Blogs e Colunistas

Francenildo Costa

08/03/2012

às 19:20 \ Direto ao Ponto

O estuprador de sigilo que virou traficante de influência entra em ação disfarçado de ‘tesoureiro informal’ de Fernando Haddad

Em março de 2006, o Brasil espantou-se com a descoberta: Antonio Palocci fora o mandante da violação da conta do caseiro Francenildo Costa na Caixa Econômica Federal. Ao saber que o ministro da Fazenda também exercia o ofício de estuprador de sigilo bancário, o presidente Lula confirmou que ignora a diferença entre currículo e prontuário. Primeiro, tentou inocentar o culpado. Atropelado pelas evidências, fez o possível para mantê-lo no cargo. Obrigado pelas circunstâncias a devolver à planície o pecador pilhado em flagrante, lamentou a perda do “melhor ministro da Fazenda que o Brasil já teve”.

Em maio de 2011, o Brasil espantou-se com outra descoberta: Antonio Palocci, instalado por ordem de Lula no primeiro escalão de Dilma Rousseff, era um reincidente sem cura. Ao saber que o chefe da Casa Civil do governo da afilhada deixara o ramo do estupro de sigilo para fazer carreira como traficante de influência disfarçado de “consultor financeiro”, o ex-presidente confirmou que, se o PCC fosse um partido político, estaria na base alugada. Primeiro, determinou a Dilma que varresse o lixo para baixo do tapete. Em seguida, baixou em Brasília para comandar pessoalmente a batalha pela permanência de Palocci no empregão ─ e em liberdade. Perdeu mais uma.

Nesta quarta-feira, o Brasil espantou-se com a notícia de que o inimigo jurado do Código Penal acaba de entrar em ação no mesmo cenário do crime mais recente. Agora no papel de “tesoureiro informal” de  Fernando Haddad, vai comandar a coleta de dinheiro supostamente destinado a financiar a campanha do candidato do PT à prefeitura de São Paulo. De novo, é Lula o pai da ideia. Depois de uma conversa no comitê eleitoral montado no Hospital Sírio-Libanês, o condutor do rebanho decidiu recolocar em cena o bandido de estimação. Haddad engoliu sem engasgos o prato feito. É o chefe quem escolhe o que será servido às ovelhas.

Vale a pena seguir os passos de Palocci quando o tesoureiro informal começar a perseguir empresários.  A primeira rodada de visitas certamente contemplará o lote de clientes que o consultor de araque se nega a identificar. O país que presta gostará de saber quem são. Ficarão para a segunda etapa os possíveis novos parceiros. Convém anotar-lhes os nomes e endereços. O próximo escândalo não vai demorar. E todos estarão no elenco de mais um caso de polícia protagonizado por Antonio Palocci, sempre com as bênçãos de Lula.

19/07/2011

às 18:32 \ O País quer Saber

Os pecadores que saem do ministério caem fora do noticiário e ficam longe do perigo

Aiuri Rebello e Bruno Abbud

Erenice Guerra teve de deixar a chefia da Casa Civil há apenas dez meses, uma semana depois da publicação da reportagem de VEJA que comprovou o escândalo: a melhor amiga de Dilma Rousseff chefiava simultaneamente uma quadrilha de parentes e agregados que enriquecia cobrando propinas de empresários interessados em fechar negócios com o governo. Antonio Palocci teve de abandonar a casa assombrada há menos de dois meses, 23 dias depois da publicação da reportagem da Folha que denunciou o escândalo: em quatro anos, fantasiado de consultor econômico e financeiro, o mais poderoso ministro de Dilma Rousseff havia multiplicado por 20 o patrimônio declarado em 2006. Os episódios são recentíssimos. Seus protagonistas estão fora do noticiário jornalístico há muito tempo.

Fora do noticiário e fora de perigo, informa a tranquilidade com que Palocci e Erenice  desfrutam do direito de ir e vir. No dia em que a matriarca da Casa Civil perdeu o empregão, foi aberta uma sindicância interna para investigar a participação nas bandalheiras do seu filho Israel Guerra e dos funcionários Vinicius Castro e Stevan Knezevic. Knezevic e a mãe de Vinicius Castro – usada como laranja no esquema – eram sócios de Israel na Capital Assessoria e Consultoria, empresa que promovia encontros suspeitíssimos com empresários. Erenice foi poupada das apurações porque, conforme explicações da Casa Civil, os encarregados de conduzi-las “não tinham poderes para investigar a ministra”. Em 2 de janeiro deste ano, passados quatro meses, os sherloques domésticos concluíram que não havia motivos para punir ninguém e deram o trabalho por encerrado.

