Blogs e Colunistas

Jânio Quadros

26/01/2012

às 16:44 \ Direto ao Ponto

Os pés podem ser a tradução da cabeça (3)

Como Jânio Quadros antes da renúncia à Presidência, como Barack Obama depois de escancarado o impasse no Iraque e no Afeganistão, como Sérgio Cabral sempre que se aproxima a estação das chuvas, o prefeito Gilberto Kassab traduziu com os pés, nesta quarta-feira, a confusão mental de quem fundou um partido que não é de esquerda, não é de direita e não é de centro, namora simultaneamente o PSDB e o PT e flerta com Lula sem romper o noivado com José Serra. O prefeito pode acabar descobrindo que quem se oferece a todo mundo não consegue freguês nenhum.

31/10/2011

às 15:01 \ Baú de Presidentes

A falta que um Tancredo faz

Nas cenas finais de Tancredo, a Travessia, quem conhece razoavelmente o personagem acha que ficou faltando alguma coisa. Tal sensação poderia ser dissolvida, ou pelo menos abrandada, por uma tarja que, sublinhando as comoventes imagens de abertura, exibisse a advertência necessária: Tancredo Neves não cabe em 105 minutos. Essa é a duração do documentário que estreou nesta quinta-feira nas salas de cinema. Enquanto acompanha passo a passo a caminhada de um PhD em política que viveu como protagonista os episódios mais dramáticos ocorridos entre 1954 e 1985, o diretor Sílvio Tendler procura capturar-lhe a essência do pensamento e as características que forjaram o estilo incomparável. É muito assunto para pouco mais de uma hora e meia.

E é muita história para uma vida só. Ministro da Justiça em agosto de 1954, Tancredo primeiro usou o talento de conciliador para tentar conter a cólera dos inimigos de Getúlio Vargas. Na última reunião do ministério, mostrou a valentia que nunca lhe faltou ao defender a resistência armada aos militares sublevados. Consumada a tragédia, pronunciou um discurso feroz à beira da sepultura do grande suicida. Em 1961, depois da renúncia de Jânio Quadros, o candidato derrotado ao governo de Minas Gerais negociou o acordo entre o vice João Goulart e os generais conservadores que instituiu o parlamentarismo. Emergiu da crise como primeiro-ministro do novo regime.

Em 1964, líder do governo de Jango na Câmara, Tancredo fez o que pôde para evitar o golpe de Estado. Derrotado, ajudou a fundar o MDB oposicionista e seguiu demonstrando que a prudência e a coragem podem e devem andar de mãos dadas. Amigo de Juscelino Kubitschek, cassado em junho, acompanhou o ex-presidente nos humilhantes depoimentos em tribunais militares. Em 1976, voltou ao cemitério de São Borja para despedir-se de Jango, que não pôde ser sepultado com honras de chefe de Estado, com ataques frontais ao governo autoritário.

Em 1983, engajou-se sem ilusões na campanha pela volta das eleições presidenciais diretas, que qualificou de “lírica”  não por desconhecer a importânica da mobilização popular, mas por conhecer bem demais o Congresso. Convencido de que a sucessão do general João Figueireido não seria decidida nas urnas, tratou de tecer desde o começo de 1984 as complicadas alianças que, em janeiro do ano seguinte, garantiram  a vitória sobre o candidato governista  Paulo Maluf  no Colégio Eleitoral. Entre o início das operações de bastidores e o triunfo, Tancredo colocou em prática as lições que resumia numa metáfora fluvial: “Não se tira o sapato antes de chegar à margem do rio. Mas não se vai ao Rubicão para pescar”.

Esperou até a 25ª hora para formalizar a candidatura e deixar o governo de Minas. Chegara à margem do rio. E então partiu para a travessia do seu Rubicão — o rio que todo guerreiro tinha de cruzar para lançar-se à conquista de Roma. Conseguiu o apoio de todas as vertentes da oposição, com exceção do PT. (O detentor do monopólio da ética se negou a votar no candidato da nação e expulsou os três deputados que descumpriram a ordem. Lula achou que Tancredo não merecia confiança também por ter como vice um José Sarney. Hoje amigos de infância, Sarney e Lula são reduzidos a uma dupla de pigmeus oportunistas pela grandeza do presidente que poderia ter sido e não foi).

Na etapa seguinte, Tancredo atraiu dois terços do PDS e isolou Maluf. Como se disputasse uma eleição direta, liderou comícios monumentais em várias cidades brasileiras. Já era um campeão de popularidade quando pronunciou o belo discurso da vitória. Surpreendido pela cirurgia inadiável na véspera da posse em 15 de março, agonizou até 21 de abril, quando deixou a vida para entrar no imaginário popular como herói nacional.

