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João Figueiredo

28/08/2009

às 18:27 \ Baú de Presidentes

Tancredo, lição n°3: “Escolher o adversário às vezes é muito mais importante que escolher o aliado”

Tancredo e Getúlio

Todo mundo sabe que Tancredo Neves sempre foi bastante cauteloso, lembro ao ouvi-lo dizer que não se deve tirar o sapato antes de chegar ao rio. O Tancredo que nunca vai ao Rubicão para pescar pouca gente conhece. Boa imagem essa, penso no primeiro aperitivo. Fico imaginando um chefe político jogando o anzol no rio nos limites de Roma que Júlio César atravessou, sem pedir licença, para tomar o poder.

─ De alguns rios o melhor é ficar longe ─ diz o doutor Tancredo depois de pedir tutu à mineira.

É o desfecho da aula fluvial, avisa o tom de voz. Peço o mesmo prato e um exemplo.

─ Fiquei fora do barco do Hugo Abreu ─ começa a contar a história que é a cara de Tancredo Neves.

Em 1978, parlamentares do MDB, entre eles o deputado Ulysses Guimarães, acharam muito boa a ideia de apoiar a candidatura de um militar disposto a enfrentar no Colégio Eleitoral o general João Figueiredo, já escolhido pelo presidente Ernesto Geisel. Conduzidas pelo general Hugo Abreu, ex-chefe da Casa Militar de Geisel, as articulações envolvendo dissidentes fardados resultaram na escolha do general Euler (pronuncia-se Óiler) Bentes Monteiro. O que Tancredo achava da ideia?, foram perguntar-lhe alguns deputados.

─ O Hugo Abreu não é oficial paraquedista?

Esse mesmo, ouviu.

─ Pois se eu paro, olho e medito antes de descer um degrau, como é que vou me juntar com um camarada que se joga de um avião lá do céu e sem ter asas? ─ encerrou Tancredo, que ficou fora do barco e do fiasco.

Esse episódio é mesmo a cara dele, quero ver como é a outra. Quando foi que cruzou o Rubicão pela primeira vez?

─ Na última reunião do ministério do Getúlio ─ informa o sotaque de São João del Rey.

Em 1953, o advogado Tancredo de Almeida Neves, ex-vereador e ex-deputado estadual, exercia o primeiro mandato de deputado federal, na bancada do  PSD, quando se tornou ministro da Justiça do governo constitucional de Getúlio Vargas. Tinha 44 anos na noite de 23 de agosto de 1954, quando a sala de reuniões do Palácio do Catete se transformou no leito de um Rubicão. Além de Oswaldo Aranha, foi o único ministro a defender a resistência a qualquer custo.

─ Fiquei muito impressionada com a coragem e a lealdade do Tancredo ─ ouvi de Alzira Vargas meses antes do jantar em Belo Horizonte. ─ Ele insistiu na prisão dos generais rebelados e na decretação do estado de sítio.

Possessa com a tibieza dos ministros militares, a filha e secretária de Getúlio, que entrara na sala sem pedir licença, acusou-os de covardia e, depois, de traição.

─ Ainda acho que a história do Brasil seria outra se papai concordasse em resistir ─ ouvi Alzirinha dizer.

─ Também acho ─ ouço Tancredo dizer depois de contar-lhe o que tinha dito a sua velha amiga. ─ O que houve já no dia do suicídio provou que o doutor Getúlio tinha o apoio do povo.

A primeira travessia se completou com o vigoroso discurso de despedida em São Borja, aquecido por ataques violentos aos novos donos do poder. Quem decidiu que Oswaldo Aranha e ele discursariam ao lado do túmulo?

─ Ninguém. Todos estavam muito comovidos, ninguém tinha cabeça para organizar listas de oradores.

O discurso, bonito e muito bem costurado, não parecia inteiramente improvisado. Como é possível falar aquilo tudo de sopetão, sem aquecimento mental, sem nenhum preparativo?

─ O coração falou por mim.

O doutor Tancredo é craque em  frases de efeito, mas achei fraquinha essa do coração falando por ele. Ele também achou, desconfio quando ele chama o garçom, pede uma segunda dose de uísque, volta a 1983 e diz que está de novo atravessando o rio perigoso.

─ Vou vencer ─ murmura.

A aliança entre a MDB e governistas convertidos à oposição tão forte assim? Enquanto confirma com movimentos de cabeça, ele começa outra lição.

─ Não há como perder do Paulo Maluf. É o adversário que eu queria. Escolher o adversário às vezes é muito mais importante que escolher o aliado.

