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Jânio Quadros

04/03/2011

às 19:03 \ Direto ao Ponto

Celso Arnaldo e o palavrório de Irecê: Dilma decidiu que todas as brasileiras são mães

Se cada palavrório cretino fosse punido com 10 chibatadas, Lula e Dilma Rousseff  atravessariam aos urros os intervalos entre uma e outra discurseira. Lula, por exemplo, acha que só sua mãe nasceu analfabeta.  E acredita que, como a Terra é redonda e gira, o Brasil fica às vezes em cima e às vezes embaixo do Japão. Dilma, entre outros hinos ao absurdo, enfiou na cabeça que as mulheres brasileiras, que somam 52% da população brasileira, são mães dos 48% restantes.

Como se baseia no último censo do IBGE, que só conta gente que não morreu, Dilma transformou o Brasil num enigma indecifrável. Aqui, todas as mulheres são mães, incluídas as recém-nascidas, as estéreis e as carmelitas descalças. Todos os filhos são homens. Todos os homens têm mães vivas, incluídos os maiores de 90 anos, e são órfãos de pai, incluídos os bebês de colo. Falta apenas resolver um pequeno problema aritmético: mesmo que todas as mães sejam viúvas e tenham um filho único, uma diferença de quatro pontos percentuais separa 52 de 48. É muita mãe para pouco filho.

Alheia a tais miudezas, Dilma reapresentou em Irecê, pela terceira vez, a tese amalucada, como comprova o vídeo que ilustra o texto do jornalista Celso Arnaldo Araújo. Foi só o começo da sequência de espantos capturados pelo nosso grande caçador de cretinices. A performance no interior da Bahia é, como sempre, tão divertida quanto assustadora. Só um país sem juízo pode eleger uma presidente assim. (AN)

É NO PRÓLOGO QUE A COISA PEGA
Celso Arnaldo Araújo

Na história da oratória política, há antológicos começos de discursos presidenciais:

“Há oito décadas e sete anos, os nossos pais deram origem neste continente a uma nova Nação, concebida na Liberdade e consagrada ao princípio de que todos os homens nascem iguais”. (Abraham Lincoln, no célebre discurso de Gettysburg)

“Muitos são os caminhos para a conquista do Poder. Viciosos, porém, se me afiguram todos aqueles que se apartam do voto do povo, deitado nas urnas soberanas”. (Discurso de posse de Jânio)

“Venho somar minha esperança à esperança de todos neste dia de congraçamento. Permitam que, antes do Presidente, fale aqui o cidadão que fez da esperança uma obsessão, como tantos brasileiros. Pertenço a uma geração que cresceu embalada pelo sonho de um Brasil que fosse ao mesmo tempo democrático, desenvolvido, livre e justo”. (Discurso de posse de Fernando Henrique Cardoso)

“Não é possível traduzir em palavras o que sinto e o que penso nesta hora, a mais importante de minha vida de homem público. A magnitude desta solenidade há de contrastar por certo com o tom simples de que se reveste a minha oração” (Juscelino, na inauguração de Brasília)

“Esses republicanos, não satisfeitos em atacar a mim, minha esposa ou meus filhos, agora incluem meu pequeno cão Fala em seus ataques. Eu não me incomodo com esses ataques, minha família não se incomoda com esses ataques. Mas Fala se incomoda” (Franklin Roosevelt, no famoso Discurso de Fala, sua cadelinha Scottish Terrier)

“Primeiro eu queria desejá boa tarde a todos. Boa tarde. Todos nós estamos aqui até agora, né, sem almoçá, mas tamo aqui firmes. Eu queria também dá um boa tarde especial às mulheres baianas aqui presentes. Com isso eu não estou preterindo os nossos companheiros homens, mas é porque hoje é o primeiro dia do mês da mulher, o mês em que se comemora o dia 8 de março, o Dia Internacional da Mulher. E aí também porque, apesar de nós sermos 52% da população, e portanto as mulheres serem maioria, os outros 48% são nossos filhos e aí fica tudo em casa. Então, ao comprimentar as mulheres eu estendo também um comprimento a todos os companheiros aqui presentes” (Dilma Rousseff, no discurso de Irecê, Bahia, depois de assinar o reajuste do Bolsa Família, 01/03/2011)

Quem assistiu a “O Discurso do Rei” notou que a grande agonia de George VI, o rei disfêmico da Inglaterra, era o preâmbulo da fala, o prefácio, as primeiras palavras. Dilma tem enormes dificuldades com o resto também, mas é no prólogo de seus discursos que a coisa realmente pega. Uma saudação que deveria ser simples e natural, para beneficiários do Bolsa Família, transforma-se num pastiche do pastiche. Aquele célebre “Primeiro eu queria comprimentar os internautas. Oi internautas” aqui virou “Primeiro eu queria desejá boa tarde a todos. Boa tarde”.

