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Era da Mediocridade

04/02/2011

às 21:57 \ Direto ao Ponto

O 1º mês do 9º ano da Era da Mediocridade

Durante a campanha, a candidata Dilma Rousseff reiterou a promessa em todos os comícios, entrevistas, debates e programas no horário eleitoral: em quatro anos de governo, construiria 6 mil creches e 2 milhões de casas populares. Incluindo sábados, domingos e feriados, são quatro creches e 1.370 casas por dia. Como seria operado tamanho milagre?, intrigaram-se os que sabem fazer contas. Dilma sugeriu aos incrédulos que esperassem para ver. Melhor que esperem sentados, sugere o balanço de janeiro. Como não inaugurou sequer um pedra fundamental em 31 dias, Dilma já ficou devendo 124 creches e 41.100 casas.

Fora as 6 mil que prometeu aos brasileiros cujas moradias foram engolidas pelas enchentes na Região Serrana. A julgar pelo ritmo das obras do Programa Minha Casa, Minha Vida, os mais de 20 mil flagelados vão continuar por muito tempo amontoados em acampamentos improvisados. Terão de aguardar a entrega das chaves com a mesma paciência exibida pelos baianos de Feira de Santana contemplados pelo primeiro empreendimento do programa ─ o Residencial Nova Conceição.

Os 440 apartamentos distribuídos por 22 blocos demoraram 18 meses para ficar prontos. As 6 mil casas em Nova Friburgo, Petrópolis e Teresópolis correspondem a quase 14 condomínios como o Residencial Nova Conceição. Se todos os 14 forem construídos simultaneamente, ainda assim os flagelados só terão onde morar daqui a um ano e meio.

Como o governo decidiu que a culpa foi da natureza, e que mais de mil brasileiros morreram de tempestade, a tragédia no Rio não impediu que Dilma ficasse satisfeita com a largada. “Foi um bom começo de governo”, cumprimentou-se nesta sexta-feira. Depende da posição de quem olha. Os governantes não têm do que se queixar. A oposição oficial continua de férias. Para os governados, só melhorou o som: o sumiço da voz de Lula é tão agradável quanto uma sinfonia de Beethoven. Mas a contemplação da paisagem informa que tão cedo não há nenhum perigo de melhorar.

Em janeiro, enquanto a oposição oficial continuava de férias, Dilma matou a saudade de Erenice Guerra na festa da posse, apresentou ao país o mais bisonho ministério da história, renovou o contrato de aluguel com o PMDB, providenciou a chuva de verbas do Orçamento que garantiu a submissão do Congresso ao Planalto, avisou que a pobreza que Lula erradicou vai acabar em 2014, aperfeiçoou o sorriso de aeromoça de Tupolev e lançou em Buenos Aires, durante uma simbiose com Cristina Kirchner, o besteirol em conta-gotas. Janeiro de 2011 foi apenas o 1° mês do 9° ano da Era da Mediocridade.

No Brasil que Lula inventou e Dilma só precisa enfeitar, como sabemos, o que está péssimo sempre pode piorar. E fevereiro começou com um tremendo apagão no Nordeste.

01/10/2010

às 21:58 \ Direto ao Ponto

Mais que num candidato, milhões de brasileiros votarão na democracia

Na última semana de setembro, o avanço da necrose moral que devasta o Brasil de Lula foi exposto pela imprensa com perturbadora nitidez. No último debate da campanha presidencial, os quatro candidatos fizeram de conta que disputam uma prefeitura no interior da Noruega ─ e contornaram cuidadosamente as vastidões infeccionadas do país que pretendem governar.

Os sherloques da Polícia Federal investigam o escândalo da Receita Federal, que inclui o estupro do sigilo fiscal da filha de José Serra, com a animação de um guarda-noturno aposentado. Na Globo, o candidato do PSDB prometeu criar uma Guarda Civil Nacional.  Nenhum integrante do bando de Erenice Guerra dorme na cadeia. Dilma Rousseff, que apadrinhou a transformação da Casa Civil numa Casa da Mãe do Israel Guerra, caprichou na pose de Mãe dos Pobres e inaugurou mais um colossal ajuntamento de casas imaginárias.