Também avança preguiçosamente o inquérito aberto pela Polícia Federal em 14 de setembro de 2010, quando o então ministro da Justiça, Luiz  Paulo Barreto, determinou a apuração das denúncias de tráfico de influência. A Controladoria-Geral da União comprometeu-se a colaborar com a busca de provas, evidências ou indícios. O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, avisou que o Ministério Público Federal acompanharia tudo de perto. O inquérito 1352/10, conduzido pela Polícia Federal, caminha em segredo de Justiça e não tem prazo para terminar. Até agora, 60 pessoas foram ouvidas, computadores foram periciados, documentos foram analisados, dados foram cruzados. No momento, o papelório jaz numa pilha de bom tamanho sobre a mesa do delegado Roberval Re Vicalvi, da Coordenação Geral de Polícia Fazendária.

Assim que as bandidagens foram descobertas, Erenice Guerra e Israel saíram de circulação. A mãe reapareceu na festa de posse de Dilma Rousseff e submergiu outra vez. Sabe-se que continua vivendo em Brasília e trabalha como advogada, mas os dois colegas contratados para defendê-la ─ Sebastião Tojal e Mário de Oliveira Filho ─ recusam-se a revelar tanto os novos endereços residencial e profissional da ex-ministra quanto a lista de clientes. Ambos se limitam a recitar que não falam com Erenice  “há pelo menos duas semanas”.

Regime alimentar

Também Antonio Palocci não tem motivos para perder o sono, embora seja alvo de três investigações paralelas. O número seria maior se a oposição parlamentar não tivesse desistido da ideia de instaurar uma CPI. Ou se o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, não tivesse engavetado na véspera da demissão do ministro (“por falta de provas”) denúncias encaminhadas por três partidos ─ PPS, DEM e PSDB  ─ intrigados com o milagre da multiplicação do patrimônio. Menos misericordioso que o chefe, o procurador Paulo José Rocha Júnior, do Ministério Público Federal do Distrito Federal, abriu um inquérito destinado a enquadrar Palocci por improbidade administrativa e enriquecimento ilícito. Em 9 de junho, a Receita Federal enviou a Rocha Júnior informações sobre Palocci e sua empresa, a Projeto. O inquérito também caminha em segredo de Justiça.

Em 16 de junho, os deputados Antonio Carlos Magalhães Neto, do DEM da Bahia, e Onix Lorenzoni, do DEM do Rio Grande do Sul, protocolaram um pedido de investigação no Ministério Público Federal de São Paulo. Os promotores ainda analisam o pedido. Cinco dias depois, o deputado estadual Pedro Tobias, presidente do PSDB paulista, de São Paulo, endereçou a mesma solicitação ao Ministério Público Estadual. No requerimento, Tobias fechou a lente no apartamento alugado por Palocci em Moema, zona sul de São Paulo, registrado em nome de laranjas filiados ao PT ─ conforme revelou a edição de VEJA de 4 de junho. Segundo a assessoria de imprensa do Ministério Público Estadual de São Paulo, “os pedidos estão em análise e não há previsão para que sejam transformados ou não em inquérito”.

No condomínio Don Arthur, onde o ex-ministro mora em São Paulo, a empregada doméstica informou que a família viajou para algum lugar que ignora e não tem data para voltar. O apartamento na região dos Jardins comprado por R$ 6,6 milhões continua vazio. Desde que Palocci virou caso de polícia, ninguém aparece no escritório da consultoria Projeto, também nos Jardins. Segundo funcionários do prédio, pouquíssimas pessoas costumavam frequentar o endereço, pelo qual Palocci pagou quase R$ 1 milhão. Segundo a Folha, o ex-chefe da Casa Civil pretende retomar a carreira de consultor “depois de um período de quarentena”. Até lá, vai fazer o que fez em 2006, quando teve de abandonar o Ministério da Fazenda por ter encomendado o estupro do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa: um regime alimentar. Há cinco anos, emagreceu 15 quilos.

Consultoria milagrosa

Fundada por Antonio Palocci em 2006 e transformada em administradora de imóveis no fim de 2010, a Projeto é um raríssimo caso de sucesso no mercado brasileiro de consultorias. Graças à espantosa expansão dos lucros, o dono comprou o escritório de R$ 882 mil e o apartamento de R$ 6,6 milhões em 2010. Nesse ano, a consultoria faturou impressionantes R$ 20 milhões. O superconsultor ainda não contou quem são os clientes que lhe garantiram a prosperidade. E ninguém sabe exatamente quantos funcionários a Projeto teve ou tem. Se é que tem.