Dilma, obcecada com esse negócio de ser a primeira “presidenta”, cismou de fazer gênero com a mulherada – mas de um modo sempre desastroso. Dar “um boa tarde especial às mulheres baianas aqui presentes”, como se fosse possível dá-lo às dinamarquesas ou não devesse incluir as não-baianas ali presentes, só não é mais ridículo que o complemento: desde quando dar boa tarde às mulheres, no “mês da mulher”, é preterir “os companheiros homens”? Fazer média com gênero é sempre detestável, porque tão demagogo e antinatural quanto o “Queridos brasileiros e queridas brasileiras” do discurso de posse que enlevou a companheirada.

O pior é que, nesses momentos, Dilma tenta ser leve, arrisca uns truquezinhos de comunicador de auditório – mas seu repertório é constrangedor. E inclui, desde a campanha, onde foi repetido dezenas de vezes, esse monstruoso apedeutismo dos 52% de mulheres-mães dos outros 48%, que ela ouviu falar não sabe onde e repete sem noção de lógica e sem contestação. Como em Irecê.

Todos os homens que fazem parte dos 48% são filhos de mulheres, mas não necessariamente dessas mulheres da cota dos 52% – que naturalmente estão vivas, pelo menos no último censo do IBGE. Minha mãe já morreu — portanto eu, que faço parte dos 48, não sou filho de nenhuma dos 52. Entre os 52, há também as que não têm filhos – por imaturidade, infertilidade, decisão pessoal ou perda. Nenhum dos 48 evidentemente é filho dessas.

Válido o esdrúxulo raciocínio de Dilma, é só inverter a equação: os 52% são nossas filhas, o que, no meu caso, que tenho duas filhas, é um pouco mais verdadeiro que o inverso. Nós homens temos mais filhas que elas, filhos. E estamos todos em casa.

É possível confiar um PIB de 3,675 trilhões de reais, um “Pibão bão”, nas palavras da presidente, a uma pessoa com essa dificuldade de raciocínio?

19/12/2010

às 20:04 \ Direto ao Ponto

FHC foi o acorde dissonante na ópera do absurdo que Lula recomeçou

De volta ao Brasil de sempre, resignaram-se há oito anos as paredes do gabinete presidencial depois de uma ligeira contemplação do novo inquilino. Desde Jânio Quadros, a grande sala no terceiro andar do Palácio do Planalto já abrigou napoleões de hospício, generais de exército da salvação, perfeitas cavalgaduras, messias de gafieira, gatunos patológicos, vigaristas provincianos e outros exotismos da fauna brasileira. Por que não um Luiz Inácio Lula da Silva?

Quem conhece a saga republicana sabe que a ascensão ao poder de um ex-operário metalúrgico só restabeleceu a rotina da anormalidade que vigora, com curtíssimos intervalos, desde o fim do governo Juscelino Kubitschek. Na galeria dos retratos dos presidentes, Lula está à vontade ao lado dos vizinhos de parede. Sente-se em casa. A discurseira  delirante e ininterrupta está em perfeita afinação com a ópera do absurdo. O acorde dissonante é Fernando Henrique Cardoso. Um confirma a regra. O outro é a exceção.

O migrante nordestino que chegou à Presidência sem escalas em bancos escolares tem tudo a ver com o país dos 14 milhões de analfabetos, dos 50 milhões que não compreendem o que acabaram de ler nem conseguem somar dois mais dois, da imensidão de miseráveis embrutecidos pela ignorância endêmica e condenados a uma vida não vivida. Esse mundo é indulgente com intuitivos que falam sem parar sobre assuntos que ignoram. E é hostil a homens que pensam e agem com sensatez. É um mundo que demora a alcançar em sua exata dimensão a lucidez do sociólogo nascido no Rio que tinha escrito muitos livros quando se instalou no Planalto.

O Brasil de Lula tem a cara primitiva de sempre. O Brasil  de FHC provou que a erradicação do atraso não é impossível. Pareceu até civilizado no primeiro dia de 2003, quando se completou um processo sucessório exemplarmente democrático. Durante a campanha eleitoral, o presidente fez o contrário do que faria o sucessor oito anos mais tarde. Embora apoiasse José Serra, não mobilizou a máquina administrativa em favor do candidato, não abandonou o emprego para animar palanques e consultou os principais concorrentes antes de tomar decisões cujos efeitos ultrapassariam os limites do mandato prestes a terminar. Consumada a vitória do adversário, FHC pilotou o período de transição e ajudou a conter a fuga de investidores inquietos com a folha corrida do PT.

