“O Fernando Henrique tem um ciúme infantil do Lula, uma inveja feminil do Lula”.
Ciro Gomes, no duplo papel de cinquentão doidão e psiquiatra eleitoral, confirmando que só pensa em FHC, mas ainda não decidiu se prefere namoro ou amizade.
Ciro Gomes, no duplo papel de cinquentão doidão e psiquiatra eleitoral, confirmando que só pensa em FHC, mas ainda não decidiu se prefere namoro ou amizade.

O show de criatividade do timaço de comentaristas já mudou o nome do dicionário. Em vez de Breve, virou Pequeno ─ palavra que vai acabar sumindo se a turma da coluna mantiver o ritmo. A seguir, mais 11 verbetes:
Aloízio Mercadante. Companheiro inventor da retirada triunfal, da rendição vitoriosa e da revogação do irrevogável.
bagre-do-Madeira. Espécime da fauna aquática amazônica especializado em ataques terroristas a hidrelétricas do PAC.
Bolsa Família. Maior programa de compra oficial de votos do mundo.
camarada de armas. Companheiro diplomado em cursinho de guerrilha que só disparou tiros de festim; guerrilheiro que ainda não descobriu onde fica o gatilho do fuzil. (Ex.: Dilma Rousseff e José Dirceu são camaradas de armas.)
ditadura do proletariado. Forma superior de democracia, tão avançada que dispensa o povo de votar ou dar palpites porque os companheiros dirigentes sabem tudo o que o povo quer.
Fernando Henrique Cardoso. 1. Ex-presidente que, embora tivesse ampla maioria no Congresso, fez questão de aprovar a emenda da reeleição com a compra de três votos no Acre só para provocar o PT. 2. Governante que, depois de oito anos no poder, só conseguiu inaugurar a herança maldita.
FHC. 1. Grande Satã; demônio; capeta; anticristo;. satanás; diabo. 2. Assombração que vive aceitando debater com Lula só para impedir que o maior governante de todos os tempos se dedique à construção do Brasil em tempo integral. 3. Sigla que, colocada nas imediações do SuperLula, provoca no herói brasileiro efeitos semelhantes aos observados no Super-Homem perto da kriptonita.
MST. 1. Entidade financiada pelo governo para fazer a reforma agrária com a substituição de terras produtivas pela agricultura familiar. 2. Movimento formado por lavradores que não têm terra e, por isso mesmo, não sabem plantar nem colher.
ou seja. Expressão usada pelo Primeiro Companheiro para avisar que, por não saber o que dizer, vai berrar o que lhe der na cabeça.
pedra fundamental. Obra do PAC inaugurada antes de começar a ser construída.
perereca. Espécie de batráquio adestrada em criadouros tucanos para ações de sabotagem contra viadutos do PAC.
É só o começo. Ao trabalho, amigos.

