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Era da Mediocridade

19/12/2011

às 21:09 \ Direto ao Ponto

A renovação do mandato da diretoria do clube dos cafajestes segue em frente disfarçada de ‘reforma ministerial’

Só depois de gravar o comentário de sexta-feira para o site de VEJA é que me lembrei do post publicado em 19 de março deste ano, e que acaba de voltar ao ar na seção Vale Reprise. Título: O Brasil está fora da zona dos terremotos, mas permanece na rota dos mercadantes. Um dos parágrafos inspirados em Aloízio Mercadante começa assim: “Essa estranha mistura de sabujice e arrogância precisou de dois ou três dias no emprego novo para virar especialista em coisas que ignora profundamente. Bastou-lhe uma ligeira mirada na Região Serrana devastada pelas tempestades, por exemplo, para avisar que isso não se repetirá”. Na semana passada, o ministro da Ciência e Tecnologia disse o contrário com o desembaraço sem remorsos que identifica os irresponsáveis vocacionais. Os falatórios são conflitantes. Mas igualmente cretinos.

Nesta segunda-feira, Dilma Rousseff confirmou que, na Era da Mediocridade, quanto mais bisonho é o desempenho de um ministro maior é a chance de ser promovido. Graças aos desastres acumulados no Ministério da Educação, o companheiro Fernando Haddad virou candidato do PT à prefeitura de São Paulo. Graças à vexatória performance no emprego que ganhou como prêmio de consolação pelo naufrágio na disputa do governo paulista, Mercadante deverá ser premiado pela chefe com o gabinete em que Haddad agiu. A substituição de Tarso Genro pelo Terror dos Estudantes confirmou que, no Brasil de Lula e Dilma, o que está muito ruim sempre pode ficar péssimo. A promoção do Herói da Rendição provará que sempre é possível ir um pouco além do que parece o fundo do poço.

Muitos por vassalagem, outros tantos por cinismo, alguns por estupidez, a maioria dos jornalistas insiste em chamar de “reforma ministerial” a sequência de movimentos desastrados empreendida por Dilma. Começou com a absolvição de Fernando Pimentel, foi em frente com o aviso de que Iriny Lopes seguirá no comando da usina de ideias imbecis disfarçada de Secretaria de Políticas para as Mulheres e deve prosseguir com a transferência de Aloízio Mercadante. O que está em curso nada tem a ver com uma reforma ministerial sem aspas.  É só a renovação do mandato da diretoria do clube dos cafajestes. A turma faz de conta que alguma coisa mudou para que tudo continue igual. Ou fique um pouco pior.

10/12/2011

às 14:27 \ Feira Livre

Mirem-se no exemplo das Raimundas e Marias atormentadas pelo abandono

Mauro Pereira

Anunciando a chegada do final do 9º ano da Era da Mediocridade, o mês de dezembro teve um início igual aos outros onze que o antecederam e tudo indica que terá o mesmo desfecho. Denúncias de superfaturamento em obras da Copa do Mundo, desperdício do dinheiro público em puxadões improvisados, a dor que não cessa da presidente e a queda de mais um ministro, o 16º em nove anos de governo petista. Quinze por envolvimento em atos de corrupção e um por problemas psicológicos. Nessa mesmice indecorosa, dois fatos diferentes entre si, mas intimamente ligados, me chamaram a atenção. Um pelo viés insólito. Outro pela dramaticidade implícita.

Recepcionados por Hugo Chavez, sob o patrocínio da CELAC (Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos), reuniu-se em Caracas a fina flor da democracia imposta à América Latina e ao Caribe. Desfilaram sob os holofotes da imprensa capitalista a ser censurada democratas excêntricos da estirpe dos Castros, dos Morales, dos Correias, dos Ortegas, das Kirchners. Todos em torno do mesmo ideal: socializar os latinos e caribenhos e capitalizar os dividendos oferecidos pelo poder. Tanto os políticos como os econômicos.

