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Getúlio Vargas

30/07/2010

às 21:27 \ Sanatório Geral

Salada mista

“É a mesma elite que levou Getúlio a dar um tiro no coração, que matou Jânio Quadros e fez João Goulart renunciar. Eu disse a essa elite que eu não estarei no gabinete lendo o jornal deles, mas na rua, com o povo brasileiro que vai decidir o destino desse país”.

Lula, no comício em Porto Alegre, juntando no mesmo palavrório Getúlio, Jânio, Jango, povo e elite para explicar que não aprendeu a ler porque passa todo o tempo na rua decidindo o destino deste país.

25/07/2010

às 5:00 \ Sanatório Geral

Falta camisa-de-força

“O que tentaram fazer comigo, fizeram com Getúlio e ele deu um tiro no peito. O que tentaram fazer comigo fizeram com Jango que teve que sair do Brasil. O que não sabiam é que Lula era milhões de Lulas espalhados por esse país”.

Lula, no comício da blasfêmia em Garanhuns, explicando que a oposição inventou o escândalo do mensalão para que ele morresse ou fugisse, sem saber que, graças ao milagre de multiplicação de lulas, o maior dos governantes conseguiria  transformar o dia em que Roberto Jefferson contou tudo numa data tão importante quanto 24 de agosto de 1954 e 31 de março de 1964.

11/07/2010

às 13:48 \ Direto ao Ponto

Quase 100 anos em menos de 100 palavras

Se os candidatos ao exame do Enem fossem submetidos a um exame oral de História, se tivessem de dissertar sobre o que houve de mais importante no Brasil do século 20, se entre os julgadores figurasse o professor Antônio Cândido, imagine que nota daria o intelectual companheiro a um candidato que dissesse o seguinte:

“Entre os anos 20 e 30, quando a gente teve a Semana de Arte Moderna, o Brasil cumeçô a se pensar como país, depois houve a Revolução de 30, saiu da República Velha, depois, ali no final dos anos 50 e nos anos 60, teve Brasília, a bossa nova, o cinema novo, toda também uma discussão sobre os caminhos do futuro do país, né?, a discussão sobre a identidade. Acho que nós vivemo um momento igual”.

Esqueçamos as agressões ao português. Fiquemos no conteúdo. Como toda semana, também a Semana de Arte Moderna ─ que se realizou não “entre os anos 20 e 30″, mas em 1922 ─ durou sete dias. Foi um evento importante, mas não obrigou “a se pensar como país” um país que existia desde 1500. Antonio Cândido sabe disso. Sabe, também, que não foi pouco o que houve entre a Revolução de 30, que aposentou a República Velha, e “o final dos anos 50 e nos 60″.

Houve, por exemplo, a Revolução de 1932, a Intentona Comunista, a rebelião integralista, o Estado Novo, a Segunda Guerra Mundial, a queda de Getúlio Vargas, a redemocratização, a volta do ditador como presidente eleito e o suicídio. Também não foi pouco o que aconteceu entre o banquinho, o violão, a câmera na mão, o Plano Piloto, as curvas de Niemeyer e “o momento igual que nós vivemo”.

Houve a renúncia de Jânio Quadros, a ascensão de João Goulart, o golpe militar de 1964, a ditadura do AI-5, a Anistia, a Campanha das Diretas, a vitória e a morte de Tancredo Neves, os seis anos de José Sarney, o triunfo e o impeachment de Fernando Collor, os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, o Plano Real, o fim da inflação e a Era Lula. Fora o resto.

Avaliado por Antonio Cândido, um aluno que empacotasse quase 100 anos em menos de 100 palavras não conseguiria vaga em faculdade nenhuma, muito menos na USP. Pois foi exatamente isso o que fez Dilma Rousseff ao resolver dissertar sobre o século 20 na casa de Lily Marinho. Como o neurônio solitário não quer um lugar na Universidade, e sim a presidência da República, Antonio Cândido continua incorporado ao grupo de “intelectuais e artistas” que consideram Dilma a chefe de governo que o Brasil merece. E nenhuma declaração indigente o fará mudar de ideia.

Quem não sabe escrever o desfecho da própria biografia merece pena.

29/06/2010

às 10:06 \ Sanatório Geral

Diferença essencial

“Assim como Getúlio, JK e Jango, governo com o coração. É melhor do que com a cabeça”.

