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estupro

01/10/2011

às 8:00 \ Direto ao Ponto

Com tantas meninas estupradas por aí, a ministra Iriny decidiu que o problema da mulher é Gisele Bündchen. Foto explica

Em 31 de outubro de 2007, uma menina com 15 anos, 1m50 de altura e 38 quilos foi presa por tentativa de furto numa casa de Abaetetuba, cidade paraense a quase 100 quilômetros de Belém. Durante o interrogatório, declarou a idade à delegada de plantão Flávia Verônica Monteiro Teixeira. Por achar o detalhe irrelevante, a doutora determinou que fosse trancafiada na única cela do lugar, ocupada por homens. Já naquela noite, e pelas 25 seguintes, o bando de machos se serviu da única fêmea disponível.

Depois de 10 dias de cativeiro, a garota foi levada à sala da juíza Clarice de Andrade. Também informada de que a prisioneira tinha 15 anos, a segunda doutora da história resolveu devolvê-la à cela. A descoberta do monumento ao absurdo não reduziu a força do corporativismo criminoso: por decisão do Tribunal de Justiça do Pará, ficou estabelecido que o comportamento da juíza Clarice não merecia qualquer reparo. Meses mais tarde, a magistrada foi punida com a aposentadoria compulsória pelo Conselho Nacional de Justiça.

A Secretaria de Políticas para as Mulheres, uma inutilidade inventada pelo governo Lula, não deu um pio sobre o caso.

O pesadelo ocorrido em 2007  foi reprisado há três semanas na colônia penal agrícola Heleno Fragoso, que abriga 320 condenados em Santa Isabel do Pará, a 70 quilômetros de Belém. Desta vez, de novo com a conivência de funcionários da instituição, uma brasileira de 14 anos ficou quatro dias em poder de cinco presos. “Eu e outras duas meninas que ficaram lá também”, informou a garota em 19 de setembro. “Lá dentro eles obrigaram a gente a usar droga e a beber. Eles esqueceram a porta aberta, porque lá eles deixam a porta trancada. Foi quando consegui fugir”.

A Secretaria de Políticas para as Mulheres, uma inutilidade mantida por Dilma Rousseff, não deu um pio sobre o caso. Não se sabe qual é a posição que meninas violentadas em cadeias ocupam no ranking de prioridades de Iriny Lopes, ministra-chefe da secretaria.

O que o país acaba de descobrir é que a lista é encabeçada pelas peças  publicitárias da Hope Lingeries protagonizadas por Gisele Bündchen. Lançada no dia 20, a campanha mostra qual é a melhor maneira de transmitir más notícias ao marido. No vídeo abaixo, por exemplo, Gisele primeiro conta que bateu o carro usando trajes pouco sedutores. Esse é o método errado. Em seguida, ela repete a notícia semivestida com uma lingerie da Hope. É muito mais sensual. E é esse o jeito certo. “Você é brasileira, use seu charme”, ouve-se dizer uma voz masculina. Confira:

No terceiro dia da campanha, movida por “diversas manifestações de indignação contra a peça”, Iriny contra-atacou com dois ofícios. Num, comunicou ao empresário Sylvio Korytowski, diretor da Hope, seu “repúdio” ao desempenho da top model. Noutro, pediu ao Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, o Conar, que o comercial fosse suspenso. Como a subserviência e a pressa andam de mãos dadas, já nesta quinta-feira o Conar abriu processo contra Gisele de calcinha e sutiã. Atendeu a queixas formuladas por 15 espectadores. Isso mesmo: quinze.

Quinze mais Iriny: “A propaganda promove o reforço do estereótipo equivocado da mulher como objeto sexual de seu marido e ignora os grande avanços que temos alcançado para desconstruir práticas e pensamentos sexistas”, declama a ministra. “Também reforça a discriminação contra a mulher, o que infringe a Constituição Federal”. Os avanços passam ao largo de cadeias em delegacias e presídios no campo. E o governo só consegue enxergar discriminação num comercial de alguns segundos na TV.

