Coluna do

Augusto Nunes

Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido.
E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido.

Posts com a tag ‘Fernando Henrique Cardoso’

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Boas maneiras

9 de fevereiro de 2010

“Ele vai aprender quando o Lula for ex-presidente como deve se comportar um ex-presidente”.

Cândido Vaccarezza, líder do governo na Câmara, sugerindo a Fernando Henrrique Cardoso que aprenda com Lula a não dizer palavrões em público, a almoçar com moderação e a carregar o isopor na praia sem deixar cair nenhuma garrafa.

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FHC merece adversários menos boçais e aliados mais corajosos

9 de fevereiro de 2010

“Para ganhar sua guerra imaginária,  o presidente distorce o ocorrido no governo do antecessor, autoglorifica-se na comparação e sugere que se a oposição ganhar será o caos”, constata Fernando Henrique Cardoso já no primeiro parágrafo do artigo publicado no domingo. O que faz o governo Lula para “desconstruir o inimigo”?, pergunta-se linhas adiante. A resposta resume a tática que o pastor ensinou ao rebanho: “Negando o que de bom foi feito e apossando-se de tudo que dele herdaram como se deles sempre tivesse sido”.

Surpreendida pela contundência do ex-presidente, que desmontou com menos de mil palavras vigarices reiteradas há sete anos, a matilha companheira foi à luta, desta vez sem o comandante. Como faz sempre que sabe com quem está falando, Lula achou melhor perder a voz. Enquanto ensaia o que dizer, falarão por ele os sarneys e os dirceus, os jucás e os berzoinis, os renans e os vaccarezzas, as dilmas e as idelis, os tarsos e os mercadantes, os destaques e os figurantes do elenco de filme de terror.

Não falarão por Fernando Henrique os aliados, incapazes sequer de compreender que, mais que um artigo-manifesto, acabam de ganhar a segunda parte do roteiro para a montagem do discurso que, segundo Lula, a oposição não tem. A primeira foi publicadoa há três meses, no artigo com o título “Para onde vamos?”. O texto demonstra que o autoritarismo popular instituído por Lula pode desembocar, num Brasil presidido por Dilma Rousseff, no que qualificou de “subperonismo”.

A previsão foi confirmada em dezembro pela aparição do Programa Nacional de Direitos Humanos. Nenhum tucano associou o artigo ao documento, que pretende chegar ao futuro pela estrada que termina no século 19. Se o horizonte próximo o inquieta, Fernando Henrique se mostra sem medo do passado, título do segundo artigo. Discurso, portanto, a oposição já tem. Falta agora descobrir que tem. Falta criar coragem para pronunciá-lo. Falta o candidato que tem jeito de candidato, modos de candidato, cara de candidato e vontade de ser candidato enfim confessar que é candidato.

Tolerante, bem-humorado, substantivamente democrata, Fernando Henrique merecia adversários menos boçais e aliados mais corajosos. Há algo de muito errado com os partidos de oposição quando um grande governante tem de recordar ele próprio o muito que fez. Há algo de muito estranho quando FHC tenta impedir, sem a solidariedade ativa dos militantes, que se consume outra morte da verdade, sucessivamente assassinada desde janeiro de 2003.

Há mais de sete anos, patrulhas federais  se valem da meia verdade ou da mentira grosseira  para transformarem em herança maldita um legado de estadista. A cada avanço dos vendedores de fumaça corresponde uma rendição sem luta do PSDB, do DEM e do PPS. A oposição vive comprando como verdades milenares as mentiras que o governo vende. Lula, que precisou do segundo turno até para vencer Geraldo Alckmin, virou um imbatível campeão de votos. FHC, que o surrou duas vezes no primeiro turno, é apresentado como má companhia eleitoral.

Depois da vaia no Maracanã, Lula só testa a popularidade em institutos de pesquisa. Mas ficou estabelecido que ninguém foi tão amado desde Tomé de Sousa. Fernando Henrique anda pelas ruas sozinho entre cumprimentos e saudações da gente anônima,, foi mais de uma vez aplaudido no Viaduto do Chá. O Planalto espalhou que o país inteiro gostaria de vê-lo na guilhotina. A oposição acredita. É o Brasil.