NEM RUTH CARDOSO FOI POUPADA
O Brasil de janeiro de 2003 tinha poucas semelhanças com o que Itamar Franco encontrou depois do despejo de Fernando Collor. Em 1994, o ministro da Fazenda de Itamar comandou a montagem do Plano Real. Nos oito anos seguintes, fez o suficiente para entregar a Lula um Brasil alforriado da inflação e da irresponsabilidade fiscal, modernizado pela privatização de mamutes estatais deficitários e livre de tentações autoritárias.

“Aqui você deixa um amigo”, disse o sucessor com a faixa verde e amarela já enfeitando o peito. Foi a primeira das mentiras, vigarices, trapaças e traições que alvejariam a assombração que está para o SuperLula como a kriptonita para o Super-Homem. Criminosamente solidário com José Sarney, a quem chamava de ladrão, obscenamente amável com Fernando Collor, a quem chamava de corrupto, o ressentido incurável, incapaz de absorver as duas derrotas no primeiro turno e conformar-se com a inferioridade intelectual, guardou o estoque inteiro de truculências e patifarias para tentar destruir um antigo aliado, um adversário leal e um homem honrado.

Lula nunca pronuncia o nome do antecessor. Evita até identificá-lo pelas iniciais. Delega as agressões frontais a grandes e pequenos canalhas, que explicitam o que o chefe insinua. Há sempre os sarneys, dirceus, jucás, berzoinis, collors, dutras, renans, mercadantes, tarsos, gilbertinhos, dilmas e erenices prontos para a execução do trabalho sujo que não poupou sequer Ruth Cardoso, vítima do papelório infame forjado em 2008 na fábrica de dossiês da Casa Civil. A cada avanço dos farsantes correspondeu uma rendição sem luta do PSDB, do PPS e do DEM. FHC não é atacado pelos defeitos que tem ou pelos erros que cometeu, mas pelas qualidades que exibe e pelas façanhas que protagonizou.

Ele merecia adversários menos boçais e aliados mais corajosos. Há algo de muito errado com a oposição oficial quando um grande presidente, para ressuscitar verdades reiteradamente assassinadas desde 2003, tem de defender sozinho um patrimônio político-administrativo que deveria ser festejado pelos partidos que o apoiaram. Há algo de muito estranho com um PSDB que não ouve o que diz seu presidente de honra. Nem lê o que escreve, como atestam dois artigos antológicos publicados no Estadão.

O PONTO FORA DA CURVA
No primeiro artigo, em outubro de 2008, FHC avisou que a democracia brasileira estava ameaçada pelo “autoritarismo popular” do chefe de governo, que poderia descambar numa espécie de subperonismo amparado nas centrais sindicais, em movimentos ditos sociais e nas massas robotizadas.  “Para onde vamos?”, perguntava o título. A Argentina de Juan Domingo Perón foi para os braços de Isabelita e acabou no colo de militares hidrófobos. O Brasil de Lula foi para Dilma Rousseff. É cedo para saber  onde acabará.

Em fevereiro, com 968 palavras, FHC enterrou no jazigo das malandragens eleitoreiras a fantasia costurada durante sete anos. “Para ganhar sua guerra imaginária, o presidente distorce o ocorrido no governo do antecessor, autoglorifica-se na comparação, nega o que de bom foi feito e apossa-se de tudo que dele herdou como se dele sempre tivesse sido”, resumiu no segundo artigo. Depois de ensinar que o Brasil existia antes de Lula e existirá depois dele, recomendou que se apanhasse a luva atirada pelo sucessor: “Se o lulismo quiser comparar, sem mentir e sem descontextualizar, a briga é boa. Nada a temer”.

Em vez de seguir o conselho e sugerir a Lula que topasse um debate com Fernando Henrique, José Serra reincidiu no crime praticado em 2002 — com agravantes. Além de esconder o líder que aumentou a distância entre o país e a era das cavernas, apareceu no horário eleitoral ao lado de Lula, convertido num Zé decidido a prosseguir a obra do Silva. Aloysio Nunes Ferreira fez o contrário. Tinha 3% das intenções de voto quando transformou FHC em principal avalista da candidatura. Elegeu-se senador com a maior votação da História. Saudado por sorrisos, cumprimentos e aplausos quando caminha nas ruas de São Paulo, FHC nunca foi hostilizado em público. Depois da vaia no Maracanã, Lula não voltou a dar as caras fora do circuito das plateias amestradas.

Desde o dia da eleição, FHC tem exortado o PSDB a transformar-se num partido de verdade, com um programa que adapte à realidade brasileira a essência da social-democracia, combata sem hesitações a corrupção institucionalizada e, sobretudo, aprenda que o papel da oposição é opor-se, como ele próprio tem feito há oito anos. “Por enquanto, o único partido que temos é o PT”, repetiu há dias. “Sem uma linha política clara a seguir, o PSDB continuará a agir segundo as circunstâncias e a perder tempo com questões pontuais”. Pode perder de vez também o respeito e a confiança do eleitorado oposicionista, adverte a reação provocada pela Carta de Maceió. O teor vergonhoso do documento comprova que os governadores tucanos não captaram o recado do patriarca.