Os gatunos do Amapá e do Tocantins, depois de duas noitadas na gaiola, estão de volta à campanha da aliança governista, ao palanque de Dilma Rousseff, à chefia da administração estadual e ao comando da quadrilha.  Marina Silva, que se nega a enxergar o mensalão, prometeu consertar o Brasil com a ajuda do que há de melhor em partidos que só recrutam o que há de pior. Os inimigos da liberdade de imprensa agora conspiram em parceria com blogueiros estatizados e analfabetos funcionais homiziados em sindicatos de jornalistas. Plínio de Arruda Sampaio, ainda estacionado em 1917, ensinou que os caminhos do futuro são os becos sem saída do passado.

Pela vontade unânime dos candidatos, o Brasil real não foi convidado para o debate. Por vontade de José Serra e seus marqueteiros, a oposição não compareceu ao estúdio da Globo. Como tem feito Lula há oito anos, como ela própria faz há oito meses, Dilma Rousseff pôde mentir com o atrevimento de quem sabe que não ouvirá reparos nem ressalvas. Dispensada de perguntas constrangedoras pelo principal adversário, poupada de cobranças políticas entaladas na garganta de todos os brasileiros decentes, a Doutora em Nada voltou a recitar que a dupla de sumidades que não sabe construir sequer uma frase está concluindo a construção da primeira superpotência tropical.

Sempre torturando a verdade e o português com a crueldade de um serial killer americano, a candidata que deve explicações sobre incontáveis delinquências e casos muito mal contados vestiu a fantasia de credora. Entre um “tem de tê” e um “vô precisá resolvê”, perdida sem bússola na selva das palavras, a representante do governo que mantém metade da população brasileira sem tratamento de esgoto  ousou, no meio do debate, cumprimentar o padrinho, e cumprimentar-se, pelos avanços no sistema de saneamento básico em adiantado estado de decomposição.

O que houve com Serra para renunciar ao confronto? Premiado com a adversária que todo candidato pede aos deuses da política, por que um currículo respeitável evitou o duelo com um prontuário escurecido por inquietantes pontos de interrogação? É um falso enigma. Na raiz da estratégia absurda está o imenso equívoco seminal: a oposição oficial acredita em tudo o que dizem o Grande Pastor e seus devotos ─ que não acreditam numa palavra do que dizem.

Enquanto Lula ataca todos os adversários todo o tempo, os companheiros espalham que partir para a ofensiva só apressa a derrota. Serra acredita nisso. Fernando Henrique Cardoso será lembrado como o presidente que liquidou a inflação e tirou a economia da UTI. O sucessor espertalhão inventa a herança maldita, plateias amestradas aplaudem a fraude, os tucanos se recolhem ao silêncio. A queda de Dilma nas pesquisas só pode ter decorrido das bandalheiras em que se meteu. A aliança governista segue ensinando que brasileiro não dá importância a bandidagens. E Serra acredita.

Seja qual for o vencedor, nenhum terá chegado à Presidência por competência política e densidade eleitoral. Os brasileiros entusiasmados com Dilma Rousseff e José Serra não bastariam para garantir uma vaga na Câmara de Vereadores de Carapicuíba. Abstraídos parentes, amigos e vizinhos, todos os eleitores de Dilma votam em Lula. E multidões de eleitores escolheram Serra para que o país não seja derrotado pela eternização da Era da Mediocridade, assaltado pela tribo dos cínicos e subjugado pela seita dos liberticidas.

Mais que num candidato, milhões de brasileiros votarão na democracia.

20/08/2010

às 21:42 \ Direto ao Ponto

O doutor Ulysses e a mulher do político

A quatro meses do retorno a São Bernardo do Campo, Marisa Letícia Lula da Silva resolveu mostrar que fala. Informou que “nosso governo” tem muitas inaugurações pela proa, cumprimentou os participantes de um leilão em São Paulo, pediu votos para Dilma Rousseff e apareceu ao lado do companheiro Agnelo Queiroz, candidato a governador do Distrito Federal, num arrastão eleitoral promovido em Taguatinga (veja o vídeo abaixo).