Cada uma das tantas versões de Tancredo vale um livro, cada episódio que protagonizou vale um filme. Como foram todos agrupados num único documentário, é inevitável que certos trechos pareçam rasos demais, incompletos ou de difícil compreensão. A memória nacional sairia ganhando se, por exemplo, fossem incorporadas mais informações ao trecho reservado às restrições feitas por chefes militares ao candidato do MDB. Até render-se aos fatos, o presidente Figueiredo vivia recitando a expressão  “Tancredo never”. Preocupado com as reações da linha dura, o candidato montou em segredo um plano para reagir a um eventual golpe fardado. O excesso de cautela aconselhou Tancredo a ocultar as dores que prenuciaram o drama. Ele achava que os quartéis não admitiriam a posse do vice José Sarney.

Feitas as ressalvas, convém deixar claro que o que parece pouco aos olhos de cinquentões bem informados é mais que suficiente para permitir a quem tem menos de 30 uma pedagógica viagem, conduzida por Tancredo, pelo turbulento Brasil da segunda metade do século 20. No grande viveiro de desmemoriados vocacionais e amnésicos por conveniência, que a cada 15 anos esquecem o que aconteceu nos 15 anteriores, merece ser saudado com tambores e clarins um documentário que trata a verdade com gentileza e conta o caso como o caso foi.

É irrelevante saber se será anexado aos trunfos eleitorais do senador Aécio Neves. Se fosse neto de um avô assim, Tancredo Neves agiria da mesma forma. E pouco importa constatar que a câmera não esconde a admiração pelo personagem. Esse mineiro de São João del Rei que fez da conciliação política uma forma de arte, esteve sempre do lado certo e só depois de morto subiu a rampa do Palácio do Planalto é, decididamente, um estadista admirável.

Outros documentários completarão o painel esboçado pelo retrato pintado por Tendler ─ e concluído na hora certa. Milhões de brasileiros poderão constatar que, há apenas 25 anos, sobrava gente que debatia ideias, defendia programas e não estava à venda. Os corruptos não chegavam tão facilmente ao ministério. A Era da Mediocridade ainda era só um brilho no olhar guloso de Lula e seus devotos. As imagens mostram um José Sarney constrangido, deslocado, consciente da condição de intruso. Virou presidente graças aos micróbios do Hospital de Base de Brasília e à incompetência dos médicos, que se uniram para castigar o Brasil com a perversidade brilhantemente condensada na frase do jornalista Carlos Brickmann: “Sair de Tancredo para cair em Sarney é, definitivamente, encontrar um túnel no fim da luz”.

26/08/2011

às 17:30 \ Direto ao Ponto

A presidente mata a faxineira imaginária, rasga o avental e renuncia à vassoura

Cinquenta e sete anos depois do suicídio de Getúlio Vargas, a presidente da República matou uma faxineira imaginária durante o jantar no Palácio do Jaburu que reuniu o que há de pior nos dois maiores partidos da aliança governista. Em agosto de 1954, acuado por inimigos, Getúlio escapou do cerco com o mais dramático dos gestos. “Saio da vida para entrar na História”, escreveu no fecho da carta-testamento. “Nós viemos aqui pra bebê ou pra conversá?”, perguntou Dilma Rousseff na abertura da noitada com bons companheiros.

Na continuação do falatório, entre uma troca de sorrisos cúmplices com José Sarney e um olhar de inveja para a segunda-dama Marcela Temer, num impecável vestido azul, a presidente comunicou o falecimento da faxineira que nunca existiu. “Quando estou com o PMDB, eu me sinto em casa”, emocionou-se.  Uma casa habitada pelo PMDB  não sabe o que é limpeza. Mas Dilma deixou claro que está feliz com o casamento (em regime de comunhão de bens públicos) que a uniu ao que Ciro Gomes, num surto de lucidez, qualificou de “ajuntamento de assaltantes”.

No dia seguinte, durante a entrevista coletiva concedida 50 anos depois da renúncia de Jânio Quadros, rasgou o avental e devolveu a vassoura presenteada por líderes da oposição oficial e jornalistas políticos. Em agosto de 1961, Jânio consumou a decisão em sete linhas manuscritas e tentou justificá-la num documento que, embora castigasse a verdade, tratava com muita gentileza a gramática e a ortografia. Dilma só conseguiu ser compreensível ao juntar as 18 palavras que enterraram a fantasia: “Faxina, no meu governo, é faxina contra a pobreza. É isso que é a faxina do meu governo”.  Resumo da ópera: está oficialmente encerrada a faxina ética que nem começou.

