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luta armada

27/11/2012

às 18:10 \ O País quer Saber

Muita ação, poucas ideias

PUBLICADO NA EDIÇÃO IMPRESSA DE VEJA

AUGUSTO NUNES

Repórter obstinado, pesquisador competente e escritor talentoso, o jornalista Mário Magalhães dedicou-se nos últimos nove anos ao resgate da história de Carlos Marighella (1911-69), militante comunista na juventude, deputado constituinte com menos de 40 anos e fundador, já cinquentão, da Ação Libertadora Nacional (ALN), a mais conhecida das siglas que afundaram na opção pela luta armada contra a ditadura militar. Magalhães desmontou versões fantasiosas, corrigiu equívocos, resgatou documentos dados por perdidos, escavou episódios desconhecidos ─ e reconstituiu detalhadamente a trajetória do inspirador de Marighella – O guerrilheiro que incendiou o mundo (Companhia das Letras; 732 páginas; 45 reais). Ao imprimir um ritmo de thriller à narrativa, o autor tornou possível completar, sem tantas pausas ofegantes, a extensa travessia do que prefere qualificar de reportagem.

Seria uma biografia exemplar se o biógrafo tivesse resistido à tentação de tratar Marighella com brandura. O baiano jovial que fazia versos e gracejava com parceiros de aventuras poderia ter cedido alguns dos numerosos parágrafos que ocupa ao devoto de Stalin que celebrava “a beleza que há em matar com naturalidade”. E a presença do guerrilheiro urbano é tão opressiva que não sobra espaço para a contemplação do terrorista confesso. No Manual do Guerrilheiro Urbano, publicado em 1969, o biografado reserva um capítulo inteiro ao terrorismo, “uma arma que o revolucionário não pode abandonar”. Se essa face escura merecesse a atenção devida, a figura desenhada não pareceria frequentemente inverossímil.

Ainda assim, seguiria sem resposta a única interrogação de bom tamanho que o autor não conseguiu remover: com tantos protagonistas da História do Brasil à espera de um bom biógrafo, por que consumir tantos anos de investigação e tantas centenas de páginas na exumação de um coadjuvante vocacional?  O guerrilheiro que incendiou o mundo ─ proeza  que nem os admiradores de Che Guevara ousaram reivindicar ─ existiu apenas no título do livro. O que emerge da leitura é um homem de ação com coragem de sobra e juízo de menos, e que só desempenhou o papel de n° 1 na organização clandestina que, de 1967 a 1969, comandou com uma arma na mão e nenhuma ideia sensata na cabeça.

O Marighella militante e depois dirigente do Partido Comunista Brasileiro foi mais um entre tantos cumpridores das ordens do onipresente Luiz Carlos Prestes, todos convencidos de que vale tudo para a  implantação da ditadura do proletariado. O Marighella deputado constituinte foi o mais aplicado companheiro de bancada de um Jorge Amado já na antessala da consagração como romancista. O Marighella surpreendido pelo golpe militar de 31 de março de 1964 só virou notícia por ter enfrentado a socos e pontapés os policiais que o prenderam, dois meses depois do mergulho na clandestinidade, no interior de um cinema no Rio. Como não havia testemunhas da luta corporal, a própria notícia foi às redações dos jornais assim que saiu da cadeia. Provou o que dizia com a exibição das marcas da pancadaria.

Mesmo o comandante supremo da ALN teve seus poderes frequentemente confiscados por subordinados hierárquicos. Mário Magalhães descobriu, por exemplo, que Marighella só soube do sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick depois de consumada, em parceria com o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), a mais espetacular operação promovida por partidários da luta armada. O n° 2 da ALN, Joaquim Câmara Ferreira, endossou e ajudou a executar o plano por estar convencido de que o chefe gostaria da ideia. Errou, revela o livro. Num raro surto de lucidez, Marighella compreendeu que o sequestro de um embaixador dos EUA provocaria retaliações extraordinariamente superiores, em intensidade e violência, ao poder de fogo da minúscula tropa empenhada na perseguição do paraíso socialista.