Na trajetória desenhada pelos presidentes da República, FHC é o ponto fora da curva. Pode ser esse o seu destino, sugere a paisagem deste fim de 2010. Assegurada a vaga na História, poupado da obsessão pelo poder, ainda assim não recusa o combate, não faz acordos, não capitula. Em respeito à própria biografia, e por entender que a nação merece algo melhor, continua a apontar a nudez do pequeno monarca. Oito anos mais velho, ficou oito anos mais novo: nenhum líder político é tão parecido com a oposição real, rejuvenescida e revigorada neste outubro por 44 milhões de votos, quanto Fernando Henrique Cardoso.

07/11/2010

às 20:31 \ Baú de Presidentes

Celso Arnaldo comenta o grande momento do debate entre Jânio e Franco Montoro

O comentário do Homem Americano (15:02 de 5/11) serviu de inspiração para mais um ótimo texto do jornalista Celso Arnaldo Araújo. Acabou sobrando para Dilma Rousseff. Não percam:

Tal diálogo entre Jânio e Montoro no debate da TV Record, que o senhor reconstitui confiando em sua memória, já foi reproduzido nesta coluna, na seção Baú de Presidentes, mais de uma vez, no vídeo original.

E é este, literalmente:

Montoro – Eu gostaria que o presidente refutasse esta afirmação de Clemente Mariani ou negasse a afirmação de Clemente Mariani

Jânio – Eu não posso refutá-la nem negá-la. Onde se encontra escrita essa informação?

– Está aqui o livro

– Muito bem

– Está aqui o livro. Página 304. Depoimento…

– O livro, de quem é?

– Depoimento de Carlos Lacerda…

– Ah, sei. Está dispensado da citação.

– Não, mas é…

– Está dispensado da citação…

– O fato ele cita…

– … porque o senhor acaba de querer citar as escrituras valendo-se de Asmodeus ou de Satanás. Não quero ouvi-la.

Na sequência, que não está no vídeo, Jânio define Lacerda como “inimigo figadal meu e do povo brasileiro”. Mas ficou por aí.

Não o culpo, Homem Americano, pela transcrição infiel. Jânio era irreproduzível de memória – para transcrever sua fala no papel, e fiz isso inúmeras vezes após entrevistas com ele, era obrigatório ouvir a fita, e ouvi-la de novo, reproduzindo-a com absoluta fidelidade.

Nunca havia uma pausa, uma elipse, um conceito fora do lugar onde deveriam estar. Transcrita desse modo, a fala transformava-se num texto escrito, sem necessidade de reparo ou adaptação. A boutade sobre Asmodeus e Satanás é exemplo de sua genialidade. Nenhum político brasileiro seria capaz de um repente desses.

Dilma é absolutamente o inverso de Jânio: o que ela fala não se escreve. Transcrevendo qualquer fala de Dilma numa redação da prova do ENEM, um candidato seria sumariamente desclassificado pelos examinadores, mesmo que acertasse todas as questões de múltipla escolha.

22/10/2010

às 23:44 \ Vídeos: Entrevista

Carlos Manhanelli, especialista em marketing político

Aos 54 anos, Carlos Manhanelli participou de 238 campanhas políticas. Presidente da Associação Brasileira dos Consultores Políticos, é autor de 11 livros sobre marketing e estratégias eleitorais. Na primeira parte desta entrevista dividida em três blocos, Manhanelli ensina que o debate eleitoral “não é arena, é passarela” ─ é preferível que os candidatos desfilem para os telespectadores, “em vez de se digladiarem na TV”. Na segunda, discorre sobre a história do marketing político e relembra campanhas célebres, como a de Jânio Quadros, que, em 1960, inaugurou o uso da televisão na campanha política. Na terceira, analisa o trabalho dos marquetólogos ─ Manhanelli rejeita o nome marqueteiro ─ de José Serra e Dilma Rousseff. Colecionador de áudios e vídeos de campanhas eleitorais há 36 anos, o consultor político mostra qual é a estratégia adotada pelos dois candidatos no duelo do segundo turno.

Parte 1

Parte 2

Parte 3

22/10/2010

às 22:02 \ Baú de Presidentes

Celso Arnaldo: em quantos pedaços Jânio faria Dilma num confronto direto na TV?

