Blogs e Colunistas

Haiti

16/01/2012

às 13:03 \ Direto ao Ponto

Se adotassem o Método Battisti, os haitianos virariam asilados políticos

Os haitianos que lutam pela sobrevivência escolheram o jeito errado de entrar no Brasil. O jeito certo foi descoberto por Cesare Battisti. Antes de deixar o país devastado pelo terremoto, cada um deveria ter-se filiado a alguma organização clandestina de extrema-esquerda, jurado de morte o imperialismo americano e justiçado pelo menos quatro inimigos do povo. Servem pequenos comerciantes ou policiais. Depois disso, os revolucionários se proclamariam perseguidos pela ditadura haitiana e rumariam para a potência emergente que acabou com a fome, depois com a pobreza, tornou-se a sexta maior economia do mundo, montou um sistema de saúde que está perto da perfeição, empresta dinheiro até ao FMI e tem emprego para todo mundo. Mas não pela rota que passa pelo Acre, e sim pela rota sul.

É mais longa, mas muito mais segura. Termina em Porto Alegre, mais precisamente no Palácio Piratini, onde Tarso Genro governa o Rio Grande e luta pela ressurreição do socialismo. Ele sabe o que fazer para transformar qualquer companheiro em asilado político. E só nega socorro a quem tenta escapar de Cuba.

15/01/2012

às 18:11 \ Sanatório Geral

1 + 1= 0

“No plano bilateral, temos cooperado nas áreas agrícola, de saúde e de infraestrutura, entre outras. Destacam-se a implementação de unidades de saúde, o fortalecimento da segurança alimentar do povo haitiano e o projeto de construção de uma usina hidrelétrica na região de Artibonite”.

Trecho do artigo sobre a situação do Haiti produzido em parceria por José Eduardo Cardozo e Antônio Patriota e publicado na Folha deste domingo, provando que a soma de dois ministros brasileiros é igual a zero.

15/01/2012

às 16:37 \ Sanatório Geral

Cardozo & Patriota

“Dois anos depois do terremoto, há sinais animadores no Haiti. A democracia ganha raízes sólidas, com a transferência de poder entre governos eleitos em 2011. A epidemia de cólera está sob controle. O crescimento econômico é significativo”.

Trecho do artigo produzido a quatro mãos por José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça, e Antonio Patriota, ministro das Relações Exteriores, publicado na Folha deste domingo, respectivamente, revelando ao mundo que a situação do país devastado pelo terremoto está tão boa que milhares de haitianos resolveram divertir-se no Carnaval brasileiro fantasiados de refugiados em busca da sobrevivência.

12/01/2011

às 14:07 \ Direto ao Ponto

A promessa cumprida com um ano de atraso

Em 25 de janeiro de 2010, Lula prometeu R$ 500 mil, mais R$ 510 mensais para os filhos em idade escolar, às famílias dos 18 militares brasileiros mortos no terremoto do Haiti. O dinheiro demorou 11 meses e seis dias para começar a ser liberado.

A Coluna entrou na briga em 1º de dezembro, quando a primeira reportagem da série mostrou as contradições entre os discursos do ex-presidente e o real abandono das famílias dos heróis mortos. Dois dias depois, foi revelado o drama de Heloísa Camargos, viúva do subtenente Raniel Camargos, de Ana Neckel, mãe do cabo Douglas Neckel, e de Cely Zanin, viúva do coronel João Elizeu Souza Zanin. Na semana seguinte, a quarta e última reportagem informou que os parlamentares da oposição ignoravam que as indenizações continuavam no papel e descreveu as reações tímidas de alguns deputados e senadores.

Na seção O País Quer Saber está o desfecho da história e o depoimento de Heloísa Camargos, enviado em 17 de dezembro. No aniversário de um ano do terremoto, a promessa foi cumprida.