Aquele ajuntamento de tiranetes decadentes, cada um embalando o sonho de ter seu país particular, uma imprensa companheira sensível às suas aspirações, a população submetida a circo e a oposição à bala, aprovou por unanimidade moção que celebra a hostilidade aos americanos do norte e vetou o ingresso dos Estados Unidos e do Canadá na entidade. Decididos a garantir que a injustiça não prospere em qualquer quadrante continental, negaram-se a abrigar no seio imaculado da CELAC os regimes autoritários instaurados nas duas nações e repudiaram com veemência o desrespeito aos direitos humanos sistêmico e a corrupção endêmica que assolam aquelas aquelas paragens. Em nome dos brasileiros que a elegeram, Dilma Rousseff assinou o documento final que ridiculariza nossa inteligência e desdenha da fome que consome os latinos-americanos e os caribenhos ao ameaçar com a expulsão os governos autoritários e antidemocráticos do Canadá e dos EUA.  Representante de uma das democracias mais sólidas e evoluídas do planeta, coube ao presidente cubano Raul Castro o privilégio de ser um dos primeiros a chancelar a farsa.

Contrapondo-se à orgia democrática latino-caribenha, o Brasil tomava conhecimento de um drama que se desenrolava em algum lugar do Maranhão. Seus personagens principais, o apresentador de televisão Gugu Liberato e uma família de oito pessoas que sobrevivia em condições sub-humanas representada por Maria, a mãe, precocemente envelhecida pela miséria e Raimunda, a filha quase adolescente, cujo olhos tristes não ousavam encarar seu interlocutor, talvez com medo de que ele descobrisse alguma culpa que nunca fora sua ─ ou percebesse a vergonha que era sua mas que jamais produzira. Ambas, mãe e filha, envilecidas pelo abandono.

De repente, vi saltar ali na minha frente a realidade estampada nas pesquisas publicadas pelo IBGE e pela UNICEF. Os números frios das estatísticas ganhavam vida, rostos e nomes e revelavam, com todos os agravantes da degradação absoluta, a condição de precariedade extrema que assola uma parcela significativa da população brasileira. Morando com os sete filhos em um casebre de pau-a-pique coberto por folhas de palmeira e equilibrado em paredes esburacadas que ameaçavam ruir a qualquer momento, aquela brasileira valente sobrevive com o auxílio-doença de uma de suas meninas. Seu corpo alquebrado já não agüenta quebrar coco para prover o sustento. Sem rede de esgoto instalada e a fossa séptica saturada, até aquele domingo que as redimiu, ela e sua prole usavam a mata no fundo do quintal como banheiro e tinham no poço imundo ao lado da palhoça a única possibilidade de saciarem, ainda que com a água contaminada, a sede que as atormentavam e adoeciam.

Assim como elas, teimam em resistir a essa realidade devastadora centenas de milhares de Marias e Raimundas espalhadas por esse chão brasileiro. Sobrou somente a dignidade que as mantém íntegras e prontas para enfrentarem com a mesma coragem e resignação as adversidades que as martirizam, que as autoridades não veem e a propaganda oficial exclui. Desnecessário dizer que esse quadro desolador não é exclusividade só dos brasileiros.

Que a sensibilidade caudilhesca da CELAC mire-se no exemplo dessas mulheres. Apenas Marias e Raimundas. Se bolivianas, venezuelanas ou brasileiras, pouco importa. Todas produtos inteiros de uma sub-américa macabra, despedaçada por super ditadores e protagonizada por sub-presidentes. Sub-evos, sub-hugos, sub-dilmas.

Continuo a não chorar por ti América Latina e chorarei menos ainda depois de consumada na Venezuela essa aventura doidivana. Não és digna de sequer uma lágrima minha. Não enquanto deres guarida a caudilhos e ditadores. Meu pranto e meu lamento eu os dedico às Marias e Raimundas de todos os idiomas, de todos os sotaques, de todas as nacionalidades.

É pouco, quase nada, mas é o que me resta.

09/11/2011

às 9:03 \ Direto ao Ponto

O ministro a caminho do despejo mostra como se conjuga o verbo ‘corrompor’

Por ser dono da banca de jornais de que Leonel Brizola se tornou freguês, Carlos Roberto Lupi virou em 1980 amigo do gaúcho que acabara de voltar do exílio para retomar a carreira política no Rio. Por ser amigo de Brizola, virou militante do PDT. Por ser homem de confiança do chefe, virou deputado federal, secretário municipal, secretário estadual e, depois da morte do fundador em 2004, presidente do partido. Por ser presidente do PDT, virou ministro do Trabalho em 29 de março de 2007. Por ser um bom companheiro da base alugada, virou bandido de estimação. Por ser protegido de Lula, continuou no cargo depois da posse de Dilma Rousseff.

