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12/04/2011

às 16:16 \ Direto ao Ponto

Quando acontece uma tragédia, o governo esquece a anterior e espera a próxima

Se antes esquecia a cada 15 anos o que acontecera nos últimos 15 anos, o Brasil passou a esquecer a cada mês o que aconteceu nos 30 dias anteriores. Tão curta quanto a memória da nação, a agenda do governo não tem espaço para mais que uma tragédia por vez. Quando acontece uma nova, a mais recente fica irremediavelmente antiga e as promessas são substituídas por outras, que serão também esquecidas assim que vier outro momento dramático.

A catástrofe na Região Serrana, que já era uma lembrança remota, parece coisa dos tempos do Império depois da chacina na escola em Realengo. De olho nos holofotes, câmeras e gravadores, a presidente Dilma Rousseff e o governador Sérgio Cabral têm outros mortos a prantear, outras famílias a consolar e, sobretudo, outras promessas a fazer. Que também não serão cumpridas: alguma tragédia nova haverá de socorrê-los.

O dever do país que presta é impedir que se esqueça o que ocorreu e o que foi prometido ─ o esquecimento é uma segunda morte. Há dois dias, a coluna confrontou a inépcia criminosa dos governantes brasileiros com a objetividade exemplar exibida pelo Japão, surpreendido por um desastre natural ainda mais devastador. As fotos abaixo reproduzidas justificam a retomada do tema: as imagens escancaram o abismo que separa gente séria dos fanfarrões.

Um mês depois dos deslizamentos e inundações na Região Serrana, milhares de sobreviventes continuavam (e continuam) acampados em abrigos improvisados em prédios, galpões e espaços vazios pertencentes ao poder público. Os sem-teto recolhidos a escolas, como os que aparecem na foto, já mudaram de endereço. Não foram transferidos para as casas prometidas por Dilma ─  nenhuma ficou pronta. Como as aulas recomeçaram, estão em outro acampamento.

As vítimas do terremoto e do tsunami que castigaram o Japão em 11 de março foram instaladas em alojamentos construídos pelo governo (foto à direita). Menos de um mês depois da tragédia, retomaram a vida em casas pré-fabricadas (à esquerda).

As imagens publicadas no blog do Ricardo Setti mostraram como ficou no apavorante 11 de março a autoestrada Tohoku , na província de Ibaraki.

As obras de reconstrução da rodovia, que liga Ibaraki a Tóquio, começaram em 17 de março. Seis dias mais tarde, a autoestrada foi liberada para o tráfego de veículos.

Os deslizamentos provocados pelas tempestades na Região Serrana transformaram a RJ-130, que liga Nova Friburgo a Teresópolis, numa estrada de terra de grotão. A foto comprova que, passado um mês, não havia sinais de que ali existira uma rodovia pavimentada.

O massacre de Realengo virou a página ensanguentada. Dilma está concentrada em outro minuto de silêncio, o governador Sérgio Cabral exige a reprise do referendo sobre o desarmamento, o prefeito Eduardo Paes promete um policial para cada escola. Até que venha mais uma tragédia. Então, também as crianças assassinadas serão engolidas pelo baú de velharias onde os gigolôs do sofrimento alheio acabam de enfiar mais de mil mortos e milhares de flagelados.

O Japão não é aqui.

24/08/2010

às 0:17 \ Direto ao Ponto

As tarifas do pedágio das estradas federais não incluem o preço cobrado em vidas

São Paulo seria melhor se fosse parecido com os demais Estados? O Brasil seria pior se os demais Estados ficassem parecidos com São Paulo? Números colhidos ao acaso informam que só podem responder afirmativamente às duas perguntas os cretinos fundamentais, os cegos por opção, os doidos de hospício e os obtusos irrecuperáveis de modo geral. Esses agem assim por idiotia. Mas há os que assim agem movidos pela esperteza. É o caso dos camelôs de palanque, tribo que tem como pajé o presidente da República.

Até Lula sabe que, apesar de também afetado por carências que castigam todas as regiões, o território paulista é o mais desenvolvido do país. O PIB estadual, por exemplo, representa 35% do PIB brasileiro ─ e desde o dia da posse de Lula a taxa de crescimento anual permanece 2 pontos percentuais acima do índice nacional. Apenas 55,2% dos municípios do Brasil-Maravilha  de Lula são alcançados por redes coletoras de esgoto. Circunscrito ao Estado, o índice sobe para 99,8% ─ e contribui para tornar um pouco menos apavorante a taxa nacional. A taxa de analfabetismo soma quase 10% da população brasileira, mais que o dobro da registrada em São Paulo.

Se tais descompassos se repetem em todos os setores, Lula deveria ao menos desconfiar de que a malha rodoviária paulista é coisa de europeu se confrontada com a teia de estradas federais. Um recente levantamento da Confederação Nacional do Transporte qualificou de “ótimas” ou “boas” 75% das rodovias paulistas. Todas  têm pista dupla (ou tripla), pavimentação cinco estrelas, serviço de atendimento aos motoristas em tempo integral e sistema de vigilância eficaz. As similares administradas pela União  têm pista única, crateras lunares, sinalização indigente, barreiras prestes a desabar, nenhuma fiscalização e, quando há, pavimentação de padrão africano.