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12/01/2011

às 13:32 \ O País quer Saber

Um ano depois, as famílias dos 18 militares mortos no Haiti recebem as indenizações

Bruno Abbud

Há exatamente um ano, às 16h53 (19h53 no horário de Brasília) da terça feira 12 de janeiro de 2010, uma movimentação de placas tectônicas dez quilômetros abaixo da superfície e 20 quilômetros distante de Porto Príncipe, capital do Haiti, desencadeava um terremoto que devastou o país caribenho. Há exatamente um ano, 18 militares brasileiros que participavam da Minustah (Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti) ─ e outras 200 mil pessoas ─ morriam soterrados. Em 25 de janeiro de 2010, Lula prometeu R$ 500 mil, mais R$ 510 mensais para os filhos em idade escolar, às famílias dos militares mortos na catástrofe. O dinheiro demorou 11 meses e seis dias para começar a ser liberado.

A Coluna entrou na briga um mês antes. Em 1º de dezembro, a primeira reportagem da série mostrou a contradição entre os discursos de Lula e o real abandono das famílias dos heróis mortos. Dois dias depois, foi revelado o drama de Heloísa Camargos, viúva do subtenente (promovido a tenente depois de morto) Raniel Camargos, e de Ana Neckel, mãe do cabo Douglas Neckel. Também em 3 de dezembro, Cely Zanin, viúva do coronel João Elizeu Souza Zanin, contou o que sentiu depois de ler os relatos. Na semana seguinte, a quarta e última reportagem informou que os parlamentares da oposição ignoravam que as indenizações continuavam no papel e descreveu as reações tímidas de alguns deputados e senadores.

O anúncio das indenizações havia sido feito nove dias depois do terremoto, quando a Presidência da República enviou ao Congresso um projeto de lei determinando os pagamentos. Cinco meses depois, a promessa virou lei. Em agosto, no entanto, descobriu-se que não havia dinheiro para quitá-la. Lula enviou ao Congresso outro projeto de lei, desta vez pedindo uma abertura de crédito especial de R$ 10.119.340,00 em favor do Ministério da Defesa, responsável por pagar as indenizações. Só em 30 de dezembro de 2010 o projeto se transformou na lei 12.361/10, a quantia foi liberada e a promessa começou a ser cumprida.

Cely Zanin recebeu o dinheiro em 3 de janeiro. Contudo, ainda não sabe quando os dois filhos, de 17 e 18 anos, terão acesso à bolsa educação. Neste 12 de janeiro, o governo federal organizou uma homenagem aos 18 militares mortos há um ano. A solenidade acontecerá no Teatro Pedro Calmon, no Setor Militar Urbano, em Brasília. Nenhum familiar foi convidado.

No aniversário do terremoto, a Coluna publica o depoimento enviado pela viúva Heloísa Camargos em 17 de dezembro e comemora a promessa cumprida – mesmo com um ano de atraso.

Perdi meu esposo, o tenente Raniel Camargos, no horrível e trágico terremoto do Haiti, no dia 12 de janeiro de 2010. Era justamente o dia do aniversário de nossa filhinha, Giovanna. Meu marido organizava documentos para repassar a sua função a outro militar, que o substituiria na semana seguinte ao terremoto. Também acompanhava, da sala de trabalho dele no Haiti e por meio da internet, o aniversário de nossa filha. Foi quando a conexão caiu.

Eu não tinha a menor idéia do que estava acontecendo. Nunca imaginaríamos que, naquele momento, acontecia o terremoto. Nunca me passou pela cabeça que naquele instante ele estava morrendo. Sim, morrendo, pois permaneceu vivo por três horas depois de ser atingido pelo desabamento do quartel, dando forças aos colegas que tentavam salvá-lo. Ele pedia insistentemente que não o deixassem morrer. Dizia que os militares que trabalhavam no salvamento iriam conseguir resgatá-lo. Ele pedia para não morrer porque queria muito ver a gente, eu, a Giovanna e o Luís Gustavo, nosso outro filhinho. Infelizmente, não tiveram como socorrê-lo.

Foram dois andares em cima dele, a hemorragia interna e o poli-traumatismo ganharam a batalha pela vida do meu esposo, que não resistiu e morreu. Imagino agora todo o sofrimento pelo qual o meu esposo passou. Um homem e um marido maravilhoso, que gostava de ajudar outras pessoas, e por isso quis ir ao Haiti, de um caráter extraordinário,um pai exemplar e um profissional militar extremamente dedicado à carreira e à defesa da sua Pátria.