COLHEITA DE ESCÂNDALOS
Antes e depois do recado, Dilma serviu aos jornalistas uma assombrosa sopa de letras. “Essa pauta de demissões que fazem ranking não é adequada para um governo, essa pauta eu não vou jamais assumir”, começou a primeira resposta. “Não se demite nem se faz escala de demissão, nem se quer demissão todos os dias. Isso não é, de fato, Roma antiga”. É possível que Dilma acredite que Júlio César foi demitido a facadas. É possível que estivesse pensando em Salvatore Cacciola. É possível que tnão tenha entendido direito o filme de época que viu no cineminha do Alvorada. Nenhum jornalista procurou esclarecer a misteriosa alusão à capital do Império Romano. Todos pareciam intrigados demais com a discurseira em dilmês castiço, transcrita sem revisão pelo Blog do Planalto e reproduzida abaixo em itálico:

“Eu, qualquer, qualquer atividade inadequada, malfeito que for constatado no governo, mantida a presunção de inocência, eu tomarei providências”, . O que… Eu não sei de onde sai a informação de vocês, mas, tanto a forma como colocam a política do meu governo contra malfeitos, chamando-a de faxina, eu não concordo com isso, acho que isso é extremamente inadequado – e já disse isso para vocês uma vez… Eu acho o seguinte: que se combate o malfeito, não se faz disso meta do governo”.Depois da pausa para outra pergunta, Dilma voltou a enfurnar-se no matagal de vogais e consoantes: “Os restos, eu disse para vocês, são ossos do ofício da Presidência, e ossos do ofício da Presidência não se interrompem. A Lei é igual para todos. Não tem aqueles que estão acima da Lei, a Lei é igual para todo mundo”. Sem ter esclarecido o primeiro ponto nem mencionado o segundo, passou aos dois seguintes: “Terceiro: é importantíssimo você respeitar a dignidade  das pessoas, não submetê-las a condições ultrajantes, e eu sei disso, porque eu já passei por isso. Quarto: a presunção da inocência”.

Tradução: como ocorre há oito anos e meio, o governo fará o possível para ocultar as delinquências promovidas por bandidos de estimação e, se descobertas, tentará manter os culpados em seus empregos. Desde o primeiro mandato de Lula, os tapetes que escondem quadrilheiros têm sido levantados pela imprensa, pela Polícia Federal e pelo Ministério Público. Saudada como um histórico ponto de inflexão, a dedetização no Ministério dos Transportes ─ provocada pelas denúncias de VEJA ─ foi o ponto fora da curva, um acidente de percurso ocorrido na confluência do péssimo humor com a inexperiência política. O afastamento do bando homiziado no DNIT não foi o primeiro da série de confrontos com o clube dos cafajestes. Foi o último.

As anotações no prontuário informam que imaginar que Dilma Rousseff virou varredora de corruptos equivale a acreditar que o sucessor de Marcola na chefia do PCC tentará proibir o tráfico de drogas. Ela jura que o mensalão não existiu, foi testemunha de defesa de dois acusados e acha o companheiro José Dirceu “um injustiçado”. Depois de reduzir a roubalheira comandada por Erenice Guerra a invencionice eleitoral, absolveu simbolicamente a amiga quadrilheira com o convite para a festa de posse.

Dilma fez o que pôde para manter no primeiro escalão Antonio Palocci, Wagner Rossi e Alfredo Nascimento. Como ocorreu mais de uma vez com o padrinho, a afilhada teve de afastá-los porque o tsunami de denúncias açulou a opinião pública e ficou perigoso tratar com o deboche habitual o Brasil decente. Se não tolerasse sujeira, a faxineira de araque já teria demitido os ministros Pedro Novais e Mário Negromonte. Fora o resto.

A sorte do governo é que também os partidos oposicionistas são imaginários. Os escândalos colhidos nos últimos meses foram plantados por Lula e Dilma, em parceria com a turma que participou da noitada no Jaburu. Em vez de desfraldar a bandeira da honestidade, e desencadear a ofensiva contra os quadrilheiros federais protegidos pelo Planalto, a oposição colocou uma vassoura nas mãos de Dilma Rousseff. E se recusa a tê-la de volta. “A faxina precisa continuar”, voltou a fantasiar nesta quinta-feira o governador Geraldo Alckmin.

No século passado, agosto era o mais pressago dos meses. Acabou de transformar-se em mais uma prova de que, se em outros países é reprisada como farsa, a História se repete no Brasil como piada.

25/08/2011

às 19:11 \ Baú de Presidentes

O dia em que o presidente sumiu

TEXTO PUBLICADO NA EDIÇÃO DE VEJA DESTA SEMANA

Augusto Nunes

Sete anos depois do suicídio de Getúlio Vargas, sete meses depois da posse, o presidente Jânio Quadros precipitou, com sete linhas manuscritas, a sequência de crises que desembocaria, sete anos mais tarde, no Ato Institucional n° 5 – e na instauração da ditadura sem camuflagens. Na manhã de 25 de agosto de 1961, a democracia ainda em sua infância viu-se forçada a renunciar à maturidade, que só seria alcançada caso fossem cumpridos integralmente dois mandatos  consecutivos. O Brasil civilizado pareceu mais distante que nunca no dia em que o presidente sumiu.

