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Glauber Rocha

27/09/2010

às 15:09 \ Direto ao Ponto

Celso Arnaldo: a Doutora em Nada só abre a boca quando não tem nenhuma certeza

Dilma Rousseff ama a cultura, mas não é amor próprio. As orelhas dos livros que leu são surdas, porque jamais expostas aos estímulos do mundo exterior. Seus quadros preferidos, como revelou à revista Cláudia, estão num arquivo de computador que deu pau faz tempo — em matéria de arte, ela disse estar na fase “japonesa”, talvez porque seu laptop seja da VAIO/Sony. Música? Adora os sambinhas sincopados de Ella Fitzgerald ouvidos num alto-falante feito de caixa de maçã por uma de suas colegas de sala, perdão cela.

Quanto a filmes, é tão cinemaníaca que só os assiste ao lado do diretor, com quem depois os discute. O último foi “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, há 40 anos, no cine-clube de BH. Pena que Glauber saiu no meio, cancelando o debate pós-filme.

Dilma é cultura. E a cultura, no Brasil, nunca mais será a mesma depois de Dilma. Ontem, no Rio, ao lado de outro scholar, o governador Sérgio Cabral Filho, nossa futura presidente, mecenas e patronesse das artes, esmiuçou seus fabulosos planos para a cultura.

E aqui termina a ironia e começa a triste realidade de antevermos o Brasil comandado por uma mulher que só abre a boca quando não tem nenhuma certeza e que é dona de uma extraordinária incultura geral.

“Eu tenho um projeto muito claro para a cultura”, começa a mentir a candidata. “No governo Lula, nós fizemos dois movimentos pra cultura (…). Desse projeto, faz parte o vale-cultura e faz parte também o processo pelo qual nós estamos levando não só bibliotecas, mais cinemas e espaços multimídia para as cidades do Brasil. Porque nós constatamos que houve um processo, viu Sérgio, terrível de redução no Brasil das salas de cinema. Você hoje tem em poucas cidades do Brasil, do interior do Brasil, cidades grandes, médias e pequenas, cê tem sala de cinema”

O laudo é em dilmês castiço e o diagnóstico é correto – só 10% das cidades brasileiras, menos de 500, têm cinemas hoje. Mas a redução no número das salas de cinema é um processo de mais de 30 anos. “Nós” não constatamos coisa nenhuma. E esse quadro desolador atravessou o governo Lula sem nenhum “movimento” em direção oposta. Os novos cinemas que surgiram nos últimos oito anos – e 100% das novas salas estão em novos shopping centers – são iniciativas exclusivas da iniciativa privada.

Não há um único Cine Dilma ou Cine Lula em nenhuma cidade brasileira – se houver, está exibindo “Lula, o Filho do Brasil” para ninguém.

O vale-cultura é outra ficção do governo Lula. Se existir, seu valor de face é zero, que é o valor da cultura para Lula e Dilma.

Mas ela promete corrigir isso:

“Nós criamos uma linha de financiamento do BNDES. Eu vou, no meu governo, ampliá, caso eu seja eleita, o acesso da população à cultura. Isso significa que a população brasileira tem direito a tê acesso a cinema, a teatro, a bibliotecas e a todos os espetáculos, da ópera clássica até as manifestações diversas dessa riqueza cultural imensa que nós temos”.

Todos os espetáculos? Uma Broadway em cada cidade? Óperas clássicas? Aida, com elefante e tudo, encenada em Picos do Piauí? Faça-me o favor. Bem, esse é o primeiro “movimento” do governo Lula/Dilma para a cultura: fazer mais cultura. E o segundo?

“O segundo processo, que é complementar a esse, se caracteriza pelo fato que você tem de garantir que haja uma produção de bens culturais discentralizada (sic), que respeite a nossa violenta, maravilhosa, fantástica diversidade cultural, tão rica quanto a biodiversidade, por exemplo, do país. Isso significa garantir acesso a todas a regiões do Brasil aos vamos dizer incentivos à cultura. Você não pode ter incentivos à cultura centralizados. Terá de tê essa diversificação pra podê captá essa diferença”.

Talvez por estar no Rio, e viver permanentemente em guerra contra as palavras, Dilma sapecou o “violenta diversidade cultural” – mais um indício de que Dilma e cultura não foram feitos uma para a outra. Terá de tê o quê, exatamente? O mais trágico é que Dilma não tem, obviamente, a mais vaga noção do que acabou de dizer e do que pretende fazer com isso na prática. Mas há ainda um terceiro processo (ué, ela não disse que eram dois? Espere: este é o melhor de todos):

“E tem uma terceira coisa que é muito importante. É que nós temos também de respeitá os locais onde a cultura se manifesta de forma mais intensa no Brasil, como é o caso do Rio de Janeiro, que tem uma simbologia muito grande pro Brasil. Nós sabemos que o que acontece no Rio de Janeiro, não é pretensão sua, viu Serginho, falo eu, falo eu, acontece no Brasil e no mundo. O Rio de Janeiro tem essa capacidade di fomentá a cultura, di torná a cultura um grande acontecimento pro país. Portanto, muitas vezes o Rio de Janeiro vai sê o local que os outros estados vão utilizá pra podê afirmá a sua cultura específica. Porque na verdade o Rio de Janeiro tem esse componente de sê o Brasil, de sê do Brasil, né? O que acontece aqui nós todos brasileiros encaramos como sendo do Brasil”.