Capturado em 4 de setembro de 1969, Elbrick foi solto três dias mais tarde em troca da libertação de 15 presos políticos. Em 4 de novembro, Marighella foi fuzilado numa rua de São Paulo por um grupo de policiais chefiado pelo delegado Sérgio Fleury. Até sucumbir à emboscada, ele passara dois anos sonhando na cidade com a guerrilha rural sempre adiada por um assalto a banco, um atentado a bomba ou a execução de um empresário. O guerrilheiro urbano que se imaginava incendiando os campos do Brasil jamais entrou em combate contra tropas regulares do Exército. Só enfrentou a polícia política. Como em todas as batalhas anteriores, perdeu. 

04/07/2012

às 11:57 \ Feira Livre

Reynaldo-BH e o assassino confesso: ‘Clemente permanece vivo em Carlos Eugênio’

REYNALDO ROCHA

A Comissão da Verdade precisa definir o que seja verdade. Descartes afirmava que a verdade nasce da certeza. Nietzsche sequer acreditava nela. Qual a verdade que norteia esta comissão? A da certeza ou aquela que pode ser inventada ou reescrita?

Prefiro a dos historiadores. Que provam com fatos históricos. E estes podem ser interpretados; jamais desmentidos.

Usar a verdade para fazer a apologia de determinada posição histórica ou opção ideológica é uma mentira em si. Pouco importa a motivação do formulador da hipótese. História não pode sujeitar-se a visões. Simplesmente é. Ou foi.

A Comissão da Verdade – criada para um ajuste de contas entre vencedores e vencidos, que não faz parte da pauta dos brasileiros – teria que buscar a história e nela permanecer. Ou terá.

A lágrima da mãe que perdeu um filho na ditadura é menos valiosa caso o filho tenha sido assassinado pelo então companheiro? Ou só será relevante se foi vítima dos trogloditas oficiais? Os outros – tão trogloditas quanto – estão, a priori, isentos de censura ética?

A violência e horror da tortura são mais leves que o horror do justiçamento executado por um algoz que tinha a confiança do marcado para morrer? A ausência do desaparecido será compreendida como justa se derivar de um ato dos grupos de esquerda que desejavam substituir uma ditadura infame por uma infame ditadura?

É o terror revisitado. É o pesadelo continuado. Que ninguém pediu. Exceto os desejosos de uma cobrança que nós – brasileiros com vergonha na cara e esperança no futuro – já julgávamos ser dívida liquidada. Pela anistia.

O mesmo sentimento que motivou a criação da dita comissão é o que pede a revisão da anistia. Pior: o cancelamento do esquecimento que a anistia carrega como motivação principal – senão única – em qualquer situação.

Esta anistia é que permite que assassinos possam vir a público enaltecer a própria covardia e ferocidade. De ambos os lados.

Não me oponho à elucidação histórica do passado tenebroso da ditadura militar. Ao contrário, creio que uma análise séria serviria de antídoto para outras aventuras. Mas não se constrói a história de um povo e de um país a partir de visões previamente distorcidas. Com antolhos.

A Comissão da Revanche ficará desmoralizada com depoimentos como o de Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz, o “Clemente. Ou irá recriar um passado. O que não seria estranho: quem não tem projeto de futuro tende a reescrever o passado. Conhecemos a fórmula. E os autores da alquimia.

Não há como separar a tortura bárbara e desumana da desumanidade do julgamento sumário de um ser humano. Julgamento e execução reunidos num só momento. Promotor e juiz de uma causa sem direito à defesa.

Covardia elevada à enésima potência. Usando da confiança da amizade e de sentimento de grupo, tem-se uma vítima desamparada e iludida. O que seria pior? Enfrentar militares armados em camburões policiais ou ir ao encontro de amigos que decidiram pela execução sumária e direta?

Quem é o covarde nesta cena? O que se pode invocar como argumento de defesa? Qual foi a chance concedida à vítima? Em nome de quê? Da democracia? De um novo projeto de país? Qual seria o final destes episódios se os perdedores tivessem triunfado?

Nada disso elimina a minha absoluta repugnância pela ditadura militar. Cruel, covarde e assassina. Ao contrário, aumenta o débito que deixou como herança ao Brasil.

Criou assassinos que, passados mais de 40 anos, ainda se orgulham de serem assassinos. Mesmo que anistiados.

Respeito a não punibilidade derivada da anistia. Para todos. Inclusive para a besta-fera que ironicamente informa que só não confessou o crime por que ninguém havia feito a pergunta. Não respeito o cinismo que sobra e a decência que falta ao Clemente.