O economista Mailson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda, é um dos sócios da consultoria Tendências. Há 15 anos no mercado, a empresa mobiliza 70 funcionários, alguns dos quais altamente qualificados. O faturamento em 2010 passou de R$ 15 milhões, mas ainda está longe dos R$ 20 milhões do concorrente. “Levou muitos anos para chegarmos tanto a este faturamento quanto ao número de funcionários”, ressalva Mailson.  “Não há milagre, e sim muito trabalho duro”.

Em 2006, interessado em estrear no ramo, Palocci procurou a consultoria Tendências para saber como eram as coisas por lá. “Nós mostramos como funcionava a Tendências”, conta Nóbrega. “Chegamos a levá-lo para duas ou três palestras”. Palocci ganhou cerca de R$ 10 mil por palestra. Depois disso, Nóbrega não voltou a encontrar-se com o ex-chefe da Casa Civil. Só soube o que andou fazendo pelo noticiário político-policial.

09/06/2011

às 11:00 \ Frases

Aqui se faz…

“Quem acredita em Deus, sabe que aqui se faz e aqui se paga”.

Francenildo Costa, ex-caseiro que teve o sigilo bancário quebrado durante a crise que tirou Antonio Palocci do Ministério da Fazenda, em 2006.

03/06/2011

às 21:48 \ Direto ao Ponto

O que ainda falta para a demissão?

O rosto pálido, as mãos trêmulas, os lábios secos, a voz gaguejante, os pigarros interrompendo a frase como vírgulas bêbadas, a impossibilidade de consumar o gesto de agarrar o copo d’água ─ os incontáveis sintomas de nervosismo bastariam para transformar a entrevista concedida por Antonio Palocci à TV Globo numa confissão de culpa. Mas o conteúdo foi pior que a forma: o chefe da Casa Civil não explicou nada. Enredou-se em fantasias desconexas, negou-se a revelar os nomes dos clientes, confundiu-se com números e porcentagens, buscou refúgio na amnésia malandra, inventou a única empresa do mundo que ganhou mais dinheiro quando resolveu fechar as portas. Palocci naufragou num palavrório tão raso que, na imagem de Nelson Rodrigues, uma formiga conseguiria atravessá-lo com água pelas canelas.

Em 17 de julho de 2005, levado às cordas pelo escândalo do mensalão, o presidente Lula fez de conta que aprendera a lição antiga como o mundo: “A desgraça da mentira é que, ao contar a primeira, você passa a vida inteira contando mentiras para justificar a primeira que você contou”, constatou numa entrevista ao Fantástico. “Trabalhar com a verdade é muito melhor”. O problema é que a verdade é incompatível com mitômanos e megalomaníacos. Portador das duas patologias, Lula seguiu contando um mentira atrás da outra. No momento, jura que o mensalão nem existiu.

Em 2006, no depoimento à Corregedoria do Senado, o caseiro Francenildo Costa repetiu, com sinceridade, a lição que Lula declamou por esperteza: “O lado mais fraco não é o do caseiro, é o da mentira”, ensinou a vítima de Palocci. “Duro é falar mentira que você tem que ficar pensando. A verdade é fácil”.  Como Lula, Palocci foi longe demais para reconciliar-se com a verdade. Vai seguir mentindo até a queda, que só falta agora ser formalizada.

Se foram essas as explicações oferecidas à Procuradoria-Geral da República, Roberto Gurgel não pode alegar que ainda não conseguiu enxergar com nitidez um traficante de influência instalado na chefia da Casa Civil.  Se o que tem a dizer é o que disse à Globo, a presidente Dilma Rousseff tem o dever de demiti-lo imediatamente. O que não pode ser repetido é o embuste desta sexta-feira.

Os brasileiros honestos não merecem ver pela segunda vez na TV,  protagonizando o espetáculo do cinismo mal ensaiado, o homem que não merecia uma segunda chance.

30/05/2011

às 15:52 \ Direto ao Ponto

O superministro agora leva pito até do vice que não levanta a voz nem em comício

Até a descoberta do milagre da multiplicação do patrimônio, Antonio Palocci era o único ministro que parecia livre do risco de levar um pito de Dilma Rousseff. A aparição do traficante de influência transformou o poderoso chefe da Casa Civil no único que levou um pito do vice Michel Temer, que prefere sussurrar até em discussão de botequim. Antes, o superministro da presidente abúlica chamava a chefe de “Dilma”. Agora, na imagem de Stanislaw Ponte Preta, Palocci deve andar chamando urubu de “meu louro”.