Paulista de Campinas, 51 anos, Lupi não tem espaço na cabeça para alguma coisa que preste ─ só cifrões de origem obscura nascem e crescem em desertos de neurônios. A rasura do cérebro dificulta até a conjugação do verbo inseparável da própria biografia: corromper. No vídeo de 18 segundos, por exemplo, ele  tropeça espetacularmente na terceira pessoa do singular: “Quem corrompõe…”, derrapa o filhote da Era da Mediocridade. A caminho do despejo, Carlos Lupi criou o verbo “corrompor”. Significa, provavelmente, “propor alguma coisa a um ministro corrupto”.

10/10/2011

às 8:50 \ Direto ao Ponto

Os países desenvolvidos preservam a vergonha na cara que os fundadores da Era da Mediocridade reduziram a coisa de otário

Em sua coluna quinzenal na última página de VEJA desta semana, o jornalista J. R. Guzzo trata da síndrome do com-o-Brasil-ninguém-pode. As primeiras linhas resumem o fenômeno.

“Tornou-se um hábito do governo brasileiro e suas redondezas, nos últimos tempos, dizer aos países desenvolvidos o que deveriam fazer para melhorar de vida e sair da triste situação em que andam metidos ─ em contraste, é claro, com o Brasil, onde tudo é melhor hoje em dia, da política econômica ao misto-quente, e onde a gerência da administração pública praticamente não encontra rivais em nenhum outro lugar do mundo em matéria de sabedoria, qualidade de decisões tomadas e quantidade de problemas resolvidos”.

Depois de registrar que começaram com Lula as “aulas de boa governança aos países ricos” que Dilma Rousseff segue ministrando, Guzzo precisa de uma única frase para colocar o bando de farsantes em seu devido lugar:

“Governantes de um país que tem os índices de criminalidade, analfabetismo e corrupção do Brasil, para mencionar apenas uma parte da calamidade nacional permanente, deveriam ficar em silêncio e trabalhar o tempo todo para resolver nossas desgraças, em vez de dar palpites em problemas alheios”.

Deveriam também aprender com quem sabe, grita o vídeo de 2min24 que mostra como é a vida dos parlamentares suecos. Quem viu vai gostar de ver de novo. Quem não viu não imagina o que andou perdendo. Confira:

Na Suécia, com pouco mais de 9 milhões de habitantes, o índice de alfabetização atinge 99%. No Brasil, os analfabetos estão perto de 15 milhões, sem contar a imensidão de analfabetos funcionais: são tantos que um deles já ocupou a Presidência da República. Lá, a renda per capita anual vai chegando aos US$ 40 mil e as diferenças salariais na pirâmide social são irrelevantes. Aqui, a renda de R$ 10 mil é uma abstração destroçada por distâncias abissais entre ricos e pobres.

O vídeo informa, enfim, que na Suécia existe a vergonha na cara que os donos do poder tentam há quase nove anos transformar em coisa de otário. Toda semana, por exemplo, os integrantes do primeiro escalão sueco comparecem ao parlamento para uma sessão de cobranças e explicações. Os ministérios são exemplarmente enxutos e eficazes, e a execução das decisões políticas fica por conta de agências governamentais. No País do Carnaval, dezenas de ministros se associam a centenas de deputados e senadores para compor o grande clube dos cafajestes cuja missão é “garantir a governabilidade” ─ uma fantasia esfarrapada que, em vez de esconder, escancara a corrupção endêmica e impune.

Em 1958, extasiados com a vitória na Copa da Suécia, os brasileiros se esbaldaram num carnaval temporão animado pela marchinha famosa: “A taça do mundo é nossa./Com brasileiro, não há quem possa”, fantasiava o começo da letra. Passados 53 anos, não é difícil bater a seleção nacional  de futebol. A Suécia e todos os países desenvolvidos só não podem com o Brasil em matéria de jequice, embustes ufanistas e ladroagem sem cadeia. Nesses campos, decididamente, não há quem possa com os fundadores da Era da Mediocridade.