A diferença entre ele e o facínora delegado Fleury é que este já morreu. Clemente parece insistir em permanecer vivo em Carlos Eugênio.

03/07/2012

às 19:44 \ Direto ao Ponto

A história do Brasil escrita pelos perdedores transfere para a turma da bolsa-ditadura a vitória da resistência democrática

O presidente da República que não sabe escrever ─ como informam aos gritos quatro ou cinco bilhetes que rabiscou em mais de 60 anos ─ assinou o tratado da reforma ortográfica. O ex-presidente que nunca leu um livro ─ e compara uma virada de páginas a exercício em esteira ─ virou colecionador de títulos de doutor honoris causa.

A presidente que não conseguiu administrar uma lojinha em Porto Alegre foi promovida pelo padrinho a supergerente de país. A chefe de governo que nomeou um ministério infestado de corruptos é aplaudida por demissões feitas a contragosto pela única faxineira do mundo que gosta de lixo por perto. E as vítimas dos pitos da mulher rabugenta fazem de conta que estão ouvindo a voz enérgica de uma estadista.

O ex-ministro da Educação continua convencido de que está certo falar errado ─ “Nós pega os peixe”, por exemplo. O ministro da Fazenda acha que o Brasil fica melhor depois de cada crise econômica. O ministro da Pesca não sabe colocar minhoca em anzol. O ministro da Indústria apressou a falência de uma fábrica de tubaína com meia dúzia de conselhos. O ex-ministro da Justiça apadrinha terroristas italianos e, como atesta a portaria publicada na seção O País quer Saber, promove a anistiado político o assassino confesso de um companheiro.

No país anestesiado pela rotina do absurdo, ninguém pode surpreender-se com uma Comissão da Verdade que subscreve a História escrita pelos perdedores, confunde fato com fantasia e tenta eternizar mentiras. Entre tantas, uma das mais obscenas atribui aos grupos que naufragaram na luta armada contra o regime dos generais uma relevância que jamais tiveram.

Essa visão deliberadamente distorcida permite enxergar mártires da liberdade onde só houve gente disposta a tudo para substituir a ditadura militar pela ditadura do proletariado. Quem não sofre de miopia malandra sabe que os marighelas, lamarcas e demais liberticidas só contribuíram para prolongar o período autoritário. A liberdade foi resgatada não pela turma da bolsa-ditadura, mas por milhões de brasileiros engajados na resistência democrática.

Como resume o título do post republicado na seção Vale Reprise, os democratas vitoriosos ao fim de 20 anos de luta garantiram a sobrevivência de centenas de devotos do partido único que erraram a escolha na encruzilhada. Nós não lhes devemos nada. Eles nos devem tudo, a começar pela vida. E ainda assim afrontam seus salvadores com a tentativa de expropriação do triunfo do que foi, é e será para sempre dos democratas que resistiram.

Resistiram sem bravatas, sem rompantes juvenis. Resistiram com a tenacidade, a paciência e a bravura de quem aprendeu que duelos desse porte não são para moleques que mal aprenderam a manusear metralhadoras. Os que se mantiveram lúcidos souberam desde sempre que uma coisa dessas só pode ser resolvida por combatentes adultos. Como foi.

03/07/2012

às 1:11 \ Direto ao Ponto

A Comissão da Verdade tropeçou num terrorista aposentado que acaba de se transformar em assassino confesso de um companheiro de luta contra a ditadura

Márcio Leite de Toledo tinha 19 anos quando foi enviado a Cuba pela Aliança Libertadora Nacional, para fazer um curso de guerrilha. De volta ao Brasil em 1970, tinha 20 quando se tornou e um dos cinco integrantes da Coordenação Nacional da ALN, organização de extrema-esquerda fundada pelo terrorista Carlos Marighela. Então com 19 anos, fazia parte do quinteto o militante comunista Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz, o “Clemente”. Da mesma forma que o Paz da certidão de nascimento, o codinome contrastava com o temperamento e o prontuário de um devoto da violência.

Em outubro de 1970, durante uma reunião clandestina, os componentes da Coordenação Nacional debateram as circunstâncias do assassinato de Joaquim Câmara Ferreira, que havia 11 meses substituíra o chefe supremo Marighela, fuzilado numa rua de São Paulo por uma milícia liderada pelo delegado Sérgio Fleury. Sob o argumento de que estavam percorrendo o caminho mais curto para a eliminação física dos engajados na luta armada, Márcio propôs aos demais dirigentes uma pausa na guerra desigual.