Abrupto e inesperado, o último ato foi um fecho coerente para a ópera do absurdo composta desde o primeiro dia de governo, quando Jânio foi ameaçado pela maioria oposicionista no Congresso: se ele continuasse a hostilizar o antecessor Juscelino Kubitschek, uma sessão especial da Câmara e do Senado seria convocada para tratar do assunto. Ainda em 1º de fevereiro, o novo presidente revidou com a criação de comissões de sindicância, chefiadas por militares e incumbidas de investigar “focos de corrupção” que dizia ter herdado de JK.

Nos 204 dias seguintes, o Brasil viajou numa montanha-russa monitorada por um homem de 44 anos que obedecia exclusivamente ao instinto. Tangenciando o penhasco com perturbadora frequên­cia, alternando freadas bruscas com arrancadas vertiginosas, ele aumentou o expediente dos servidores públicos, exonerou meio mundo, suspendeu nomeações por um ano, reduziu o orçamento das Forças Armadas e os quadros funcionais de todas as embaixadas, tabelou o preço do arroz e do feijão, condenou a invasão de Cuba financiada pelos Estados Unidos, planejou a anexação da Guiana Francesa, baixou medidas de combate ao monopólio, desvalorizou a moeda, determinou ao Itamaraty que restabelecesse relações diplomáticas com a União Soviética, proibiu maiô em concurso de miss, lança-perfume, briga de galo, corridas de cavalo em dias úteis e veiculação de comerciais no cinema, mobilizou o Exército para reprimir uma greve de estudantes no Recife, brigou com a maioria dos parlamentares aliados, regulamentou a remessa de juros para o exterior, enviou o vice João Goulart à China, condecorou Che Guevara e rompeu com Carlos Lacerda. No 207° dia de governo, renunciou à Presidência.

Insatisfeito com o Congresso, infeliz com a vida numa cidade que odiava, colérico com o discurso em que Carlos Lacerda o acusou de tramar um golpe de gabinete, Jânio pouco dormiu na madrugada de 25 de agosto de 1961. Saiu da cama antes que o sol nascesse disposto a tirar o sono dos demais brasileiros. Depois do café da manhã ao lado da piscina do Palácio da Alvorada, sobressaltou a mulher, Eloá, com outra frase de novela mexicana: “A conspiração está em marcha, mas vergar eu não vergo!”.

Às 6 horas, já no Planalto, chamou a seu gabinete alguns assessores de confiança e, alisando o bigode de dono de botequim, antecipou a manchete da próxima edição de todos os jornais: “Comunico aos senhores que renuncio, hoje, à Presidência da República”. Durante o desfile do Dia do Soldado, convocou os três ministros militares para uma audiência – e para deixá-los atônitos com a notícia. Rejeitou os apelos para ficar com outro palavrório solene que terminava com a identificação do culpado: “Ajustem o novo Brasil às exigências do Brasil novo. Com esse Congresso eu não posso governar”.

SURTO DE SINCERIDADE
Sem pausas, ordenou ao ministro da Justiça, Oscar Pedroso Horta, que entregasse ao presidente do Senado, Auro de Moura Andrade, a carta que redigira no dia 19, depois de  condecorar Che Guevara. Na hora do almoço, embarcou rumo à base aérea de Cumbica, para a demorada escala que precedeu a partida para a Europa a bordo de um navio cargueiro. No dia 26, o país, imerso na perplexidade, pareceu afundar na crise provocada pelo veto dos chefes das Forças Armadas à posse do vice João Goulart.

“Ele foi a UDN de porre no governo”, resumiu Afonso Arinos de Mello Franco, ministro das Relações Exteriores. “Faltou alguém trancá-lo no banheiro”, lastimou. Só se fosse para sempre, sabe-se hoje. Algumas horas de cárcere privado só adiariam a tentativa de instituir o presidencialismo autoritário que o deixaria livre para agir. Na carta da renúncia, o signatário informou que deixara com o ministro da Justiça as razões do seu gesto. O segundo texto confiado a Pedroso Horta é um amontoado de queixas difusas, alusões a “forças terríveis”, declarações de amor ao Brasil e juras de apreço ao Povo (com maiúscula). Ele só contou a verdade alguns meses antes de morrer, em 16 de fevereiro de 1992, numa conversa com Jânio John Quadros Mulcahy, o único filho homem de Tutu Quadros.