12/08/2009

às 0:09 \ Baú de Presidentes

Tancredo Neves, lição n° 2: “Não se tira o sapato antes de chegar ao rio. Nem se vai ao Rubicão para pescar”

Augusto Nunes, Tancredo Neves, Golbery

De repente, o senador Tancredo Neves submergiu no mar de cabeças e braços, voltou à tona meio metro além, repetiu a manobra e ganhou duas ou três posições no cortejo que acompanhava o sepultamento do marechal Oswaldo Cordeiro de Farias. Eu o seguia a três corpos de distância quando aquele mineiro baixo, calvo e com o nariz arrebitado resolveu apressar o avanço rumo ao alvo situado duas fileiras atrás da comissão de frente formada por parentes do morto. Era um homem com cabelos brancos, óculos de quem lê o dia inteiro e cara de professor de matemática que reprova todo mundo.

Vou cortar caminho, decidi. Saí da alameda principal do Cemitério São João Baptista por um corredor à esquerda, virei à direita num mausoléu de mármore preto, violei três túmulos rasos com passadas ligeiras, dobrei à direita de novo num jazigo familiar de tamanho médio e cheguei lá. Chegamos: no instante em que me coloquei à frente do general Golbery do Couto e Silva, Tancredo alojou-se à esquerda do chefe da Casa Civil do presidente João Figueiredo. Na foto, sou uma camisa branca e uma cabeça incompleta.

Na tarde de 17 de fevereiro de 1981, Golbery estava lá para o enterro de Cordeiro de Farias. Tancredo estava lá para dizer alguma coisa a Golbery, presumi. Eu estava lá para ver no que dava. “Se o defunto é de primeira, não se perde o enterro”, ouvi meu pai prefeito dizer um monte de vezes. ”Primeiro, porque todo mundo vai. Segundo, porque quando todo mundo vai a um mesmo lugar alguma coisa acontece”. O velho Cordeiro, com todo o respeito, pareceu-me um defunto de primeiríssima.

E alguma coisa acontece mesmo. Estava para acontecer, por exemplo, uma conversa em voz baixa entre o articulador político do governo e o chefe da oposição moderada. Só eu ouviria aquilo. E eles nem vão notar que estou ouvindo, pensei sem olhar para trás. Ouvi a troca de cumprimentos formais. E então começou o toque de silêncio.

É agora, excitei-me quando foi morrendo o último sustenido, pronto para registrar o diálogo histórico:

─ Excelente corneteiro ─ começou Tancredo.

─ Muito bom ─ concordou Golbery.

Pausa de três minutos.

─ Foi um prazer encontrar-me com o senhor ─ surpreendeu-me Tancredo com a abrupta despedida.

─ O prazer foi todo meu ─ retribuiu Golbery.

─ Precisamos conversar ─ disse o senador estendendo a mão.

─ Precisamos, sem dúvida ─ encerrou o general apertando a mão estendida.

Não acredito, espantei-me ao constatar que o diálogo histórico fora substituído por um monumento à banalidade feito de seis frases. O deputado Thales Ramalho me contara que Tancredo e Golbery andavam se encontrando com frequência para conversas sigilosas em que tratavam de tudo. O que havia acontecido no cemitério? Viram algum suspeito nas cercanias? Identificaram algum espião? O que houve no dia do enterro?

Hoje vou saber, resolvi naquela noite de novembro de 1984, enquanto me sentava à mesa do restaurante em Belo Horizonte para a primeira conversa a dois com Tancredo Neves. Governador de Minas desde o ano anterior, já estava em marcha acelerada para a vitória no colégio eleitoral que, em janeiro de 1985, elegeria o sucessor do presidente Figueiredo. Ele havia topado falar sobre os bastidores da campanha.

─ Também gostei daquele corneteiro do enterro do Cordeiro de Farias ─ comecei.

Ele pareceu não entender nada.

─ O senhor até elogiou o corneteiro pro Golbery.

─ Não me lembro disso ─ ouvi. ─ Nem do corneteiro nem do encontro com o general Golbery.

Achei melhor mudar de assunto antes que dissesse que também não foi ao enterro de Cordeiro. Só no fim do jantar ele contou que lembrava de tudo. Queria apenas conferir se eu tinha mesmo testemunhado o parecer sobre o toque de silêncio. Eu desconfiava disso desde o aperitivo, quando ficou claro que ele estava com muita vontade de comer, de beber e de falar. Driblou o caso do corneteiro, mas matou no peito o assunto seguinte.

Por que não se entusiasmara com a campanha das diretas-já?, quis saber. Nunca acreditou que pudesse dar certo? Sempre achou que era uma coisa lírica, repetiu. Participou de vários comícios, mas se dependesse dele a campanha nem começaria.

─ Os militares não estavam prontos para aceitar que o presidente fosse escolhido pelo voto direto. Achei que seria perda de tempo. Não se tira o sapato antes de chegar ao rio.

Em contrapartida, esbanjava entusiasmo desde o primeiro dia do duelo contra Paulo Maluf, que seria decidido por um colégio eleitoral majoritariamente governista. Por que a mudança brusca de comportamento? Porque havia chegado ao Rio, respondeu. E então ouvi a frase que, conjugada com a anterior, resumia o estilo do Doutor Tancredo:

─  Não se vai ao Rubicão para pescar.