As reações ao artigo escancararam o abismo existente entre a tibieza da oposição oficial e o ânimo combatente dos incontáveis brasileiros inconformados com a Era Lula que se movem e se agrupam na internet. Centenas de milhares de adversários do governo transformaram o artigo em bandeira e se juntaram à ofensiva de FHC. Sabem que não se ganha uma eleição sem confrontos nem se chega ao poder com mesuras. Sabem que disputa presidencial não é concurso de biografias, e que não é possível ser tão gentil com seitas primitivas.

Por tudo isso, aceitaram com entusiasmo o repto do Planalto. Lula quer uma disputa plebiscitária, certo? Por que não começar com um debate público entre Lula e Fernando Henrique? Pelo falatório governista, seria o duelo entre o pai dos pobres e o grande satã neo-liberal. É uma simplificação suicida. Uma coisa é discursar num palanque, cercado de amigos que agem como garotas de auditório, sob os olhos de plateias amestradas. Outra é expor-se ao contraditório, à réplica, ao aparte, à divergência, à cobrança, ao desmentido. Lula foge de entrevistas com jornalistas independentes como foge o vampiro do crucifixo. Vai precisar de coragem para enfrentar um adversário que tem razão.

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Neurônio estressado

8 de fevereiro de 2010

“Comparar não é ficar olhando para o retrovisor. Pelo contrário. É discutir que caminho eu vou seguir. Para que lado eu vou. E por que o povo tem que discutir isso? Porque é importante saber se nós vamos fazer obras de saneamento ou não”.

Dilma Rousseff, ainda sem saber se ela é “eu” (”eu vou seguir”, “pra que lado eu vou“) ou se ela é “nós” (”nós vamos fazer obras”), ao replicar com a clareza e a sabedoria de sempre ao artigo de Fernando Henrique Cardoso, enfiando no meio do falatório obras de saneamento porque tratamento de esgoto é uma coisa que não lhe sai da cabeça.

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Neurônio qualificado

7 de fevereiro de 2010

“Acho o Ciro Gomes um dos políticos mais qualificados do nosso país, agora, nem por isso eu vou deixar de acrescentar o fato de que nós temos uma aliança qualificada e que por isso a nossa relação com os partidos da nossa base também tem que ser uma relação qualificada”.

Dilma Rousseff, sempre sem saber se é “eu” ou “nós”, dizendo a mesma palavra três vezes numa só frase  para mostrar que está perfeitamente qualificada para um debate com José Serra, com Fernando Henrique Cardoso ou com os dois juntos.

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Leitura indispensável: um grande artigo de Fernando Henrique

7 de fevereiro de 2010

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso publicou neste domingo, nos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo, outro artigo luminoso. Parece extenso. Chega-se ao ponto final em três minutos querendo mais. Para que o pessoal da coluna saboreie o quanto antes um texto que melhora o domingo de todos os brasileiros com mais de 15 neurônios, deixo para dizer em outro post o que achei da leitura. Não percam. E comentem.

SEM MEDO DO PASSADO

Fernando Henrique Cardoso

O presidente Lula passa por momentos de euforia que o levam a inventar inimigos e enunciar inverdades. Para ganhar sua guerra imaginária, distorce o ocorrido no governo do antecessor, autoglorifica-se na comparação e sugere que se a oposição ganhar será o caos. Por trás dessas bravatas está o personalismo e o fantasma da intolerância: só eu e os meus somos capazes de tanta glória. Houve quem dissesse “o Estado sou eu”. Lula dirá, o Brasil sou eu! Ecos de um autoritarismo mais chegado à direita.

Lamento que Lula se deixe contaminar por impulsos tão toscos e perigosos. Ele possui méritos de sobra para defender a candidatura que queira. Deu passos adiante no que fora plantado por seus antecessores. Para que, então, baixar o nível da política à dissimulação e à mentira?

