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Haiti

01/12/2010

às 19:05 \ Direto ao Ponto

O governo que festeja os soldados da hora humilha com o calote as famílias dos 18 heróis brasileiros mortos no Haiti

Pela segunda vez em 2010, o Café com o Presidente deste 29 de novembro foi dedicado a integrantes das Forças Armadas. Com a animação de passista de Carnaval antigo, Lula festejou a bem sucedida operação policial-militar no Morro do Alemão. Depois de avisar que faz questão de cumprimentar os vitoriosos na frente de batalha, que visitará em breve, o chefe de governo garantiu que haverá verba de sobra para as etapas seguintes do esforço de guerra.

Dinheiro para todos e palavrórios patrióticos — esses dois ingredientes também foram usados para tornar menos amargo o Café de 25 de janeiro, que tratou da morte no terremoto no Haiti de três civis e, sobretudo, dos 18 soldados que lutavam para impedir a consumação da agonia da nação caribenha. A apresentadora Anelise Borges quis saber como se sentia o homem que estivera no cenário da tragédia e presidira o sepultamento das vítimas brasileiras. Sem pausas, a voz roufenha que desde 2003 tem algo a dizer todos os dias caprichou no tom de quem conta como é enviuvar na lua-de-mel e foi em frente:

“Olha, Anelise, realmente é muito difícil a gente deixar de se emocionar ao falar das pessoas que morreram no Haiti. (…) Eu te confesso que poucas vezes eu fiquei emocionado como eu fiquei no velório daqueles soldados, porque eram pessoas que estavam no Haiti para prestar solidariedade, pessoas que estavam dedicando a sua vida para tentar ajudar as pessoas mais pobres, as pessoas que estavam mais deserdadas no Haiti. Por isso é que eu fiquei emocionado, porque muitos daqueles jovens estavam para voltar dentro de dois ou três dias quando aconteceu o terremoto e eles morreram”.

Um drama desse calibre, ressaltou, exigia mais que o coração dilacerado e a mão solidária do presidente da República. As famílias fulminadas pela perda mereciam também reparações materiais e o permanente amparo da União. Lula contou que, no dia 21, havia remetido à Câmara dos Deputados um projeto de lei que definia os benefícios que contemplariam os parentes dos 18 militares. Tudo somado, a conta ficaria pouco acima de R$ 10 milhões. Para quem naquele mesmo dia 21 perdoara R$ 316 milhões devidos por Moçambique, o auxílio aos mortos do Haiti era dinheiro de troco.

“Você sabe que além da solidariedade, nós estamos mandando ao Congresso Nacional um projeto de lei garantindo a cada família R$ 500 mil de indenização e uma bolsa-educação de R$ 510 para cada dependente até 24 anos”, continuou Lula. A indenização seria entregue às viúvas ou, no caso dos solteiros, à mãe. “É o mínimo que a gente pode fazer para ajudar a família dessas pessoas que estavam e estão desesperadas, e pessoas que estavam lá defendendo e honrando a bandeira nacional”.

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, entrou em ação para ordenar que tudo se fizesse em ritmo de Fórmula 1. “O dinheiro nunca vai compensar a ausência do pai ou do companheiro, mas supre em parte o papel do provedor, especialmente no apoio à educação dos filhos”, recitou também com cara de luto. Em 3 de fevereiro, o projeto foi aprovado pela Câmara e encaminhado ao Senado. O ano escolar estava prestes a começar, era preciso liberar com urgência a bolsa de estudos. Mas ninguém viu a cor do dinheiro.

SENTIMENTO DA VERGONHA
Jobim só retomou o assunto em 16 de agosto para esclarecer num comunicado que o pagamento só poderia ser autorizado depois que o Congresso aprovasse “um pedido de abertura de Crédito Especial de R$ 10.119.340,00 ao Ministério da Defesa”. Não explicou por que não pensara nisso em janeiro. O começo da campanha eleitoral adiou para depois de novembro miudezas encalhadas na pauta do Legislativo. Só em 24 de novembro o pedido para a abertura do crédito entrou na lista de votação do Senado. Faltou quórum. Ninguém sabe dizer quando será votado.

“Foi noticiado até na imprensa internacional, mas até hoje não recebemos nada”, lamenta Cely Zanin, 43 anos, mãe de dois filhos — um de 17, outro de 18. Viúva do coronel João Elizeu Souza Zanin, morto no desabamento do quartel-general da ONU. Cely imaginava que ao menos a ajuda de custo para os dois estudantes chegasse a tempo. “O ano está acabando”, sussurra a professora e bancária que faz o possível para continuar acreditando nas promessas. Nenhuma das famílias recebeu nada. Nenhuma conseguiu ser recebida pelo presidente da República.