Aquele jantar prometia.

27/07/2009

às 22:00 \ Baú de Presidentes

Tancredo Neves, lição n° 1: “Fazer visita é bem melhor que ser visitado”

tancredo-neves-diretas-1

O senador Tancredo Neves batia todo fim de tarde na porta do apartamento do deputado  Thales Ramalho em Brasília. Eram sempre três batidas compassadas, sempre na porta dos fundos. Embora imobilizado numa cadeira de rodas desde o acidente automobilístico sofrido em 1976, Thales fazia questão de atender pessoalmente à chamada em código. E então Tancredo perguntava se havia mais alguém por lá.

Quase sempre havia: forçado a evitar deslocamentos cada vez mais dolorosos, o secretário-geral do MDB acabou transformando o apartamento 101, Bloco D, SQS 302 numa extensão do gabinete no Congresso. Levemente contrariado, o senador mineiro pedia a relação dos presentes. Se nenhum dos nomes lhe causasse desconforto, juntava-se à conversa por duas doses de uísque com gelo e menos de meia hora.  Tancredo sempre tinha pressa.

Tinha tempo de sobra se podia conspirar longe de testemunhas com o parceiro de quem se tornara amigo quando frequentavam a escola do velho PSD. Nascido no Rio Grande do Norte, adotado pelos eleitores de Pernambuco, Thales era deputado federal desde 1967. No outono de 1979, o discípulo e o mestre tocavam de ouvido.

─ Tancredo acabou de sair ─ soube ao entrar no começo da noite na sala onde o anfitrião acariciava um copo de uísque.  ─ Conversamos quase duas horas ─ deu outro gole.

Thales bebia bem, sobretudo depois do encerramento de outra maratona de conversas vespertinas.  A agenda andava carregada, assunto era o que não faltava. Um ano e tanto, aquele. O AI-5 foi revogado no dia 1° de janeiro. Em 15 de março, o general João Figueiredo assumiu a presidência da República disposto a concluir o processo de abertura política iniciado no governo Ernesto Geisel. Eram iminentes a decretação da anistia e a volta do sistema pluripartidário. Qual desses temas teria deixado a dupla mais excitada? Nenhum deles, surpreendeu-me a informação seguinte:

─ Aprendi mais uma com Tancredo: fazer visita é bem melhor que ser visitado.

Thales então reproduziu a aula desde o começo. O senador, explicou, só tinha conseguido encontrá-lo sozinho na terceira tentativa. Dois dias antes, não passou da soleira porque havia muita gente na sala, que continuava cheia de gente na véspera. Ficou vazia no meio daquela tarde.

─ Até que enfim ─ suspirou Tancredo enquanto se acomodava no sofá. ─ Está ficando cada vez mais complicado conversar aqui. Você precisa aprender a visitar mais e receber menos visitas.

─ Eles telefonam e avisam que estão a caminho ─ explicou Thales. ─ Não posso fazer nada.

─ Pode. Quando alguém diz que quer vir à minha casa, vou logo dizendo que faço questão de homenageá-lo com a minha visita. Se estiver a caminho, peço que volte.

Faz sentido, pensou Thales.

─ Fazer visita só tem vantagens ─ continuou a aula. ─ Quem vai à casa de alguém come a comida do dono, bebe a bebida do dono e, melhor que tudo, escolhe a hora de ir embora. A pior coisa do mundo é aguentar visita que fica duas horas além da conta.

Faz sentido, achou Thales outra vez. Mas havia um problema: se passava todo o tempo numa cadeira de rodas, como poderia desandar a fazer visitas?

─ Deixe sempre muito claro que você tem essas dificuldades todas ─ liquidou a questão Tancredo Neves. ─  Além de feliz com a visita, o visitado vai ficar muito comovido.

10/07/2009

às 23:39 \ Baú de Presidentes

O paciente rebelde sai pela rua, finge que é outro, berra na geral e ameaça divulgar o que guardou sobre Sarney

Figueiredo

Capítulo final

O GRANDE DESFECHO DA NOITE DAS ARÁBIAS

Numa ofensiva fulminante e exemplarmente sincronizada, meu amigo Carlos Maranhão ocupa a cadeira à esquerda da reservada ao ex-presidente João Figueiredo enquanto me instalo do lado direito. Estamos infiltrados na mesa principal. Georges Gazale parece cada vez mais inquieto com a loquacidade do homenageado.

─ Este moço é editor da Playboy e este é diretor da sucursal do Jornal do Brasil ─ especifica o anfitrião, acionando pela quarta vez o sinal amarelo.

Pelo jeitão indiferente, Figueiredo nem ouviu. Não está interessado em saber quem está na platéia, muito menos o que faz na vida. Está interessado em retomar a incursão pelo mundo dos jalecos que desafia, dos conselhos que ignora e das proibições que atropela.