28/05/2011

às 19:27 \ Direto ao Ponto

Descanse alguns minutos do país que lembra um imenso clube dos cafajestes

Como hoje é sábado, conceda-se o direito de descansar por alguns minutos do Brasil da Era da Mediocridade, da corrupção endêmica, da idiotia ideológica, do culto à ignorância, da política do vale-tudo, do cinismo institucionalizado, dos cretinos fundamentais, da impunidade como rotina, do populismo autoritário, da demagogia barata, da celebração da ignorância. Não perca a chance de viajar para longe desse Brasil que lembra um imenso clube dos cafajestes. É só  ir até a seção Feira Livre e embarcar na cabeça deslumbrante do poeta Manoel de Barros.

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15/03/2011

às 19:02 \ Direto ao Ponto

O baixo clero da Câmara dos Deputados tomou de assalto o palco e a plateia

Três vezes prefeito de Marília, deputado federal em segundo mandato, Abelardo Camarinha acaba de ser escolhido pelo Partido Socialista Brasileiro para representar a legenda no Conselho de Ética na Câmara. Confrontado por jornalistas com o buquê de processos que protagoniza no Supremo Tribunal Federal, o parlamentar delinquente ensinou que o problema não está no caráter que se tem, mas no cargo que se ocupa. “Se a Madre Tereza de Calcutá fosse prefeita”, garantiu, “também teria seis ou sete processos”.

O deputado Camarinha conseguiu ficar mais cínico que o prefeito Camarinha, confirma o vídeo gravado em dezembro. Engajado no exército em guerra por um indecoroso aumento salarial, o oficial do PSB paulista resumiu a discurseira em 24 segundos: “E eu faço um desafio aqui… o… o… o deputado não tem um padrão de vida dum… dum cidadão comum. Ele é padrinho de casamento, ele é padrinho de formatura, ele tem despesa extra, ele tem bases eleitorais, ele tem convites…”

Muitas outras coisas separam um pai-da-pátria de um brasileiro da planície. Ele também tem verba de gabinete, ele tem 14º salário, ele tem 15º salário, ele tem passagens aéreas de graça, ele tem auxílio-moradia, ele tem carro e combustível por conta dos pagadores de impostos, ele tem plano de saúde cinco estrelas, ele tem uma penca de empregos públicos a distribuir, ele tem negócios ou negociatas a fazer — ele tem, enfim, um vidaço.

E nem assim se sacia. Na última frase do falatório, Camarinha capricha na pose de flagelado a serviço da nação: “Então, eu duvido que se sobreviva com um salário de onze, doze mil reais”. Se pensa assim, deveria ter sugerido um aumento de 2.000% no salário mínimo. Nem apareceu para votar na sessão que aprovou os R$ 545 com os quais são obrigados a atravessar o mês quase 48 milhões de brasileiros comuns.

A Câmara da Era da Mediocridade é um viveiro de camarinhas — o que torna pouco surpreendente a ascensão ao comando da Mesa do petista gaúcho Marco Maia. Quem viu o Roda Viva desta segunda-feira compreendeu que o terceiro nome na linha de sucessão presidencial tem na cabeça coisas tão profundas que, na imagem de Nelson Rodrigues, uma formiga poderia atravessá-las com água pelas canelas. Marco Maia é uma perfeita tradução do Congresso destes trêfegos tempos.

Como registrou no fim do programa a jornalista Eliane Cantanhêde, uma instituição indispensável ao regime democrático hoje é presidida por um deputado do segundo time. Com uma agravante perturbadora: o primeiro time acabou. A Câmara já não tem cardeais. O baixo clero age no palco e aplaude na plateia.

28/02/2011

às 20:01 \ Direto ao Ponto

Os cúmplices das ditaduras só tratam como inimigo o governo democrático de Honduras

O governo brasileiro ainda não rompeu relações diplomáticas com a ditadura de Muamar Kadafi, há 42 anos no controle da Líbia. Anualmente, o Itamaraty abastece com boladas consideráveis as embaixadas que garantem um amistoso convívio com a Coreia do Norte (que não sabe o que é eleição há 62 anos, com Cuba (52 anos), com o Gabão (45), com a Guiné Equatorial (43) e dezenas de outros países subjugados há décadas por tiranias abjetas. A política externa da Era da Mediocridade adotou a velha regra dos bordeis: desde que pague a conta, em dinheiro, bens materiais ou favores, qualquer um pode ser freguês.