Não era a primeira vez que aquele companheiro desafinava do restante da direção, desconfiou  Clemente. Demorou duas horas para concluir que Márcio era um dissidente prestes a traí-los, entregar-se à polícia da ditadura e contar o muito que sabia. Demorou dois dias para convencer o restante da cúpula a avalizar seu parecer. Demorou um pouco mais para, com o endosso dos parceiros, montar o tribunal revolucionário, propor a pena capital e aprovar a sentença que, já com 20 anos,  ajudou a executar numa rua de São Paulo.

Convocado para uma reunião de rotina do alto comando, Márcio foi para o encontro com a morte no fim da tarde de 23 de março de 1971. Antes de sair do apartamento que lhe servia de esconderijo, o condenado que não tivera o direito de defender-se e sequer suspeitava da tocaia deixou um registro manuscrito: “Nada me impedirá de continuar combatendo”, prometeu-se. Não imaginava que fora proibido de continuar vivendo. Assim que chegou ao ponto combinado na região dos Jardins, foi abatido a tiros.

Alguns foram disparados por Clemente, acaba de admitir o terrorista aposentado ao jornalista Geneton Moraes Neto, que o entrevistou para o programa Dossiê, exibido pela Globo News neste 30 de junho. O vídeo abaixo reproduz o trecho da entrevista em que o depoente se transforma oficialmente em assassino confesso. “Então nós fomos lá e cumprimos a tarefa”, diz Clemente depois de resumir a decisão do tribunal revolucionário composto por três juízes com pouco mais de 20 anos de idade. “Cumprir a tarefa” é bem menos chocante que “executar um companheiro de luta contra a ditadura”.

Entrevistador competente, Geneton vai direto ao ponto: “Você participou diretamente da execução, então?” Com a placidez de quem recita uma receita de bolo, Clemente enfim assume a autoria do crime. “Essa é uma informação que até hoje eu não dei”, avisa. “E, na verdade verdadeira, eu não dei também porque ninguém teve essa atitude de chegar e me perguntar diretamente. Participei, sim, da ação. A tiros… a tiros…” A expressão sem culpas e o olhar de quem não perde o sono por pouca coisa informam que, para o declarante, tirar ou não a vida de um ser humano é algo que merece tanta reflexão quanto ir à praia ou ficar na piscina do prédio.

Alguns integrantes da Comissão da Verdade dividem o universo que resolveram devassar em torturadores a serviço da ditadura e heróis da resistência. Uns merecem o fogo do inferno, outros só merecem a gratidão do país (e desfrutar de uma Bolsa Ditadura de bom tamanho). Em qual dessas categorias devem ser enquadrados Carlos Engênio Coelho Sarmento da Paz e Márcio Leite de Toledo? O algoz pode alegar que a execução de um dissidente que também combatia a ditadura militar foi um acidente de percurso? Essa espécie de homicídio foi engavetada pela anistia? A família da vítima de um crime que o Estado não cometeu pode figurar na relação dos indenizados? Como reparar a memória do jovem executado? A Comissão da Verdade está convidada a oferecer respostas convincentes para tais interrogações.

Bem menos complicado é responder à pergunta feita por Clemente em novembro de 2008, quando voltei a tratar do episódio infame: “O que quer o jornalista Augusto Nunes quando publica um artigo como este?”. Simples: quero deixar claro que não há nenhuma diferença entre o torturador que matou Vladimir Herzog e o terrorista que executou Márcio Leite de Toledo. Um a serviço da ditadura militar, outro a serviço da ditadura comunista, ambos são assassinos sem direito ao perdão.

21/07/2011

às 14:43 \ Direto ao Ponto

Os leitores aposentam a UNE, acrescentam uma letra à velha sigla e criam a União Nacional dos Estudantes Amestrados

Nascida em 1937, a União Nacional dos Estudantes foi presidida até o fim dos anos 60 por nacionalistas, udenistas, socialistas, comunistas ortodoxos e partidários da luta armada. Mas nunca pertenceu a qualquer partido ou organização. Fosse qual fosse a identidade ideológica do presidente ou da diretoria, a UNE sempre procurou traduzir o pensamento majoritário do universo que representava. Descontados os inevitáveis acidentes de percurso, opções equivocadas e erros bisonhos, prevaleceram na longa e bela trajetória da entidade a independência política, a vocação antigovernista, o amor à democracia e a paixão pela liberdade.