─ Parei de fumar, mas não de cavalgar ─ informa a voz rouca. ─ Quando dói a coluna, falo um palavrão e  melhora.

Instruído para percorrer 4 quilômetros por dia, driblou o médico com a ajuda do dicionário.

─ Descobri no Aurélio que o verbo percorrer não quer dizer que o percurso deve ser feito a pé ─ diverte-se. ─ Pode ser de moto. Ou a cavalo.

Em seis anos de governo, o paciente rebelde levou frequentemente ao limite da paciência os médicos incumbidos de zelar pela saúde do presidente.

─ O doutor Newton Mattos, que era cardiologista, gostava de tirar a pressão toda hora, até no meio de uma conversa ─ exemplifica. ─ Quando vi que era assim, chamei o cara de lado e avisei que ele seria demitido no dia em que a pressão passasse de 13 por 8.

Oficialmente, nunca mais passou.

─  Médico quer que a gente renuncie a tudo ─ está ficando bravo. ─ Para não ter colesterol, o sujeito precisa abrir mão de tudo o que dá prazer. E eu não resisto a um leitãozinho pururuca.

Acaba de lembrar que, ainda presidente, recebeu pelo correio um panfleto publicitário que considerou especialmente engenhoso.

─ Era a progaganda de uma agência funerária ─ o narrador se entusiasma. ─ Começava explicando o que a gente deve fazer para não ter problemas com o colesterol: não pode isto, não pode aquilo. Em seguida dizia que, se alguém quisesse fazer o contrário do que era recomendado ali, deveria ligar para o número tal e reservar um túmulo.

Achou a peça publicitária tão criativa que telefonou para o dono da funerária, identificou-se e cumprimentou pela ótima idéia o comerciante perplexo. Mas não fez a reserva:

─ Expliquei que salário de presidente não dava para aqueles preços, eram muito salgados.

Gazale aparteia para avisar que o bom humor do amigo tem tudo a ver com os resultados dos exames.

─ Estou contente porque me sinto como quem sai da cadeia ─ corrige o general da reserva.  ─ Aquilo é pior que prisão.

“Aquilo” é o Palácio do Planalto.

─ Estão com saudade de mim, mas nem 50 japoneses conseguiriam me arrastar de volta para Brasília ─ delira Figueiredo antes da vírgula e exagera depois.

Como também o apartamento em São Conrado parece gaiola, prefere caminhar na orla. Está ficando difícil, murmura.

─ É só sair na rua e já aparece alguém querendo cumprimentar, conversar. As pessoas me abraçam, dizem que está na hora de voltar, me aplaudem, essas coisas.

Admite que a unanimidade já foi desafiada. Mas só uma vez:

─ Um desconhecido começou a me dizer desaforos. Não sou de levar isso para casa. Então,  soltei-lhe um tapa na cara.

E há os que não acreditam no que estão vendo.

─ Esses perguntam se eu sabia que sou muito parecido com aquele cara que foi presidente ─ ri. ─ Digo que sou outro e conto ao sujeito que essa semelhança vive me causando aborrecimentos.

Gostou tanto do truque que agora usa todos os dias. Usara-o semanas antes para torcer em sossego no Maracanã. Quando percebia algum olhar de curiosidade, nem esperava que a pergunta viesse: ia logo avisando que não, ele não era quem o parceiro de torcida pensava que fosse.

─ O bom é ver futebol na geral ─ diz. ─ A gente fica discutindo à vontade, brigando, berrando palavrão. É muito mais gostoso.

Embora insatisfeito com o governo do presidente José Sarney, não pretende espalhar mais pedras pelo caminho do sucessor.

─ O que estou vendo de burrice por aí é uma grandeza, mas não quero sair por aí com declarações e entrevistas ─ franze a testa. ─ Aliás, nem preciso de entrevista. É só colocar no bolso uns papéis que guardo comigo e mostrar de repente o que está escrito neles. No dia que for preciso, eu mostro. O Sarney veria o que é bom…

No meio da madrugada, despedi-me pensando nos papéis. Mais de 20 anos depois daquela noite das arábias, 10 depois da morte de Figueiredo, estou agora imaginando o que diziam aqueles escritos. E me perguntando se o senador José Sarney sabe do que escapou.

29/06/2009

às 21:17 \ Baú de Presidentes

Figueiredo anima a noite das arábias com o relato do dia em que não leu direito a receita e tomou supositórios

Capítulo 4

OITO HORAS TRANCADO NO BANHEIRO

─ Estava pensando em cavalos e lembrei de um caso que aconteceu comigo quando era coronel ─ completou o ex-presidente João Figueiredo o que começara a dizer quando aparteou minha conversa com Georges Gazale no canto da sala. Sobre cavalos, naturalmente.

Ele está querendo mais platéia, entendo ao vê-lo olhar para trás depois da frase dita alguns decibéis acima do nível obedecido até agora. A  roda de convidados perto do sofá se aproxima.