Graças à imensa malha de vicinais asfaltadas, que ligam todos os municípios e distritos paulistas, os caminhos de terra sobrevivem nas grandes propriedades rurais. Em contrapartida, só 12,42% das estradas federais são pavimentadas. Nos últimos oito anos, com pouca ou nenhuma ajuda da União, o governo estadual construiu o Rodoanel, duplicou várias rodovias, manteve todas em excelente estado. O governo Lula não foi além de uma Operação Tapa-Buracos tão ruidosa quanto bisonha. Com exceção de São Paulo, todos os Estados têm a sua “rodovia da morte”. Todas são federais.

Mas há o problema do pedágio, animou-se o presidente que, desde sempre convencido de que a maior obra de um governante é eleger o sucessor, resolveu agora que o serviço não ficará completo sem a entrega do Palácio dos Bandeirantes a um Aloízio Mercadante. Com tempo de sobra por ter abandonado o emprego em Brasília, acampou em São Paulo, inaugurou a filial da fábrica de mentiras instalada no Planalto e entrou no saloon eleitoral chutando a porta.

“O pedágio em São Paulo é um roubo”, afirmou no sábado o padroeiro dos bandidos companheiros. Levou nesta segunda-feira o inesperado e merecidíssimo troco. “Nesse caso, todo pedágio do governo federal é um latrocínio, que é o roubo seguido de morte”, retrucou o governador Alberto Goldman. O presidente deveria ficar menos tempo a bordo do Aerolula e viajar mais pela terra firme. Com algumas incursões por São Paulo, talvez aprendesse que, diferentemente do que acontece com os impostos federais,  a maior parte do dinheiro arrecadado pelo pedágio é investida na malha rodoviária paulista. É um dos raríssimos tributos cuja destinação pode ser vista a olho nu.

Lula não inaugurou uma única rodovia importante, não cumpriu sequer a promessa de pavimentar a estrada que liga a antiga capital do Fome Zero, Guaribas, ao resto do mundo. Dilma Rousseff não transferiu do PAC para o Brasil real uma só das muitas oitavas maravilhas de papel. No ocaso da Era Lula, a dupla quer convencer os paulistas de que a linha mais curta entre o presente e o futuro é traçada pela régua do atraso. É tarde.

Sempre que criticar os caminhos de São Paulo, Lula deve ser convidado a cuidar das estradas que abandonou. Sempre que disser que o pedágio federal é mais barato, o presidente do país do faz-de-conta precisa ouvir que as tarifas não incluem o preço cobrado em desastres, lágrimas e vidas.

27/04/2010

às 2:52 \ Sanatório Geral

Herança maldita

“Foi muito importante fazer o Programa de Aceleração do Crescimento, ser mãe do PAC. Nós buscamos recuperar o abandono de décadas das estradas”.

Dilma Rousseff, garantindo aos caminhoneiros que todos os buracos que infernizam quem circula por estradas federais foram construídos por Fernando Henrique Cardoso e ampliados por José Serra.

29/10/2009

às 20:41 \ Direto ao Ponto

O PAC da Conversa Fiada

“Agora desgraçou tudo, porque agora os home tão ficando nervoso porque nós tamo inaugurando obra”, desandou o presidente Lula num palanque no Rio, espancando a língua portuguesa com especial selvageria. ”Calma, que nós ainda nem começamo a inaugurár o que nos temo para inaugurá nesse país. Tem muita coisa pra acontecêr e tem muita coisa que nós vamo fazê ainda pra frente.” Sempre à frente de uma comitiva de bom tamanho, não vinha de inauguração nenhuma, não estava a caminho de algum canteiro de obras nem aparecera no Rio para inaugurar alguma. Vinha da Procissão dos Pecadores do São Francisco, estava em território carioca para outro comício e, de lá para cá, só inaugurou pela segunda vez uma quadra usada na Mangueira.

Pelo andar da carruagem, Lula corre o risco de terminar o segundo mandato sem ter deixado pronta uma única obra física efetivamente relevante. A transposição do Rio São Francisco, as grandezas do pré-sal, as hidrelétricas do Rio Madeira, pontes, rodovias ─ tudo vai demorar. Acossado pelo tempo cada vez mais curto, o maior dos governantes culpa o Tribunal de Contas da União, o Ibama, o fiscal da esquina, o cartório, qualquer coisa. Quer inaugurar qualquer irrelevância. Até quadras de segunda mão.

Incapaz de criar, o governo não cuida direito nem do que existe, confirmou nesta quarta-feira o levantamento da Confederação Nacional dos Transportes sobre a situação das estradas do país. O estudo abrangeu quase 90 mil quilômetros de rodovias pavimentadas. Desse total, quase 70 % foram  reprovados. A rede federal é a mais devastada. Segundo a CNT, a recuperação da malha rodoviária exige investimentos que somam R$ 32 bilhões. Seis vezes mais do que o governo Lula gastou em 2008. O PAC vai acabar programando outra operação tapa-buraco para 2010. E o chefe já prometeu outro PAC para 2011, com prazo de validade até 2015.

Por enquanto, só avança em bom ritmo o PAC da Conversa Fiada.

22/10/2009

às 2:35 \ Sanatório Geral

Se almoçar, não dirija (88)

“Quando eu fazia oposição eu ficava nervoso porque não tinha obra! Não tinha escola, não tinha estrada, não tinha ponte, não tinha nada! O Estado não existia!”.

Lula, em Belo Horizonte, depois de um almoço mais demorado, informando que foi ele quem fez o Pátio do Colégio, o Colégio D. Pedro II, a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, a Via Dutra, a Rio-Bahia, a ponte Rio-Niterói, o Viaduto do Chá e o Estado brasileiro, fora o resto.


 

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