Lula, em entrevista para o documentário ‘Os Herdeiros de Vargas, Memórias do Brasil’, sem explicar que Getúlio, JK e Jango também tinham cabeça.

19/06/2010

às 21:12 \ Direto ao Ponto

Os manuscritos de Getúlio e o prefácio que Lula não escreveu

Nunca antes neste país houve um presidente que não lesse sequer orelhas de livro nem escrevesse pelo menos anotações em agendas. Lula foi o primeiro. Com tempo de sobra desde 1980, não estudou porque não quis. Jamais escondeu a aversão a leituras ─ ou porque dão azia, no caso dos jornais, ou porque são mais estafantes que exercício em esteira, se passam de 10 centímetros. Ninguém jamais o viu empunhando uma caneta ou dedilhando um teclado de computador para produzir meia dúzia de linhas sobre o que quer que seja.

Há sete anos e meio em Brasília, ele não sabe se existe alguma estante na Granja do Torto, nem procurou saber onde fica a biblioteca do Palácio da Alvorada.  E sua letra foi vislumbrada pela primeira (e última) vez em 1982, zanzando sem bússola num recado tatibitate ao sobrinho que fazia aniversário. De lá para cá, não rabiscou lembretes em folhas de papel, não fez anotações em diários, não mandou cartas, e-mails, nem mesmo bilhetes ordenando a Gilberto Carvalho que o acordasse mais tarde. Não escreveu coisa alguma.

Começou agora, anunciou o senador Aloízio Mercadante em 13 de Junho do Ano de Graça de 2010: “Entreguei um exemplar do meu novo livro ‘Brasil, a construção retomada’ ao presidente Lula, que fez o prefácio”, garantiu a mensagem transmitida pelo twitter do Herói da Rendição. A notícia embutia uma segunda descoberta igualmente assombrosa: como ninguém escreve o prefácio sem ter lido o livro, Lula ─ entre um derrapagem no Oriente Médio e um fiasco no Irã ─  encontrara tempo para ler, com a atenção exigida de um prefaciador, outro filhote do prolífico Mercadante.

Desde novembro passado, os interessados na compreensão da saga republicana aguardam, justificadamente excitados, a  divulgação de quase 700 bilhetes enviados por Getúlio Vargas a Lourival Fontes, chefe da Casa Civil do governo constitucional. Redigidos entre o começo de 1951 e agosto de 1954, deverão chegar às livrarias junto com o catatau do senador. Os manuscritos de Vargas podem jogar mais luz sobre uma tragédia. O prefácio pode ser jogado no lixo: é só outra farsa. Claro que Lula apenas garatujou a assinatura no palavrório que alguém escreveu.

Por ação ou omissão, os intelectuais companheiros se tornaram cúmplices da celebração da ignorância. O que houve com os brasileiros que estudaram ou estudam para engolirem sem engasgos alguém incapaz de desenhar um O com o fundo da garrafa?, pergunta a gente sensata. O que faz um país promover a inimputável um chefe de governo incapaz de produzir um único registro escrito sobre os anos vividos no coração no poder? Conversa de elitista, recita o ensaísta Antônio Cândido, que não fez outra coisa na vida além de lidar com palavras. Quem tem popularidade não precisa saber nada, ensinam cronistas federais e humoristas amestrados.

“Acho que os historiadores do futuro terão dificuldade em entender o contraste entre essa quase unânime reprovação do Lula pela grande imprensa e sua também descomunal aprovação popular”, escreveu Luis Fernando Verissimo. “O que vai se desgastar com isto é a ideia da grande imprensa como formadora de opinião”. É muito cinismo, estariam berrando os intelectuais independentes e os estudantes livres de cabrestos ideológicos se ambas as espécies não estivessem em extinção no Brasil da Era da Mediocridade. O que os historiadores do futuro custarão a entender é a vassalagem prestada por escritores estatizados ao chefe que encarna a Era da Mediocridade.

A julgar pela comédia ensaiada por Mercadante, o rebanho agora quer promover o pastor a homem de algumas letras. É tarde. O espaço reservado a Lula no Museu da República não terá nenhuma gaveta ocupada por cartas, diários, anotações, rascunhos, recados, mensagens, canetas, lápis, boletins escolares, composições à vista de uma gravura ─ nada. Se algum curador oportunista fizer de conta que prova de fraude é documento histórico, e expuser à visitação pública as páginas que abrem o livro de Mercadante, tomara que não fiquem ao lado dos bilhetes de Getúlio.