A estratégia do petismo-lulista é simples: desconstruir o inimigo principal, o PSDB e FHC (muita honra para um pobre marquês…). Por que seríamos o inimigo principal? Porque podemos ganhar as eleições. Como desconstruir o inimigo? Negando o que de bom foi feito e apossando-se de tudo que dele herdaram como se deles sempre tivesse sido. Onde está a política mais consciente e benéfica para todos? No ralo.

Na campanha haverá um mote – o governo do PSDB foi “neoliberal” – e dois alvos principais: a privatização das estatais e a suposta inação na área social. Os dados dizem outra coisa. Mas os dados, ora os dados… O que conta é repetir a versão conveniente. Há três semanas Lula disse que recebeu um governo estagnado, sem plano de desenvolvimento. Esqueceu-se da estabilidade da moeda, da lei de responsabilidade fiscal, da recuperação do BNDES, da modernização da Petrobras, que triplicou a produção depois do fim do monopólio e, premida pela competição e beneficiada pela flexibilidade, chegou à descoberta do pré-sal. Esqueceu-se do fortalecimento do Banco do Brasil, capitalizado com mais de R$ 6 bilhões e, junto com a Caixa Econômica, libertados da politicagem e recuperados para a execução de políticas de Estado.

Esqueceu-se dos investimentos do programa Avança Brasil, que, com menos alarde e mais eficiência que o PAC, permitiu concluir um número maior de obras essenciais ao país. Esqueceu-se dos ganhos que a privatização do sistema Telebrás trouxe para o povo brasileiro, com a democratização do acesso à internet e aos celulares, do fato de que a Vale privatizada paga mais impostos ao governo do que este jamais recebeu em dividendos quando a empresa era estatal, de que a Embraer, hoje orgulho nacional, só pôde dar o salto que deu depois de privatizada, de que essas empresas continuam em mãos brasileiras, gerando empregos e desenvolvimento no país.

Esqueceu-se de que o país pagou um custo alto por anos de “bravata” do PT e dele próprio. Esqueceu-se de sua responsabilidade e de seu partido pelo temor que tomou conta dos mercados em 2002, quando fomos obrigados a pedir socorro ao FMI – com aval de Lula, diga-se – para que houvesse um colchão de reservas no início do governo seguinte. Esqueceu-se de que foi esse temor que atiçou a inflação e levou seu governo a elevar o superávit primário e os juros às nuvens em 2003, para comprar a confiança dos mercados, mesmo que à custa de tudo que haviam pregado, ele e seu partido, nos anos anteriores.

Os exemplos são inúmeros para desmontar o espantalho petista sobre o suposto “neoliberalismo” peessedebista. Alguns vêm do próprio campo petista. Vejam o que disse o atual presidente do partido, José Eduardo Dutra, ex-presidente da Petrobras, citado por Adriano Pires, no Brasil Econômico de 13/1/2010. “Se eu voltar ao parlamento e tiver uma emenda propondo a situação anterior (monopólio), voto contra. Quando foi quebrado o monopólio, a Petrobras produzia 600 mil barris por dia e tinha 6 milhões de barris de reservas. Dez anos depois, produz 1,8 milhão por dia, tem reservas de 13 bilhões. Venceu a realidade, que muitas vezes é bem diferente da idealização que a gente faz dela”.

O outro alvo da distorção petista refere-se à insensibilidade social de quem só se preocuparia com a economia. Os fatos são diferentes: com o Real, a população pobre diminuiu de 35% para 28% do total. A pobreza continuou caindo, com alguma oscilação, até atingir 18% em 2007, fruto do efeito acumulado de políticas sociais e econômicas, entre elas o aumento do salário mínimo. De 1995 a 2002, houve um aumento real de 47,4%; de 2003 a 2009, de 49,5%. O rendimento médio mensal dos trabalhadores, descontada a inflação, não cresceu espetacularmente no período, salvo entre 1993 e 1997, quando saltou de R$ 800 para aproximadamente R$ 1.200. Hoje se encontra abaixo do nível alcançado nos anos iniciais do Plano Real.