Orientada por tais marcas de nascença, a UNE combateu o Estado Novo, defendeu nas ruas a entrada do Brasil na guerra contra o totalitarismo nazista, lutou pela ressurreição do regime democrático, ajudou a apressar a criação da Petrobras, apoiou as reformas planejadas pelo governo João Goulart, opôs-se ao golpe militar de 1964 e tentou resistir à institucionalização da ditadura, consumada pela decretação do AI-5.

Sobreviveu a adversidades de bom tamanho, mas ficou grogue e exposta ao nocaute em 1968, abalada pela ação ação conjunta da cabeça fraca de José Dirceu e da mão pesada do regime autoritário. Encarregado de organizar o congresso da UNE, o futuro guerrilheiro de festim resolveu juntar mais de 1.000 universitários perto de uma cidade com menos de 10 mil habitantes. A Polícia Militar completou o serviço e prendeu todo mundo. O desmaio da UNE se estendeu até 1985, quando acordou do sono e emergiu da clandestinidade para agonizar à luz do dia.

Perdeu a independência em 1980, quando o agora deputado federal Aldo Rebelo assumiu a presidência e reduziu a UNE a um apêndice do Partido Comunista do Brasil. Perdeu a vergonha de vez em 2003, quando foi incluída no contrato de aluguel assinado pelo presidente Lula e pelos chefes do PCdoB. Para amestrar a sigla, o governo não precisou de domador nem chicote. Bastaram rações em dinheiro vivo ou subvenções, além de garantia de que os encontros, quermesses e piqueniques promovidos pelos pelegos aprendizes seriam patrocinados por empresas estatais. Funcionou.

A União Nacional dos Estudantes teve queixas a fazer, reivindicações a apresentar, mudanças a convocar nos governos de Getúlio Vargas, Eurico Dutra, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros  e João Goulart, José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Depois de Lula, todos os problemas sumiram. O sistema educacional ficou perfeito. A mesma turma que boicotou o Provão aplaudiu os dois naufrágios sucessivos do Enem, pilotados pelo companheiro Fernando Haddad. O Brasil Maravilha que o chefe criou não precisa sequer de retoques. Se melhorar, estraga.

O prêmio pelo bom comportamento foi a bolada de quase R$ 50 milhões, oficialmente destinados à construção do zoológico próprio na Praia do Flamengo, projetado por Oscar Niemeyer. Ali serão costuradas as notas de apoio a qualquer coisa que venha do Planalto. Ali serão planejadas as próximas quermesses. Ali será esboçado o documento que resume, num texto indigente, as deliberações aprovadas no último dia. Tem tanta importância quanto a ata de alguma reunião do Clube dos Leitores de Lula.

Numa das mais movimentadas enquetes da história da coluna, 3.290 leitores-eleitores resolveram que a UNE não existe mais. Por decisão de 1.047 votantes (32% do total), nasceu a União Nacional dos Estudantes Amestrados, ou simplesmente UNEA. Aos 74 anos, a velha senhora caiu na vida e perdeu o direito de continuar usando o nome outrora respeitável.

28/06/2011

às 3:47 \ Sanatório Geral

Modelo cubano

“Conscientes dos perigos que nos assediam e que o inimigo não descansa, não podemos esquecer, como autênticos revolucionários, de outros métodos de luta”.

Ádan Chávez, irmão de Hugo Chávez, com cara de quem resolveu ser o Raúl Castro do Fidel venezuelano.

19/04/2011

às 15:25 \ Feira Livre

“A verdade”, um artigo de Eliane Cantanhêde

ARTIGO PUBLICADO NA FOLHA DESTE DOMINGO

Foto: Evandro Teixeira

O artigo autobiográfico do economista Persio Arida na revista “Piauí” é uma preciosidade. Num texto primoroso, ele coloca as coisas no seu devido lugar, mostrando os erros horrendos dos militares da época, mas também reconhecendo o quão equivocada foi a luta armada. Não apenas na tática, mas igualmente nos propósitos.