Meus dois filhinhos, a Giovanna e o Luís Gustavo, perguntam todos os dias pelo “papai” (“por que o papai ainda não voltou do Haiti, mamãe?”). Com o coração dilacerado, digo que o papai não voltará, que ele agora fez uma outra viagem, desta vez para ficar junto ao “Papai do Céu”. E quando a gente sentir saudades, devemos lembrar de tudo de bom que vivemos ao lado dele. As crianças não entendem muito bem, elas só têm 6 e 3 anos. Os 6 anos da Giovanna foram completados exatamente no dia da tragédia. Infelizmente.

Com tudo isso que nos aconteceu, com a tragédia maior que foi perder para sempre alguém muito especial em nossas vidas, ainda tivemos que passar por situações constrangedoras. O seguro de vida que nos pagaram, como se nossos maridos tivessem sofrido morte natural, ignora completamente o artigo 799 do Código Civil. A lei que nos concede auxílio financeiro e uma bolsa educação para nossos filhos ainda não foi cumprida. O governo federal prometeu essa indenização e, até agora, não cumpriu com a promessa.

Já falamos por diversas vezes (eu e as outras viúvas e mães) que nada e nem todo o dinheiro do mundo vão trazer nossos maridos e filhos de volta, mas só de saber que poderemos dar uma educação de qualidade e um futuro mais digno para os nossos filhos e familiares, isso nos conforta um pouco mais ─ apesar da dor e da saudade que sentimos. É muito importante para nós saber que podemos contar com a solidariedade humana, saber que ainda existem pessoas que praticam a empatia, que conhecem a nossa dor ou podem sentir a nossa dor.

Que Deus nos abençoe. Apesar de tudo que estamos vivendo (eu e as outras viúvas), eu acredito sim que podemos viver num mundo melhor, mais justo e mais digno. Só depende de nós e de nossas atitudes.

Beijos a todos.

Heloísa Chagas Maia de Camargos, viúva do tenente Raniel Camargos, um dos 18 militares mortos no Haiti.

09/12/2010

às 23:17 \ O País quer Saber

A oposição nem sabia que o governo ainda não indenizou as famílias das vítimas do Haiti

Bruno Abbud

Os parlamentares da oposição ignoravam até o começo desta semana que as indenizações prometidas por Lula aos parentes dos militares mortos no Haiti continuam no papel. “Estou sabendo agora”, disse o senador Álvaro Dias (PSDB-PR) no fim da tarde de 7 de dezembro. Consciente da situação das famílias, o vice-líder da bancada tucana no Senado prometeu: “Vamos cobrar na tribuna”.

Cumpriu a promessa na noite seguinte. “Solicitei à liderança do governo que interferisse junto ao Palácio do Planalto para que sejam pagas as indenizações relacionadas à catástrofe que houve no Haiti, há quase um ano”, relatou o senador em seu blog. ” Não houve ainda o pagamento dessa indenização. O líder do governo, Romero Jucá, prometeu levar o assunto ao presidente da República”.

“Tomei conhecimento disso agora”, repetiu o deputado João Almeida, líder do PSDB na Câmara, que devolveu o problema aos parentes das vítimas. “Os interessados têm de cobrar. É preciso uma ação direta deles. Isso é lei, eles podem acionar a Justiça por conta da garantia do direito legal”. Só então o deputado decidirá se vai tratar do caso na tribuna.

Álvaro Dias imaginou que o caso tivesse terminado depois do resultado do primeiro Projeto de Lei proposto pela Presidência, do qual foi relator. O PL ─ que determina o pagamento de R$ 500 mil às famílias mais R$ 510 mensais para os filhos em idade escolar ─ foi aprovado na Câmara em 3 de fevereiro e transformado na lei 12257/2010 em junho pelo Senado. Mesmo incluídas na legislação, as promessas não foram cumpridas.

A Presidência teve de propor outro projeto de lei, o PLN 41/2010, desta vez pedindo a abertura de crédito especial de R$ 10,1 milhões. Só assim o Ministério da Defesa, por meio do Exército, poderá conceder os benefícios prometidos. O PLN 41/2010 foi enviado ao Congresso em 5 de agosto, sete meses depois do terremoto no Haiti. Aprovado pela Comissão Mista de Planos, Orçamentos Públicos e Fiscalização em 9 de novembro, ainda será votado em sessão conjunta no plenário do Congresso Nacional. A votação deve acontecer ainda este ano, informou a Subsecretaria de Coordenação Legislativa do Senado, onde o projeto está parado.