─ Foi uma das maiores cagadas da minha vida ─ baixa o volume outra vez, faz uma pausa e sobe o tom de novo na abertura do espantoso episódio incluído pelo próprio campeão no ranking dos seus piores momentos. 

No começo dos anos 60, o coronel Figueiredo estava  pronto para abrir um desfile do regimento de cavalaria que comandava no Rio de Janeiro quando a coluna cervical decidiu importuná-lo mais uma vez. Orientado por um capitão, o ajudante-de-ordens conseguiu uma receita com o oficial-médico, foi à farmácia e voltou com os medicamentos: um vidro cheio de comprimidos e um envelope com quatro pílulas em forma de cilindro.

─ A dor na coluna, que é que nem dor-de-dente nas costas, estava ficando muito forte  ─ conta. ─  Como tinha esse problema há muito tempo,  já sabia o que ia acontecer. Foi por isso que nem li a receita direito. Só entendi que tinha de tomar dois remédios de uma vez.

Abriu o envelope e foi logo engolindo duas pílulas. Só então releu como se deve ler os garranchos na receita. E descobriu, tarde demais, que cometera um engano de bom tamanho: tinha tomado dois supositórios.

─ E tinham efeitos laxantes tremendos ─ acrescenta. ─ Eu percebi que as pílulas eram meio grandinhas, estranhei o formato cilíndrico, mas nem desconfiei de que os analgésicos estavam no vidro de comprimidos.  O supositório era para o dia seguinte, caso a dor não passasse.

(Risos contidos na platéia).

 ─ Levei um susto, examinei as bulas com cuidado, fiz as contas e descobri que tinha ingerido o equivalente a 144 comprimidos ─ segue o narrador. ─ Corri para casa, peguei uma pilha de jornais e revistas e me fechei no banheiro. 

(Risos soltos na platéia).

─ Desmaiei duas vezes ─ continua. ─ A Dulce não parava de bater na porta, preocupadíssima.

“Você está bem, João?”, perguntava a cada cinco minutos a futura primeira-dama. O coronel devastado pelas consequências do equívoco respondia com a mesma palavra: “Estou”.

─ Mas a voz saía cada vez mais fininha ─ informa.  ─ Devo ter emagrecido uns uns três quilos naquele dia. Fiquei oito horas no banheiro.

(Gargalhadas na platéia)

Abrandada a crise, desceu sozinho pelo elevador, parou o primeiro táxi que viu e deu o endereço de um consultório médico.

─ No caminho, mandei o motorista parar duas vezes ─ Figueiredo se diverte. ─ Desci correndo e me enfiei no banheiro do primeiro boteco que vi pela frente.

Fica sério ao recordar o que lhe disse o médico depois de contemplar as radiografias:

─ Parabéns. O senhor tem os intestinos mais limpos do mundo.

(Como o general está com cara de bravo, a platéia não sabe se cai na gargalhada ou fica séria).

─ Só não dei uma bofetada naquele sujeito porque estava muito fraco ─ agora quem fala é o militar brigão. ─ Estou num dos piores dias da minha vida e o cara ainda fica de gozação?

(A platéia continua hesitante).

─ Mas foi uma cagada tão grande que nem me lembro se a coluna doeu naquele dia ─ conclui a narrativa com um sorriso que acalma os ouvintes.

Enquanto os convidados gargalham, pergunto se foram bons os resultados dos exames. É para isso que ele está instalado há cinco dias na casa de Gazale. 

─ Carro velho é fogo, e eu sou um Ford-28 ─ diz. ─ Aliás, Ford-18 ─ troca o número pelo ano de nascimento. ─ Mas passei no exame oral.

O coração está em ordem, mas o paciente é desconfiado.

─ A gente sempre fica com um pé atrás quando alguém te abre como um frango assado ─ compara. ─ A única diferença é que, em vez de farofa, eles colocam safenas no teu peito.

O jantar vai começar a ser servido, avisa o chefe de cozinha. E Figueiredo não vai parar de falar até o meio da madrugada.

 

(Na próxima semana, o grande desfecho da noite das arábias).

10/06/2009

às 20:22 \ Baú de Presidentes

O serviço de informações da Marinha carimbou como ‘altamente confiável’ um relatório forjado por Figueiredo

Figueiredo

Capítulo 3

O ROLEX DE OURO E O CAVALO AMIR

O garçon com a bandeja de bebidas chega junto com o ponto final da frase em que João Figueiredo enfiou no mesmo balaio todos os jornalistas e todos os picaretas. Capturo a terceira taça de vinho (branco, alemão, não é dos que mais aprecio mas vai assim mesmo), tomo o gole que encoraja e pergunto se alguém ali conhece a história do almoço entre o general-presidente Artur da Costa e Silva e a Condessa Pereira Carneiro, dona do Jornal do Brasil. O silêncio coletivo responde que não.