Os manuscritos permitirão que se contemple com mais nitidez o ocaso perturbador de um presidente que saiu da vida para entrar na História. O prefácio que Lula não escreveu desnuda a cabeça primitiva de um oportunista que caiu na vida sem entrar na História.

09/04/2010

às 0:12 \ Direto ao Ponto

Depois de Getúlio e Juscelino, Dilma tenta colocar Tancredo na mira dos assassinos da verdade

O primeiro alvo dos assassinos da verdade foi Getúlio Vargas, ferido pela versão que o transforma em modelo de Lula. O segundo foi Juscelino Kubitschek, atingido pela fantasia que procura torná-lo parecido com o presidente que não lê nem sabe escrever. A terceira vítima pode ser Tancredo Neves, avisou o palavrório de Dilma Rousseff no cemitério em São João del Rey.  Foi ela a escolhida para a abertura da farsa destinada a inventar afinidades entre o estadista nascido em Minas Gerais e um camelô de comício.

A tarefa é mais complexa que as anteriores. Getúlio e JK não conviveram com a sigla nascida em 1980. Tancredo sofreu durante cinco anos a hostilidade sem pausas de um PT delirantemente oposicionista. A sequência de agressões verbais e gestos insolentes chegou ao climax em 15 de janeiro, quando o PT se recusou a apoiar o candidato do PMDB no Colégio Eleitoral. Entre Tancredo Neves e Paulo Maluf, a companheirada preferiu a abstenção.

Principal advogado da desfeita, Lula não enxergou diferenças entre dois opostos. “São duas faces da mesma moeda”, resumiu o campeão do raciocínio tosco, incapaz de distinguir um mestre da conciliação de um apóstolo do desentendimento, um democrata irretocável de um comerciante de votos, uma biografia de um prontuário. Inconformados com o monumento à insensatez, os deputados petistas Airton Soares, José Eudes e Bete Mendes votaram em Tancredo. Foram sumariamente expulsos.

Se tivesse efetivamente aprendido a admirar o presidente que nunca subiu a rampa do Planalto, Lula trataria de penitenciar-se publicamente, pedir desculpas aos três parlamentares, pedir perdão à família do injuriado e pedir a Deus que reduza o abismo que o separa de Tancredo. Em vez disso,  escalou Dilma Rousseff para a cena inicial do show de cinismo eleitoreiro.

O vídeo abaixo reproduz o momento mais assombroso do hino à canastrice. Convidada a explicar por que resolvera depositar uma coroa de flores no túmulo de Tancredo, Dilma tenta pinçar na memória a discurseira que Lula ensinou. A largada claudicante revela que não decorou direito a lição:

─ Ninhum homem público no Brasil, né?, é propiedade privada de nenhum partido, nem… num… é… é… é o fato da gente… é… respeitar o Tancredo Neves, o Tancredo Neves ele foi um brasileiro, eleito presidente da República e, infelizmente, não, não pode governar.

A gagueira diminui no primeiro ponto, mas Dilma derrapa na memória curta:

E ele não era propriamente nem do PT nem do PSDB, né? Ele era de outro partido…

As reticências advertem que a candidata esqueceu o nome do outro partido.

─ Era do PMDB ─ sopra-lhe no ouvido o companheiro Fernando Pimentel.

Não há clima para lembrar à especialista em nada que Tancredo só poderia “ser do PSDB” se ressuscitasse três anos depois da morte para filiar-se ao partido fundado em 1988. O silêncio da oradora grita que é complicado demais ouvir e falar ao mesmo tempo.

─ Era do PMDB. Era do Brasil ─ insiste Pimentel.

─ Era do PMDB, né? ─ hesita Dilma já perdendo a paciência.

─ Era do Brasil ─ desespera-se a voz sussurrante.

─ E nós podemos perfeitamente sendo… nós podemos perfeitamente, né?, sê do PT e respeitá o Tancredo Neves ─ acelera Dilma na última curva. ─ Até porque hoje ele é um patrimônio do Brasil. E acho que o presidente Lula, o governo do presidente Lula, na fala que eu… li dele, que ele falava que um país só podia ser grande se seu povo se desenvolvesse, tivesse saúde, tivesse educação e felicidade, acho que o governo do presidente Lula se aproximou muito do que o Tancredo falou nessa… nesse seu discurso.