O deputado catarinense Paulo Bornhausen, líder do DEM na Câmara, “preferiu não entrar na discussão” sobre as indenizações, informou um assessor. Procurado por dois dias consecutivos, Rodrigo Maia, do DEM do Rio de Janeiro, não atendeu à reportagem. Sérgio Guerra, do PSDB de Pernambuco, mandou dizer que não estava suficientemente informado para manifestar-se sobre o caso.

03/12/2010

às 4:37 \ Direto ao Ponto

Os parentes dos heróis mortos no Haiti precisam de ajuda para vencer os vigaristas

Todos vinculados ao texto publicado sob o título O governo que festeja os soldados da hora humilha com o calote as famílias dos 18 heróis brasileiros mortos no Haiti, foram três comentários em 14 minutos. Mais que comentários, foram três recados ao Brasil que presta em menos de um quarto de hora. Ou mais que isso: cada uma limitada a três frases, as mensagens enviadas por Cely Zanin são três provas contundentes de que o país atingiu um adiantado estado de decomposição moral.

Viúva do coronel João Elizeu Souza Zanin, morto no desabamento do quartel-general da ONU em Porto Príncipe, Cely é uma das brasileiras duplamente castigadas pelo terremoto no Haiti: depois de perder o marido, vai perdendo a confiança na palavra do presidente da República, que não cumpriu o combinado há 11 meses. Aos 43 anos, mãe de um filho de 18 e outro de 17, Cely luta pela sobrevivência em paragens assoladas pela epidemia de amnésia cafajeste. Pode acabar perdendo a fé em valores que o coronel Zanin defendeu até a morte.

Às 23:39 deste 2 de dezembro, chegou a primeira mensagem: “Obrigada pela divulgação do nosso caso. Infelizmente o Brasil não cultua seus HERÓIS. Estamos tristes e frustradas com tanto descaso dos políticos em relação a nossa indenização”. Observei que não há o que agradecer. Quem está em dívida com os heróis que tombaram no Haiti somos nós. Somos todos devedores envergonhados com o tratamento ultrajante dispensado pelo governo às famílias das vítimas que, até agora, não receberam a indenização e as bolsas de estudos prometidas por Lula.

A segunda chegou às 23:45: “Já estamos desgastadas com todo o sofrimento que tivemos, agora estamos sozinhas, viúvas, para criar nossos filhos. Dinheiro nenhum compensará a dor da perda dos nossos maridos, nossos companheiros de uma vida. Tudo isso é muito triste para todas nós”. A terceira, sucinta e dolorida como as anteriores, é a mais perturbadora: “Agradeço, sim, pois são poucos os que se preocupam em divulgar notícias como essa. Infelizmente, o Brasil e principalmente os políticos possuem um “ranço” muito grande em relação aos militares. Mais uma vez, obrigada!”

O que há com os brasileiros que agora digerem com mansidão bovina todas as sem-vergonhices, afrontas e vigarices produzidas, dirigidas ou interpretadas pelos canastrões federais? O que há com a oposição oficial que não interrompe a rotina do medo, do minueto e da mesura para topar um único e escasso confronto com os donos do poder? Que fim levou a altivez dos chefes das Forças Armadas, que já não defende sequer os direitos de seus mortos no cumprimento da missão? O que há com a imprensa que endossa essa segunda morte dos heróis do Haiti com o silêncio só episodicamente rompido pela teimosia de combatentes solitários? Enfim, o que há com o Brasil que já não se exaspera com nada?

Depois de dizer a Cely que podia ao menos contar com esta coluna, reli os  comentários que escoltam o post. Com uma única e irrelevante exceção, todos apoiam incondicionalmente a causa dos bravos esquecidos. Mas são 120. É pouco para um tapa na cara da nação. E então me pergunto: o que há com os homens decentes que parecem ter renunciado ao bom combate depois de uma eleição que comprovou a existência de 44 milhões de insatisfeitos?