A explicação para o calote afrontoso talvez esteja, paradoxalmente, no número de parentes das vítimas. São tão poucos que, caso morassem numa mesma cidade de pequeno porte, seus votos, somados, seriam insuficientes para eleger um candidato a vereador. Lula também sabe que não ouvirá cobranças da oposição, muito menos dos brasileiros comuns. No País do Carnaval, um herói deixa de sê-lo quando a imprensa muda de assunto. Os soldados da vez estão no Morro do Alemão. É lá que deve estar a cabeça de um caçador de assuntos politicamente rentáveis.

Para um governo desprovido do sentimento da vergonha, a hora dos 18 bravos lutadores tombados no Haiti já passou. Os parentes podem esperar. É o Brasil.

26/11/2010

às 16:52 \ Direto ao Ponto

O Haiti é aqui há pelo menos cinco anos

Na edição do Jornal do Brasil de 27 de novembro de 2005, escrevi um artigo defendendo a intervenção das Forças Armadas em zonas de exclusão, quase todas localizadas nos morros do Rio e em regiões de fronteira. Amputadas do mapa real do Brasil, colocam em risco a segurança nacional — e a Constituição autoriza a mobilização de tropas regulares para sufocar essa espécie de ameaça. Trecho:

As Forças Armadas são historicamente avessas à mobilização de tropas para garantir a segurança das metrópoles. Milhões de cariocas imploram por batalhões treinados para neutralizar as guerras do narcotráfico nos morros. Mas missão em favelas não é coisa para o Exército, avisam generais. No Brasil, deveriam ressalvar.

Longe daqui é, atestam as tropas deslocadas para o Haiti pela megalomania do Itamaraty de Lula. Naquele atoleiro, lutam diariamente em favelas conflagradas. No comando da força de paz da ONU, o Brasil é injustamente responsabilizado por atrocidades alheias. O Haiti é aqui. Mas o governo da potência de araque achou que nos faltava um Iraque no Caribe.

Passados exatamente cinco anos, o texto dispensa atualizações. Acrescento só uma pergunta: por que os pais-da-pátria esperaram tanto?

08/04/2010

às 13:30 \ Sanatório Geral

Terremoto elitista

“O terremoto do Haiti foi impiedoso, porque impiedosos haviam sido os colonizadores espanhóis e franceses e, bem mais tarde, os homens de negócios norte-americanos. Foram dizimados os pobres: os poucos ricos, estrangeiros em sua maioria, salvaram a vida e o patrimônio”.

Mauro Santayana, em sua coluna no Jornal do Brasil, surpreendendo o  mundo com a descoberta de que o terremoto do Haiti nasceu do acasalamento de um espanhol com uma francesa, cresceu entre milionários americanos e aprendeu com George Bush a ser sempre obediente aos ricos e só matar gente pobre.

31/03/2010

às 15:34 \ Sanatório Geral

Chanceler de bolso (25)

“Tenho a convicção de que, com a contribuição adequada da comunidade internacional, o povo haitiano, com sua coragem e resistência invejáveis, será capaz de refundar seu país”.

Celso Amorim, ensinando que o verbo do outono é o velho “refundar”, inventado por Tarso Genro entre um poema onanista e uma declaração a favor de Cesare Battista para fazer de conta que o PT dos companheiros mensaleiros não continuaria sob o controle dos mensaleiros companheiros.

01/02/2010

às 0:15 \ Sanatório Geral

Gran Circus Brazil (2)

“É muito importante que o Haiti e a ONU sejam donos do programa de reconstrução do país”.

Celso Amorim, no começo da semana, lançando a candidatura do governo brasileiro a salvador do Haiti.

“Eu pedi ao presidente Obama uma espécie de Plano Marshall para o Haiti, implementado pela comunidade internacional sob a liderança dos Estados Unidos”.

Raymond Joseph, embaixador do Haiti nos EUA, no fim da semana, avisando ao governo brasileiro que não se deve brincar com coisa séria.

29/01/2010

às 17:03 \ Direto ao Ponto

O juiz do Sarney tem o dever de completar o serviço que começou

Para impedir que o país soubesse que José Sarney é incompatível com o Código Penal, o desembargador Dácio Vieira proibiu há quase 200 dias que o Estadão publicasse reportagens sobre o que faz a famiglia de José Sarney. Para impedir que se descubra que o escritor maranhense é incompatível com a língua portuguesa, o juiz do Sarney precisa proibir a Folha de publicar a coluna semanal do padrinho. Quem lê o texto do jornalista Celso Arnaldo acha que o Brasil inteiro ficaria a favor da censura. Confira:

Já que mostrou ser condescendente com os poderosos que agridem a língua, o professor Sírio Possenti bem que poderia se debruçar sobre um texto de José Sarney ─ aliado de Dilma ─ e encontrar nele as expressivas qualidades que identificou no “pra mim sê pré”.