Era esse o objetivo da visita, todos entenderam. A afilhada sem rumo só queria vincular o padrinho ao presidente que morreu enquanto a democracia ressuscitava, ao avô de Aécio Neves, ao político mineiro que certamente estaria contra Lula e ao lado de José Serra. Dilma fez o que pôde para facilitar o sequestro da memória de Tancredo, que segue em perigo. Mas o prólogo do espetáculo ultrajante foi um fiasco. A bichinha está palanqueira, mas o neurônio continua solitário.


05/11/2009

às 16:30 \ Sanatório Geral

Bancado dos sem-assunto

“É complexo fazer oposição a um presidente que é o mais popular desde Getúlio Vargas”.

Rodrigo Maia, presidente do DEM, esperando mais temas que deixam o governo mal no retrato ─ além dos mensaleiros, dos aloprados, dos sanguessugas, dos desastres na política externa, da base alugada, das cenas de paixão explícita entre o chefe de governo e gente como Fernando Collor e José Sarney, fora o resto ─ para começar a ensaiar o papel de oposicionista.

28/08/2009

às 18:27 \ Baú de Presidentes

Tancredo, lição n°3: “Escolher o adversário às vezes é muito mais importante que escolher o aliado”

Tancredo e Getúlio

Todo mundo sabe que Tancredo Neves sempre foi bastante cauteloso, lembro ao ouvi-lo dizer que não se deve tirar o sapato antes de chegar ao rio. O Tancredo que nunca vai ao Rubicão para pescar pouca gente conhece. Boa imagem essa, penso no primeiro aperitivo. Fico imaginando um chefe político jogando o anzol no rio nos limites de Roma que Júlio César atravessou, sem pedir licença, para tomar o poder.

─ De alguns rios o melhor é ficar longe ─ diz o doutor Tancredo depois de pedir tutu à mineira.

É o desfecho da aula fluvial, avisa o tom de voz. Peço o mesmo prato e um exemplo.

─ Fiquei fora do barco do Hugo Abreu ─ começa a contar a história que é a cara de Tancredo Neves.

Em 1978, parlamentares do MDB, entre eles o deputado Ulysses Guimarães, acharam muito boa a ideia de apoiar a candidatura de um militar disposto a enfrentar no Colégio Eleitoral o general João Figueiredo, já escolhido pelo presidente Ernesto Geisel. Conduzidas pelo general Hugo Abreu, ex-chefe da Casa Militar de Geisel, as articulações envolvendo dissidentes fardados resultaram na escolha do general Euler (pronuncia-se Óiler) Bentes Monteiro. O que Tancredo achava da ideia?, foram perguntar-lhe alguns deputados.

─ O Hugo Abreu não é oficial paraquedista?

Esse mesmo, ouviu.

─ Pois se eu paro, olho e medito antes de descer um degrau, como é que vou me juntar com um camarada que se joga de um avião lá do céu e sem ter asas? ─ encerrou Tancredo, que ficou fora do barco e do fiasco.

Esse episódio é mesmo a cara dele, quero ver como é a outra. Quando foi que cruzou o Rubicão pela primeira vez?

─ Na última reunião do ministério do Getúlio ─ informa o sotaque de São João del Rey.

Em 1953, o advogado Tancredo de Almeida Neves, ex-vereador e ex-deputado estadual, exercia o primeiro mandato de deputado federal, na bancada do  PSD, quando se tornou ministro da Justiça do governo constitucional de Getúlio Vargas. Tinha 44 anos na noite de 23 de agosto de 1954, quando a sala de reuniões do Palácio do Catete se transformou no leito de um Rubicão. Além de Oswaldo Aranha, foi o único ministro a defender a resistência a qualquer custo.

─ Fiquei muito impressionada com a coragem e a lealdade do Tancredo ─ ouvi de Alzira Vargas meses antes do jantar em Belo Horizonte. ─ Ele insistiu na prisão dos generais rebelados e na decretação do estado de sítio.

Possessa com a tibieza dos ministros militares, a filha e secretária de Getúlio, que entrara na sala sem pedir licença, acusou-os de covardia e, depois, de traição.

─ Ainda acho que a história do Brasil seria outra se papai concordasse em resistir ─ ouvi Alzirinha dizer.

─ Também acho ─ ouço Tancredo dizer depois de contar-lhe o que tinha dito a sua velha amiga. ─ O que houve já no dia do suicídio provou que o doutor Getúlio tinha o apoio do povo.