Não é possível, viu Serginho, que você tenha sorrido e meneado com a cabeça porque entendeu o que a Dilma quer dizer – seria pretensão sua. O que a Dilma disse é rigorosamente ininteligível, é um escárnio a você, ao Rio e ao Brasil. Fico imaginando o Amazonas pedindo o Maracanã emprestado para fazer o Festival de Parintins. O Galo da Madrugada, do Recife, desfilando na Vieira Souto. Mas orgulhe-se, viu Serginho, por o Rio ter esse componente de ser do Brasil. Graças a você e à Dilma.

Sério, de novo: Dilma Rousseff só chegou onde está por conivência e omissão da mídia. Há quase um ano, como nunca antes neste país, ela produz um fluxo interminável de barbaridades e barbarismos, de grotescas impropriedades, de promessas tronchas que não fazem sentido e não têm a menor possibilidade de se materializarem. E os jornalistas que captam ao vivo essa catadupa de cretinices, e os que depois recebem a maçaroca nas redações, são incapazes de um questionamento, um aparte, um pedido de explicações, uma crítica.

Mea culpa, nossa máxima culpa: perto da futura presidente, o idiotizado Chance, de “Muito Além do Jardim”, é Aldous Huxley iluminado por Bertrand Russel.

28/07/2010

às 13:38 \ Direto ao Ponto

Celso Arnaldo: Dilma junta numa revista tango com cadeia, pensão com trabuco, Glauber com Bituca e muito mais

Animado com a descoberta da pinacoteca virtual, o jornalista Celso Arnaldo resolveu vasculhar toda a entrevista de Dilma Rousseff à revista Claudia. Topou com uma coleção de espantos que juntam tango com cadeia, pensão com armas, Glauber Rocha com Milton Nascimento, boi com PAC, vida de mãe com vida de cachorro, trem-bala com moleque, Clube da Esquina com assalto à geladeira, fora o resto. E produziu uma obra-prima que a coluna, orgulhosamente, expõe à visitação pública:

Essa pinacoteca virtual de Dilma, mulher de fases, é sem dúvida a Mona Lisa da coleção. Mas o resto da entrevista a Claudia tem um punhado de obras-primas que divido com os comentadores da coluna – pois não há, na mídia brasileira, quem seja capaz de captar melhor, em cada resposta, a verdadeira Dilma que levou no bico as repórteres da revista.

“Desde pequena, tive cachorros, sempre vira-latas. Quando minha filha nasceu, eu lhe dei um policial para que aprendesse a lidar com os bichos.”

Bem, presumo que esse “policial” seja um pastor alemão – há anos não ouço o termo aplicado a um pastor. Ou será um lapso freudiano típico? De qualquer forma, alguém imagina uma mãe dando um pastor alemão para um bebê tomar conta e aprender a lidar com cães antes de ganhar um poodle toy?

Sobre sua paixão por música:

“Aprendi a ouvir tango e jazz na prisão, com uma colega de cela, a professora Maria do Carmo Campello de Souza. Naquela época, passei a entender melhor Astor Piazzola e a apreciar a voz de Ella Fitzgerald. Maria do Carmo tinha muitos discos, que nós tocávamos numa vitrolinha. As caixas de som eram ótimas, feitas por outra presa com caixotes de maçã.”

Ah, essas cadeias brasileiras, tão radicais: ou um inferno ou academia de música, com vitrola e discoteca seleta. Dilma deveria resgatar o projeto desses altofalantes feitos com caixotes de maçã para equipar as casas do Minha Casa, Minha Vida.

Sobre conciliar maternidade e carreira:

“Mas não podemos abrir mão da maternidade. Se você dá a vida, tem que cuidar dela, providenciar alimentação, ver se as orelhas estão limpas… a maternidade dá competência. A capacidade de agregar vem do treino com os filhos. A visão privada amplia a visão pública.”

Explicado de onde Dilma tirou sua proverbial competência – da cerinha do ouvido de sua filha. Por isso é tão tapada.

Sobre sua mesa cheia de imagens e amuletos:

“Vou ganhando e ponho aí para me proteger. A medalha foi do pessoal da Canção Nova. O Jaques Wagner me deu a mãe-de-santo. Ainda guardo o desenho de um garoto sobre o trem-bala que queremos fazer.”

Ou seja: o croquis do trem-bala entra no acervo místico de Dilma.

Sobre ter comparado o PAC a um boi empacado (?????):

“Não o comparei a um boi. A imprensa publicou tudo errado. Uma repórter perguntou se o PAC empacou. Eu respondi: “Não, ele não empacou. Está mais para uma vaquinha. No início era uma vaquinha ma-gérri-ma. Aí, foi ficando gordinha em 2008 e, em 2009, vai virar uma vaquinha de raça”. Foi essa a história.”