A exemplo dos colegas de primeiro escalão, Iriny não assina sequer um cartão de Natal sem a autorização de Dilma Rousseff. (Embora não consiga lidar com mais de um assunto por vez, o neurônio solitário faz questão de ser consultado até sobre o cardápio das recepções no Itamaraty). É claro que a ofensiva de Iriny foi combinada com quem, depois de se tornar a primeira mulher a abrir uma assembleia da ONU, virou doutora em questões femininas.

O Brasil anda infestado por tumores que crescem sob o olhar complacente do governo. Exploradores da prostituição infantil, pedófilos impunes,  pais que violentam filhos e outras obscenidades vão transformando o país num viveiro de crianças traídas. Com tantas meninas estupradas por aí, Iriny cismou com Gisele Bundchen. Eis um caso que foto explica.

16/08/2011

às 18:02 \ Feira Livre

Caso DSK: camareira Nafissatou Diallo foi estuprada, conclui laudo médico

TEXTO PUBLICADO NO SITE DO GLOBO NESTA TERÇA-FEIRA

“Diagnóstico: agressão. Causa de ferimentos: agressão. Estupro”. Estas foram as conclusões do laudo médico feito por um hospital nova-iorquino no dia 14 de maio último, na camareira Nafissatou Diallo, suposta vítima do ex-diretor-gerente do FMI o francês Dominique Strauss-Kahn, revelou nesta terça-feira a revista francesa “L’Express”. Segundo o semanário, na última página do relatório, uma marcação de caneta em uma imagem escaneada da vagina de Nafissatou aponta o local da lesão.

A camareira da rede de hotéis Sofitel chegou ao hospital de St. Luke’s Roosevelt, em Manhattan, por volta das 16h do dia 14 de maio. O relatório relembra o estado de Nafissatou no momento do exame como “alerta” e afirma que ela usou ” modo narrativo, com interrupções e marcas para pausas para descrever o ato de violação”. O documento ainda frisa que a camareira manteve durante toda a entrevista o mesmo relato: “ele (Strauss-Kahn) me empurrou e me forçou a fazer sexo oral”.

DSK, como é conhecido na França, sempre alegou inocência, apesar das sete acusações que enfrenta, entre elas tentativa de estupro e agressão sexual. No início do mês de julho, o francês, que até então se via diante de uma situação de condenação quase que sem volta, foi libertado da prisão domiciliar, depois que a investigação da Promotoria de Nova York descobriu ligações entre Nafissatou e um traficante de drogas.

A revelação do laudo, porém, pode voltar a complicar sua defesa, já que o exame confirma o depoimento da acusação. O exame ainda indicou o rompimento de uma ligação no ombro da camareira, como seu próprio, Kenneth Thompson, informara à imprensa no mês de julho.

21/06/2011

às 21:00 \ Frases

Erro criminoso

“Ele errou? Errou. Caiu no descuido, teve dois minutos errados na vida dele”.

Karina Gomes, gerente da empresa que faz a segurança na boate paulistana Kiss and Fly, sobre o bombeiro acusado de ter estuprado uma jovem.

16/05/2011

às 23:01 \ Direto ao Ponto

Cinco anos depois do estupro da conta bancária do caseiro, chegou a hora de conferir as contas de Palocci

A segunda semana de maio começou com a última do companheiro José Dirceu: em 2009, depois de contratar os serviços da J. D. Assessoria e Consultoria, a empreiteira Delta transformou-se numa das favoritas do reino e faturou R$ 733 milhões ─ o dobro do ano anterior ─ com encomendas de obras públicas. Ainda não se sabe quanto o ex-chefe da Casa Civil lucrou com os palpites que deu. A terceira semana de maio começou com a última do companheiro Antonio Palocci: entre 2006 e 2010, o deputado federal do PT exerceu com tamanha competência o ofício de consultor que multiplicou por 20 o patrimônio pessoal. Ainda não se sabe quanto lucraram os clientes com os palpites que ouviram do atual chefe da Casa Civil.