Na entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, publicada nesta sexta-feira, o presidente da República esforçou-se para controlar o recordista mundial de improviso em palanque. Mas quem fala mais que leiloeiro, mente tanto quando Dilma Rousseff e se considera o Estadista de Deus não chega ao fim da travessia de mais de duas páginas sem danos severos, escorregões constrangedores e escoriações generalizadas. Confiram alguns dos melhores-piores melhores momentos do falatório, seguidos de observações em negrito:
“Olha, somente quem não conhece a Dilma pode falar uma heresia dessas (a heresia é dizer que a candidata foi escolhida pela fidelidade ao presidente). Ninguém aceita ser vaca de presépio e muito menos eu iria escolher alguém para ser vaca de presépio”.
(Vaca de presépio, como sabem até as vacas de presépio, é gente que concorda com tudo o que o chefe diz, pensa ou imagina. Dilma Rousseff vai mais longe. Além de dizer amém a tudo que ouve do padrinho, além de elogiá-lo no começo, no meio e no fim de cada discurseira, a afilhada resumiu há semanas seu programa de governo: “Vamos seguir o caminho que o presidente Lula nos ensinou”. Na entrevista, o chefe ensinou aos adversários, de graça, a expressão que define com precisão a sucessora que escolheu. Dilma é uma tremenda vaca de presépio.)
“Quando aconteceram todos os problemas que levaram o companheiro José Dirceu a sair do governo (…)”
(”Depois do episódio do mensalão”, poderia ter resumido o entrevistado. Mas o herói brasileiro conhece e protege seu calcanhar de Aquiles. Entre as quase 2.700 palavras ditas por Lula, “mensalão” não aparece uma só vez.)
“Quem me conhece há mais tempo sabe que eu nunca gostei de um segundo mandato”.
(Pena que os entrevistadores não conheçam há mais tempo a metamorfose ambulante. Embora deteste um segundo mandato, Lula elegeu-se em 1975 presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, reelegeu-se em 1978, elegeu-se em 1980 presidente do PT e, graças a sucessivas reeleições, permaneceu no cargo até 1994. Virou presidente de honra do partido, posto que continua a acumular com a presidência da República.)
“Não penso em voltar à presidência”.
(”Presidência da República, certo?”, deveriam ter especificado os jornalistas. Quando formalizar a candidatura ao terceiro mandato em 2014, Lula vai alegar que, ao ouvir a pergunta, supôs que os entrevistadores se referissem à presidência do sindicato. Ou à presidência do PT.)
“O Collor foi eleito senador da República pelo voto livre e direto do povo de Alagoas. (…) Se eu encontrar o Jarbas Vasconcelos amanhã, vou cumprimentá-lo como cumprimentei o Collor. Não pense que vou agir diferente, porque quem está cumprimentando não é o Lula. É o presidente”.
(Na campanha eleitoral de 1989, Fernando Collor referiu-se a Lula como “analfabeto”, “ignorante”, “desqualificado” e “farsante”. No horário gratuito da TV, apresentou ao país uma ex-namorada de Lula que o acusou de ter tentado “assassinar a filha com um aborto”. A declaração publicada pelo Estadão contém três informações relevantes. Primeira: Lula não vê diferenças entre quem diz essas coisas e um oposicionista como o senador Jarbas Vasconcelos. Segunda: quem é eleito pelo voto direto não tem prontuário. Terceira: Lula e o presidente da República não são a mesma pessoa.)
“O Sarney teve uma postura muito digna em todo esse episódio. Das acusações que vocês publicaram, nenhuma se sustenta juridicamente”.
(Numa só resposta, Lula aprovou o desempenho de José Sarney no Senado, absolveu o homem incomum de todas as acusações e ensinou que, até o julgamento em instância superior, a censura ao Estadão é muito justa. Chefe do Executivo por decisão das urnas, chefe do Legislativo por malandragem da base alugada e chefe do Judiciário por deferência de cinco ministros do Supremo Tribunal Federal, Lula exerceu durante a entrevista, ostensivamente e com muita animação, a presidência dos três Poderes.).
“Eu acho que tem coisa que tem que investigar. E eu quero investigar. (…). Eu quero saber de algumas coisas que que eu não sei e que me pareceram muito estranhas ao longo de todo o processo”.
(Foi assim mesmo, em dilmês perturbado, que Lula tentou explicar por que prometeu “passar a limpo” o caso do mensalão ─ que, neste trecho da entrevista, apelidou de “processo”. Ele não enxerga nada de errado, estranho ou criminoso na ação dos 40 bandidos de estimação denunciados pela Procuradoria Geral da República e a caminho do julgamento pelo STF. Prometeu descobrir tudo depois que deixar a presidência e virar detetive. O Filho do Brasil não matou ninguém de tristeza. A versão piorada do Inspetor Clouseau vai fazer o país sensato morrer de rir.)
“O Irã não é o Iraque e todos nós sabemos que a guerra do Iraque foi uma mentira montada em cima de um país que não tinha as armas químicas que diziam que ele tinha”.
(Releiam a frase e raciocinem comigo. Lula diz que o Iraque foi atacado sem motivos, já que não existiam as armas químicas que serviram de pretexto para a guerra. Certo? Também diz que o Irã não é o Iraque. Certo? Se o Irã não é o Iraque, então o projeto nuclear dos aiatolás existe de verdade, ao contrário das armas químicas. Certo? Se é assim, os leitores ficariam gratos aos entrevistadores se um deles perguntasse ao entrevistado por que, então, apoia o Irã. Ou ao menos avisasse a Lula que achar explicações para a aliança com uma teocracia dirigida por psicopatas complica a cabeça de qualquer um.)
“A Venezuela é uma democracia. (…) O Brasil é uma hiperdemocracia”.
(O que Lula chama de “hiperdemocracia” é um país cujo governo, por não ter conseguido estabelecer o “controle social da mídia”, ainda não fecha emissoras de TV ou jornais independentes. “Democracia” é qualquer regime autoritário, despótico e tirano dirigido por um companheiro.)
Tão revelador quanto o que disse foi o que deixou de dizer. Pela primeira vez neste século, o presidente despejou mais de 2.600 palavras sem mencionar em nenhum momento “Fernando Henrique Cardoso”, “FHC” ou “meu antecessor”. O SuperLula descobriu que é melhor ficar longe da kriptonita.