Prisioneiro da mentira inaugural, segue contando uma atrás da outra e jurando inocência. Na semana passada, sem ter virado réu oficialmente, contratou de novo os serviços do advogado José Roberto Batochio. Recorrer ao doutor Batochio já é uma admissão de culpa, informa a lista de fregueses. Mas o camburão fica mais distante, comprovou a sessão do Supremo Tribunal Federal que, em 27 de agosto de 2009, livrou Palocci de qualquer envolvimento no estupro do sigilo bancário de Francenildo Costa.

Para inocentar o culpado, Batochio acusou a vítima. Conseguiu livrar o cliente “por falta de provas”. Não conseguiu condenar o caseiro por falta de tempo. Mas contribuiu para que o ministro Gilmar Mendes, presidente do STF e relator do caso, inventasse outra brasileirice: o crime encomendado sem mandante (veja na seção O País quer Saber os melhores-piores momentos do parecer). “Não há dúvida quanto ao recebimento por Antonio Palocci dos extratos, mas não foi ele quem acessou a conta, e sim, funcionários da Caixa, autorizados por suas competências funcionais a acessar os dados”, diz um trecho do papelório aprovado por 5 votos a 4.

“O suposto interesse de Palocci em ter desacreditado o depoimento do caseiro não basta para que ele seja responsabilizado, se não há provas concretas”, continuou o relator. Feito o esclarecimento, resolveu que o presidente da Caixa, Jorge Mattoso, fora o responsável por tudo: “Ele estava autorizado a acessar os dados, mas não revelá-los a terceiros. Portanto, quanto a ele, há elementos para o recebimento da denúncia”.

“O Supremo não é sujeito à influencia política nem à opinião das ruas, a absolutamente nada, o compromisso dele é com a lei”, festejou o doutor Batochio ao fim do julgamento. “Palocci não tem mais nenhum processo criminal. Não existe nada na Justiça contra ele. Está zerado”. Estava: neste 25 de maio, o palavrório de Gilmar Mendes e Batochio foi implodido pela própria Caixa Econômica Federal. Condenada a pagar uma indenização de R$ 500 mil a Francenildo Costa, a direção da CEF informou, num recurso à Justiça, que foi o então ministro da Fazenda quem encomendou o crime.

Foi ele também, em parceria com o  assessor de imprensa Marcelo Netto, quem repassou à revista Época informações que, além de obtidas criminosamente, eram falsas. A confissão dos cúmplices, escondida por cinco anos, confirma que o estuprador de sigilo mentiu o tempo todo. Como vem mentindo agora o traficante de influência, sempre confiante na esperteza do advogado. No resto do mundo, a história se repete como farsa. No Brasil, a impunidade permite que a farsa se repita como farsa.

Desta vez, Batochio terá mais trabalho para garantir o triunfo da injustiça. Em 2009, Palocci estava voltando ao coração do poder. Neste outono, leva pitos até do vice que não levanta a voz sequer em comício. O chefe da Casa Civil hoje é só o caseiro do Planalto. Nada a ver com Francenildo:  Antonio Palocci é um caseiro que mente.

30/05/2011

às 13:47 \ Feira Livre

‘Da casa do lobby ao apartamento da empresa’, um artigo de Miguel Reale Júnior

ARTIGO PUBLICADO NO ESTADÃO DESTE SÁBADO

Miguel Reale Júnior *

O recente affaire Palocci apresenta um significativo paralelismo com o sucedido com Francenildo dos Santos Costa, caseiro da chamada “casa do lobby” em Brasília, alugada por ex-assessores da prefeitura de Ribeirão Preto para negócios e prazeres. O então ministro da Fazenda, em 2006, negou que frequentasse a casa. Convocado para depor na CPI dos Bingos, Francenildo desmascarou o ministro até ser calado por mandado de segurança, em decisão absurda do Supremo Tribunal Federal, na qual se considerou que, por suas “condições culturais”, o caseiro não teria como contribuir para o esclarecimento dos fatos.

Não bastou o silêncio imposto pela Justiça que desqualificou o homem humilde, era necessário desmoralizá-lo. Dois dias depois, o caseiro teve o sigilo bancário violado pela Caixa Econômica Federal, subordinada ao Ministério da Fazenda, como tentativa de desacreditar a sua palavra.