“O ministro Palocci declarou os seus ganhos à Receita Federal”, disse nesta segunda-feira o presidente do PT, Rui Falcão. “É um assunto encerrado”. Encerrado coisa nenhuma: da mesma forma que a última do Dirceu, a última do Palocci mal começou. O ex-ministro precisa explicar o milagre da multiplicação do patrimônio de um cliente. O ainda ministro precisa explicar o milagre da multiplicação do próprio patrimônio. E ambos precisam contar o que fazem exatamente para ganhar tanto dinheiro em tão pouco tempo.

Que tipo de serviço prestam os dois consultores? Quanto cobram dos interessados? Quem são os clientes? Como tem sido a evolução patrimonial da freguesia? Sobretudo, que espécie de informação fornecem o ex-capitão do time de Lula e o homem mais poderoso do governo Dilma Rousseff? Afastados do Planalto por envolvimento em escândalos de bom tamanho, eles sempre mantiveram desimpedidos os atalhos que levam a informações privilegiadas de grosso calibre. Usá-las para ganhar dinheiro é uma agressão à ética. Dependendo do conteúdo, é crime.

A volta da dupla ao noticiário político-policial acabou ofuscando outros espantos que fizeram da primeira quinzena de maio um dos atos mais delirantes da interminável Ópera dos Malandros. A procissão de assombros começou com o andor do Conselho de Ética do Senado, atulhado de pais-da-pátria cujos prontuários lhes permitem falar de igual para igual com qualquer figurão do PCC. Até a aparição de Palocci com dinheiro caindo dos bolsos, a passagem dos destaques não cessou.

Descobriu-se que a ministra da Cultura, Ana de Hollanda, cobrava diárias para descansar aos sábados e domingos em sua casa no Rio. Para festejar a volta ao PT do meliante Delúbio Soares, 200 candidatos à cadeia reuniram-se num churrasco no interior de Goiás. O ministro Nelson Jobim pendurou a Medalha do Patriota, reservada a quem presta relevantes serviços ao Exército, no peito de José Genoíno, ex-guerrilheiro e mensaleiro juramentado à espera de julgamento no Supremo Tribunal Federal.

Com o aval do Congresso, o governo triplicou o preço da energia paga ao Paraguai. No momento, tenta aprovar a Medida Provisória que entrega às empreiteiras a fixação do custo das obras vinculadas à Copa do Mundo. A Comissão de Anistia indenizou com R$ 1,5 milhão o companheiro Rui Falcão, para compensá-lo por perseguições políticas que não o impediram de subir na vida. A presidente Dilma Rousseff decidiu que só são miseráveis os brasileiros que ganham menos de R$ 70 por mês. A inflação ultrapassou o texto de 6,5%.

O chanceler Antonio Patriota comunicou ao Ministério Público Federal que não vai devolver os passaportes diplomáticos concedidos, “no interesse do país”, a quatro filhos e três netos do ex-presidente Lula. O Ministério da Educação chancelou um livro didático que ensina aos alunos do curso fundamental que falar errado está certo. Tudo isso aconteceu em 15 dias. Fora o caso Dirceu. Fora a constatação de que Palocci não se emenda.

O que tem a dizer a oposição? Muitos parlamentares compreenderam que, cinco anos depois do estupro da conta bancária do caseiro Francenildo Costa, chegou a hora de conferir as contas bancárias de Antonio Palocci e cobrar-lhe esclarecimentos. O candidato à presidência que apoiaram, de novo, evitou o risco de colisões frontais.  “Não tenho o papel de julgador a esse respeito”, desconversou José Serra nesta segunda-feira, à saída de um encontro com Rui Falcão. “Acho normal que uma pessoa tenha rendimentos quando não está no governo e que esses rendimentos promovam uma variação patrimonial”.