A luta travada pela resistência democrática, escrevi mais de uma vez, não pode ser condicionada pelo calendário eleitoral, nem se limita a disputas nas urnas. Diferentemente da oposição oficial, que entra em recesso entre uma campanha e outra, a oposição real não tira férias. Vive a vida intensamente, sorri, ama, sabe divertir-se  ─ mas não foge da boa briga em nenhum momento.

Dito isso, a coluna dá por encerrado o período de licença concedido aos que há um mês desfalcam o timaço de comentaristas. Precisamos da ajuda de todos para que seja honrada a palavra empenhada com a família do coronel Zanin. Essa briga é nossa.

03/12/2010

às 0:56 \ Direto ao Ponto

A dor não passa e a ajuda não chega

Na seção O País quer Saber, o repórter Bruno Abbud conta como tem sido a vida de duas brasileiras que integram o pequeno grupo de parentes dos 18 militares brasileiros mortos no terremoto no Haiti. Heloísa Camargos perdeu o marido, Ana Neckel perdeu um filho. Passados 11 meses, ambas continuam esperando que o governo cumpra o que prometeu. A dor não vai passar, mas a sobrevivência financeira ficará menos penosa.

Confiram o relato, amigos. Em seguida, leiam os três comentários enviados há alguns minutos por Cely Zanin, viúva de outro herói do Haiti, o coronel João Elizeu Souza Zanin. Essa briga é nossa. Voltarei ao tema no próximo post.

03/12/2010

às 0:43 \ O País quer Saber

A omissão do governo prolonga o drama dos parentes dos 18 heróis mortos no Haiti

Bruno Abbud

A VIÚVA

“Você tem telefone em Natal?”, pergunta a voz franzina e veloz. Heloísa Chagas Camargos, viúva, 36 anos, está contando como tem vivido depois da morte do marido no terremoto no Haiti, e parece preocupada com a possibilidade de pagar uma tarifa de telefonema interurbano se a ligação cair antes do fim do relato. Ela costumava usar o Skype ─ espécie de telefone via internet que permite ver a imagem do interlocutor ─ para conversar à distância com o subtenente Raniel Batista Camargos. Foi o que fez no último diálogo, travado em 12 de janeiro.

O casal festejava o 6° aniversário da filha Giovana quando, perto das 8 da noite no Brasil, a conexão foi abruptamente interrompida. Heloísa não tinha como saber que, naquele instante, o terremoto em Porto Príncipe provocou o desabamento do quartel da Minustah (Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti), onde estava Raniel. Resgatado dos escombros seis horas mais tarde, ele não sobreviveu à hemorragia interna e ao traumatismo craniano. Tinha 43 anos, integrava o 37º Batalhão de Infantaria Leve de Lins, interior de São Paulo, e estava há seis meses no Haiti.

Passados 11 meses, o orçamento frugal obriga Heloísa a preocupar-se com a conta telefônica. Nem ela nem qualquer outro parente dos 18 militares brasileiros mortos no terremoto receberam a indenização prometida pelo governo federal em janeiro ─ R$ 500 mil, mais parcelas mensais de R$ 510 para os filhos em idade escolar.

Heloísa mudou-se de São Paulo para o Rio Grande do Norte em julho, seis meses depois de perder o marido. Hoje vive numa casa em Parnamirim, a 15 quilômetros de Natal, com os pais e os dois filhos ─ o segundo é Luis Gustavo, de três anos. A viúva recebeu R$ 130 mil da Poupex, fundo previdenciário vinculado à Fundação Habitacional do Exército. O dinheiro corresponde ao seguro por morte natural, informa Heloísa. “Meu marido morreu fardado, de coturno, de roupa camuflada. Ele estava servindo a nação. E a indenização não chegou até hoje”. Por morte em serviço, o valor do seguro dobra. Todos os R$ 130 mil foram utilizados no pagamento de dívidas.

Professora, Helósia trabalha na secretaria de Educação de Parnamirim. O salário e a pensão mensal que ganha do Exército não são suficientes para pagar todas as despesas. “Eu preciso dessa ajuda do governo. Não tenho uma casa só minha para morar”, lastima. O dinheiro prometido pelo presidente Lula lhe permitiria comprar uma casa e poupar o que restasse para garantir o futuro dos filhos.