Como toda regra exige uma exceção, sobrou para Honduras. Em 2009, para neutralizar os projetos golpistas de Manuel Zelaya e garantir a realização da eleição prevista para novembro, a Corte Suprema, o Congresso e o Exército despejaram do palácio o presidente arrendado por Hugo Chávez. A crise agravada pela intromissão da Venezuela e do Brasil nos assuntos internos de uma nação soberana não impediu que o governo interino cumprisse o prometido. Candidato por um partido de oposição, Porfírio Lobo foi eleito presidente na data programada e empossado em fevereiro de 2010.

Passado um ano, o Brasil só não mantém relações diplomáticas com o governo democrático de Honduras. O decassílabo recitado pelo ex-chanceler Celso Amorim resume a discurseira dos farsantes: “As eleições não foram democráticas”. Conversa fiada. Coisa de sabujo. A disputa nas urnas foi chancelada sem ressalvas por observadores internacionais. A presidente Dilma Rousseff e o chanceler Antonio Patriota precisam livrar-nos imediatamente da herança absurda. Os hondurenhos talvez nem tenham notado que a embaixada que virou pensão continua fechada. Mas os brasileiros decentes não merecem contemplar por mais tempo outro monumento ao farisaísmo.

04/02/2011

às 21:57 \ Direto ao Ponto

O 1º mês do 9º ano da Era da Mediocridade

Durante a campanha, a candidata Dilma Rousseff reiterou a promessa em todos os comícios, entrevistas, debates e programas no horário eleitoral: em quatro anos de governo, construiria 6 mil creches e 2 milhões de casas populares. Incluindo sábados, domingos e feriados, são quatro creches e 1.370 casas por dia. Como seria operado tamanho milagre?, intrigaram-se os que sabem fazer contas. Dilma sugeriu aos incrédulos que esperassem para ver. Melhor que esperem sentados, sugere o balanço de janeiro. Como não inaugurou sequer um pedra fundamental em 31 dias, Dilma já ficou devendo 124 creches e 41.100 casas.

Fora as 6 mil que prometeu aos brasileiros cujas moradias foram engolidas pelas enchentes na Região Serrana. A julgar pelo ritmo das obras do Programa Minha Casa, Minha Vida, os mais de 20 mil flagelados vão continuar por muito tempo amontoados em acampamentos improvisados. Terão de aguardar a entrega das chaves com a mesma paciência exibida pelos baianos de Feira de Santana contemplados pelo primeiro empreendimento do programa ─ o Residencial Nova Conceição.

Os 440 apartamentos distribuídos por 22 blocos demoraram 18 meses para ficar prontos. As 6 mil casas em Nova Friburgo, Petrópolis e Teresópolis correspondem a quase 14 condomínios como o Residencial Nova Conceição. Se todos os 14 forem construídos simultaneamente, ainda assim os flagelados só terão onde morar daqui a um ano e meio.

Como o governo decidiu que a culpa foi da natureza, e que mais de mil brasileiros morreram de tempestade, a tragédia no Rio não impediu que Dilma ficasse satisfeita com a largada. “Foi um bom começo de governo”, cumprimentou-se nesta sexta-feira. Depende da posição de quem olha. Os governantes não têm do que se queixar. A oposição oficial continua de férias. Para os governados, só melhorou o som: o sumiço da voz de Lula é tão agradável quanto uma sinfonia de Beethoven. Mas a contemplação da paisagem informa que tão cedo não há nenhum perigo de melhorar.

Em janeiro, enquanto a oposição oficial continuava de férias, Dilma matou a saudade de Erenice Guerra na festa da posse, apresentou ao país o mais bisonho ministério da história, renovou o contrato de aluguel com o PMDB, providenciou a chuva de verbas do Orçamento que garantiu a submissão do Congresso ao Planalto, avisou que a pobreza que Lula erradicou vai acabar em 2014, aperfeiçoou o sorriso de aeromoça de Tupolev e lançou em Buenos Aires, durante uma simbiose com Cristina Kirchner, o besteirol em conta-gotas. Janeiro de 2011 foi apenas o 1° mês do 9° ano da Era da Mediocridade.

No Brasil que Lula inventou e Dilma só precisa enfeitar, como sabemos, o que está péssimo sempre pode piorar. E fevereiro começou com um tremendo apagão no Nordeste.

