentes do antigo governo.

Como se sabe, o ex-presidente Lula vem tentando convencer a presidente Dilma a refrear seu ímpeto moralista em troca da “governabilidade”.

A conversa de Carvalho com os dirigentes petistas tinha o objetivo de acalmá-los diante do que se prenunciava uma lavagem generalizada no Ministério.

Ele garantiu que não haverá “caça às bruxas”, e nem a presidente se deixará levar por denúncias da imprensa. Mas disse que a corrupção não será tolerada.

Evidentemente tinha que dizer algo parecido com isso, se não, ficaria explícito o recado que ele, implicitamente, levou às lideranças petistas e certamente levará aos demais parceiros influentes da aliança governamental, como o PMDB: o governo não pretende atear fogo às próprias vestes, e, portanto, os aliados terão a garantia de não serem atingidos por “fogo amigo” do Palácio do Planalto.

Mas não é possível controlar o “fogo amigo” vindo de dentro da própria base aliada, ou até do mesmo partido, como é o caso agora de Jucazinho, que, posto pelo irmão num feudo do PMDB, agora está fazendo “besteiras” que colocam o irmão em situação delicada.

Interessante nesse episódio é que Romero Jucá, com todo o seu prestígio, não tenha conseguido proteger o irmão.

Tudo indica que a fase da “faxina” está se dissipando como estratégia de governo, ou pelo menos não será utilizada indiscriminadamente em todos os casos de corrupção que surgirem.

O que reforçará a estratégia da oposição, que pretende desconstruir essa ação governamental mostrando-a como apenas uma jogada de marketing e não uma incompatibilidade desta administração com a corrupção ou a impunidade.

Afinal, se a presidente Dilma era realmente a grande controladora da gestão pública no governo Lula, sabe perfeitamente quem é quem no governo e onde estão os problemas que fazem o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) não andar.

Ao contrário, as obras tiveram um rendimento menor nos primeiros meses de governo Dilma, piorando o que já era ruim.

30/07/2011

às 13:58 \ Feira Livre

Vale-tudo ideológico

EDITORIAL PUBLICADO NO GLOBO DESTA SEGUNDA-FEIRA

Entidades com longa história de vigilância sobre governos, como a UNE, se mantêm em silêncio diante da enxurrada de casos de corrupção ocorridos desde 2003, quando Lula assumiu o primeiro mandato. Dois anos depois estourou o mensalão, em que há crimes de lavagem de dinheiro e também de desvio de recursos públicos, entre outros. Silêncio total. E assim tem sido até agora, na sucessão de escândalos nestes quase sete meses de governo Dilma. Sequer apoio à presidente, petista, é dado.

Forja-se, agora, uma curiosa desculpa para essa imobilização: tudo seria fruto do “udenismo” da oposição e, claro, da imprensa independente e profissional. Quer-se, com isso, importar das décadas de 50 e 60 uma luta ideológica entre a UDN de Carlos Lacerda e o PTB de Getúlio, Jango e Brizola, um anacronismo. Além de se considerar que havia mesmo corrupção no Palácio do Catete daqueles tempos, hoje a conjuntura é muito diferente. Não há qualquer campanha ideológica orquestrada contra qualquer governo, apenas — o que não é pouco — fatos concretos, substantivos, de malfeitos na esfera do poder.

O mensalão, de tão substantivo, virou peça de acusação do Ministério Público Federal aceita pelo Supremo, que se prepara para julgar o histórico processo em 2012, salvo chicanas advocatícias. Nele estão figuras estreladas do PT, como José Dirceu, Genoino, o tesoureiro Delúbio Soares – recebido de volta pelo partido sem pudores -, João Paulo Cunha etc. Talvez isto iniba a UNE, sindicatos e movimentos ditos sociais, também dependentes de verbas públicas. Fica evidente que, na ótica de algumas organizações, há corrupções e corrupções. Se o escândalo envolve o governo Collor de Mello, a postura é uma; caso atinja o PT, o silêncio impera. (Não se deve mesmo esquecer que existe um mensalão tucano mineiro no Supremo, à frente dele o ex-governador Eduardo Azeredo). Não há como ressuscitar no século XXI os embates ideológicos do início da metade do século passado. Não está em questão a tomada do poder, mas a lisura no manejo do dinheiro do contribuinte, o que não pode ser considerado desimportante. Mas, em nome da manutenção do poder, faz-se vista grossa a escabrosos assaltos ao Tesouro, cometidos à vista de todos.