Nunca pareceu tão fácil opor-se a um governo. Nunca pareceu tão difícil encontrar políticos dispostos a fazer oposição.

04/09/2010

às 22:44 \ Direto ao Ponto

O anjo-da-guarda da bandidagem federal mostra a falta que um Sobral Pinto faz

Em julho de 2005, foi Márcio Thomaz Bastos, então ministro da Justiça, quem aconselhou o presidente da República e seus delinquentes de estimação a transformarem o escândalo do mensalão numa edição revista e atualizada do velho caixa dois. Não houve uma roubalheira de dimensões siderais, ensinou o anjo-da-guarda da bandidagem federal. Houve apenas uma acumulação um tanto descuidada de “recursos não-contabilizados”.

Cinco invernos depois, foi Márcio Thomaz Bastos quem teve a ideia de transformar o estupro do sigilo fiscal de adversários do governo — um afrontoso pontapé na Constituição — como uma malandragem brasileiríssima, uma safadeza rotineira, generalizada e sem nada a ver com política ou eleições. É Márcio Thomaz Bastos quem dita o que andam declamando tanto o chefe de governo como o resto do palanque.

Quando, por exemplo, um Guido Mantega diz que nenhum sistema é inviolável (nem o da urna eletrônica, presume-se), pode-se ouvir com nitidez a voz do inventivo criminalista. Quando nasce aparentemente do nada uma lista que junta dezenas de anônimos e um punhado de figuras que nunca frequentaram comícios, é dele a mão que a balança no berço. Se até a apresentadora Ana Maria Braga entrou na trama do mafuá de Mauá, por que estranhar a presença na multidão de vítimas de Verônica Serra e alguns tucanos ligados ao candidato da oposição? Crime político, está avisando o truque, é coisa que só existe na cabeça da turma da teoria conspiratória.

Os amigos do doutor deveriam aproveitar a próxima festa de aniversário para ler em voz alta, na hora de apagar as velas, o trecho do post aqui publicado em maio de 2009. Trata de um episódio protagonizado pelo advogado Heráclito Fontoura Sobral Pinto e pelo poeta Augusto Schmidt. E merece ser ouvido ao menos uma vez por gente que se vale da competência profissional e da astúcia congênita para favorecer a institucionalização da injustiça, para impedir a punição dos culpados e para dar passagem aos inimigos do estado democrático de direito.

Sobral e Schmidt eram amigos de muitos anos quando conversaram por telefone em 16 de outubro de 1944. Além de versos, Schmidt sabia também fazer dinheiro como editor, intermediário de transações financeiras e ocupante de cargos públicos. Naquele dia, foi o empresário quem ligou, para pedir ao jurista que reservasse todo o dia 20 ao exame da documentação que lhe permitiria representá-lo numa causa de natureza trabalhista.

Sobral informou que, antes de aceitar o serviço, teria de verificar se o candidato a cliente tinha razão. Advogado não é juiz, replicou Schmidt. Ouviu outra vez que o convite só seria aceito depois do exame eliminatório. Como tudo teria de ser feito até o dia 21, ponderou Sobral, Schmidt talvez devesse contratar outro defensor. A conversa não deve ter terminado bem, atesta a carta remetida pelo advogado no dia seguinte. É uma luminosa aula de Direito. E uma irretocável lição de vida.

”O primeiro e mais fundamental dever do advogado é ser o juiz inicial da causa que lhe levam para patrocinar”, ensina o doutor Sobral. “Incumbe-lhe, antes de tudo, examinar minuciosamente a hipótese para ver se ela é realmente defensável em face dos preceitos da justiça. Só depois de que eu me convenço de que a justiça está com a parte que me procura é que me ponho à sua disposição”. A regra vale também para velhos amigos? Claro que sim: “Não seria a primeira vez que, procurado por um amigo para patrocinar a causa que me trazia, tive de dizer-lhe que a justiça não estava do seu lado, pelo que não me era lícito defender seus interesses”.