Com uma diferença: a fala é um registro da língua muito mais informal que a escrita. Esta tem um nível de exigência estilística infinitamente maior, sobretudo se partir da pena do decano da Academia Brasileira de Letras que assina uma coluna semanal na mais importante página de opinião da imprensa brasileira. Se conseguir estender a um texto de Sarney a mesma leniência cúmplice reservada a Dilma, então o professor Possenti merece um pós-doutorado.

Sim, hoje é dia de José Sarney. Tem crônica nova na Folha. Dia de destrinchar o pior escritor do mundo. Melhorou um pouco, de uma semana pra cá ─ será que temos algo a ver com isso? Mas continua muito ruim.

Sua vítima, hoje, é de novo o “povo sofrido do Haiti” ─ Sarney continua mais impressionado com a miséria dos haitianos do que com a desgraça do povo que há 50 anos está soterrado nos escombros deixados por sua família no Maranhão.

Nos títulos, Sarney adora iniciais misteriosas ─ como o tal “Natal do O.J.” de algumas semanas. Agora é “A Nina e MJ”.

E, de novo, vale a pena transcrever o começo de um texto de Sarney – como sempre, um abalo sísmico na estilística da língua portuguesa:
“O repórter Pablo Ordaz cobriu os primeiros dias da tragédia do Haiti e como poucos nos revelou em profundidade o aspecto humano que perpassa o mundo invisível de uma catástrofe dessa magnitude. São desgraças individuais que são símbolo e exemplo do que acontece no olho desse furacão sem vento que atingiu o mais pobre entre os mais pobres, o sofrido povo do Haiti.”

Coitado de Pablo Ordaz, belo repórter do espanhol “El Pais” que, de fato, produziu alguns dos relatos mais pungentes sobre o terremoto haitiano, a começar pela dedução que, esta sim, é um primor de força narrativa:
─ O Haiti já não existe.

Se Sarney escrevesse assim, simples assim, estava salvo. No entanto, inclui o Pablo num período que é uma sequência de pérolas sarneysistas:

*Como poucos
*Símbolo e exemplo
*Aspecto humano que perpassa o mundo invisível
*Furacão sem vento (ninguém até hoje definiu terremoto com maior força poética)
*E – olha ele aí, gente – o “sofrido povo do Haiti”

Passe os olhos pelo resto do texto – sim, porque, a rigor, ninguém consegue “ler” Sarney – e encontrará inúmeras pistas do que o credenciou à Academia, há 40 anos:

“Dramas pessoais que trespassam o destino das pessoas e da nação”
“Tragédia humana e física que não se tem como dimensionar”
“Mas o que se desdobra é a fome, o desespero por água, comida, remédios. Lançam bombas de gás para afastá-los. Como no Afeganistão”. (Afastá-los quem? Os remédios? O Afeganistão também sofreu terremoto ou Sarney comeu no Afeganistão?)
“Mas lá luta-se contra os que querem acabar a humanidade, aqui levamos uma mão estendida de solidariedade aos que buscam viver”.
“Amputações sem anestesia, e o que mais têm são mutilados pelos desmoronamentos”.

Aí, MJ entra na história – são as iniciais de uma menina resgatada dos escombros ferida, que conversou com Pablo Ordaz. O relato do repórter espanhol era de fato comovente. O de Sarney, nem tanto:
“Ela foi uma das amputadas sem anestesia, e agora ali aguarda um encontro com qual destino?”

Mas, chegando ao final, é a vez de o cronista Sarney dar lugar à testemunha viva da história:
“Assisto em Brasília, na Base Aérea, às cerimônias fúnebres de saudades aos nossos bravos soldados que morreram no Haiti”. (
“Saudades aos nossos”, só Sarney tem)

Para não se alegar má vontade radical com José Sarney, quando a Nina do título entra no assunto revela-se um lampejo do que poderia ter sido um bom escritor:
“Acompanha o corpo do seu pai, o major Adolfo. Seu nome, Nina. Meus olhos pedem para chorar com eles”.

Taí: um momento bonito e literariamente impecável — eu, com uma filha da idade de Nina, também choro com eles.

Sarney dá sorte quando fala em olhos. De tudo o que li dele até hoje, só se salvou uma frase do discurso de sua posse na presidência, após a inesperada cirurgia de Tancredo, para expressar a noite insone:
–Estou com os olhos de ontem.

Isso era tão bom que não deve ser dele.

Sim, porque pelo conjunto da obra, nem o povo sofrido do Haiti merece a pena de José Sarney.


27/01/2010

às 17:30 \ Sanatório Geral

Go home!