Sem querer, Persio dá um roteiro impecável para a Comissão da Verdade que tramita no Congresso e se propõe a reconstituir a história como ela é, pelo lado que ganhou à época e pelo que ganhou agora.

Ali estão, contados com a serenidade possível, praticamente dispensando adjetivos, a sua prisão, a tortura, a asfixia pela asma não medicada, o impacto do assassinato do militante Bacuri. É o que a esquerda quer da comissão.

Mas ali está igualmente uma reflexão madura, honesta e corajosa sobre os erros da militância armada -e avaliação, execução e objetivo. E é isso o que os militares reivindicam da comissão.

Ao falar sobre a luta armada, Persio lembra sua angústia ao finalmente admitir para si próprio: “O que teria acontecido com os direitos humanos se aquele movimento tivesse dado certo?”. E responde: “Sua dinâmica continha o mesmo vírus que fez, em outros momentos da história, militantes de excepcional pureza revolucionária se transformarem, no poder, em mandantes de mortes em massa e de torturas. (…) O terror legitimado pela utopia revolucionária. Teríamos trocado seis por meia dúzia”.

Então, vamos trucidar mais uma vez os militantes que já foram literalmente trucidados? Desdenhar dos que foram presos, torturados, humilhados e alquebrados? Não. Nem Persio o fez.

Sua conclusão, machadiana, diz tudo numa única frase: “A militância contribuiu, por vias tortas, para a volta da democracia -mas nisso se esgotara todo o seu sentido”.

Eis uma boa reflexão para a história -não só a dele, mas a do país.

28/11/2010

às 20:34 \ Sanatório Geral

Dá-lhe, Celso Arnaldo!

“Outrossim, através do seu interrogatório verifica-se ser uma das molas-mestras e um dos cérebros dos esquemas revolucionários postos em prática pelas esquerdas radicais. Trata-se de pessoa dotada de dotação intelectual bastante apreciável”

Relatório secreto do Dops, publicado hoje pela Folha à página A16, que mereceu o seguinte comentário do Celso Arnaldo: O trecho revela finalmente, 40 anos depois, por que a luta armada fracassou tão estrepitosamente no Brasil: Dilma Vana Rousseff Linhares era considerada mestra, embora mola, e cérebro do movimento. E tão dotada de dotações intelectuais que acabaria se tornando uma doutora em nada.

11/10/2010

às 8:19 \ Sanatório Geral

Colete em campanha

“De 11 lutas que travei no ministério, nas oito que ganhei tive o apoio da Dilma”.

Carlos Minc, ministro do Meio Ambiente e colecionador de coletes, tentando provar que Dilma Rousseff defende a Amazônia desde criancinha, sem confirmar a suspeita de que foi ela quem o derrotou nas outras três lutas, que eram as mais importantes.

22/04/2010

às 23:07 \ Vídeos: Entrevista

Daniel Moreno, cineasta e autor do documentário “Reparação”

“Eu preciso registrar isso de alguma forma”, decidiu imediatamente o cineasta Daniel Moreno ao saber da história de Orlando Lovecchio Filho. Sem verbas federais, valendo-se de recursos próprios e da boa vontade dos parceiros de trabalho, conseguiu concluir o documentário “Reparação”.  Aos 35 anos, Daniel Moreno agora luta para conseguir um espaço nas telas pouco receptivas a obras que contrariam os cânones da história oficial.

O documentário reconstitui a saga iniciada em março de 1968. Então com 22 anos, Lovecchio saía do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, quando viu a fumaça na entrada do consulado dos Estados Unidos. Procurou em vão algum segurança e começava a afastar-se no momento em que ouviu a explosão da bomba fabricada por integrantes de um grupo engajado na luta armada.  Dias depois, teve de concordar com a amputação parcial de uma perna.

Enquanto sobrevive com a pensão de R$ 500 por mês, paga pela Comissão de Anistia, Lovecchio continua empenhado em conseguir uma indenização mais justa. Um dos autores do atentado, Diógenes Carvalho de Oliveira, recebe o triplo do valor da pensão da vítima. Qual é o critério usado para a escolha dos indenizados e a fixação das quantias a pagar? Essa é uma das perguntas que emerge do documentário que será lançado até o fim deste ano.

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