Em 25 de agosto de 1991, trinta anos depois da renúncia, o paciente internado no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, foi acometido por um surto de sinceridade provocado pela curiosidade do neto. “Foi o maior erro que cometi”, lamentou. “Ao renunciar, eu quis pedir um voto de confiança à minha permanência no poder.” Foi para acentuar a sensação de vazio que despachara o vice, João Goulart, para a China. “Jango era uma espécie de Lula, completamente inaceitável para a elite”, comparou. “Imaginei que o povo iria às ruas, seguido dos militares, e que eu seria chamado de volta.”

O intuitivo genial só esqueceu de combinar com os adversários. Auro de Moura Andrade comunicou ao plenário do Congresso que a renúncia era “um ato de vontade unilateral”, e empossou o presidente da Câmara, o deputado Ranieri Mazzilli. Preocupados com o vice que voltava da China, os militares esqueceram o homem que desertara. E o povo só poderia ser mobilizado por um partido janista que o líder jamais deixou nascer. “Fiquei com a faixa presidencial até o dia 26″, contou ao neto. “Deu tudo errado. O país pagou um preço muito alto.” Jango acabaria engolido pelos quartéis. Mas seria expelido três anos mais tarde.

A tentativa de implantação de uma ditadura civil que resultou no advento de uma ditadura militar ortodoxa seria a peça mais vistosa do acervo de singularidades e paradoxos colecionados desde o berço. Jânio João Quadros segundo a certidão de batismo, o filho do médico Gabriel Nogueira Quadros e da dona de casa Leonor Silva Quadros resolveu ainda menino trocar o “João” por um “da Silva” e juntar o mais comum dos sobrenomes ao prenome inspirado em Janus, o deus bifronte. Virou Jânio da Silva Quadros – ou apenas J. Quadros, na assinatura dos bilhetinhos ou de decretos oficiais.

A CAVALGADA DAS VASSOURAS
Nascido em Campo Grande (hoje Mato Grosso do Sul), inventou quando estudante em Curitiba um estranhíssimo sotaque sem parentesco com Mato Grosso, com o Paraná ou com qualquer região. O acento personalíssimo só pode ser encontrado na voz dos imitadores. O estudante de direito da Faculdade do Largo São Francisco já exibia trajes desleixados e cabelos em desalinho, parecia pouco asseado, bebia com muita competência e apreciava frases empoladas. Tinha na cabeça (além de um dicionário alojado em algum desvão do cérebro) ideias vagamente nacionalistas e a certeza de que fora enviado pela Divina Providência para salvar o Brasil.

Em 1947, os alunos do Colégio Dante Alighieri decidiram conseguir uma vaga na Câmara Municipal de São Paulo para o professor de geografia que não fizera sucesso como advogado criminalista e não ingressara na carreira diplomática “por não corresponder aos padrões estéticos”. Foi o começo da impressionante cavalgada das vassouras, anabolizada pelo discurso que celebrava a luta do tostão contra o milhão, prometia varrer a bandalheira, punir os desonestos, enquadrar os ineptos e engaiolar os corruptos – a começar pelo inimigo preferido, Adhemar de Barros, uma espécie de Paulo Maluf sem disfarces.

Em apenas treze anos, Jânio foi deputado estadual, prefeito da capital, governador, deputado federal e presidente da República. Só ficou do começo ao fim no governo de São Paulo. Ao completar o mandato em janeiro de 1959, o líder carismático havia incorporado a imagem de administrador incorruptível. O Brasil fora feliz com JK, um mineiro risonho, generoso, tolerante, afeito ao convívio dos contrários. Mas decidiu em 1960 que o sucessor seria o mato-grossense genioso, instável, ególatra, autoritário.

Como o país, Jânio pagou caro pela renúncia ao mandato conferido por mais de 5,6 milhões de eleitores. Transformado numa caricatura de si próprio, tentou a ressurreição impossível antes e depois da cassação, em 1964. Fracassou em 1962 e em 1982 na tentativa de voltar ao governo paulista, elegeu-se prefeito de São Paulo em 1985. Aos 75 anos, morreu pensando na Presidência. E sem revelar o número da conta no banco suíço.

Cinquenta anos depois da renúncia, o Brasil parece bem menos primitivo, a democracia tem mais consistência e Jânio figura na galeria presidencial como outro ponto fora da curva. Mas tampouco parece suficientemente moderno para considerar-se livre de reprises da farsa. Países exauridos pela corrupção endêmica serão sempre vulneráveis a algum populista que, com um discurso sedutoramente agressivo, prometa varrer a bandalheira.