Por fim, os programas de transferência direta de renda (hoje Bolsa-Família), vendidos como uma exclusividade deste governo. Na verdade, eles começaram em um município (Campinas) e no Distrito Federal, estenderam-se para Estados (Goiás) e ganharam abrangência nacional em meu governo. O Bolsa-Escola atingiu cerca de 5 milhões de famílias, às quais o governo atual juntou outras 6 milhões, já com o nome de Bolsa-Família, englobando em uma só bolsa os programas anteriores.

É mentira, portanto, dizer que o PSDB “não olhou para o social”. Não apenas olhou como fez e fez muito nessa área: o SUS saiu do papel à realidade; o programa da aids tornou-se referência mundial; viabilizamos os medicamentos genéricos, sem temor às multinacionais; as equipes de Saúde da Família, pouco mais de 300 em 1994, tornaram-se mais de 16 mil em 2002; o programa “Toda Criança na Escola” trouxe para o Ensino Fundamental quase 100% das crianças de sete a 14 anos. Foi também no governo do PSDB que se pôs em prática a política que assiste hoje a mais de 3 milhões de idosos e deficientes (em 1996, eram apenas 300 mil).

Eleições não se ganham com o retrovisor. O eleitor vota em quem confia e lhe abre um horizonte de esperanças. Mas se o lulismo quiser comparar, sem mentir e sem descontextualizar, a briga é boa. Nada a temer.

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São Jorge desceu do retrato para animar outra farra no bordel

31 de janeiro de 2010

A data escolhida para a consumação do golpe ─ 28 de janeiro de 2010 ─ pareceu mais que perfeita aos planejadores. Primeiro, porque nesse dia as salas de cinema do país inteiro continuariam atulhadas de adoradores do Filho do Brasil, todos com o coração em descompasso e uma catarata de lágrimas jorrando de cada canto de olho, prontos para liquidar a pauladas os traidores da pátria. Ai de quem ousasse discordar da canetada do presidente Lula, desferida naquela quinta-feira para livrar quatro obras da Petrobras da interdição determinada pelo Tribunal de Contas da União.

Multidões de devotos dispostos a matar ou morrer pelo chefe são um trunfo e tanto. Mas outro ainda mais poderoso viria horas depois do drible no TCU. Para desespero da elite golpista, dos pessimistas profissionais, dos louros de olhos azuis e de Fernando Henrique Cardoso, em 29 de janeiro o Cara receberia na Suiça, no encerramento do Fórum Econômico Mundial, o título de Estadista Global. Já canonizado pelas plateias do Brasil, o maior dos governantes desde Tomé de Sousa voltaria da viagem reverenciado como santo universal por chefes de governo grávidos de gratidão pelo acesso ao segredo do milagre brasileiro: enquanto eles fazem tudo errado, revelaria o discurso de agradecimento, o presidente Lula acerta todas.

Esses feitos históricos forçariam a imprensa reacionária a confinar a agressão ao  TCU numa nota de pé de página. Se os jornalistas insistissem, o herói de cinema, estadista global  e modelo do mundo contaria que batera de frente com o tribunal para evitar que a consolidação do Brasil Potência fosse ameaçada pela paralisação das obras da Refinaria Abreu e Lima (PE), da Refinaria Presidente Vargas (PR), do terminal de Barra do Riacho (ES) e do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro.

Dois ou três improvisos depois do almoço bastariam para abafar a choradeira dos técnicos do TCU, que sustaram as obras quando confrontados com copiosas evidências de “irregularidades graves” ─ preços superiores aos de mercado, despesas superfaturadas, gastanças sem justificativas convincentes, projetos que um estagiário se recusaria a assinar e outros sintomas de corrupção epidêmica.

Os cérebros delinquentes só esqueceram de combinar com os outros ─ e de prever o imprevisível. Como faltou o acerto com os brasileiros, o dramalhão hagiográfico já figura na galeria dos grandes fiascos da história do cinema. Como faltou o acordo com o destino, uma crise de hipertensão mostrou que Lula é apenas um homem e cancelou a viagem à Suiça.

