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Jerônimo Teixeira

19/08/2011

às 18:40 \ Feira Livre

Sérgio Vieira de Mello: há oito anos, um brasileiro admirável morreu lutando pela paz

Na edição de VEJA de 19 de janeiro de 2008, o jornalista Jerônimo Teixeira resumiu a trajetória de Sérgio Vieira de Mello. Somados ao vídeo, os trechos reproduzidos abaixo iluminam o admirável brasileiro morto há oito anos em Bagdá:

No seu primeiro dia em Gorazde – sitiada pelas tropas sérvias em 1994, em um dos episódios mais dramáticos da Guerra da Bósnia –, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, que chefiara o comboio de ajuda humanitária da ONU até a cidade, fez questão de se apresentar impecável em seu terno bem cortado. Seus assessores aproveitaram para debochar de sua aparente vaidade. “Se nos mostrarmos na melhor aparência, vamos lembrar as pessoas aqui da dignidade que elas costumavam ter”, retrucou Vieira de Mello. E ele logo deu a primeira instrução: era preciso circular pela cidade, para mostrar a bandeira azul da ONU à população civil que havia dias estava sob bombardeio constante.

Em todas as zonas de conflito em que atuou em seus 34 anos de carreira na ONU – em lugares como Bangladesh, Sudão, Moçambique, Líbano, Ruanda, Kosovo e Timor Leste –, Vieira de Mello mostrava a mesma preocupação com a dignidade das vítimas da guerra, do desterro, da fome. VEJA teve acesso a uma prova editorial de “Chasing the Flame – Sérgio Vieira de Mello and the Fight to Save the World” (No Rastro da Chama – Sérgio Vieira de Mello e a Luta para Salvar o Mundo), biografia que será lançada no próximo mês nos Estados Unidos (e que ainda neste ano deve ser publicada no Brasil pela Companhia das Letras). Na obra, o diplomata brasileiro é retratado como uma encarnação dos melhores ideais humanitários que inspiraram a fundação da ONU depois da II Guerra Mundial.

Nascido em 1948, o carioca Sérgio Vieira de Mello era filho de um diplomata, Arnaldo, que foi compulsoriamente aposentado pela ditadura militar em 1969. Sérgio costumava invocar a humilhação imposta ao pai pelo governo brasileiro quando lhe perguntavam por que nunca se alistou no Itamaraty. Recém-formado em filosofia pela Universidade Sorbonne, em Paris, encontrou trabalho no Alto Comissariado para Refugiados da ONU no mesmo ano em que seu pai deixava a diplomacia. Vieira de Mello participara dos protestos estudantis de Paris, em 1968, e a princípio levou as mesmas idéias para seu trabalho em Bangladesh e no Sudão. Sofreu um choque de realidade em 1982, ao lado das forças de paz no Líbano – a invasão do país por Israel, em desacordo com resoluções da ONU, foi uma amarga decepção para o ainda ingênuo Vieira de Mello, que a partir de então se tornou mais pragmático.

Vieira de Mello sacrificou a vida familiar pelo trabalho. Sempre em lugares perigosos, sobrou-lhe pouco tempo de convivência com os dois filhos que teve com Annie, sua mulher francesa. Mas, homem charmoso, nunca teve dificuldade em arranjar companhia feminina. No Camboja, carregou uma namorada holandesa para negociações na selva com os guerrilheiros genocidas do Khmer Vermelho. No Timor Leste, conheceu a argentina Carolina Larriera, também funcionária da ONU, com quem pretendia se casar. Carolina trabalhava na ONU de Bagdá em 2003, quando ocorreu o atentado. Perfeito oposto do burocrata acomodado (e às vezes corrupto) que prospera em muitos escritórios da ONU, Vieira de Mello era um homem de ação. Desempenhava suas funções com destemor. No tempo que passou em Sarajevo, por exemplo, recusava-se a sair à rua com o colete à prova de balas que é padrão da ONU – seria um desrespeito com a população local, que não tinha proteção, dizia.

Sua especial conjunção de firmeza e habilidade de negociação se mostrou quando, como chefe do Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU, Vieira de Mello foi recebido pelo presidente George W. Bush na Casa Branca – episódio relatado em saborosos detalhes em Chasing the Flame. Quando Bush falou das medidas excepcionais exigidas pela guerra ao terrorismo, Vieira de Mello concordou e lembrou que ele mesmo autorizara que as forças da ONU atirassem para matar em confrontos com milícias pró-Indonésia no Timor Leste. Com isso, surpreendeu e encantou o presidente americano e conseguiu esticar a audiência de quinze para trinta minutos – nos quais não deixou de cobrar o governo americano por sua postura ambígua em relação à tortura e pelas violações de direitos humanos na prisão de Guantánamo.

 

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