20/08/2011

às 19:54 \ Direto ao Ponto

Uma viagem pelo Brasil de Jânio Quadros

Os 50 anos da renúncia de Jânio Quadros à Presidência da República são o tema de uma reportagem de sete páginas publicada por VEJA, de inúmeros posts no site e da edição (de altíssima qualidade, adianto) concebida para tablets. O site dá uma boa ideia do que se vai ler, ouvir e ver. Também por ter escrito os textos, convido o timaço de comentaristas para essa pedagógica viagem pelo Brasil de 1961. Vai valer a pena, amigos. Depois me contem o que acharam.

20/07/2011

às 22:15 \ História em Imagens

Os pés podem ser a tradução da cabeça (2)

Jânio Quadros – 1961

Sérgio Cabral – 2011

Os brasileiros com mais de 50 anos enxergaram imediatamente o que há em comum entre Sérgio Cabral e Jânio Quadros. Os fluminenses com mais de 50 neurônios esperam que as semelhanças subam dos pés para a cabeça e se manifestem em 25 de agosto. Foi nesse dia que, há 50 anos, o presidente renunciou ao cargo.

23/03/2011

às 18:19 \ História em Imagens

Os pés podem ser a tradução da cabeça

Barack Obama confirmou a suspeita nascida com a foto famosa de Jânio Quadros: alguma coisa acontece a um presidente da República quando taxia na pista de algum aeroporto brasileiro. Ou a cabeça manda ordens desconexas às pernas ou os pés se insurgem contra a determinação do cérebro. A biografia de Jânio recomenda aos americanos que se cuidem.

18/03/2011

às 13:39 \ Direto ao Ponto

A noite em que encontrei Fidel (parte 2)

O segundo capítulo do relato inclui um fantástico incidente ocorrido em abril de 1960: o sumiço do revólver de Fidel Castro durante um jantar com Jânio Quadros e jornalistas brasileiros na embaixada em Havana.

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18/03/2011

às 13:38 \ Baú de Presidentes

A segunda parte do encontro com Fidel e o caso do revólver roubado na embaixada

Enquanto espero a conversa com Fidel Castro no salão imenso do Ministério das Relações Exteriores, estou pensando o que pensa todo estrangeiro convidado para uma tremenda boca-livre por conta do governo cubano: se o povo visse isto aqui, o regime comunista não chegaria à sobremesa. Extensa, espessa e sólida como píer inglês, a bancada do bufê suporta uma assombrosa procissão de frutos do mar. Lagostas, camarões, siris e caranguejos de dimensões amazônicas, um tsunami de mariscos e ostras, cardumes de peixes de espantar o velho Santiago. Estamos em dezembro de 1987, mas aquilo parece banquete patrocinado por um Nero de cinema.

Tem até gente gorda. Há seis dias zanzando pelas ruas de Havana, só vi gente magra. O governo jura que ninguém morre de fome, mas nenhum cubano comum come o suficiente para matá-la. Isso é para quem frequenta recepções oficiais. Contemplo uma lagosta abraçada a dois camarões quando me bate a certeza de que todos os gordos da ilha estão aqui. Não passam de dez. Começo a imaginar como é que eles explicam aos magros curiosos aqueles quilos a mais quando vejo o funcionário que escolta o bando de brasileiros me acenando com espalhafato. Chegou o grande momento. Junto-me ao grupo de jornalistas e vamos todos para uma sala com quatro poltronas e dois sofás de bom tamanho. Capturo uma poltrona. Cinco minutos mais tarde, a porta se abre ─ e Fidel finalmente aparece.

Aos 61 anos, há 28 no poder, a figura emoldurada pela soleira traja uma farda verde-oliva bem cortada e parece em ótima forma. Fico de pé e constato que nossos queixos se alinham na mesma altitude. Ele tem, portanto, entre 1m85 e 1m90, incluindo o salto carrapeta do coturno preto. Só alcança 2 metros na imaginação dos devotos. A expressão satisfeita e o olhar confiante informam que o ditador quase sessentão adora o que faz e pretende manter o emprego enquanto viver.

Também ficou mais cauteloso, sorrio ao conferir o cinto paisano: não há qualquer vestígio de coldres e revólveres. Desde o outono de 1960, quando a lenda estava ainda em seu começo, Fidel Castro sabe que não se deixa impunemente uma arma de fogo ao alcance de jornalistas brasileiros.

O CASO DO SUMIÇO DO REVÓLVER
Naquela noite de abril, Fidel chegou com algumas horas de atraso à embaixada do Brasil em Havana. Todos empunhando copos ou garrafas, ali o esperavam o futuro chanceler Vasco Leitão da Cunha, que organizou a recepção, Che Guevara, escalado pelo chefe para distrair os visitantes, o recentíssimo amigo de infância Jânio Quadros, figurões do janismo e jornalistas que cobriam a visita a Cuba do candidato à presidência da República. (O vídeo abaixo mostra a animação da comitiva já na chegada à ilha. Até o exemplarmente sóbrio Afonso Arinos acabara entrando na festa, com um chapéu na cabeça e maracas nas mãos).