01/10/2010

às 21:58 \ Direto ao Ponto

Mais que num candidato, milhões de brasileiros votarão na democracia

Na última semana de setembro, o avanço da necrose moral que devasta o Brasil de Lula foi exposto pela imprensa com perturbadora nitidez. No último debate da campanha presidencial, os quatro candidatos fizeram de conta que disputam uma prefeitura no interior da Noruega ─ e contornaram cuidadosamente as vastidões infeccionadas do país que pretendem governar.

Os sherloques da Polícia Federal investigam o escândalo da Receita Federal, que inclui o estupro do sigilo fiscal da filha de José Serra, com a animação de um guarda-noturno aposentado. Na Globo, o candidato do PSDB prometeu criar uma Guarda Civil Nacional.  Nenhum integrante do bando de Erenice Guerra dorme na cadeia. Dilma Rousseff, que apadrinhou a transformação da Casa Civil numa Casa da Mãe do Israel Guerra, caprichou na pose de Mãe dos Pobres e inaugurou mais um colossal ajuntamento de casas imaginárias.

Os gatunos do Amapá e do Tocantins, depois de duas noitadas na gaiola, estão de volta à campanha da aliança governista, ao palanque de Dilma Rousseff, à chefia da administração estadual e ao comando da quadrilha.  Marina Silva, que se nega a enxergar o mensalão, prometeu consertar o Brasil com a ajuda do que há de melhor em partidos que só recrutam o que há de pior. Os inimigos da liberdade de imprensa agora conspiram em parceria com blogueiros estatizados e analfabetos funcionais homiziados em sindicatos de jornalistas. Plínio de Arruda Sampaio, ainda estacionado em 1917, ensinou que os caminhos do futuro são os becos sem saída do passado.

Pela vontade unânime dos candidatos, o Brasil real não foi convidado para o debate. Por vontade de José Serra e seus marqueteiros, a oposição não compareceu ao estúdio da Globo. Como tem feito Lula há oito anos, como ela própria faz há oito meses, Dilma Rousseff pôde mentir com o atrevimento de quem sabe que não ouvirá reparos nem ressalvas. Dispensada de perguntas constrangedoras pelo principal adversário, poupada de cobranças políticas entaladas na garganta de todos os brasileiros decentes, a Doutora em Nada voltou a recitar que a dupla de sumidades que não sabe construir sequer uma frase está concluindo a construção da primeira superpotência tropical.

Sempre torturando a verdade e o português com a crueldade de um serial killer americano, a candidata que deve explicações sobre incontáveis delinquências e casos muito mal contados vestiu a fantasia de credora. Entre um “tem de tê” e um “vô precisá resolvê”, perdida sem bússola na selva das palavras, a representante do governo que mantém metade da população brasileira sem tratamento de esgoto  ousou, no meio do debate, cumprimentar o padrinho, e cumprimentar-se, pelos avanços no sistema de saneamento básico em adiantado estado de decomposição.

O que houve com Serra para renunciar ao confronto? Premiado com a adversária que todo candidato pede aos deuses da política, por que um currículo respeitável evitou o duelo com um prontuário escurecido por inquietantes pontos de interrogação? É um falso enigma. Na raiz da estratégia absurda está o imenso equívoco seminal: a oposição oficial acredita em tudo o que dizem o Grande Pastor e seus devotos ─ que não acreditam numa palavra do que dizem.

Enquanto Lula ataca todos os adversários todo o tempo, os companheiros espalham que partir para a ofensiva só apressa a derrota. Serra acredita nisso. Fernando Henrique Cardoso será lembrado como o presidente que liquidou a inflação e tirou a economia da UTI. O sucessor espertalhão inventa a herança maldita, plateias amestradas aplaudem a fraude, os tucanos se recolhem ao silêncio. A queda de Dilma nas pesquisas só pode ter decorrido das bandalheiras em que se meteu. A aliança governista segue ensinando que brasileiro não dá importância a bandidagens. E Serra acredita.

Seja qual for o vencedor, nenhum terá chegado à Presidência por competência política e densidade eleitoral. Os brasileiros entusiasmados com Dilma Rousseff e José Serra não bastariam para garantir uma vaga na Câmara de Vereadores de Carapicuíba. Abstraídos parentes, amigos e vizinhos, todos os eleitores de Dilma votam em Lula. E multidões de eleitores escolheram Serra para que o país não seja derrotado pela eternização da Era da Mediocridade, assaltado pela tribo dos cínicos e subjugado pela seita dos liberticidas.