Vista por Sobral Pinto, “a advocacia não se destina à defesa de quaisquer interesses. Não basta a amizade ou honorários de vulto para que um advogado se sinta justificado diante de sua consciência pelo patrocínio de uma causa. (…) O advogado não é, assim, um técnico às ordens desta ou daquela pessoa que se dispõe a comparecer à Justiça. (…) O advogado é, necessariamente, uma consciência escrupulosa ao serviço tão só dos interesses da justiça, incumbindo-lhe, por isto, aconselhar àquelas partes que o procuram a que não discutam aqueles casos nos quais não lhes assiste nenhuma razão”.

A aula termina com palavras que deveriam ser reproduzidas em bronze nos pórticos das faculdades de Direito:  ”É indispensável que os clientes procurem o advogado de suas preferências como um homem de bem a quem se vai pedir conselho. (…) Orientada neste sentido, a advocacia é, nos países moralizados, um elemento de ordem e um dos mais eficientes instrumentos de realização do bem comum da sociedade”.

Pelo que andam fazendo nestes tempos estranhos, raríssimos bachareis concordam com Sobral Pinto. Não lhes interessam atenuantes que abrandem o castigo merecido, não lhes passa pela cabeça dar razão a quem tem. Preferem recitar que todo acusado tem direito a um advogado — uma verdade que ninguém contesta — e imediatamente abrir o cortejo de mentiras promovido para manter em liberdade clientes sabidamente culpados.

No Brasil da Era Lula, os bachareis que cobram por hora assumem sem constrangimentos o papel de de cúmplice de bandidos irrecuperáveis. Pena que o doutor Sobral não tenha vivido para, em mais uma carta irretocável, dizer-lhes claramente o que são.

31/08/2010

às 21:08 \ Direto ao Ponto

Entrada da filha de Serra na lista do mafuá de Mauá amplia o roteiro do programa que tem tudo para virar campeão de audiência

Acossada pela descoberta de que outros quatro tucanos ligados a José Serra foram vítimas da mesma violência imposta a Eduardo Jorge Caldas Pereira, vice-presidente do PSDB, a direção da Receita Federal resolveu descobrir que mais de 130 contribuintes sem filiação partidária tiveram o sigilo fiscal quebrado ilegalmente pelo infatigável computador do mafuá de Mauá. Se ninguém nessa multidão foi estuprado por motivos políticos, raciocinaram os companheiros do Fisco, está claro que não houve motivação política no estupro dos aliados do candidato presidencial da oposição.

Parece piada? É só mais uma evidência de que a mente criminosa fica bem menos inventiva quando dispensada do medo da cadeia, reafirmou a discurseira do corregedor da Receita, Antonio Carlos Costa D´Ávila: “Foi identificado um esquema de compra e venda de informações por meio de propina”. E daí?, berraria de volta o Brasil se, como estranhou o juiz federal Antonio Carlos Macedo da Silva no despacho em que autorizou o acesso de Eduardo Jorge às investigações da Receita, não “parecesse conviver com tranquilidade com delitos gravíssimos”.

O que tem a ver uma coisa com outra?, teria ouvido em seguida o corregedor se o barulho do camburão estacionando em frente sobressaltasse também figurões com culpa no cartório. Ainda que a lista dos 138 estuprados fosse verdadeira, serviria apenas para acrescentar que o crime se consumou numa repartição da Receita reduzido a casa de tolerância fiscal. “Enrolação”, resumiu Eduardo Jorge, secretário-geral da Presidência da República durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, ao ouvir o palavrório de sexta-feira. Deve ter repetido o sucinto parecer nesta terça-feira, ao topar com o relatório de cinco páginas encaminhado pelo corregedor ao Ministério Público Federal.