Capricho na pose de quem se reunia diariamente com a condessa que nunca vi e conto o episódio. Costa e Silva foi almoçar na sede do JB para queixar-se de  publicação de textos ou imagens que não deixavam o governo bem no retrato. Concluída a chiadeira, a anfitriã ponderou que o jornal só publicava críticas construtivas. ”Mas eu não quero críticas construtivas”, encerrou o assunto o visitante. ”O que eu quero é elogio”. Fim do caso.

Figueiredo faz de conta que não pegou o espírito da coisa. A platéia se divide: uns fingem que não ouviram direito, outros fingem que não  prestaram atenção. Só Carlos Maranhão e eu estamos sorrindo ─ educadamente, como o homenageado da noite acha que é de praxe na comunidade dos picaretas e jornalistas. Jogo empatado, cumprimento-me.

Ele vai buscar o desempate percorrendo uma curva que tem o quilômetro zero na sucursal carioca do Serviço Nacional de Informação e desemboca na frente da guerra contra a imprensa.

─ Quase todo mundo no Brasil age com leviandade, até o SNI ─ começa o general da cavalaria com a surpreendentemente desabonadora menção à sigla que chefiou durante os cinco anos do governo Ernesto Geisel.

O que deu na cabeça dele?, fico intrigado.

─ Em 1964, forjei um informe sobre o Carlos Lacerda, que era governador da Guanabara, só para ver o  que dava ─ ele logo se explica. ─ Deixei o papel em cima da mesa e esperei. Não demorou uma semana para que o serviço de informações da Marinha mandasse para a gente o mesmo informe. Nem mudaram meu estilo, só acrescentaram meia dúzia de bobagens. Embarcaram no que eu tinha inventado. Outros também embarcaram e aquela invenção acabou ganhando o carimbo de altamente confiável. Como é que pode?

A frase seguinte avisa que a curva terminou:

─ Se no SNI é assim, não quero nem pensar em como é na imprensa.

Também não quero nem pensar em como foi a coisa no SNI.

Um superlativo “boa-noite” anuncia a chegada de Naji Nahas. Alto, corpulento, hasteado na porta da sala principal, o aventureiro que chegou do Líbano a bordo de 50 milhões de dólares só vai quebrar a Bolsa do Rio daqui a dois anos. Como ninguém sabe disso, a imprensa o qualifica de ”megainvestidor”. Ele é um dos 25 convidados que se espalharão por cinco mesas redondas já arrumadas para o jantar na sala ao lado da piscina da mansão na Rua Zarabatana que ocupa todo o quarteirão ao lado do  latifúndio do Jockey Clube de São Paulo.

A noite promete. Já estão lá figuras como o empresário Mathias Machline, o economista Affonso Celso Pastore, o deputado Erasmo Dias ou o ex-ministro Amaury Stabile. A chegada de Naji Nahas reforça a bancada árabe, formada até agora pelos deputados Wadih Helu e Ricardo Izar e pelo empresário Nacib Mofarrej. Estão a caminho outros patrícios amigos de Georges Gazale, empresário do setor de tecidos e, sobretudo, melhor amigo de Figueiredo.

Carlos Maranhão vigia o avanço de Naji Nahas com cara de quem está procurando um esconderijo para a carteira. O risonho libanês passa pela imprensa sem escalas, estaciona diante do homenageado e, com a educação que para o ex-presidente identifica os picaretas e os jornalistas, aperta-lhe as mãos, aproxima a boca do ouvido de Figueiredo e murmura:

─ Tenho um presente para o senhor. Espero que goste de relógio.

Não é um relógio qualquer. É um Rolex. E de ouro. E o presenteado não estava em São Paulo para festejar o dia do aniversário, a léguas de distância no calendário, mas para uma maratona de exames médicos. Deve ter gostado muito da oferenda.

Naji é um moço esforçado, mas ainda um amador nesse ramo, informa o olhar superior do profissionalíssimo Gazale, um campeão na arte de presentear. Foi com um presente que conquistara, oito anos antes, a confiança e o afeto do general arredio que Geisel elegera para conduzir a última etapa da era militar. Um presente tão bem escolhido que transformou em amigos de infância dois homens com mais de 60.

─ Como é mesmo o nome do cavalo que o senhor deu de presente ao Figueiredo? ─ pergunto.

─ Amir ─ diz Gazale. ─  Quer dizer “príncipe”, em árabe.

A voz de Figueiredo ecoa três metros atrás do anfitrião.

─ Nunca fiquei tão irritado como no dia em que invadiram a Granja do Torto para tirarem fotos das baias e dos cavalos ─ aparteia.

Ele devia estar ouvindo a conversa.

─ Eu estava pensando em cavalos ─  ele corrige o que estou pensando.

A três meses da posse, Figueiredo confessou numa entrevista que preferia cheiro de cavalo a cheiro de povo. A continuação da noite das arábias mostraria que, depois da passagem pela Presidência da República, ele trocaria o Palácio do Planalto por qualquer montaria.