Celso Arnaldo enviou-me um recado que, como sempre, virou post. Desta vez na seção Baú de Presidentes, por trazer de volta Jânio Quadros. O que o grande artista da política perguntaria a Dilma Rousseff se tivesse o prazer de duelar na TV com a Doutora em Nada? Confira:

No esforço sobre-humano de acompanhar o debate entre a ignorância de Dilma e a inapetência de Serra, por mais de uma vez voltei a delirar naquela fabulosa fantasia que já experimentamos aqui neste espaço: em quantos pedaços, imprestáveis para consumo nas urnas, Jânio faria Dilma num confronto direto, tête-à-tête?

Certamente, nós dois – que o entrevistamos inúmeras vezes – teremos para sempre na memória a prosódia singular e seu extraordinário domínio da língua, bífida e venenosa, quando não destrutiva, contra seus inimigos figadais (até Jânio me explicar a raiz semântica da palavra, eu dizia, como muitos, fidagais).

Enfrentando Dilma num embate que necessariamente pressupõe um duelo de linguagens, o ippon de Jânio seria fulminante – já definido o vencedor nos primeiros segundos, a luta se estenderia pelo tempo regulamentar do debate apenas para deleite do público, e desespero do comissariado petista. Seria uma covardia.

Fiquei maquinando, para me distrair do entediante debate real, o teor de perguntas que Jânio faria a Dilma após as primeiras intervenções da oponente, em seu português de analfabeta funcional, estarrecedor para quem exibe um diploma superior no currículo. Uma delas poderia ser esta:

– Candidata Dilma Rousseff. Minha pergunta magna, neste bloco, será precedida de outras, adjuvantes, que a preparam e justificam. Tem a senhôra curso primário completo? Indago isto porque suas respostas até aqui não apontam para essa remota possibilidade. Se o tiver, gostaria que a candidata declinasse o nome de sua professora, que a esta altura deve ser um senhorinha em justo gozo de seu ócio com dignidade, usufruindo do parco pecúnio que amealhou em vida, ou, mais provavelmente, sobrevivendo à míngua dos proventos previdenciários que seu governo reajustou com impiedosa sovinice. Na pior das hipóteses, ou na melhor, já não o sei, repousa ela em floridos Campos Elíseos. Bem, mas, viva fosse, eu me atreveria a perguntar-lhe: lembra-se de ter dado aulas a uma Dilma Rousseff? Recorda-se de sua presença física em classe, materializando o nome constante na lista de chamada corrida pelo bedel? Em caso positivo, diria a senhôra ter sido ela então sua pior aluna?

Mas, candidata Dilma, na impossibilidade de desfazer desse modo o mistério que cerca sua escolaridade, e que explicaria por linhas tortas sua clamorosa insuficiência intelectual, peço-lhe vênia para ir ao cerne do enigma que nos assombra nesta noite: como ousa a senhôra candidatar-se à Presidência da República?

Precisaríamos de Jânio, de novo, só por uma noite.

17/10/2010

às 6:41 \ Sanatório Geral

Companheiro em pânico

“O PSDB parece estar muito seguro. Não aprendeu com FHC, que sentou na cadeira antes da hora e perdeu para o Jânio”.

André Vargas, secretário de Comunicação do PT, que até 2 de outubro, como ordenou o chefe que não aprendeu nada com FHC, manteve Dilma Rousseff instalada no posto de presidente eleita no primeiro turno.

15/10/2010

às 19:51 \ O País quer Saber

Conheça os melhores momentos dos debates eleitorais na TV

Domitila Becker

Jamais se saberá quantos eleitores resolveram em quem votariam baseados no confronto ocorrido em 26 de setembro de 1960 no estúdio da CBS em Chicago. Também é impossível saber qual seria o desfecho da campanha presidencial se não tivesse acontecido o duelo testemunhado por mais de 70 milhões de americanos. O que se pode afirmar com segurança é que naquela noite o debate eleitoral transmitido pela TV deixou de ser coisa de amadores ─ e que John Kennedy foi superior a Richard Nixon na histórica troca de golpes verbais, menos pelo conteúdo do que disse que pela forma impecável do candidato do Partido Democrata.

Recém-saído do hospital onde se submetera a uma cirurgia no joelho, Nixon estava dez quilos abaixo do peso normal e a aparência cansada era acentuada pela palidez do rosto. Como não aceitou ser maquiado, a tela em branco e preto destacou a barba por fazer e o terno cinza se confundiu com o cenário. Em contrapartida, Kennedy lembrava alguém que vive entre o chuveiro e uma sala com ar-condicionado. Expressão confiante, pele bronzeada, transpirava dinamismo. E parecia mais saudável do que nunca.

Passados 50 anos, a fórmula original continua essencialmente a mesma nos Estados Unidos: os dois principais candidatos se enfrentam num duelo que um moderador (eventualmente escoltado por dois ou três jornalistas) se limita a estimular. O tempo é controlado, mas suficiente para que ninguém interrompa a frase no meio.