Escalado para a leitura do discurso de agradecimento, foi o chanceler Celso Amorim quem ensinou o que deve fazer um país para ser Brasil quando crescer: “Precisamos de um novo papel para os governos. e digo que, paradoxalmente, esse novo papel é o mais antigo deles: é a recuperação do papel de governar”. No momento em que a plateia multinacional foi apresentada à frase, corretamente  definida pelo jornalista Clóvis Rossi como “a quintessência do vácuo”, Lula estava de pijamas numa cama de hospital. Era apenas um homem doente.

A implosão do calendário criminoso obrigou o presidente a improvisar explicações para a audácia. Alegou que a retomada das obras permitirá a recriação de 25 mil empregos. (Se a preservação de postos de trabalho é mais importante que o respeito à lei, o governo deve estimular e subsidiar a utilização da mão de obra dos morros pelos bandos do narcotráfico). Alegou que o governo perde muito dinheiro com a interrupção das obras. (Quem perde são os pagadores de impostos, vítimas de administradores ineptos e venais). Fez de conta que não agiu fora da lei sobretudo para melhorar a agenda eleitoral que divide com Dilma Rousseff, até aqui dominada por inaugurações de creches e pedras fundamentais. E para melhorar a vida de empreiteiros que saberão retribuir a gentileza com o custeio de despesas de campanha.

Agora se sabe por que Lula atravessou o ano tentando desmoralizar o TCU e achincalhando todos os organismos que ousaram apontar os incontáveis canteiros do PAC infectados pela ladroagem. Agora se sabe porque afirmou que o PAC da Copa só chegará a bom porto se percorrer a rota que passa ao largo da lei e da moralidade administrativa. Agora se sabe que, no 28° Dia do Ano da Graça de 2010, o Padroeiro dos Pecadores Companheiros achou pouco absolver, abençoar ou proteger os corruptos festejando no salão.

Depois de sete anos pendurado na parede, nosso São Jorge do Agreste desceu do retrato para confraternizar com os farristas ─ e patrocinar outra festança no bordel.

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Distração fatal

30 de janeiro de 2010

“Certamente o Brasil teve um bom presidente antes de Lula, que contribuiu para o sucesso de agora”.

Guido Mantega, durante um almoço com jornalistas e autoridades estrangeiras no Fórum Econômico de Davos, ameaçando Lula com outro piriPAC e arriscando-se a ser demitido por ter esquecido a “herança maldita” de FHC.

Em quatro partes, o resumo da entrevista com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso

9 de dezembro de 2009

Parte 1

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso conta como foi a montagem da equipe que coordenou a transição entre o governo que saía e o que entrava e recorda o nervosismo do mercado às vesperas da eleição com o  chamado de “efeito Lula”. FHC também comenta a oposição implacável dos congressistas do PT, que votaram contra todos os projetos do governo, entre os quais o Plano Real e a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Parte 2

Fernando Henrique diz que não mudaria nada no processo de privatização acelerado durante o seu governo. Afirma que, entre outras mudanças saudáveis, a redução do mamute estatal transformou a Vale do Rio Doce, de um cabide de empregos, na Vale que é hoje uma das empresas mais lucrativas do mundo. O ex-presidente realça a importância das agências reguladoras e oferece explicações para parcerias com personagens como  Renan Calheiros ou Romero Jucá.

Parte 3

O ex-presidente garante que jamais fez acordos com Judas para conseguir governar ou para fechar alianças com o PFL e o PMDB. Para FHC, o mensalão foi a grande moeda de troca dos petistas, que a usaram não para conseguir a aprovação de projetos, mas para assegurar a submissão do Legislativo. Ele conta que o governo Lula recusou a ideia de elaborar, em parceria com o PSDB, uma pauta de grandes questões nacionais a resolver.  FHC analisa semelhanças e diferenças entre os projetos sociais que implantou e os conduzidos pelo atual governo.