Com precipitação, festejou-se o encontro de depósitos de R$ 25 mil e concluiu-se, apressadamente, ter sido o caseiro comprado. Para o governo, a violação praticada seria pecado venial, diante do pecado mortal da compra da declaração do caseiro por inimigos do ministro.

Os súcubos do ministro, após violarem o sigilo bancário, deram a órgão de imprensa a tarefa de espalhar a calúnia. Para dar ares de legitimidade à acusação leviana o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) mandou ofício à Polícia Federal, no dia seguinte à quebra do sigilo, aventando a possibilidade de ocorrência de lavagem de dinheiro.

O tiro saiu pela culatra. O homem simples era honesto, recebera a importância de seu pai e fora submetido ao mais puro arbítrio do Estado, em grave uso abusivo do aparelho estatal. Francenildo, em lição de moral agora esquecida pelo atual ministro da Casa Civil, disse depois, ao depor na Corregedoria do Senado: “O lado mais fraco não é o do caseiro, é o da mentira. Duro é falar mentira que você tem de ficar pensando. A verdade é fácil”.

O Supremo Tribunal Federal, por cinco votos a quatro, entendeu não haver provas da participação do ministro no crime de quebra do sigilo, pois “o suposto interesse de Palocci em ter desacreditado o depoimento do caseiro à CPI dos Bingos não basta para que ele seja responsabilizado, se não há provas concretas”. Em suma, os cinco votos a seu favor reconheciam que não quebrara o sigilo, mas recebera os dados bancários e aceitara a prática do crime que pretensamente o beneficiava.

Agora, os fatos também se apresentam por detrás de um biombo que esconde a verdade. Após ter saído do governo Lula, Palocci fundou empresa com sua mulher. Depois, em dezembro de 2006, alterou-se o objeto social para consultoria financeira e econômica, tendo Palocci, do capital de R$ 2 mil, cotas no valor de R$ 1.980 como sócio e administrador. O outro sócio, um jovem economista, detinha apenas cota no valor de R$ 20. Em dezembro de 2009 o capital foi alterado para R$ 52 mil, dos quais Palocci tinha cotas correspondentes a R$ 51.980 e o jovem economista (presença necessária para a inscrição da empresa no Conselho Regional de Economia) continuava com os mesmos R$ 20. Em setembro de 2010, aumentou-se o capital para R$ 102 mil e Palocci passou a ter R$ 101.960 e o economista, R$ 40.

Em novembro de 2010, eleita Dilma Rousseff, de cuja campanha Palocci fora coordenador, bem como o responsável pelo processo de transição, a mesma firma de consultoria recebeu vultosos pagamentos. O lucro não foi distribuído, pois a empresa, que se confunde com seu sócio majoritário, comprou imóveis, um deles o apartamento para uso de seu administrador, avaliado em mais de R$ 6 milhões.

Em informação obrigatória prestada à Comissão de Ética Pública da administração federal, o já ministro da Casa Civil informou ser possuidor de cotas de empresa agora com objeto social modificado, não mais de consultoria financeira e econômica, mas de administração de imóveis. É apenas uma parte da verdade, pois o ministro informa ser titular de 99,99 cotas de uma empresa de administração de imóveis cujo capital é de R$ 102 mil. No entanto, usufrui valioso apartamento adquirido por sua empresa, investimento alheio totalmente ao objeto social da companhia, do qual passou a ser ocupante, sem notícia de que pague pela locação do imóvel. É um consabido subterfúgio de possuir um bem sem constar diretamente como proprietário.

Se não fosse a denúncia efetivada pela imprensa, nada do patrimônio real do ministro-chefe da Casa Civil seria sabido. E dele apenas se ouviram pedidos de respeito à confidencialidade, que tanto desprezara com relação ao humilde caseiro Francelino.

O Código de Conduta da Alta Administração Federal, de cuja elaboração participei como membro da Comissão de Ética, timbra ter por finalidade que a sociedade possa aferir a lisura do processo decisório governamental, motivo pelo qual busca evitar conflitos entre interesses públicos e privados. Por isso estabelece o Código de Conduta que, além da declaração de bens, cabe ao administrador público dar informações sobre sua situação patrimonial que, real ou potencialmente, possa suscitar conflito com o interesse público. Saber, portanto, quais foram os clientes dessa empresa de consultoria financeira administrada e pertencente, em 99,99% da cotas, a um médico sanitarista, em serviços pagos quando já previsto como forte ministro, é essencial para se poder ter a transparência visada pelo Código de Conduta.