O presidente Lula foi formalmente convidado, no dia 11, para um debate com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. A resposta acaba de ser transmitida ao repórter Otávio Cabral, da sucursal de VEJA em Brasília, pelo ministro Franklin Martins, chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. É a seguinte:
“O presidente Lula, quando deixar a Presidência e se tornar um ex-presidente, aceitará debater com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso”.
Se Lula estivesse apenas presidindo o processo sucessório, como costumam fazer em países civilizados chefes de governo em fim de mandato, o convite nem teria existido. Se tivesse apenas optado por uma candidatura, sem se envolver ostensivamente na disputa, a recusa até seria aceitável. Como os fatos informam que o presidente se enfiou até o pescoço na campanha que antecipou ilegalmente, a rejeição do convite deixa de fazer sentido.
Sem que ninguém lhe pedisse, Lula decidiu que a candidata seria Dilma Rousseff, nomeou-se Primeiro Cabo Eleitoral, não desce do palanque há seis meses, ataca o antecessor em todos os comícios e repete diariamente que os brasileiros terão de escolher entre o governo FHC e o atual. Garante que recebeu uma “herança maldita”. FHC garante que a afirmação é falsa. Um debate entre ambos seria o caminho mais curto para chegar-se à verdade. Fernando Henrique topou. Lula só quer debater em 2011.
A opção pelo monólogo ─ recomendada, aliás, por 10 em 10 militantes governistas que se manifestaram nesta coluna ─ confirma a suspeita de que foi descoberta a kriptonita do SuperLula. Chama-se FHC.

Lula, na entrevista à Rádio Difusora de Goiânia, confirmando que levou o isopor na viagem.

Lula, em entrevista à Rádio Difusora de Goiânia, explicando que FHC deveria esperar o começo da campanha que Lula começou em 1980, quando fundou o PT.