A primeira-dama não foi além de meia dúzia de frases, nada disse de relevante. Mas renovou o prazo de validade do seguinte texto aqui publicado em julho do ano passado, com o título O doutor Ulysses, o chapéu de palha e a mulher do político:

Nada a ver com essa cara de faraó, pensei enquanto olhava de soslaio o chapéu de palha que Ulysses Guimarães, à minha esquerda no banco traseiro do Opala, usava desde o fim da tarde daquele sábado de setembro. Ganhara o chapéu em Itaquaquecetuba, procissão de vogais e consoantes na Grande São Paulo que hospedara o quinto comício do dia. Cinco horas e dois palanques depois, o presente do eleitor anônimo continuava na cabeça do deputado que comandava o PMDB em mais uma campanha eleitoral. Achei que esquecera o chapéu.

– Presente de eleitor é coisa séria – surpreendeu-me o aparte mediúnico.

Como é que ele adivinhara o que eu estava pensando?, espantei-me ao ouvir a voz grave e rouca. Aos 60 anos, cumpria o 7º mandato na Câmara dos Deputados (e seria reeleito outras quatro vezes). Fazia coisas de que até Deus duvida. Mas adivinhar pensamentos, ainda não. Pelo menos até onde eu sabia.

– O problema do político é a mulher do político – continuou a intrigar-me o timbre de cantor de cabaré, enquanto Ulysses abria os olhos profundamente azuis e acomodava no banco o corpo longilíneo. – O sujeito entra em casa no escuro, tira o sapato para não fazer barulho mas não adianta: acaba ouvindo uma mulher sonolenta querendo saber como foi o dia. O sujeito conta que almoçou com fulano ou encontrou beltrano e lá vem algum comentário do tipo “sei, aquele que você disse que é cafajeste”, “sim, esse que vive dizendo que você não presta”. Elas têm uma memória tremenda. Ninguém escapa, do vereador de distrito ao presidente da República.

Era difícil imaginar Mora Guimarães, muito risonha e pouco falante, protagonizando cobranças noturnas. Embora assumidamente apaixonado pelo poder (“Não existe nada mais afrodisíaco”, concordava), jamais vendera a alma para consegui-lo. Fora sempre um homem honrado. E continuaria a sê-lo até 12 de outubro de 1992, quando desapareceu no mar depois da queda do helicóptero em que viajava com Mora e os amigos Severo e Henriqueta Gomes.

Como os políticos da linhagem a que Ulysses pertenceu, são coisa do século passado mulheres preocupadas com valores éticos ou morais. No Brasil do século 21, descontadas as exceções que anunciam a iminente extinção da espécie, quem se casa com um pai da pátria descobre no altar que só é pecado perder a eleição e o poder. O resto pode, até vender a mãe a preço de custo. Vira cúmplice do marido, e cúmplices não fazem perguntas constrangedoras.

A mulher do deputado João Paulo Cunha, por exemplo, pergunta se já chegou o dia de buscar mais cinquenta mil para pagar a conta da TV a cabo. A mulher do governador Cid Gomes pergunta se pode embarcar a mãe no jatinho. E a Primeira Passageira pergunta pela próxima viagem. Não para a África, que de pobre basta o Brasil. Para a Europa é bem melhor. Paris, de preferência. Se o marido estiver bem disposto, pergunta também se vão bem os negócios do primogênito, ou se o amigo José Sarney está animado.

E todas dormem o sono dos sem-culpa, porque o remorso, o pudor e a vergonha foram demitidos pela Era da Mediocridade.

10/12/2009

às 17:59 \ Direto ao Ponto

Contagem regressiva

Quanto tempo falta?, perguntam-se milhões de brasileiros simultaneamente aflitos com a impressão de que a Era da Mediocridade começou há séculos e aliviados pela certeza de que, como tantos outros maus momentos, também o governo Lula está perto do fim.