Os 138 estuprados caíram fora, junto com o balcão de compra e vendas anabolizado por propinas milionárias. Em contrapartida, entrou na relação das vítimas a empresária Verônica Serra, filha do candidato à Presidência. Por conta desse estupro, Lúcia de Fátima Gonçalves Milan engrossou a lista de funcionárias suspeitas que já incluía Adeildda Ferreira, dona do computador, Antônia Aparecida Rodrigues, dona da senha, e Ana Maria Caroto Cano, cedida à agência especializada em estupros pelo Serviço Nacional de Processamento de Dados (Serpro). É delas que o corregedor está falando quando desconfia da “existência de conduta que, em tese, poderia configurar prática de crime comum pelas servidoras”.

Nem mesmo a entrada de Verônica Serra na lista dos afrontados induziu a direção da Receita a desistir da versão de que a invasão foi arquitetada por uma quadrilha de criminosos comuns que lucra com o comércio de informações reservadas. Chega de enrolação, gritariam todos os 200 milhões de brasileiros se tantos não estivessem emudecidos pela abulia. Isso não impedirá que o país que presta siga exigindo a identificação dos executores e, sobretudo, dos mandantes de um crime escancaradamente vinculado a interesses políticos, partidários e eleitorais. A trama foi desencadeada em 8 de outubro de 2009. Precisa ser elucidada antes de comemorar o primeiro aniversário. Antes do primeiro turno da eleição.

Faz quase um ano que, em apenas 16 minutos, foram sucessivamente devassadas as declarações de renda de Luiz Carlos Mendonça de Barros, ministro das Comunicações no governo de Fernando Henrique Cardoso, Gregório Marin Preciado, marido de uma prima de Serra, Ricardo Sérgio de Oliveira, ex-diretor do Banco do Brasil e tesoureiro das campanhas de Serra e FHC, Ronaldo de Souza, ex-sócio de Ricardo Sérgio, e Eduardo Jorge.

Em maio, como recorda a edição desta semana, VEJA descobriu que Luiz Lanzetta, um jornalista a serviço do comitê organizador da campanha de Dilma Rousseff, cuidava da montagem de um dossiê contra José Serra. A reportagem revelou que o papelório já havia incorporado as informações obtidas ilegalmente no mafuá de Mauá. Para descobrir quem vendeu e quem comprou ou tentou comprar, basta a quebra do sigilo telefônico de meia dúzia de personagens. O resto é enrolação, já disse Eduardo Jorge.

Ele sabe com quem está lidando. Quando estava no Palácio do Planalto e o PT na oposição, o secretário-geral do governo FHC foi obsessivamente alvejado com denúncias fantasiosas pelo finório Luiz Francisco de Souza, procurador-regional da República e procurador-nacional do PT. No ano passado, o Conselho Nacional do Ministério Público reconheceu formalmente que Eduardo Jorge, enfim absolvido das acusações sem fundamento, foi perseguido por motivos políticos e condenou o perseguidor a 45 dias de suspensão. Menos de 12 meses depois de oficialmente inocentado, soube que os pastores da infâmia atacaram de novo, agora entrincheirados no coração do poder. Igualmente perseverante, retomou a briga decidido a vencer pela segunda vez.

Oferecido a um produtor de seriado policial americano, o caso do estupro fiscal seria recusado por falta de mistério: qualquer espectador identificaria os bandidos em menos de 10 minutos. Basta descobrir de que modo as informações confidenciais foram parar num dossiê planejado por gente a serviço do PT. Pelo mesmo motivo, a história pode render uma série de programas muito atraentes no horário eleitoral da oposição. Tem tudo para transformar-se num campeão de audiência.