No Brasil, o debate na TV continua engatinhando, asfixiado pela legislação eleitoral, que exige a participação de todos os concorrentes, e por camisas-de-força costuradas pela cautela exagerada dos marqueteiros. Para destacar-se na multidão, os candidatos precisam valer-se da verve, do raciocínio rápido ou da agressividade.

Foi assim desde o primeiro, realizado em 1982, que reuniu nove concorrentes ao governo de São Paulo. Vitorioso nas urnas, Montoro foi vencido por Jânio no melhor momento do debate. Ao constatar que uma citação sobre o episódio da renúncia fora extraída de um livro de Carlos Lacerda, seu mais feroz adversário, o ex-presidente aparteou Montoro para dispensá-lo de continuar a leitura. “O senhor acaba de querer citar as escrituras valendo-se de Asmodeu ou de Satanás”, comparou. Todos riram. Até Franco Montoro.

Só em 1989 os telespectadores puderam assistir a um debate entre candidatos à Presidência da República. O primeiro confronto mostrou Mário Covas em ótima forma. Desafiado por Guilherme Afif Domingos, interessado em saber “com qual das duas caras” disputaria a eleição, o candidato do PSDB esbanjou agilidade: “Eu acho que eu tenho uma única cara. Mas certamente se eu tivesse várias, todas elas teriam vergonha”. Previsivelmente, prevaleceu a experiência dos remanescentes do Brasil pré-1964.

Também no duelo de 1989, Leonel Brizola ressuscitou a agressividade dos velhos tempos quando Paulo Maluf se recusou a conceder um aparte. O adversário qualificou-o de “desequilibrado”. Brizola revidou com um “filhote da ditadura”. Os risos da plateia hostil açularam o gaúcho brigão, que reagiu com o que lhe parecia um insulto: “Malufistas! Vocês são malufistas”.

Covas e Maluf enfrentaram-se em 1998 no segundo turno da disputa pelo governo paulista. Segundo colocado na primeira etapa, o governador em campanha pela reeleição resolveu substituir a discussão de programas administrativos pelo embate político e pela comparação do histórico de cada um. “Eu discuto programa, mas eu acho que o telespectador quer discutir caráter”, disse no clímax do debate. “Você quer saber como nós nos comportamos historicamente, como nós somos como pessoa. Quer saber que tipo de compromisso a gente tem. Que tipo de caráter e de antecedência a gente tem”. Deu certo: Covas venceu com quase 10 milhões de votos.

O único duelo semelhante aos promovidos nos Estados Unidos foi travado por Lula e Fernando Collor no segundo turno da eleição presidencial de 1989. Como as regras e restrições eram poucos, sobrou tempo para o confronto. Em vez de defender ideias, contudo, os candidatos optaram por ataques pessoais. Lula comparou Collor a Pinóquio. O adversário devolveu a acusação com uma agravante: “O Pinóquio pelo menos lia. Eu não sei se ele sabe ler”. A tréplica de Lula: “Ele faz parte daquele grupo de políticos que age como se fosse aquela… Aquele início do Programa da Xuxa. Antes das eleições, beijinho, beijinho. Depois das eleições, tchau, tchau”.

Dias antes dessa batalha feroz, Collor exibiu no horário gratuito o depoimento em que Miriam Cordeiro, ex-namorada de Lula, acusava o candidato do PT de tê-la pressionado para abortar a filha Lurian. Temeroso de que o assunto emergisse durante o debate, Lula mostrou-se apreensivo e inseguro. O mau desempenho facilitou a célebre edição do confronto divulgada pela Globo no Jornal Nacional.

De lá para cá, o excesso de medidas preventivas resultou no engessamento do debate. Orientados pelos marqueteiros, os candidatos procuram não perder pontos e parecem satisfeitos com o empate. Escolhem cuidadosamente o traje, ensaiam o sorriso, aprendem a olhar para a câmera certa, driblam os temas propostos e consomem incontáveis minutos em generalidades e miudezas. Concentrados na defesa, raramente atacam. O tempo excessivamente curto os dispensa de respostas claras. E tanto os moderadores quanto os jornalistas convidados não têm direito a réplicas.

Os telespectadores, que pareciam condenados a morrer de tédio, foram surpreendidos pelo primeiro debate do segundo turno transmitido pela Band. Pela primeira vez houve um duelo entre os candidatos de 40 perguntas feitas diretamente de um para o outro.

Se no primeiro turno os principais candidatos procuravam fugir do embate direto, no segundo turno o confronto parece inevitável. A fórmula ainda não é a ideal, mas o Brasil começa a caminhar em direção ao modelo americano.