Parte 4

FHC lembra que seu governo tinha 23 ministérios, 13 a menos que o atual, e se diz preocupado com o inchaço da máquina administrativa. Ao analisar o quadro da América Latina redesenhado por governos que se qualificam de esquerdistas, Fernando Henrique critica as mudanças na política externa brasileira. Na crise de Honduras, exemplifica, o Brasil perdeu uma excelente oportunidade de agir como um pacificador de conflitos regionais. A entrevista termina com a descrição do dia a dia do ex-presidente que acaba de escolher o título do próximo livro: ”Lembrando o que escrevi”.

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Ruth Cardoso vs. Dilma: 400 a 0

26 de novembro de 2009

Ruth Cardoso foi a prova definitiva de que milagres civilizatórios ocorrem mesmo nos grotões do planeta. A discreta e talentosa paulista de Araraquara, que se casou muito jovem com o sociólogo carioca Fernando Henrique Cardoso, seria a única primeira-dama a desembarcar em Brasília com profissão definida, luz própria e opiniões a emitir ─ sempre com autonomia intelectual e, se necessário, elegante contundência. Durante oito anos, o brilho da mulher que sabia o que dizia somou-se à luminosidade da antropóloga respeitada em muitos idiomas para clarear o coração do poder.

No fim de 1994, por não imaginarem com quem logo lidariam, muitos jornalistas ouviram com ceticismo a justificativa apresentada pelo presidente eleito para a viagem à Rússia: “Vou como acompanhante da Ruth”. Ela participaria como palestrante de um congresso de antropologia promovido em Moscou, ele aproveitaria para descansar alguns dias. Nenhum repórter cuidou de conferir o desempenho da palestrante. Perderam todos a chance de descobrir que Ruth era muito mais que a mulher do n° 1.

A melhor e mais brilhante das primeiras-damas abdicou do título já no dia da posse do marido. “Isso é uma caricatura do original americano, esse cargo não existe”, resumiu numa entrevista. Se não existia, Ruth inventou-o.  Sem pompas nem fitas, longe de fanfarras e rojões, montou o impressionante conjunto de ações enfeixadas no programa Comunidade Solidária. Em dezembro de 2002, os projetos em execução mobilizavam 135 mil alfabetizadores, 17 mil universitários e professores, 2.500 associações comunitárias, 300 universidades e 45 centros de voluntariado.

Acabou simbolicamente promovida a primeira-dama da República no dia da morte que pareceria prematura ainda que tivesse mais de 100 anos. A cerimônia do adeus comprovou que o Brasil se despedia, comovido, de alguém que o fizera parecer menos primitivo, mais respirável, menos boçal. E que merecia ter morrido sem conhecer a fábrica de dossiês cafajestes da Casa Civil chefiada por Dilma Rousseff.

Instruída para livrar o governo da enrascada em que se metera com a gastança dos cartões corporarativos, Dilma produziu um papelório abjeto que tentava reduzir Fernando Henrique e Ruth Cardoso a perdulários incuráveis, uma dupla decidida a desperdiçar o dinheiro da nação em vinhos caros e futilidades gastronômicas. Dilma foi a primeira a agredir uma mulher gentil, suave, e também por isso tratada com respeito até por ferozes inimigos do marido.

A fraude que virou candidata à presidência anda propondo que o país compare Fernando Henrique a Lula. Qualquer partido mais competente e menos poltrão teria topado há muito tempo esse confronto entre a seriedade e a bravata, entre o conhecimento e a ignorância, entre o moderno e o antigo, entre o real e o imaginário. Como o PSDB prefere capitular sem combate, poderia ao menos sugerir que se compare Dilma Rousseff a Ruth Cardoso. A Mãe do Pac talvez aprenda como se chega a um placar de 400 a zero.

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FHC: o último bloco está no ar

20 de novembro de 2009

Dividido em cinco partes, o último bloco da entrevista com Fernando Henrique Cardoso é uma sequência de revelações e análises que completa a incursão de quase duas horas pela história real do Brasil. Confira e comente na seção O País quer Saber.