27/08/2009

às 22:17 \ Direto ao Ponto

O país que absolve o culpado e pune a vítima mostra a cara na TV

A poucas horas do começo da sessão que inocentou Antonio Palocci, o caseiro desempregado Francenildo Costa continuava pouco animado com a ideia de assistir ao julgamento no Supremo Tribunal Federal. Ainda não vira a cor do dinheiro que  a Caixa Econômica já deveria ter pago há muito tempo pela quebra criminosa do sigilo bancário. Teria de arrumar um terno. E desconfiava que a coisa iria dar em nada.  ”Eles sempre se ajudam”, previu.

Esse ceticismo vinha sendo alimentado havia dois anos e meio. Desde março de 2006, quando a delinquência se consumou, Francenildo colheu sucessivas evidências de que o Brasil já não se limita a absolver pecadores. Também pune inocentes. Por ter contado que Palocci aparecia com frequência na mansão suspeitíssima que jurou não conhecer, o caseiro da “República de Ribeirão Preto” perdeu o emprego, o sossego, a mulher e a chance de conseguir trabalho fixo em Brasília. O culpado ficou dois meses deprimido com a perda do empregão, mas se elegeu deputado e, sem contas a ajustar com tribunais, poderia escolher entre a volta ao primeiro escalão e a candidatura ao governo de São Paulo. A depressão se foi faz muito tempo.

Convencido pelo advogado, que também lhe emprestou o terno, Francenildo chegou ao STF disposto a depor. Os ministros negaram-se a saber o que tinha a dizer. Quando entrou no plenário, ficou intrigado com aquelas capas longas e pretas. Quando a sessão começou, ficou confuso. Nunca ouvira alguém falando juridiquês. Se o advogado não traduzisse o que diziam os doutores, não teria entendido uma vírgula da discurseira.

Se o intérprete improvisado não censurou momentos especialmente inverossímeis, soube que sentou no banco dos réus durante o falatório do advogado José Roberto Batochio. Para salvar a pele do cliente, o defensor de Palocci voltou a lançar suspeitas sobre o dinheiro que a vítima recebeu do pai. E insinuou que, durante algum tempo, investigadores da Polïcia Federal e o caseiro de alta periculosidade conspiraram contra o ministro da Fazenda, a ordem, o progresso e a estabilidade da moeda.

Relator do caso, Gilmar Mendes admitiu que o sigilo foi quebrado e que o extrato da conta violada foi entregue a Palocci. Mas não havia provas de que o chefe participou ativamente do crime, decidiu o presidente do STF, balizando o caminho que percorreria ─ e que seria seguido por cinco ministros. Quatro optaram pela sensatez e pela lógica. Se o caseiro não desmentisse o ministro, o estupro não teria ocorrido, certo? Se fossem localizadas irregularidades na conta, Palocci conseguiria desqualificar o testemunho de Francenildo e manter-se no cargo, certo? Gilmar Mendes achou pouco. Queria provas. Não explicou com clareza quais seriam.

Talvez aceitasse a denúncia se o mandante e único beneficiário do estupro fosse pessoalmente à agência da CEF, obrigasse o gerente a descobrir bandalheiras na conta e entregasse a papelada, em mãos, aos amigos da imprensa.  Como não fez isso, sobrou para Jorge Mattoso, ex-presidente da CEF. E, mais uma vez, para o caseiro. Sempre sobra.

As legendas na tela informavam que estava em curso, transmitido ao vivo pela TV Senado, o julgamento da ”Pet 3898 – MPF x Antonio Palocci Filho e outros”. Pet de petição, MPF de Ministério Público Federal. O som e as imagens foram muito além do prometido. Foram escancarados, naquela quinta-feira, alguns traços perversos da alma do país: a verborragia, a arrogância, o farisaísmo, a demagogia carnavalesca, a Justiça injusta, a erudição pernóstica, o cinismo, a hipocrisia, a desconversa farsesca, a esperteza, a miopia malandra. Viu-se a alma e e viu-se a cara, em sua sórdida inteireza, do Brasil que absolve os Paloccis e castiga os Francenildos.


 

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