12/10/2010

às 18:26 \ Direto ao Ponto

Ela mente até durante a missa

“Sou um cavalheiro, mas candidata em campanha é homem”, ensinou o presidente Jânio Quadros. Num debate com Dilma Rousseff, ele não perderia a chance de desmontar a mentirosa compulsiva. Primeiro, cumprimentaria a ex-aluna de colégio religioso pela recentíssima conversão ao catolicismo. Em seguida, sugeriria que fizessem juntos o Sinal da Cruz.

Vejam na seção História em Imagens o que teria acontecido. Foi o que aconteceu nesta segunda-feira no Santuário Nacional de Aparecida. O país agora sabe que Dilma Rousseff mente até durante a missa.

14/08/2010

às 11:18 \ Baú de Presidentes

O dia em que bebi com Jânio (fim)

A grande ressaca e o golpe abaixo da linha da cintura

Meu erro foi o sexto copo, expliquei ao ouvir o humilhante “Eu não disse?” dito por Jomar Moraes na subida da Anchieta. Nunca a estrada de Santos teve tantas curvas. Lembrava que tinha capitulado na metade do copo. Jânio deu mais um gole. Lembrava vagamente que me despedi de Jânio e Gastone com voz pastosa e caminhei para o fusca com a dignidade possível. Para minha sorte, dona Eloá estava refugiada na cozinha.

─ Sexto ou sétimo copo, tanto faz ─ desdenhou Jomar. ─ Teu erro foi encarar a fera.

O sorriso superior de Pedrão avalizou o parecer. Eu só queria que a Serra do Mar parasse de girar ao meu redor, chegar em casa o quanto antes e dormir. No dia seguinte, ainda convalescendo da bebedeira, fui para prédio da Abril na Marginal do Tietê. José Roberto Guzzo, diretor de redação, estava fora naquela semana. Entrei na sala do diretor-adjunto Elio Gaspari tentando disfarçar a ressaca. Ele quis saber se tinha assunto para uma reportagem de capa. Tinha de sobra, respondi. E soltei o comentário como quem não quer nada.

─ O que o homem está bebendo é uma grandeza.

─ É mesmo? ─ Gaspari ficou curioso.

Contei o que Jânio tinha bebido, ele não acreditou. Sugeri que conferisse com Jomar. Achei irrelevante falar sobre os tragos que tomei. Jornalista não é notícia, tinha ouvido várias vezes na redação. Gaspari resumiu num trecho da Carta ao Leitor a performance do campeão: 20 latas de cerveja, 6 copos de caipirinha e 11 cálices (dos grandes) de vinho do Porto. A reportagem ficou boa. A Carta ao Leitor repercutiu ainda mais. Fiquei sabendo que Jânio se irritou. Eu me senti vingado.

Quero ver como ele vai se virar na quarta-feira, pensei. Era o dia do programa que tinha na Record, onde falava o que queria. Vai ter de comentar o que a Veja publicou, calculei. Foi o que Jânio fez no primeiro minuto do primeiro bloco. Com um exemplar da revista na mão, queixou-se de que fora vítima de jornalistas irresponsáveis. E entrou na questão alcoólica disposto a golpear abaixo da linha da cintura.

─ Di-zem-que-be-bi! — escandiu as sílabas. Pois não bebi, até por prescrição médica! Quem bebeu foram os jornalistas!

Fiquei espantado. Não é possível que ele estivesse desmentindo o desempenho admirável. Pois fez pior. Abriu a revista na página da Carta ao Leitor, a câmera fechou a lente, Jânio pôs o dedo indicador na foto e desfechou o golpe de misericórdia:

─ Vejam isto! Vejam quem está bebendo!

Para sorte de Jânio e para meu infortúnio, a foto que ilustrava a página era uma das que Pedro Martinelli fizera quando dona Eloá acabou de confiscar a garrafa de vinho e Gastone ainda não fora buscá-la. O cálice estava atrás do Lincoln do busto. Só aparecia o copo de uísque, circundado em vermelho pelo artista.

─ Aqui está o senhor jornalista com seu copo ─ bateu nas partes baixas. ─ Cadê a minha bebida?

Foi o segundo nocaute consecutivo. Perdi feio. Mas fui derrotado por um campeão.

12/08/2010

às 18:27 \ Baú de Presidentes

O dia em que bebi com Jânio (III)

O golpe de misericórdia

Ele cambaleou, exulto ao ouvir Eloá repreendendo o marido por ter assinado o cheque na linha da data e preenchido o espaço da assinatura com o dia, o mês e o ano do duelo em curso no Guarujá. Resolvo acelerar o ritmo dos goles e partir para a contra-ofensiva infiltrando na conversa temas que costumam irritar Jânio Quadros. A história da renúncia, por exemplo. Meio mundo ainda não entendeu aquilo, provoco. Está arrependido do que fez?