Como dizia Francenildo, “duro é falar mentira que você tem de ficar pensando”, e para não pensar os líderes do governo decretam infantilmente: “O episódio está encerrado”. Chega de cinismo: o episódio apenas começa e deve-se é desvendar a verdade para verificar se houve ou não novamente abuso e tráfico de influência, que podem contaminar a confiança no atual governo.

* Advogado, professor titular da Faculdade de Direito da USP, membro da Academia Paulista de Letras, foi ministro da Justiça

22/05/2011

às 16:04 \ Direto ao Ponto

O caseiro do Piauí e a camareira da Guiné

PUBLICADO EM 22 DE MAIO DE 2011

Nascido no Piauí, Francenildo Costa era caseiro em Brasília. Em 2006, depois de confirmar que Antonio Palocci frequentava regularmente a mansão que fingia nem conhecer, teve o sigilo bancário estuprado a mando do ministro da Fazenda.

Nascida na Guiné, Nafissatou Diallo mudou-se para Nova York em 1998 e é camareira do Sofitel há três anos. Domingo passado, segundo seu relato à direção do hotel e à polícia, arrumava o apartamento em que se hospedava Dominique Strauss-Kahn quando sofreu um ataque violento do diretor do FMI e candidato à presidência da França, que tentou estuprá-la.

Consumado o crime em Brasília, a direção da Caixa Econômica Federal absolveu liminarmente o culpado e acusou a vítima de ter-se beneficiado de um estranho depósito no valor de R$ 30 mil. Francenildo explicou que o dinheiro fora enviado pelo pai. Por duvidar da palavra do caseiro, a Polícia Federal resolveu interrogá-lo até admitir, horas mais tarde, que o que disse desde sempre era verdade.

Consumado o crime em Nova York, a direção do hotel chamou a polícia. Confiantes na palavra da camareira, os agentes da lei descobriram o paradeiro do hóspede suspeito e conseguiram prendê-lo dois minutos antes da decolagem do avião que o levaria para Paris ─ e para a impunidade perpétua.

Até depor na CPI dos Bingos, Francenildo, hoje com 28 anos, não sabia quem era o homem que vira várias vezes chegando de carro à “República de Ribeirão Preto”. Informado de que se tratava do ministro da Fazenda, esperou sem medo a hora de confirmar na Justiça o que dissera no Congresso. Nunca foi chamado para detalhar o que testemunhou. Na sessão do Supremo Tribunal Federal que examinou o caso, ele se ofereceu para falar. Os juízes se dispensaram de ouvi-lo. Decidiram que Palocci não mentiu e que as contundentes provas do estupro eram insuficientes para a aceitação da denúncia.

Depois da captura de Strauss, a camareira foi levada à polícia para fazer o reconhecimento formal do agressor. Ali, apontou como autor do estupro a celebridade internacional. A irmã que a acompanhava assustou-se. Nafissatou, muçulmana de 32 anos, disse que acreditava na Justiça americana. Sempre jurando que tudo não passara de sexo consensual, o acusado se viu soterrado pelas evidências e pelos antecedentes. Teve de trocar o terno pelo uniforme de prisioneiro e foi recolhido a uma cela.

Nesta quinta-feira, Francenildo completou cinco anos sem emprego fixo. Até agora, ninguém se atreveu a garantir a estabilidade financeira do caseiro que ousou contar um caso como o caso foi. No mesmo dia,  Palocci completou cinco dias de silêncio: perdeu a voz no domingo, quando o país soube do milagre da multiplicação do patrimônio. Pela terceira vez em oito anos, está de volta ao noticiário político-policial.

Em casa, a camareira foi confortada por um comunicado da direção do hotel: “Estamos completamente satisfeitos com seu trabalho e seu comportamento”, diz um trecho. Estimuladas pelo exemplo da imigrante africana, outras mulheres confirmaram que a divindade do mundo financeiro é um reincidente impune. Nesta sexta-feira, depois de cinco noites num catre, Strauss pagou a fiança de 1 milhão de dólares para responder ao processo em prisão domiciliar. Até o julgamento, terá de usar uma tornozeleira eletrônica.

Livre de complicações judiciais, Palocci elegeu-se deputado, caiu nas graças de Dilma Rousseff e há quatro meses, na chefia da Casa Civil, faz e desfaz como primeiro-ministro. Atropelado pela descoberta de que andou ganhando pilhas de dinheiro como traficante de influência, tenta manter o emprego. Talvez consiga: desde 2003, não existe pecado do lado de baixo do equador. O Brasil dos delinquentes cinco estrelas é um convite à reincidência.