A babá das crianças, que também acumula as funções de empregada doméstica, consome R$ 612 do orçamento mensal. O aparelho dentário de Giovana ficou em R$ 1.300. Luis Gustavo tem bronquite desde os oito meses e os remédios custam mais de R$ 300 mensais. Só a bombinha consome R$ 130 mensais. O plano de saúde da família lhe toma mais R$ 450. As despesas com a educação das crianças ficam por volta de R$ 2 mil. Somadas, essas contas chegam a R$ 4.662. Heloísa ainda precisa separar dinheiro para pagar água, luz e telefone. Por falta de recursos, ela deixou de visitar os sogros no interior de Minas Gerais. Não há dinheiro para as passagens. Os avós não vêem os netos há mais de um ano. Se pudesse, a viúva também providenciaria atendimento psicológico para Giovana. Desde a morte do pai, a menina anda calada demais.

Raniel Batista Camargos, subtenente do Exército brasileiro, em missão no Haiti.

A MÃE

Diabética e hipertensa, Ana Neckel, de 46 anos, foi abalada pela depressão depois de perder o filho no terremoto do Haiti. Impossibilitada de trabalhar, gasta cerca de R$ 500 por mês com remédios e não tem como ajudar o marido, Walmir, 47, dono de uma pequena transportadora em Lorena, interior de São Paulo. Ana não revela a renda da família. Limita-se a informar que o filho usava parte do soldo para pagar as despesas da casa.

Aos 23 anos, o cabo Douglas Pedrotti Neckel integrava o 5º Batalhão de Infantaria Leve de Lorena. Faltavam três dias para que voltasse ao Brasil e deixasse o Exército para trabalhar com o pai e o único irmão. Não deu tempo. Naquele 12 de janeiro, o cabo foi soterrado enquanto fazia a guarda de uma base militar em frente de uma favela em Porto Príncipe. O seguro por morte natural rendeu à família R$ 52 mil.

Os Neckel têm dívidas acumuladas em três bancos. No Itaú, o débito é de R$ 300 mil. O casal deve R$ 100 mil ao Banco do Brasil e mais R$ 70 mil ao HSBC. Os empréstimos garantiram o funcionamento da empresa e a sobrevivência da família. “A indenização do governo não traz meu filho de volta, mas ajudaria bastante”, diz  Ana.

Como Douglas não tinha mulher nem filhos, os pais devem ser contemplados tanto com a indenização de R$ 500 mil prometida pelo governo quanto com a pensão mensal de R$ 1 mil paga pelo Exército. “Os militares querem que eu comprove que meu filho ajudava em casa. Mas é impossível. Como é que eu iria guardar todas as notinhas das despesas que ele teve?” Enquanto espera que o Exército e o governo federal cumpram seu dever, Ana só pode exercer o direito de chorar.

Douglas Pedrotti Neckel, cabo do Exército morto aos 23 anos no terremoto no Haiti.

01/12/2010

às 19:05 \ Direto ao Ponto

O governo que festeja os soldados da hora humilha com o calote as famílias dos 18 heróis brasileiros mortos no Haiti

Pela segunda vez em 2010, o Café com o Presidente deste 29 de novembro foi dedicado a integrantes das Forças Armadas. Com a animação de passista de Carnaval antigo, Lula festejou a bem sucedida operação policial-militar no Morro do Alemão. Depois de avisar que faz questão de cumprimentar os vitoriosos na frente de batalha, que visitará em breve, o chefe de governo garantiu que haverá verba de sobra para as etapas seguintes do esforço de guerra.

