10/07/2009
às 23:39 \ Baú de PresidentesO paciente rebelde sai pela rua, finge que é outro, berra na geral e ameaça divulgar o que guardou sobre Sarney

Capítulo final
O GRANDE DESFECHO DA NOITE DAS ARÁBIAS
Numa ofensiva fulminante e exemplarmente sincronizada, meu amigo Carlos Maranhão ocupa a cadeira à esquerda da reservada ao ex-presidente João Figueiredo enquanto me instalo do lado direito. Estamos infiltrados na mesa principal. Georges Gazale parece cada vez mais inquieto com a loquacidade do homenageado.
─ Este moço é editor da Playboy e este é diretor da sucursal do Jornal do Brasil ─ especifica o anfitrião, acionando pela quarta vez o sinal amarelo.
Pelo jeitão indiferente, Figueiredo nem ouviu. Não está interessado em saber quem está na platéia, muito menos o que faz na vida. Está interessado em retomar a incursão pelo mundo dos jalecos que desafia, dos conselhos que ignora e das proibições que atropela.
─ Parei de fumar, mas não de cavalgar ─ informa a voz rouca. ─ Quando dói a coluna, falo um palavrão e melhora.
Instruído para percorrer 4 quilômetros por dia, driblou o médico com a ajuda do dicionário.
─ Descobri no Aurélio que o verbo percorrer não quer dizer que o percurso deve ser feito a pé ─ diverte-se. ─ Pode ser de moto. Ou a cavalo.
Em seis anos de governo, o paciente rebelde levou frequentemente ao limite da paciência os médicos incumbidos de zelar pela saúde do presidente.
─ O doutor Newton Mattos, que era cardiologista, gostava de tirar a pressão toda hora, até no meio de uma conversa ─ exemplifica. ─ Quando vi que era assim, chamei o cara de lado e avisei que ele seria demitido no dia em que a pressão passasse de 13 por 8.
Oficialmente, nunca mais passou.
─ Médico quer que a gente renuncie a tudo ─ está ficando bravo. ─ Para não ter colesterol, o sujeito precisa abrir mão de tudo o que dá prazer. E eu não resisto a um leitãozinho pururuca.
Acaba de lembrar que, ainda presidente, recebeu pelo correio um panfleto publicitário que considerou especialmente engenhoso.
─ Era a progaganda de uma agência funerária ─ o narrador se entusiasma. ─ Começava explicando o que a gente deve fazer para não ter problemas com o colesterol: não pode isto, não pode aquilo. Em seguida dizia que, se alguém quisesse fazer o contrário do que era recomendado ali, deveria ligar para o número tal e reservar um túmulo.
Achou a peça publicitária tão criativa que telefonou para o dono da funerária, identificou-se e cumprimentou pela ótima idéia o comerciante perplexo. Mas não fez a reserva:
─ Expliquei que salário de presidente não dava para aqueles preços, eram muito salgados.
Gazale aparteia para avisar que o bom humor do amigo tem tudo a ver com os resultados dos exames.
─ Estou contente porque me sinto como quem sai da cadeia ─ corrige o general da reserva. ─ Aquilo é pior que prisão.
“Aquilo” é o Palácio do Planalto.
─ Estão com saudade de mim, mas nem 50 japoneses conseguiriam me arrastar de volta para Brasília ─ delira Figueiredo antes da vírgula e exagera depois.
Como também o apartamento em São Conrado parece gaiola, prefere caminhar na orla. Está ficando difícil, murmura.
─ É só sair na rua e já aparece alguém querendo cumprimentar, conversar. As pessoas me abraçam, dizem que está na hora de voltar, me aplaudem, essas coisas.
Admite que a unanimidade já foi desafiada. Mas só uma vez:
─ Um desconhecido começou a me dizer desaforos. Não sou de levar isso para casa. Então, soltei-lhe um tapa na cara.
E há os que não acreditam no que estão vendo.
─ Esses perguntam se eu sabia que sou muito parecido com aquele cara que foi presidente ─ ri. ─ Digo que sou outro e conto ao sujeito que essa semelhança vive me causando aborrecimentos.
Gostou tanto do truque que agora usa todos os dias. Usara-o semanas antes para torcer em sossego no Maracanã. Quando percebia algum olhar de curiosidade, nem esperava que a pergunta viesse: ia logo avisando que não, ele não era quem o parceiro de torcida pensava que fosse.
─ O bom é ver futebol na geral ─ diz. ─ A gente fica discutindo à vontade, brigando, berrando palavrão. É muito mais gostoso.
Embora insatisfeito com o governo do presidente José Sarney, não pretende espalhar mais pedras pelo caminho do sucessor.
─ O que estou vendo de burrice por aí é uma grandeza, mas não quero sair por aí com declarações e entrevistas ─ franze a testa. ─ Aliás, nem preciso de entrevista. É só colocar no bolso uns papéis que guardo comigo e mostrar de repente o que está escrito neles. No dia que for preciso, eu mostro. O Sarney veria o que é bom…
No meio da madrugada, despedi-me pensando nos papéis. Mais de 20 anos depois daquela noite das arábias, 10 depois da morte de Figueiredo, estou agora imaginando o que diziam aqueles escritos. E me perguntando se o senador José Sarney sabe do que escapou.
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