Há o perigo de UNE, MST e entidades sindicais reeditarem algo também tão carcomido quanto o embate de “udenismo” versus “trabalhismo/getulismo”: o “rouba mas faz” do populismo de Adhemar de Barros da política paulista daqueles mesmos tempos. Uma ideologia distorcida que se manteve na vida pública de São Paulo até Paulo Maluf.

Recoloca-se a também antiga questão dos “fins que justificam os meios”, cacoete de movimentos de esquerda que terminou desaguando no mensalão e em outras impropriedades em certas empresas estatais. O fato de a UNE fazer um congresso patrocinado pelo dinheiro público é apenas um aspecto, seja uma caneta petista ou tucana que libere as verbas. Há mesmo eventos de organizações da sociedade que precisam e devem contar com apoio do poder público.

O ponto é outro: o que UNE, sindicatos, MST e similares dão em troca do acesso ao dinheiro do contribuinte. O silêncio diante da enxurrada de casos de desvio de dinheiro do Tesouro é grave. Inevitável que se faça ligação entre uma coisa e outra. Há – ou deveria haver – preceitos éticos que pairam sobre partidos e ideologias, bem como o compromisso inegociável com eles. Se não, a vida pública se resume a um vale-tudo de quinta categoria, sem aprimorar a sociedade.

29/07/2011

às 16:07 \ Feira Livre

‘Coragem e generosidade’, um artigo de Nelson Motta

TEXTO PUBLICADO NO GLOBO DESTA SEXTA-FEIRA

Lula é ovacionado no congresso da UNE

Nelson Motta

Se o futuro do Brasil está nas mãos dos estudantes e quem os representa é a UNE, então é bom começar a pensar em um plano B. Em artigo no GLOBO, o novo presidente, Daniel Iliescu, nem tão novo assim, porque tem 26 anos e já poderia estar formado e trabalhando, nega ser chapa-branca argumentando que a UNE é preta, vermelha, amarela, de todas as cores. Que fofura! Igualzinha ao comercial do agrobusiness com Lima Duarte na televisão.

O companheiro Iliescu afirma o pluralismo da entidade, que tem filiados de todos os partidos, embora seja um braço do PCdoB governista há mais de nove anos. Para ele a presença de 10 mil estudantes no congresso de Goiânia “é indicativo de uma juventude corajosa, generosa e mobilizada”. Que coragem ! Que generosidade ir a uma boca-livre oferecida pela Petrobras. Mas ao menos ele reconhece que a grande maioria dos estudantes não se interessa pelos partidos nem pela UNE. Melhor assim. A UNE está cada vez mais parecida com um sindicato lulista.

A pérola de seu artigo é a justificativa do patrocínio oficial à UNE comparando-a aos principais veículos da imprensa brasileira, “que recebem milhões de reais em verbas publicitárias e não têm sua independência e seu senso critico questionados”. A grande midia pode ser independente porque não vive só de anuncios oficiais, como os “blogueiros progressistas”. A Petrobras precisa anunciar para vender mais óleo e gasolina e não para comprar opiniões. Talvez nem seja o caso de estudar mais, bastaria ler jornais e revistas.

O pior é tentar fugir da chapa-branca alegando que “as principais bandeiras da UNE têm pontos de dissenso com o governo federal”, tipo o governo quer dar 7% do PIB ao Plano Nacional de Educação e a UNE quer 10%. Mas hoje o que mais falta para a educação não é dinheiro, é bom uso dos recursos, menos roubo e melhor qualidade do ensino.

A UNE também é “radicalmente contra as abusivas taxas de juros do Banco Central e a favor de mais investimentos e desenvolvimento”, mas quem não é? Resta aos caras-pintadas ir para as ruas com coragem, generosidade e mobilização, e derrubar os juros.

19/07/2011

às 17:25 \ Feira Livre

Sem solução

ARTIGO DE MERVAL PEREIRA PUBLICADO NO GLOBO DESTA TERÇA-FEIRA

Merval Pereira

Está ficando claro que a tentativa da presidente Dilma de resolver o caso do Ministério dos Transportes “por dentro”, sem romper com o PR, mantendo um ministro, Paulo Sérgio Passos, que faz parte do esquema do partido desde 2004 mas se transformou em seu homem de confiança, não vai dar certo. O ministério está todo corroído, a cada dia surgem novas denúncias, inclusive envolvendo o próprio ministro atual, numa briga de grupos dentro da estrutura funcional que se assemelha a brigas de gangues por um mercado de falcatruas.