No corredor da embaixada, Fidel fez uma derradeira escala no lavabo para deixar sobre a  caixa da descarga o cinto com o revólver no coldre que completava o uniforme de guerrilheiro. Entrou na sala de jantar desarmado, falante e feliz. Só deu a conversa por encerrada no meio da madrugada. Um dos últimos a retirar-se, embarcou num jipe pilotado pelo ajudante de ordens e desapareceu na noite. Reapareceu às cinco da manhã para buscar o que esquecera no lavabo. E então descobriu que o cinto não estava mais lá. Nem o coldre. Nem o revólver.

O jornalista Villas-Boas Corrêa, que testemunhou a cena, resumiu num artigo no Jornal do Brasil a reação de Fidel. “Ele perde a calma, insiste na busca. A criadagem é acordada. Ninguém vira ou tinha notícia da pistola que, segundo Fidel, o acompanhava desde Sierra Maestra, uma mascote que era parte da sua vida”. À beira de um ataque de nervos, a vítima suspendeu as buscas e foi tentar dormir.

Mas não se renderia, conta Villas-Boas Corrêa: “Compareceram à embaixada, horas depois, o comandante Raulito Diaz Argueille, chefe do Birô de Investigações, e o capitão Chino Figueiredo, do serviço secreto, reclamando a lista com os nomes de todos os que compareceram à recepção e deixando claro que Fidel exigia a devolução da arma no prazo de 24 horas”. Teria de esperar o dobro.

Passadas 48 horas, o autor da audaciosa gatunagem procurou Leitão da Cunha para propor o acordo: ele devolveria o produto do roubo se o dono não soubesse quem foi. O embaixador cumpriu a promessa e levou o segredo para o túmulo. A História ainda ignora a identidade do jornalista brasileiro que conseguiu o que nem os americanos conseguiram: desarmar Fidel.

Leitão da Cunha só deixou escapar, muitos anos mais tarde, que se surpreendeu com a inscrição na plaqueta de ouro incrustada no cabo do revólver: “Ao herói do povo cubano, a amizade de Anastas Mikoyan”. Aquele parabelum russo, um presente do chanceler da União Soviética, desembarcara na ilha meses antes do incidente noturno. Não fazia a menor ideia de onde ficava a Sierra Maestra.

O passeio por 1960 é interrompido pela voz que anuncia o início de un rato de charla. Um dedinho de prosa com Fidel, como se verá no terceiro e último capítulo, dura pelo menos três horas.

04/03/2011

às 19:03 \ Direto ao Ponto

Celso Arnaldo e o palavrório de Irecê: Dilma decidiu que todas as brasileiras são mães

Se cada palavrório cretino fosse punido com 10 chibatadas, Lula e Dilma Rousseff  atravessariam aos urros os intervalos entre uma e outra discurseira. Lula, por exemplo, acha que só sua mãe nasceu analfabeta.  E acredita que, como a Terra é redonda e gira, o Brasil fica às vezes em cima e às vezes embaixo do Japão. Dilma, entre outros hinos ao absurdo, enfiou na cabeça que as mulheres brasileiras, que somam 52% da população brasileira, são mães dos 48% restantes.

Como se baseia no último censo do IBGE, que só conta gente que não morreu, Dilma transformou o Brasil num enigma indecifrável. Aqui, todas as mulheres são mães, incluídas as recém-nascidas, as estéreis e as carmelitas descalças. Todos os filhos são homens. Todos os homens têm mães vivas, incluídos os maiores de 90 anos, e são órfãos de pai, incluídos os bebês de colo. Falta apenas resolver um pequeno problema aritmético: mesmo que todas as mães sejam viúvas e tenham um filho único, uma diferença de quatro pontos percentuais separa 52 de 48. É muita mãe para pouco filho.

Alheia a tais miudezas, Dilma reapresentou em Irecê, pela terceira vez, a tese amalucada, como comprova o vídeo que ilustra o texto do jornalista Celso Arnaldo Araújo. Foi só o começo da sequência de espantos capturados pelo nosso grande caçador de cretinices. A performance no interior da Bahia é, como sempre, tão divertida quanto assustadora. Só um país sem juízo pode eleger uma presidente assim. (AN)

É NO PRÓLOGO QUE A COISA PEGA
Celso Arnaldo Araújo

Na história da oratória política, há antológicos começos de discursos presidenciais:

“Há oito décadas e sete anos, os nossos pais deram origem neste continente a uma nova Nação, concebida na Liberdade e consagrada ao princípio de que todos os homens nascem iguais”. (Abraham Lincoln, no célebre discurso de Gettysburg)