A primeira travessia se completou com o vigoroso discurso de despedida em São Borja, aquecido por ataques violentos aos novos donos do poder. Quem decidiu que Oswaldo Aranha e ele discursariam ao lado do túmulo?

─ Ninguém. Todos estavam muito comovidos, ninguém tinha cabeça para organizar listas de oradores.

O discurso, bonito e muito bem costurado, não parecia inteiramente improvisado. Como é possível falar aquilo tudo de sopetão, sem aquecimento mental, sem nenhum preparativo?

─ O coração falou por mim.

O doutor Tancredo é craque em  frases de efeito, mas achei fraquinha essa do coração falando por ele. Ele também achou, desconfio quando ele chama o garçom, pede uma segunda dose de uísque, volta a 1983 e diz que está de novo atravessando o rio perigoso.

─ Vou vencer ─ murmura.

A aliança entre a MDB e governistas convertidos à oposição tão forte assim? Enquanto confirma com movimentos de cabeça, ele começa outra lição.

─ Não há como perder do Paulo Maluf. É o adversário que eu queria. Escolher o adversário às vezes é muito mais importante que escolher o aliado.

29/06/2009

às 0:30 \ Direto ao Ponto

Collor é o mesmo do século passado. O Brasil é que mudou para pior

Quase 20 anos depois de instalar no Palácio do Planalto um Fernando Collor de mentira, quase 17 depois de livrar-se do Fernando Collor de verdade, o país vai engolindo sem engasgos o único chefe de governo expelido por um impeachment. Os brasileiros que votaram em 1989 no candidato a presidente fantasiado de caçador de marajás podem alegar que não sabiam o que estavam fazendo. Os alagoanos que votaram no candidato a senador em 2008 e pretendem recolocá-lo no governo do Estado em 2010 sabem perfeitamente o que fazem. Quem gosta da ideia de reprisar o pesadelo é um caso clínico. Quem assiste passivamente ao seu recomeço merece experimentá-lo de novo.

No restante do mundo, a História se repete como farsa. Num Brasil que se sente mais feliz de cócoras e aprecia o avesso das coisas, a farsa se repete como farsa e a História faz de conta que é outra história. O modelo Senador é o modelo Presidente  com o teto pintado de preto. Um Collor é um Collor, informaram o tom arrogante e o conteúdo afrontoso do discurso de estréia no Senado. Nunca muda em sua essência, reafirmaram neste junho anotações mais recentes no livro de ocorrências da Casa da Dinda.

Ali foram localizadas, no século passado, provas materiais de algumas das incontáveis delinquências promovidas por Paulo César Farias com o aval do chefe. Por exemplo, o Fiat Elba que PC incorporou à frota presidencial depois de adquiri-lo com um cheque de uma conta-fantasma ─ expediente reprisado pelo tesoureiro do reino para bancar a repaginação dos jardins de babilônia sertaneja. E ali foram encontradas, agora, evidências de que um Collor só muda de idade.

O senador financiou a montagem do esquema de segurança da Casa da Dinda com a a verba indenizatória de R$ 15 mil, destinada exclusivamente a atividades parlamentares. E é esse dinheiro que vem garantindo a comida dos empregados da propriedade particular que o patrão só frequenta nos fins de semana. E daí?, deu de ombros o sessentão reincidente. Se depois do muito que fez na Presidência foi absolvido pelo Supremo Tribunal Federal, não há por que se preocupar com o que anda fazendo. É o que todo mundo no Senado faz.

No discurso em que posou de vítima inocente de uma trama política, o pecador sem remorsos disse que as coisas tomariam outro rumo se tivesse sido mais generoso com aliados e inimigos. Em 1992, sacos de bondade talvez fossem insuficientes para evitar o impeachment. Ainda existia oposição, o PT atirava antes e perguntava depois, valores permanentes não haviam sido revogados. Hoje,  Collor certamente escaparia do castigo se soubesse trocar favores. Não é difícil fazer negócio com a turma da base alugada. Nem com as messalinas com himen complacente que se disfarçaram de vestais até o escândalo do mensalão.

Derrubado em 1945, Getúlio Vargas foi eleito, meses depois, senador por dois Estados e deputado federal por sete. Apareceu quatro ou cinco vezes no Congresso, constatou que seria alvejado por ataques diários e, sem ter subido à tribuna, retirou-se para São Borja. Collor reapareceu no Senado com cara de coroinha injuriado e acusou o Congresso de golpista. Ganhou de presente a presidência da comissão  incumbida de monitorar o PAC, virou destaque do cortejo governista e hoje é sócio remido do clube dos amigos do cara. Convidado pelo inimigo que qualificava de “analfabeto”, visitou no Palácio do Planalto o presidente que o qualificava de “safado” quando líder do PT. Trocaram apertos de mão, sorrisos, afagos e elogios.