Enlaçado pelo braço da Justiça, Strauss renunciou à direção do FMI, sepultou o projeto presidencial e é candidato a uma temporada na gaiola. Descobriu tardiamente que, nos Estados Unidos, todos são iguais perante a lei. Não há diferenças entre o hóspede do apartamento de 3 mil dólares por dia e a imigrante africana incumbida de arrumá-lo. Se ficar comprovado que cometeu um crime, cumprirá a pena como qualquer meliante desprovido de amigos influentes.

Altos Companheiros do PT, esse viveiro de gigolôs da miséria, recitam de meia em meia hora que o Grande Satã ianque é o retrato acabado do triunfo dos poderosos sobre os oprimidos. Lugar de pobre que sonha com o paraíso é o Brasil que Lula inventou. Colocados lado a lado, o caseiro do Piauí e a camareira da Guiné gritam o contrário.

Se tentasse fazer lá o que faz aqui, Palocci não teria ido além do primeiro item do prontuário. Se escolhesse o País do Carnaval  para fazer o que fez nos Estados Unidos, Strauss só se arriscaria a ser convidado para comandar o Banco Central. O azar de Francenildo foi não ter tentado a vida em Nova York. Teria escapado de viver num Brasil que absolve o criminoso reincidente e castiga quem comete o pecado da honestidade.

19/05/2011

às 21:54 \ Direto ao Ponto

Só a identificação dos clientes poderá comprovar se Palocci enriqueceu como consultor ou traficante de influência

Lula disse durante oito anos e Dilma Rousseff repete há quatro meses que, desde 1° de janeiro de 2003, o Brasil é governado por gente que só pensa em resolver os problemas dos pobres. Desde que não atrapalhem a vida dos ricos de estimação criando problemas que o governo é obrigado a resolver, confirma a entrevista de Francenildo Costa ao site de VEJA. O apego à verdade custou ao caseiro da República de Ribeirão Preto o estupro do sigilo bancário, um interrogatório na Polícia Federal, a acusação de ter recebido de partidos de oposição os R$ 30 mil depositados pelo pai  e a perda do emprego. A opção pela mentira tornou ainda melhor a boa vida de Antonio Palocci.

Aconselhado a afastar-se do Ministério da Fazenda depois da violação da conta de Francenildo na Caixa Econômica Federal, jamais confessou que foi o mandante do crime. Apesar disso, ou por isso mesmo, elegeu-se deputado federal em outubro do mesmo ano, reforçou as ligações com o Planalto, caiu nas graças de Dilma Rousseff durante a campanha e voltou ao coração do poder como chefe da Casa Civil. Entre 2006 e 2010, soube-se agora, encontrou tempo para multiplicar por 20 o patrimônio. O médico sanitarista que nunca clinicou virou consultor financeiro sem diploma de economista. E ficou rico.

O destino só foi inclemente com a vítima. Por ter confirmado que Palocci frequentava regularmente a mansão que jurou não conhecer, Francenildo nunca mais conseguiu emprego fixo. Continua pobre.  Sobrevive com trabalhos temporários, que lhe rendem mensalmente pouco mais de R$ 1 mil, e segue à espera da indenização que a Caixa tenta não pagar, fixada pela Justiça em R$ 500 mil. Só o apartamento novo de Palocci, comprado por R$ 6,6 milhões, vale 13 vezes mais que isso.

Francenildo parece menos intrigado com o preço do imóvel do que com o estridente silêncio do ministro. Cinco anos depois do estupro da conta do caseiro, Palocci invoca a cláusula de confidencialidade inserida nos contratos para manter em sigilo a lista dos clientes que o transformaram num dos mais prósperos consultores do país. “Por que ele não explicou de onde veio o dinheiro? Na minha época eu tive de explicar”, lembra o antigo caseiro da mansão em que Palocci descansava dos serviços prestados à nação.

Com a naturalidade dos que não têm culpa no cartório, Francenildo deduz que isso é coisa de culpado. “O cara que não diz de onde veio o dinheiro é porque o dinheiro é suspeito”, resume. Se não tivesse nada a esconder, raciocina, bastaria a Palocci revelar os nomes dos clientes. Ao escondê-los, reforça a versão segundo a qual quase todos os fregueses tiveram ou têm pendências a resolver com o governo de que Palocci sempre fez parte, com ou sem gabinete no Planalto. Para localizar o caminho das pedras, contrataram não o consultor financeiro que o ex-ministro nunca foi, mas o político que sempre será.