01/06/2009

às 22:34 \ Baú de Presidentes

Confidências de João Figueiredo numa noite das arábias (2)

figueiredo

Capítulo 2

O EXTERMINADOR DE COELHOS

─ O que eles querem é me pegar de calção e a Dulce de maiô ─ está dizendo João Baptista de Oliveira Figueiredo, à vontade no sofá da sala imensa, quando o empresário Georges Gazale, dono da mansão em que o ex-presidente da República se hospedava havia cinco dias, apresenta os dois recém-chegados ao homem de calça social cinza claro, camisa esporte cinza claro e cardigan cinza claro. (Os sapatos e as meias eram pretos).

─ Esses moços são jornalistas ─ previne Gazale. ─ Mas jornalistas amigos, gente de confiança ─ ressalva antes que o general da cavalaria sempre cismado com a imprensa se levante do sofá já prendendo e arrebentando.

O outro moço é meu amigo Carlos Maranhão, editor da Playboy , também hasteado a um metro da figura que acaba de erguer-se. Figueiredo está uns dez quilos mais gordo e milhares de volts menos tenso, constato. A perna esquerda, que balança feito pêndulo doido quanto fica nervoso, permanece tranquilizadoramente imóvel. E então recomeço o diálogo que, sete anos antes, não havia passado de cinco segundos, duas frases, cinco palavras e uma vírgula.

─ Boa noite, presidente.

─ Boa noite, como vai? ─ sorri Figueiredo, que cumprimenta Maranhão e se senta para retomar a história que está contando a meia dúzia de convidados que chegaram mais cedo para o jantar oferecido por Gazale em homenagem ao hóspede ilustre.

Estou no lucro, contabilizo às oito da noite de 12 de março de 1987. A conversa já chegara a dez segundos, sete palavras, duas vírgulas e um ponto de interrogação. Fora o sorriso, que prometia continuação. Devo essa ao Maranhão, registro. Estou lá graças àquele moço.

─ O Gazale vai dar um jantar para o Figueiredo na quinta-feira e me convidou ─ Maranhão me surpreendera no almoço de segunda, ainda na fase dos aperitivos. ─ Perguntei se podia te levar e ele disse que sim.

Grande Maranhão. Grande notícia. Só não paguei o almoço porque o dono do Au Liban era o próprio Gazale, que não cobrava nada de ninguém que conhecesse há mais de duas horas. A generosidade do proprietário foi um dois motivos que transformaram o Au Liban no nosso restaurante predileto. O outro foi a boa qualidade da comida árabe. Estou pensando na cozinha do lugar quando um garçon se aproxima do grupo, ao qual me juntara sem pedir licença, que ouve o caso do calção e do maiô. Esses salgadinhos são de lá, adivinho ao mesmo tempo em que descubro quem eram as figuras misteriosas que o ex-presidente chamara de “eles” na primeira frase que ouvi. “Eles” eram fotógrafos.

─ Sempre tem um cara em cima de algum morrinho, com aquelas máquinas enormes ─ esclarece a continuação da  narrativa do confronto entre a turma da teleobjetiva e o homem de 69 anos que, longe dos quartéis e do poder, buscava sossego no seu sítio em Nogueira, perto de Petrópolis, na Serra Fluminense.

O duelo, silencioso e recorrente, começava sempre às cinco da manhã. Assim que aparecia na porta da casa o ermitão com pernas arqueadas de cowboy, barriga saliente, cabelos lisos, testa ampla, cara amarrada e olhar desconfiado, uma câmera brilhava em alguma elevação a 100 metros de distância. Imediatamente, Figueiredo apoiava o pulso direito no antebraço esquerdo, dava uma acintosa banana para o espião e, sem desfazer o gesto, marchava em direção à piscina. O bombardeio de cliques e flashes se intensificava nos fins de semana em que Dulce Figueiredo aparecia no sítio, vinda do apartamento no Rio em que passava todos os dias úteis.

Figueiredo confessa que gosta mesmo é de ficar sozinho. Primeiro, porque pode passar o dia inteiro só de calção. Depois, porque fica livre de visitas ou telefonemas e liberado para dedicar-se a seus coelhos. Vistoria a criação todas as manhãs, depois das braçadas na piscina.

─  No momento tenho cem ─ informa.  ─  Gosto muito de coelho. Gosto tanto que já-já reduzo a turma. De cada dois, eu como um.

Não é pouca coisa, mas o ex-presidente pretende melhorar o desempenho. Precisa manejar com mais aplicação o garfo e a faca, e aumentar o ritmo do extermínio, para acompanhar a velocidade espantosa com que aqueles bichos se multiplicavam. Gazale, que voltara à roda dois minutos antes, acha que o amigo começou a enveredar por areias  movediças e reitera o alerta.

─ Eu disse que esses moços são jornalistas, presidente?

Figueiredo faz que sim com a cabeça, engata uma segunda e pisa no acelerador.