Enfim, revelada a verdadeira essência do PAC – é uma vaquinha feita no governo Lula. Para financiar a campanha de Dilma, quem sabe?

Sobre a pensão onde morava na fase de clandestinidade:

“Era simples, tinha um corrimão típico: descascando com a unha, apareciam várias cores, até chegar à madeira. Havia armas ali, sim. Eram algumas pistolas.”

A polícia fechando o cerco, a casa um arsenal e Dilma preocupada com as demãos de pintura do corrimão da pensão? Por isso a luta armada não deu certo no Brasil.

Mas pegou em armas, ministra?

“Sempre tive muitos problemas com a minha visão, uma miopia pesada, de 8 graus num olho e 6 no outro. Não tinha bom ajuste de mira. Eu era ótima para limpar uma arma, ainda sei como desmontar e montar uma.”

Orgulho da coluna como Hors Concours no prêmio Homem sem Visão, a armeira Dilma e uma nova versão do clássico “Fumo, mas não trago”: “Armo, mas não atiro”

Sobre os hábitos culturais da pré-terrorista Stela:

“Lia obras do Celso Furtado, considerado subversivo, e assistia aos filmes do Glauber Rocha, com ele na plateia. Guardo memórias boas, como conviver com Milton Nascimento – para mim, Bituca – e Márcio Borges, parceiro dele. Na casa do Marcinho começou o Clube da Esquina. Ele e eu roubávamos lanche da geladeira da minha mãe… Mas outro dia achei estranho: encontrei Bituca no aeroporto de Porto Alegre, e ele não me reconheceu.”

Por partes. Sempre que ela via um filme do Glauber Rocha, o próprio estava na plateia? O filme vinha com o diretor junto? Era assim naquele tempo? Ou Dilma foi montadora de Terra em Transe e Deus e o Diabo e não contou pra ninguém? Peraí: “roubar lanche” da geladeira da mãe? Na casa da mãe de Dilma, pegar um “lanche” da geladeira era crime? Com que cabecinha a menina Dilma foi para a luta armada? E essa história do Milton/Bituca, então? Será que ele não a reconheceu mesmo? Ou se esforçou para não reconhecer?

As esquinas da vida mudam, Dilma.

27/04/2010

às 23:25 \ História em Imagens

A seção que mudou de nome nunca vai mudar de rumo

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Pode ser um depoimento longo. Pode ser apenas uma frase. Às vezes, basta a linguagem gestual. Não existe uma fórmula rígida para que se conte a História em Imagens, como afirma o nome da seção originalmente batizada de Quebra de Sigilo. Assim foi denominado este espaço enquanto divulgou exclusivamente vídeos e áudios inéditos.

A maior parte do material foi extraída de um documentário produzido em 1997 com o patrocínio do BankBoston. Entre os melhores momentos das quase 100 horas de gravações  destaca-se o depoimento de Lula. Quase 12 anos depois da gravação no Museu do Ipiranga, o presidente foi visto contando detalhes surpreendentes da greve de fome feita em 1980 pelos metalúrgicos presos no antigo DOPS. Para driblar o jejum, por exemplo, Lula tentou esconder um pacote de balas Paulistinha.

Rebatizada de Inimigos Íntimos, a seção passou a documentar as bruscas mudanças de opinião que transformam velhos desafetos políticos em amigos de infância, ou antigos parceiros em adversários ferozes. A terceira e definitiva mudança de nome foi imposta pela decisão de explorar ilimitadamente o vastíssimo acervo de vídeos e áudios que ajudam a desvendar os labirintos do poder.

O Brasil precisa contemplar o top-top-top obsceno de Marco Aurélio Garcia, rever o documentário de Glauber Rocha encomendado por José Sarney em 1966, acompanhar a Dança da Pizza de Ângela Guadagnin, ouvir o discurso de Marisa Letícia no Muro das Lamentações, conferir a gafe de Dilma Rousseff em Copenhague ou divertir-se com o numerito na linha guerrilheiro de festim protagonizado por José Dirceu no documentário de João Moreira Salles.

Para compreender o Brasil deste começo de século, use História em Imagens. É recomendável para interessados de todas as idades. E não tem contra-indicações.

03/02/2010

às 18:26 \ História em Imagens

O prontuário rasgou o discurso

O filme foi enviado pelo Reynaldo, com o seguinte comentário:

Este filme de Glauber Rocha (produzido por Luiz Carlos Barreto, sempre ele) foi encomendado por Sarney em 1966, como um documentário sobre a eleição e a posse do atual presidente do Senado, à época no Governo do Maranhão. Dois anos após a Redentora, a ditadura que nos pesou e que ele tão bem defendeu. São 44 anos!
Quatro vezes o mandato de Chaves. Quatro décadas de domínio absoluto, imperial e sem limites de qualquer espécie.
Sarney nunca usou o filme de 10 minutos. Deve ter pago, afinal de graça, sabemos que Barretão não trabalha.
Glauber, como sempre, gênio incontrolável fez o que devia.
Bem, vejam por vocês mesmos. Dói e é triste. Até porque atual…
Vale a pena!


 

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