Dinheiro para todos e palavrórios patrióticos — esses dois ingredientes também foram usados para tornar menos amargo o Café de 25 de janeiro, que tratou da morte no terremoto no Haiti de três civis e, sobretudo, dos 18 soldados que lutavam para impedir a consumação da agonia da nação caribenha. A apresentadora Anelise Borges quis saber como se sentia o homem que estivera no cenário da tragédia e presidira o sepultamento das vítimas brasileiras. Sem pausas, a voz roufenha que desde 2003 tem algo a dizer todos os dias caprichou no tom de quem conta como é enviuvar na lua-de-mel e foi em frente:

“Olha, Anelise, realmente é muito difícil a gente deixar de se emocionar ao falar das pessoas que morreram no Haiti. (…) Eu te confesso que poucas vezes eu fiquei emocionado como eu fiquei no velório daqueles soldados, porque eram pessoas que estavam no Haiti para prestar solidariedade, pessoas que estavam dedicando a sua vida para tentar ajudar as pessoas mais pobres, as pessoas que estavam mais deserdadas no Haiti. Por isso é que eu fiquei emocionado, porque muitos daqueles jovens estavam para voltar dentro de dois ou três dias quando aconteceu o terremoto e eles morreram”.

Um drama desse calibre, ressaltou, exigia mais que o coração dilacerado e a mão solidária do presidente da República. As famílias fulminadas pela perda mereciam também reparações materiais e o permanente amparo da União. Lula contou que, no dia 21, havia remetido à Câmara dos Deputados um projeto de lei que definia os benefícios que contemplariam os parentes dos 18 militares. Tudo somado, a conta ficaria pouco acima de R$ 10 milhões. Para quem naquele mesmo dia 21 perdoara R$ 316 milhões devidos por Moçambique, o auxílio aos mortos do Haiti era dinheiro de troco.

“Você sabe que além da solidariedade, nós estamos mandando ao Congresso Nacional um projeto de lei garantindo a cada família R$ 500 mil de indenização e uma bolsa-educação de R$ 510 para cada dependente até 24 anos”, continuou Lula. A indenização seria entregue às viúvas ou, no caso dos solteiros, à mãe. “É o mínimo que a gente pode fazer para ajudar a família dessas pessoas que estavam e estão desesperadas, e pessoas que estavam lá defendendo e honrando a bandeira nacional”.

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, entrou em ação para ordenar que tudo se fizesse em ritmo de Fórmula 1. “O dinheiro nunca vai compensar a ausência do pai ou do companheiro, mas supre em parte o papel do provedor, especialmente no apoio à educação dos filhos”, recitou também com cara de luto. Em 3 de fevereiro, o projeto foi aprovado pela Câmara e encaminhado ao Senado. O ano escolar estava prestes a começar, era preciso liberar com urgência a bolsa de estudos. Mas ninguém viu a cor do dinheiro.

SENTIMENTO DA VERGONHA
Jobim só retomou o assunto em 16 de agosto para esclarecer num comunicado que o pagamento só poderia ser autorizado depois que o Congresso aprovasse “um pedido de abertura de Crédito Especial de R$ 10.119.340,00 ao Ministério da Defesa”. Não explicou por que não pensara nisso em janeiro. O começo da campanha eleitoral adiou para depois de novembro miudezas encalhadas na pauta do Legislativo. Só em 24 de novembro o pedido para a abertura do crédito entrou na lista de votação do Senado. Faltou quórum. Ninguém sabe dizer quando será votado.

“Foi noticiado até na imprensa internacional, mas até hoje não recebemos nada”, lamenta Cely Zanin, 43 anos, mãe de dois filhos — um de 17, outro de 18. Viúva do coronel João Elizeu Souza Zanin, morto no desabamento do quartel-general da ONU. Cely imaginava que ao menos a ajuda de custo para os dois estudantes chegasse a tempo. “O ano está acabando”, sussurra a professora e bancária que faz o possível para continuar acreditando nas promessas. Nenhuma das famílias recebeu nada. Nenhuma conseguiu ser recebida pelo presidente da República.

A explicação para o calote afrontoso talvez esteja, paradoxalmente, no número de parentes das vítimas. São tão poucos que, caso morassem numa mesma cidade de pequeno porte, seus votos, somados, seriam insuficientes para eleger um candidato a vereador. Lula também sabe que não ouvirá cobranças da oposição, muito menos dos brasileiros comuns. No País do Carnaval, um herói deixa de sê-lo quando a imprensa muda de assunto. Os soldados da vez estão no Morro do Alemão. É lá que deve estar a cabeça de um caçador de assuntos politicamente rentáveis.

Para um governo desprovido do sentimento da vergonha, a hora dos 18 bravos lutadores tombados no Haiti já passou. Os parentes podem esperar. É o Brasil.


 

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