No futuro, esses oito anos não merecerão mais que um asterisco nos livros de História. No presente, a aproximação do epílogo merece ser medida em dias, horas e minutos. É o que faz desde ontem o relógio da coluna. O total de visitas será atualizado a cada dois dias. Acompanhemos todos a contagem regressiva.

15/06/2009

às 17:16 \ Direto ao Ponto

Lula nem faz ideia de quem foi JK

O presidente Juscelino Kubitschek foi o que o brasileiro gostaria de ser. O presidente Lula é o que a maioria dos brasileiros é. Incapaz de folhear biografias, sem paciência nem disposição para estudar a História do Brasil, Lula não faz ideia de quem foi o antecessor. Mas gosta de comparar-se a JK. Primeiro, apresentou-o como exemplo a seguir. Não demorou a descobrir-se, como reiterou no fim de semana, bem superior ao modelo (e infinitamente melhor que todos os outros).

Sedutor, inventivo, culto, cosmopolita, generoso, amante do convívio dos contrários, Juscelino não gostaria de ser comparado a um chefe de governo falastrão, gabola, provinciano, que odeia leituras, inclemente com adversários, a quem culpa por tudo, e misericordioso com bandidos de estimação, a quem tudo perdoa. Ambos nasceram em famílias pobres, ultrapassaram as fronteiras impostas ao gueto dos humildes e alcançaram o coração do poder. Esse traço comum abre a diminuta lista de semelhanças, completada pela simpatia pessoal, pelo riso fácil e pela paixão por viagens aéreas. Bem mais extensa é a relação das diferenças, todas profundas, algumas abissais.

O pernambucano de Garanhuns é essencialmente um político: só pensa nas próximas eleições. O mineiro de Diamantina foi um genuíno estadista: pensava nas próximas gerações. Lula ama ser presidente, mas viveria em êxtase se pudesse ser dispensado de administrar o país. Bom de conversa e ruim de serviço, detesta reuniões de trabalho ou audiências com ministros das áreas técnicas e escapa sempre que pode do tedioso expediente no Palácio do Planalto. JK amava exercer a Presidência, administrava o país com volúpia e paixão ─ e a chama dos visionários lhe incendiava o olhar ao contemplar canteiros de obras que Lula visita para palavrórios eleitoreiros. Lula só trata com prazer de política. JK tratava também de política com prazer.

O país primitivo dos anos 50 pareceu moderno já no dia da posse de JK. Cinco anos depois, ficara mesmo. O otimista incontrolável inventou Brasília, rasgou estradas onde nem trilhas havia, implantou a indústria automobilística, antecipou o futuro. Cometeu erros evidentes. Compôs parcerias condenáveis, fechou os olhos à cupidez das empreiteiras, não enxergou o dragão inflacionário. Mas o conjunto da obra é amplamente favorável. Com JK, o Brasil viveu a Era da Esperança.

O país moderno deste começo de milênio pareceu primitivo no momento em que Lula ganhou a eleição. Seis anos e meio depois, ficou mesmo. As grandezas prometidas em 2002 seguem estacionadas no PAC. As estradas federais estão em frangalhos. A educação se encontra em estado pré-falimentar. O sistema de saúde é lastimável. A roubalheira federal atingiu dimensões amazônicas. Mas Lula está bem no retrato, reiteram os institutos de pesquisa.

Talvez esteja. Primeiro, porque milhões de brasileiros inscritos no Bolsa-Família são gratos ao gerente do programa que os reduziu a dependentes da esmola federal. Depois, e sobretudo, porque o advento da Era da Mediocridade tornou o país mais jeca, mais brega, muito menos exigente, muito menos altivo.

Nos anos 50, o governo e a oposição eram conduzidos pelos melhores e mais brilhantes. O povo que sabia sonhar sabia também escolher melhor. Mereceu um presidente como JK. No Brasil de Lula, mandam os medíocres. O grande rebanho dos conformados tem o pastor que merece.


 

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