Mais que num candidato, milhões de brasileiros votarão na democracia.

20/08/2010

às 21:42 \ Direto ao Ponto

O doutor Ulysses e a mulher do político

A quatro meses do retorno a São Bernardo do Campo, Marisa Letícia Lula da Silva resolveu mostrar que fala. Informou que “nosso governo” tem muitas inaugurações pela proa, cumprimentou os participantes de um leilão em São Paulo, pediu votos para Dilma Rousseff e apareceu ao lado do companheiro Agnelo Queiroz, candidato a governador do Distrito Federal, num arrastão eleitoral promovido em Taguatinga (veja o vídeo abaixo).

A primeira-dama não foi além de meia dúzia de frases, nada disse de relevante. Mas renovou o prazo de validade do seguinte texto aqui publicado em julho do ano passado, com o título O doutor Ulysses, o chapéu de palha e a mulher do político:

Nada a ver com essa cara de faraó, pensei enquanto olhava de soslaio o chapéu de palha que Ulysses Guimarães, à minha esquerda no banco traseiro do Opala, usava desde o fim da tarde daquele sábado de setembro. Ganhara o chapéu em Itaquaquecetuba, procissão de vogais e consoantes na Grande São Paulo que hospedara o quinto comício do dia. Cinco horas e dois palanques depois, o presente do eleitor anônimo continuava na cabeça do deputado que comandava o PMDB em mais uma campanha eleitoral. Achei que esquecera o chapéu.

– Presente de eleitor é coisa séria – surpreendeu-me o aparte mediúnico.

Como é que ele adivinhara o que eu estava pensando?, espantei-me ao ouvir a voz grave e rouca. Aos 60 anos, cumpria o 7º mandato na Câmara dos Deputados (e seria reeleito outras quatro vezes). Fazia coisas de que até Deus duvida. Mas adivinhar pensamentos, ainda não. Pelo menos até onde eu sabia.

– O problema do político é a mulher do político – continuou a intrigar-me o timbre de cantor de cabaré, enquanto Ulysses abria os olhos profundamente azuis e acomodava no banco o corpo longilíneo. – O sujeito entra em casa no escuro, tira o sapato para não fazer barulho mas não adianta: acaba ouvindo uma mulher sonolenta querendo saber como foi o dia. O sujeito conta que almoçou com fulano ou encontrou beltrano e lá vem algum comentário do tipo “sei, aquele que você disse que é cafajeste”, “sim, esse que vive dizendo que você não presta”. Elas têm uma memória tremenda. Ninguém escapa, do vereador de distrito ao presidente da República.

Era difícil imaginar Mora Guimarães, muito risonha e pouco falante, protagonizando cobranças noturnas. Embora assumidamente apaixonado pelo poder (“Não existe nada mais afrodisíaco”, concordava), jamais vendera a alma para consegui-lo. Fora sempre um homem honrado. E continuaria a sê-lo até 12 de outubro de 1992, quando desapareceu no mar depois da queda do helicóptero em que viajava com Mora e os amigos Severo e Henriqueta Gomes.

Como os políticos da linhagem a que Ulysses pertenceu, são coisa do século passado mulheres preocupadas com valores éticos ou morais. No Brasil do século 21, descontadas as exceções que anunciam a iminente extinção da espécie, quem se casa com um pai da pátria descobre no altar que só é pecado perder a eleição e o poder. O resto pode, até vender a mãe a preço de custo. Vira cúmplice do marido, e cúmplices não fazem perguntas constrangedoras.

A mulher do deputado João Paulo Cunha, por exemplo, pergunta se já chegou o dia de buscar mais cinquenta mil para pagar a conta da TV a cabo. A mulher do governador Cid Gomes pergunta se pode embarcar a mãe no jatinho. E a Primeira Passageira pergunta pela próxima viagem. Não para a África, que de pobre basta o Brasil. Para a Europa é bem melhor. Paris, de preferência. Se o marido estiver bem disposto, pergunta também se vão bem os negócios do primogênito, ou se o amigo José Sarney está animado.

E todas dormem o sono dos sem-culpa, porque o remorso, o pudor e a vergonha foram demitidos pela Era da Mediocridade.


 

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