A carta endereçada aos congressistas que o infiltrou na seleção de craques do mercado financeiro foi outra má ideia. “Persio Arida, André Lara Rezende, Pedro Malan e Mailson da Nóbrega têm atividade privada de conhecimento público, Palocci manteve atividade secreta no exercício da função pública”, replicou o deputado baiano Jutahy Magalhães. Nenhum deles foi deputado nem se interessou pela carreira política, poderia ter acrescentado o parlamentar tucano. Já eram economistas respeitados antes da passagem pelo poder. E, por serem identificados com a oposição, não têm a chave das portas secretas que Palocci carrega há mais de oito anos.

Nesta quarta-feira, em seu blog, o ex-governador Alberto Goldman pôs o dedo na ferida que a oposição oficial finge não enxergar: “Palocci não apenas usou de seus conhecimentos adquiridos, o que seria legal e moralmente aceitável, mas usou de sua influência sobre um governo que, mesmo fora dele, ainda em grande parte comandava”, constatou Goldman.

O que Palocci fez é muito parecido com o que faz José Dirceu. Se não divulgar a lista de clientes, o chefe da Casa Civil estará confessando que enriqueceu não como consultor, mas como traficante de influência. Isso é mais que uma ilegalidade. É uma obscenidade criminosa.

19/05/2011

às 21:00 \ Frases

Simples assim

“Por que ele não explicou de onde veio o dinheiro? Na minha época eu tive que explicar”.

Francenildo dos Santos Costa, ex-caseiro que teve o sigilo bancário quebrado ilegalmente em 2006, em meio à crise que derrubou Antonio Palocci do Ministério da Fazenda, indagado sobre o que pensa do salto patrimonial do agora ministro da Casa Civil.

18/05/2011

às 18:02 \ Direto ao Ponto

Como é doce a oposição oficial

O ex-governador José Serra e o senador Aécio Neves nem esperaram a divulgação da nota oficial que promoveu o ministro Antonio Palocci a doutor em assuntos econômicos e financeiros. O autor do milagre da multiplicação do patrimônio ainda caçava álibis quando se viu liminarmente absolvido pelos dois líderes do PSDB. “Acho normal que uma pessoa tenha rendimentos quando não está no governo e que esses rendimentos promovam uma variação patrimonial”, antecipou-se Serra já na segunda-feira, à saída de um encontro com o presidente do PT, Rui Falcão.

Voltou ao assunto horas mais tarde, para avisar que “de forma alguma ia crucificar uma pessoa por causa de sua evolução patrimonial”. Se estivesse no lugar de Palocci, o ex-governador paulista seria soterrado pelo PT por cobranças e denúncias que inevitavelmente mencionariam “sinais exteriores de riqueza” e evidências de “enriquecimento rápido”. Mas os tucanos andam confundindo disputas políticas com cursos de boas maneiras. Ou concursos de Miss Simpatia, sugeriu a entrada em cena de Aécio Neves, que só na manhã de terça-feira emergiu de mais um surto de mudez.

Simultaneamente, o senador mineiro pediu explicações a Palocci e desculpou-se pelo pedido. “Esse é o momento, e essa é a posição majoritária da nossa bancada, de criar condições para que esses esclarecimentos possam vir a ser dados”, começou o minueto. “Temos que ter serenidade para não prejulgar e firmeza para aguardar os esclarecimentos do ministro. Creio até que ele é o maior interessado”. Sem que ninguém perguntasse, Aécio também julgou necessário lembrar que “a oposição não deseja desestabilizar o governo”.

Em 2006, quando o caso do estupro da conta bancária do caseiro Francenildo Costa obrigou o presidente Lula a trocar de ministro da Fazenda,o despejo de Palocci nem de longe ameaçou a estabilidade do Planalto. Por algum motivo, o próprio Aécio resolveu insinuar que o eventual afastamento do chefe da Casa Civil resultaria numa grave crise institucional. Nem os petistas mais imaginosos pensaram nisso. Dilma Rousseff deve mais essa ao cordialíssimo oposicionista.

Serra fez questão de registrar que confia na palavra de Palocci. Pode-se deduzir que o ex-candidato do PSDB à Presidência desconfia da palavra de Francenildo Costa. “Pessoalmente, tenho muito respeito pelo ministro”, fez questão de registrar Aécio. Pode-se deduzir que o provável candidato do PSDB à Presidência não tem nenhum respeito pelo caseiro. Quase 44 milhões de brasileiros discordam do governo e não concordam com os dois principais líderes da oposição oficial.

A campanha de 2014 ainda está longe. Mas Serra e Aécio já lutam com muita bravura pela chance de perder a eleição por excesso de covardia.

 

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