─  Não, não e não ─  três esquivas antes do contragolpe. ─  Neste país, não se renuncia sequer ao cargo de síndico. É natural que poucos entendam gestos de grandeza e desprendimento.

Gastone enche gentilmente meu copo. Ataco pelo flanco com miudezas que o ex-presidente sempre achou excessivamente fúteis, mesquinhas demais para merecerem tempo e atenção de um estadista. Gosta das novelas da Globo? Prefere qual horário? Continua apreciando faroeste americano? Jânio vai respondendo com tiradas de repentista e imagens amalucadas. Nada abala o humor do meu oponente. Nem ouvir o editor de Política da revista Veja, que deveria estar lá para tratar de coisas sérias, querendo saber se ele sabe dançar.

─ Não, não sei… ─ simula um tom nostálgico para, em seguida, espantar quem espera ouvir reminiscências da juventude com a comparação absurda. ─  Sinto-me uma centopéia de 98 pernas.

Por que não arredondou para 100?, fico intrigado. Vai ver uma centopéia tem exatamente 98 pernas. Chega de dança, interrompo-me. Agora quero saber se acredita em disco-voador.

─ Sim, acredito. Eloá até já viu um em Cubatão.

Esqueço o desfile de irrelevâncias e fico procurando, calado, táticas mais eficazes. Jânio continua extraordinariamente loquaz. No fim do nono cálice, está falando das cinco cadelas que moram naquela casa quando Eloá aparece na porta vindo da direção de quem entra. Como não retoma o assunto do cheque preenchido pelo avesso, presumo que o dono do supermercado achou prudente aceitá-lo.

O marido não vê quem acabou de chegar. Ela estende lentamente o braço até alcançar o lado esquerdo da mesa, pega a garrafa de vinho do Porto, recolhe com cuidado o objeto do sequestro e desaparece. Acompanho a manobra com o canto dos olhos e cara de paisagem. Dois minutos depois, enquanto explica por que a cadela Quinta-Feira é a preferida, Jânio vê que o cálice está no fim, avança a mão esquerda e, ao chegar lá, não acha nada. Interrompe a frase no meio e olha para o espaço subitamente vazio. Parece confuso.

─  Onde está a garrafa? ─ murmura com jeito de criança perdida no supermercado.

Não conto o que vi nem sob tortura, decido. Vou ganhar por desistência, quem diria? Não importa se levaram o vinho sem o homem perceber, nem a identidade de quem levou. O motivo é irrelevante: se parar de beber, perdeu. A regra é clara. Jânio faz um minuto de silêncio pelo desaparecimento do vinho e repete a pergunta, agora com voz estridente e destinatário definido.

─ Onde está a garrafa, Gastone?

O deputado aponta a cozinha com o polegar.

─ Vá buscá-la ─ ordena a primeira ênclise.  ─ E trate de trazê-la ─ ameaça a segunda.

Gastone sai para cumprir outra missão. Logo voltam a ecoar frases truncadas mas muito esclarecedoras:  “não vou devolver”, “é o fim do mundo”, ”chega uma hora que tem que parar”, “os moços estão bêbados também”.  Torço pela eterna primeira-dama. Pedro Martinelli ressurge na janela. Jânio desta vez nem olha para o capuchinho que segue fotografando, só tem cabeça para o vinho que sumiu. Gastone reaparece com a garrafa sobre a cabeça e o mesmo sorriso de Bellini, Mauro e Carlos Alberto erguendo a taça Jules Rimet.

Jânio cumprimenta o aliado efusivamente. Pela primeira talagada, vai comemorar o resgate derrubando o décimo cálice. Está animadíssimo. Olhando para Jomar, pede ao ”senhor jornalista”  que anote e começa a a ditar:

─ O presidente Jânio Quadros vírgula depois de examinar detidamente o quadro partidário vírgula optou pelo PTB por ter feito uma constatação indesmentível dois pontos o PMDB é uma arca de Noé vírgula sem Noé ponto…

Único sóbrio no recinto, Jomar está anotando aplicadamente o que Jânio diz. Gastone continua bebendo quieto.  Jânio faz uma pausa no ditado para providenciar o 11° cálice. Paro ou continuo?, hesito. Era hora de jogar a toalha. Mas encho o copo de novo. No primeiro gole, o Lincoln da estatueta e o Lincoln do busto me olham com ar de deboche. Percebo que ultrapassei o ponto de não-retorno. Jânio ergue o cálice como se estivesse brindando. Sorri como um campeão mirando o adversário nocauteado em pé.

Meu erro foi o sexto copo.

(Neste sábado, a última parte do duelo histórico: A GRANDE RESSACA E O GOLPE ABAIXO DA CINTURA)


 

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