Se a presidente Dilma estivesse mesmo disposta a fazer o que seria uma “limpeza” do setor, teria de fazer uma ação vigorosa, nomeando um interventor com plenos poderes para acabar com a influência do Partido da República.

Só começando tudo de novo haveria condições de sanear esse setor de transportes que, há oito anos nas mãos do PR, se transformou em um antro de ladroagem e incompetência.

Mas os sinais não vão nessa direção, pois no próprio Palácio do Planalto há uma disputa política, com o ministro Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência, atuando a favor da manutenção de Luiz Antonio Pagot à frente do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), defendendo a posição política de Lula, que tem interesse em preservar o PR.

A questão ética mais uma vez perde para a questão política. Mesmo que seja verdadeira a vontade da presidente de livrar-se dessa “herança maldita”, ela não tem condições políticas de fazê-lo declaradamente.

Por isso, sua atitude errática. Negar que tenha recebido uma “herança maldita” até é compreensível para a manutenção da relação direta com o ex-presidente Lula, mas anunciar que quer fazer uma limpeza no setor e, ao contrário, deixar que o mesmo partido continue à frente do ministério é demonstração de fraqueza política.

Para não restarem dúvidas sobre seu comprometimento, a presidente Dilma disse em recente encontro que o PR mora em seu coração.

A frase é tão exagerada quanto uma de Lula, que, depois de ter sido obrigado a ouvir um recital do então deputado Roberto Jefferson na casa do próprio, disse que tinha tanta confiança no presidente do PTB que seria capaz de dar-lhe “um cheque em branco”.

Dias depois, estourou a bomba do mensalão, com uma entrevista do mesmo Roberto Jefferson abrindo toda a sordidez que rolava por baixo dos panos na base aliada do lulismo.

Sempre que um presidente é obrigado a fazer esse tipo de malabarismo, com frases de efeito comprometedoras, é porque o grau de risco que seu governo corre se abandonar aquele aliado político é muito grande.

Ninguém consegue dizer no governo, por exemplo, se Luiz Antonio Pagot está ou não demitido do Dnit. Sabe-se, por informações indiretas, que a presidente Dilma está resolvida a demiti-lo, mas mesmo assim a ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, não tem certeza para garantir nada: “Tudo indica que sim, até pelas reiteradas vezes em que ela tem se comportado dessa forma” é o máximo que consegue dizer, jogando a batata quente para a presidente Dilma.

Por enquanto, Pagot está de férias e, tecnicamente, não pode ser demitido, o que não impediria que sua demissão, logo na volta das férias, fosse anunciada.

O que o governo procura é ganhar tempo para negociar o silêncio de Pagot, que já foi comparado a um “homem-bomba” pelas informações que teria acumulado sobre as atividades ilegais do Dnit e o dinheiro desviado, também, para as campanhas eleitorais do PT, inclusive, dizem, para a presidencial que levou Dilma ao Palácio do Planalto.

O caso mais emblemático do estado de desorganização funcional que impera no Ministério dos Transportes, especialmente no Dnit, é o de Frederico Augusto de Oliveira Dias, o Fred, “assessor do diretor-geral” desde 2008.

Ele na verdade é o “representante legal” da eminência parda do ministério e do PR, o deputado-mensaleiro Valdemar Costa Neto.

Com sala própria e direito a fazer parte de comitivas oficiais — acompanhou Paulo Sérgio Passos, quando este era ministro interino, em uma viagem à Bahia —, Fred negociava com prefeitos e vereadores, e encaminhava suas reivindicações aos órgãos competentes.

Quando a presidente Dilma, como sempre alertada por denúncias da chamada grande imprensa, decidiu demiti-lo, descobriu que não poderia fazê-lo porque ele simplesmente nunca havia sido nomeado.

A presidente, para cumprir seu desejo, precisaria seguir o exemplo de famoso patriarca de um império jornalístico.

Reza a lenda que, no auge do prestígio do seu grupo, subiu no elevador do prédio recém-construído, projeto de renomado arquiteto, e não gostou de ver um homem que comia um sanduíche de mortadela sujando-o com as migalhas do pão.

Irritado, chamou a atenção do “funcionário”, que não ligou para a admoestação, no que foi sumariamente demitido pelo “patrão”.

Acontece que o sujeito era um visitante, não um empregado do grupo. Decepcionado com a ineficácia de seu gesto, o patriarca não pestanejou: deu ordens para que o porcalhão fosse contratado, para que pudesse demiti-lo em seguida.


 

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