A privatização das empresas de telefonia começou em 1998, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, com o leilão do Sistema Telebrás, certo? Sim, provavelmente errariam 99 a cada 100 inscritos no Enem. Sim, certamente fariam de conta 100 entre 100 militantes companheiros. O que eles hoje chamam de “privataria” teve início, quem diria, na administração municipal de Ribeirão Preto, comandada pelo prefeito Antônio Palocci. em seu primeiro mandato (1993-1996), o futuro estuprador de contas bancárias colocou à venda 49% das ações da Centrais Telefônicas de Ribeirão Preto (Ceterp).
A Ceterp (que seria inteiramente privatizada na gestão seguinte, comandada pelo PSDB) era atendida por uma operadora local pertencente à prefeitura. Para conseguir aprovar a ideia proibida pelo programa do PT, Palocci aliou-se a adversários e por pouco não abandonou o partido. O prefeito alegou que só a parceria com a iniciativa privada permitiria que a empresa acompanhasse a evolução tecnológica cada vez mais acelerada. Foi esse um dos argumentos invocados por FHC. O PT acabou aceitando a alegação de Palocci. Mas nunca aceitou a mesma argumentação quando apresentada pelo governo tucano.
Os companheiros continuam inconformados com o valor atribuído a empresas privatizadas por Fernando Henrique, como a Vale. Eleito pelo PSDB, o prefeito Roberto Jábali também achou que o antecessor foi generoso demais com os compradores. ”A Ceterp foi entregue a preço de banana”, repetia Jábali, principalmente depois de ter vendido o restante das ações por R$ 200 milhões ─ quatro vezes superior ao cobrado pela primeira leva.
Até a década de 1990, os brasileiros esperavam de dois a três anos para a instalação de um telefone. Uma linha fixa figurava entre os bens patrimoniais declarados no Imposto de Renda. Em 1997, para conseguir um número de telefone no Brasil, era necessário cadastrar-se na telefônica local e depositar uma quantia corresponde a R$ 1.000 em valores de hoje. O dinheiro era mais tarde restituído em ações da Telebrás.
Os gargalos no sistema alimentavam um portentoso mercado paralelo de venda e aluguel de linhas, que ocupava duas ou três páginas diárias nos anúncios classificados dos jornais. Quem se dispusesse a pagar entre R$ 1,5 mil e R$ 3,2 mil poderia encurtar o caminho. Um celular custava em torno de US$ 4 mil e a espera chegava a três anos. Os nomes inscritos eram sorteados pela operadora. Com o sistema antigo, banda larga e internet ainda seriam exotismos estrangeiros.
Em 1997, havia 17 milhões de linhas fixas no Brasil. Hoje são mais de 43,5 milhões. Os telefones celulares, que chegaram na década de 70 mas só começaram a multiplicar-se 20 anos depois, saltaram dos 4,5 milhões de 1997 para os atuais 173,9 milhões. Como toda mudança de grande porte, o processo de privatização foi inevitavelmente afetado por equívocos e falhas. Mas o saldo é extraordinariamente positivo. Em poucos anos, o Brasil saiu da idade da pedra para ingressar na era moderna.
Prisioneiro do passado, o PT continua incluindo a privatização da telefonia entre os pecados mortais de FHC. Se isso não fosse apenas uma bobagem, o pecado original teria sido cometido por Antônio Palocci. É por isso que a primeira privatização a companheirada faz de conta que esqueceu.

Perto das 8 da noite desta quarta-feira, no intervalo de uma reunião no Instituto Fernando Henrique Cardoso, o ex-presidente ouviu a pergunta já no primeiro minuto da conversa por telefone:
─ Posso dizer que o senhor aceita debater publicamente com o presidente Lula?
─ Pode, claro.
─ Alguma pré-condição?
─ Nenhuma. Mas é bom deixar claro que não propus nenhum desafio. Não estou desafiando ninguém. Estou apenas aceitando um convite.
─ Vou dar a notícia amanhã.
─ Pode dar. Debate é sempre saudável. Aceito pelo Brasil.
No mesmo dia em que Fernando Henrique Cardoso topou o convite, o deputado Ricardo Berzoini entoou a cantilena que obriga o presidente a aceitá-lo também. “Vamos, sim, fazer a comparação entre os oito anos de Lula e os oito anos de FHC”, recitou. “O eleitor precisa ser lembrado de como foi um governo e o outro”.
O eleitor merece saber se Lula recebeu uma herança maldita e reconstruiu o país, como repete há pelo menos seis anos, ou se resolveu valer-se de mentiras e fantasias para desqualificar o legado do antecessor que acabou com a inflação, consolidou a democracia constitucional e fixou diretrizes econômicas que, em sua essência, vigoram até hoje. É assunto sério demais para ser tratado por intermediários, muito menos por moleques de recado. É coisa para gente grande. Os eleitores merecem ver em ação os dois protagonistas ─ só eles, e sem figurantes por perto.
O debate se tornou inevitável no momento em que o presidente decidiu que a eleição tem de ser plebiscitária. FHC já topou. Lula não poderá furtar-se ao duelo que provocou.

Ciro Gomes, avisando que FHC está proibido por Ciro Gomes de falar o que, por ordem de Ciro Gomes, podem falar os ex-presidentes José Sarney e Fernando Collor, a quem sobra, segundo Ciro Gomes, a autoridade moral que falta a FHC.

Ciro Gomes, que não conseguiu ser a Dilma de FHC e não desistiu de ser a Dilma do Lula, esforçando-se para garantir a lanterninha na eleição presidencial.