Os políticos brasileiros já não enxergam diferenças entre o convívio dos contrários e a promiscuidade malandra. Não distinguem a crítica áspera do insulto imperdoável, ou o ataque que fere da infâmia que exige a ruptura. Só quem perdeu a vergonha consegue achar na meia idade amigos de infância que nunca viu. Só quem demitiu o sentimento da honra celebra alianças tão indecorosas quanto acasalamentos em clubes de swing.

Collor continua o mesmo. O que mudou para pior foi a paisagem política. O Brasil, cada vez mais, lembra uma grande Casa da Dinda.

17/06/2009

às 23:20 \ Direto ao Ponto

Sarney esqueceu que a morte política vive à espreita dos muito vivos

Porque era provido do sentimento da honra, por ser capaz de sentir vergonha, Getúlio Vargas preferiu morrer a sujeitar-se a vinganças ultrajantes. Depois da mais dramática renúncia, o estadista gaúcho sobreviveu politicamente à morte física. Porque acha que nada desonra, por ser incapaz de envergonhar-se, José Sarney preferiu permanecer na presidência do Senado a reconhecer que ofendeu o Brasil que pensa. Depois de confirmar a tese de Jânio Quadros segundo a qual aqui ninguém renuncia sequer ao cargo de síndico, o morubixaba maranhense vai conhecer em vida a morte política.

“Em política só existe a porta de entrada”, repete Sarney a cada entrevista mais extensa. Claro que existem portas de saída ─ só não as enxerga quem imagina que a carteirinha de sócio do clube dos pais da pátria não tem prazo de validade. Há a porta da frente e a dos fundos. Por aquela saiu Getúlio, sobraçando uma comovente carta-testamento. Pela porta dos fundos vai saindo o presidente do Senado, no cangote de um discurso inverossímil.

Foi penoso acompanhar pela TV a performance do artista em seu ocaso. Mãos trêmulas, olhar de medo, a voz indignada contrastando com os desmaios no meio da frase sem pé nem cabeça, o homem que chegou ao Congresso há 50 anos, governou o Maranhão e o Brasil e preside de novo o Senado parecia um coroinha do baixo clero. Enfileirou argumentos indigentes, evocou atos de bravura imaginários, reinventou o passado de governista congênito e caprichou na pose de herói da resistência.

Sempre perseguindo erraticamente pontos finais, Sarney engavetou pecados antigos, subestimou os recentes, informou que os atos secretos não foram secretos e, caprichando na pose de vítima, exigiu respeito. “A crise não é minha, a crise é do Senado”, inocentou-se.

É isso aí, concordaram os presentes, com falatórios na tribuna ou com os gritos do silêncio. Todos fizeram de conta que Sarney não embolsou malandramente o auxílio-moradia, não promoveu a diretor-geral o bandido de estimação Agaciel Maia, não pendurou no cabideiro de empregos do Congresso duas sobrinhas, um neto, o ex-presidente da Assembléia Legislativa do Amapá, 5o parentes pra cá e 50 amigos pra lá. Todos absolveram o patriarca que tentara encobrir com um desfile de negativas a procissão de delinquências comprovadas.

Quando estiverem cauterizadas as feridas morais abertas pela Era da Mediocridade, o Brasil contemplará com desconsolo e desconcerto a paisagem deste começo de século. Como foi possível suportar sem revides as bofetadas desferidas por um político sem luz, orador bisonho, poeta menor e escritor medíocre? Como explicar a mansidão da maioria dos insultados pelo coro dos cúmplices contentes?

A ausência no plenário de representantes do Brasil que presta talvez seja mais perturbadora do que a presença de Sarney no centro da mesa diretora. Encerrado o espetáculo do cinismo, ninguém falou em nome dos injuriados. Ninguém contestou a discurseira absurda. Ninguém lastimou a decomposição do Legislativo. Ninguém sentiu vergonha.

Na quarta-feira, os senadores ficaram parecidos com Sarney, que é a cara do Senado destes tempos tristonhos. Mais cedo para uns que para outros, a morte política chegará para todos. Tomara que a instituição sobreviva.


 

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