“Muitos são os caminhos para a conquista do Poder. Viciosos, porém, se me afiguram todos aqueles que se apartam do voto do povo, deitado nas urnas soberanas”. (Discurso de posse de Jânio)

“Venho somar minha esperança à esperança de todos neste dia de congraçamento. Permitam que, antes do Presidente, fale aqui o cidadão que fez da esperança uma obsessão, como tantos brasileiros. Pertenço a uma geração que cresceu embalada pelo sonho de um Brasil que fosse ao mesmo tempo democrático, desenvolvido, livre e justo”. (Discurso de posse de Fernando Henrique Cardoso)

“Não é possível traduzir em palavras o que sinto e o que penso nesta hora, a mais importante de minha vida de homem público. A magnitude desta solenidade há de contrastar por certo com o tom simples de que se reveste a minha oração” (Juscelino, na inauguração de Brasília)

“Esses republicanos, não satisfeitos em atacar a mim, minha esposa ou meus filhos, agora incluem meu pequeno cão Fala em seus ataques. Eu não me incomodo com esses ataques, minha família não se incomoda com esses ataques. Mas Fala se incomoda” (Franklin Roosevelt, no famoso Discurso de Fala, sua cadelinha Scottish Terrier)

“Primeiro eu queria desejá boa tarde a todos. Boa tarde. Todos nós estamos aqui até agora, né, sem almoçá, mas tamo aqui firmes. Eu queria também dá um boa tarde especial às mulheres baianas aqui presentes. Com isso eu não estou preterindo os nossos companheiros homens, mas é porque hoje é o primeiro dia do mês da mulher, o mês em que se comemora o dia 8 de março, o Dia Internacional da Mulher. E aí também porque, apesar de nós sermos 52% da população, e portanto as mulheres serem maioria, os outros 48% são nossos filhos e aí fica tudo em casa. Então, ao comprimentar as mulheres eu estendo também um comprimento a todos os companheiros aqui presentes” (Dilma Rousseff, no discurso de Irecê, Bahia, depois de assinar o reajuste do Bolsa Família, 01/03/2011)

Quem assistiu a “O Discurso do Rei” notou que a grande agonia de George VI, o rei disfêmico da Inglaterra, era o preâmbulo da fala, o prefácio, as primeiras palavras. Dilma tem enormes dificuldades com o resto também, mas é no prólogo de seus discursos que a coisa realmente pega. Uma saudação que deveria ser simples e natural, para beneficiários do Bolsa Família, transforma-se num pastiche do pastiche. Aquele célebre “Primeiro eu queria comprimentar os internautas. Oi internautas” aqui virou “Primeiro eu queria desejá boa tarde a todos. Boa tarde”.

Dilma, obcecada com esse negócio de ser a primeira “presidenta”, cismou de fazer gênero com a mulherada – mas de um modo sempre desastroso. Dar “um boa tarde especial às mulheres baianas aqui presentes”, como se fosse possível dá-lo às dinamarquesas ou não devesse incluir as não-baianas ali presentes, só não é mais ridículo que o complemento: desde quando dar boa tarde às mulheres, no “mês da mulher”, é preterir “os companheiros homens”? Fazer média com gênero é sempre detestável, porque tão demagogo e antinatural quanto o “Queridos brasileiros e queridas brasileiras” do discurso de posse que enlevou a companheirada.

O pior é que, nesses momentos, Dilma tenta ser leve, arrisca uns truquezinhos de comunicador de auditório – mas seu repertório é constrangedor. E inclui, desde a campanha, onde foi repetido dezenas de vezes, esse monstruoso apedeutismo dos 52% de mulheres-mães dos outros 48%, que ela ouviu falar não sabe onde e repete sem noção de lógica e sem contestação. Como em Irecê.

Todos os homens que fazem parte dos 48% são filhos de mulheres, mas não necessariamente dessas mulheres da cota dos 52% – que naturalmente estão vivas, pelo menos no último censo do IBGE. Minha mãe já morreu — portanto eu, que faço parte dos 48, não sou filho de nenhuma dos 52. Entre os 52, há também as que não têm filhos – por imaturidade, infertilidade, decisão pessoal ou perda. Nenhum dos 48 evidentemente é filho dessas.

Válido o esdrúxulo raciocínio de Dilma, é só inverter a equação: os 52% são nossas filhas, o que, no meu caso, que tenho duas filhas, é um pouco mais verdadeiro que o inverso. Nós homens temos mais filhas que elas, filhos. E estamos todos em casa.

É possível confiar um PIB de 3,675 trilhões de reais, um “Pibão bão”, nas palavras da presidente, a uma pessoa com essa dificuldade de raciocínio?


 

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