─ Só achava chato quando vinha aquele bando de jornalistas atacando a gente com microfones nas mãos ─ abre o sorriso. ─ Sempre com uma repórter bonitinha na frente.

Faz uma pausa, passa em revista com os olhos os dois moços da imprensa e lembra que se dera bem com os  repórteres que frequentavam diariamente a sala de imprensa do Palácio do Planalto. Todos o tratavam com muita cortesia, eram bastante gentis. Feito o registro, comanda a carga da cavalaria ligeira:

─  É o que sempre digo à Dulce: jornalistas e picaretas são muito educados.

Finjo que não ouvi direito para continuar ouvindo Figueiredo. Ele tinha muito a dizer.

26/05/2009

às 23:48 \ Baú de Presidentes

Confidências do presidente João Figueiredo numa noite das arábias

Victor Civita,Figueiredo e o colunista no prédio da Abril na Marginal do Tietê

Victor Civita, João Figueiredo e o colunista

Capítulo 1

DUAS FRASES E CINCO PALAVRAS

─ Bom dia, presidente ─ começou minha primeira conversa com um chefe de governo brasileiro.

─ Bom dia ─ encerrou-a João Figueiredo, último dos cinco generais-presidentes do regime militar.

Duas frases, cinco palavras e uma vírgula não autorizam ninguém a achar que houve um diálogo, muito menos uma conversa. Aquilo não passou de uma banalíssima troca de cumprimentos. Não tive tempo de dizer como me chamava e o que fazia, nem de perguntar-lhe se estava bem. Mas eu não precisava contar lá em casa que a coisa foi tão indigente. Diria apenas que tinha conversado com o presidente, só isso, e não estaria mentindo. Resolvida a questão doméstica, fiquei olhando o homem baixo e atarracado, suando sob o terno e a gravata que oficiais da cavalaria jamais aprenderão a combinar, que avançava escoltado por meia dúzia de seguranças pelo atalho aberto na pequena multidão reunida para recepcioná-lo no 7° andar do prédio da Editora Abril na Marginal do Tietê.

Um dia ainda pego esse cara de jeito, consolei-me. Peguei mesmo, mas só sete anos mais tarde, quando Figueiredo já era ex-presidente e tinha tempo de sobra até para conversar horas a fio com um jornalista que nem conhecia. Naquele começo de tarde em que dialogamos por cinco segundos, eu não poderia adivinhar que viajaria a seu lado numa noite das arábias. Tratei de convencer-me de que não fora uma desconsideração. No lugar dele eu faria o mesmo, teria preferido a roda que juntou o fundador da Abril, Victor Civita, o editor Roberto Civita, o diretor de redação de Veja, José Roberto Guzzo, o diretor-adjunto Elio Gaspari, o governador Paulo Maluf e mais duas ou três figuras da primeira divisão. Editor de Política joga na segundona.

Ainda bem que nenhum deles vai estar no Guarujá amanhã, confortei-me em completo silêncio, planejando os preparativos para o encontro com o ex-presidente Jânio Quadros no dia seguinte. Que maio, aquele. Um presidente e um ex- em 48 horas. Se não houve tempo para uma conversa que merecesse tal nome no dia 27, a do dia 28 duraria uma tarde inteira. De passagem, iria mostrar ao velho Jânio como é que se bebe.

Pelo menos a conversa posso ouvir, decidi com a cabeça de volta ao prédio da Abril. Pedi a Pedro Martinelli que me fotografasse ao lado de Figueiredo, minha mãe iria ficar orgulhosa. Abri caminho na selva de braços, dorsos, cabeças, pernas e consegui estacionar a um metro do presidente. Pedrão fez a foto. Só uma, a que ilustra esta narrativa. E que seria usada contra mim, como ocorreria com a imagem transformada por Jânio no golpe de misericórdia que encerrou o duelo desigual. A foto do dia 28 viraria prova de que só eu bebi. A do dia 27 me deixou com cara de papagaio de pirata.

Não ouvi grande coisa, ninguém faz revelações espetaculares numa roda. Mas fiz dois ou três registros que poderiam ser úteis. Figueiredo fumava mais que marido traído de filme francês e era tão tenso quanto espião argentino. Quando o tema do momento aguçava o permanente desconforto, a perna esquerda balançava como um pêndulo que perdeu a compostura. E parecia insatisfeito com o emprego. Estava mesmo, confirmaria sete anos depois. Não guardo lembranças do  almoço, nem lembro a que distância fiquei da mesa principal. Achei que nunca mais toparia com Figueiredo depois da entrevista ao jornalista Alexandre Garcia em que, com o governo no fim, pediu ao país que o esquecesse. Parecia sincero. Mas algo o levou a suspender o pedido em 12 de março de 1987, uma quinta-feira. Começou a falar às 8 da noite. Só parou às duas da madrugada.

Quando o falatório terminou, descobri que poucas vezes tivera tanta sorte naquela virada para uma sexta-feira 13.


 

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