“Nós ensinamos como uma força de paz pode ser uma força de paz sem ter ingerência nas decisões políticas ou praticar violência”.

Lula, aproveitando o comentário sobre a atuação das tropas brasileiras no Haiti para insinuar que a tropa americana, que chegou depois do terremoto, trama a ocupação do palácio presidencial em ruínas, a deposição do presidente e o enforcamento de todos os haitianos sobreviventes.

27/01/2010

às 15:59 \ Sanatório Geral

Terremoto suspeito

“Todos nós deveríamos estar indignados com o mundo desenvolvido que é responsável pelo que aconteceu no Haiti”.

Lula, em discurso no Fórum Social Mundial, acusando o pessoal que manda no Fórum de Davos de ter descoberto como se fabrica terremoto e esconder a fórmula da potência sul-americana e seus amigos cucarachas.

26/01/2010

às 19:18 \ Sanatório Geral

Sabujo campeão

“Na realidade, isso que está ocorrendo aqui já faz parte do plano Lula, porque o primeiro a falar em uma conferência de doadores, quando outros ainda estavam incertos, foi o presidente Lula, em conversa com o presidente Obama”.

Celso Amorim, durante a conferência preparatória para a reconstrução do Haiti, mostrando que vai dedicar o último ano do governo ao curso de aperfeiçoamento em sabujice internacional.

26/01/2010

às 18:35 \ Direto ao Ponto

Governo Lula ameaça vítimas do terremoto com um PAC do Haiti

As cenas de ciumeira explícita protagonizadas pelo governo brasileiro depois do desembarque dos americanos no Haiti foram sobretudo mesquinhas. Enquanto uma nação ferida de morte implorava por alimentos e socorros que tardavam a chegar, o Itamaraty implorava pelo comando de um sistema de distribuição inexistente.

As cenas de exibicionismo explícito protagonizadas pelo general Floriano Peixoto diante do palácio presidencial em Porto Príncipe foram especialmente constrangedoras. “É uma forma de marcar posição, é muito importante que haja a percepção do trabalho do Brasil”, discursou o comandante-geral da Minustah no Haiti, suando a farda na operação de entrega de cestas básicas a flagelados já atendidos pelos ianques do outro lado do muro.

“Lamentavelmente, a imprensa tem dado pouco importância à participação brasileira na ajuda humanitária”, queixou-se o general. Queixou-se do general a canadense Kim Bolduc, coordenadora de assistência humanitária da Minustah: “Tem muita duplicação. Não sabemos a ração que estão entregando é suficiente, nem em quanto tempo será consumida”. Até a ofensiva de Floriano Peixoto, os oficiais em missão no Haiti mantiveram-se fora do assédio ao Conselho de Segurança da ONU.  Palanque não é coisa para militares da ativa.

Nesta quinta-feira, o ministro Celso Amorim reincidiu na fantasia: o Haiti deve ser reconstruído por um Plano Lula, semelhante ao Plano Marshall do pós-guerra, executado sob a liderança do Brasil. Somadas às geradas pela competição impossível com os americanos, as cenas de sabujice explícita estreladas pelo chanceler ultrapassaram todos os limites do ridículo ─ e  reduziram o Brasil a protagonista de um espetáculo indecoroso.

A alma subalterna de Amorim, que se refere ao chefe como “Nosso Guia”, revogou há muito tempo o sentimento da vergonha. Pior para ele. O país não merece virar motivo de chacota em todos os idiomas. É o que ocorrerá se prosseguir a chanchada concebida para equiparar o Brasil aos Estados Unidos e infiltrar um governante desoladoramente jeca na galeria dos estadistas que reconstruíram o mundo em escombros do pós-guerra.

Promover a potência emergente um país ainda afundado no atraso é uma esperteza eleitoreira quase inofensiva se confinada em comícios. Acreditar na fantasia e tentar vendê-la ao mundo é coisa de napoleão de hospício. Se o governo acha que falta serviço, que cuide das secas, das enchentes ou dos morros conflagrados que sobram por aqui.

Se for pouco, pode tratar de outros ítems da pauta gigantesca ─ os 12 milhões de analfabetos, o sistema de saúde falimentar, a malha rodoviária em decomposição ou a multidão de excluídos da rede de saneamento básico. Se ainda assim sobrar tempo, que trate de construir efetivamente o país fictício que estaciona nas inaugurações de araque programadas para fazer de conta que o PAC existe.

Em homenagem a Zilda Arns, que doou discretamente a própria vida, é preciso acabar com a quermesse armada pelos gigolôs da tragédia. Em respeito à imensidão de mortos, entre os quais 21 bravos brasileiros, convém enterrar sem demora nem honras o Plano Lula. Um PAC do Haiti seria pior que terremoto.


 

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