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eleições

23/05/2013

às 12:58 \ Feira Livre

‘A política, segundo Afif’, de Demétrio Magnoli

PUBLICADO NO GLOBO DESTA QUINTA-FEIRA

DEMÉTRIO MAGNOLI

“Ela não criou esse ministério para o PSD. O convite aconteceu e foi aceito por afinidade temática. Esse tema é a minha vida e é prioridade do governo.” Guilherme Afif Domingos é um brincalhão, mas tenho a leve impressão de que, enquanto ele goza da cara dos eleitores, a presidente e o presidente emérito gozam da cara dele. No dia em que o ministro número 39 oferecia essa cândida explicação, o ministro número um, Gilberto Carvalho, imagem holográfica de Lula da Silva, preferia falar a verdade – ou, ao menos, parte dela: “O partido que ele representa, vindo apoiar nosso governo, ampliando nossa base, é importante”. Todos sabem que a “causa da microempresa” é só um pretexto para a transação que conduziu Afif à Esplanada dos Ministérios. Contudo nem mesmo o sincero Carvalho disse que a motivação principal do convite não se encontra nos minutos de televisão do “partido que ele representa”. Afif está lá, antes de tudo, para provar uma tese sobre a política e a representação.

“O senhor já fez muitas críticas ao PT. Chegou a dizer que Dilma não tinha biografia para o cargo…”. Um conceito de política emergiu na resposta do novo ministro: “As críticas foram feitas na conjuntura de campanha política. Não teve nada de crítica pessoal, foi tudo na retórica de campanha”. Desde o século 16, os governantes europeus aprenderam que, em nome de seus interesses vitais, a direção das esferas das finanças, do Direito e da guerra deve ser entregue a servidores especializados. O 39.º ministério de Dilma, que não se inscreve em nenhuma dessas três esferas estratégicas, é uma ferramenta a serviço de interesses menores. A missão de Afif, concluída antes de seu primeiro dia no gabinete, era produzir uma definição de política. Política, segundo Afif, é a arte de iludir os eleitores. O governo de Dilma queria dizer isso, mas por uma voz terceirizada.

À primeira vista, Afif não inova quando declara que, na “política”, as palavras carecem de sentido. Afinal, Lula da Silva, seu mestre adventício, não qualificou como “bravatas de oposição” o discurso petista anterior à Carta ao Povo Brasileiro? O paralelo, embora sedutor, não é pertinente. Max Weber esclareceu a distinção entre a “ética da convicção” e a “ética da responsabilidade”. A primeira se subordina ao imperativo categórico da lei moral e se regula por valores que o político almeja pôr em prática. A segunda parte de uma análise sobre o bem comum e se regula pelo cálculo realista sobre as consequências comparativas de diversas alternativas de ação. Os petistas têm o direito de justificar a Carta ao Povo Brasileiro à luz da “ética da responsabilidade”, mas é impossível associar a aventura ministerial afifiana a qualquer tipo de ética. Sua “responsabilidade” não tem por referência os interesses públicos, mas as conveniências partidárias, e sua única “convicção” é que convicções políticas não passam de estorvos descartáveis.

Afif não é, nem de longe, um pioneiro do adesismo ou da abjuração. Roberto Mangabeira Unger, um predecessor recente, classificou o governo Lula como “o mais corrupto” da História do Brasil menos de dois anos antes de aceitar o convite do presidente para ocupar uma cadeira ministerial também inventada “por afinidade temática”. Unger beijou a mão de Lula da Silva em sentido figurado; Afif beijou literalmente a mão de Dilma. A diferença, porém, está no lugar ocupado por cada um deles no palco da democracia representativa.

“Você quer que eu renuncie a um cargo para o qual fui eleito? Estão querendo me cassar? Eu não fui nomeado, fui eleito.” A indignada resposta afifiana escancara a diferença. O intelectual de Harvard que sonhou converter-se em Rasputin de um salvador da Pátria só representava a si mesmo; o vice-governador paulista que corre para ocupar um puxadinho na Esplanada dos Ministérios representa milhões de eleitores. No momento em que abjura, ele não trai apenas suas duvidosas convicções, mas o princípio da representação democrática. De fato, é o seu gesto que cassa os direitos de seus eleitores.

O ministro do puxadinho, que sempre se exibiu como um liberal, serve-nos agora uma oportuna tese política – e o faz assimilando a palavrinha “elite”, cara à linguagem de Lula da Silva. “Esse negócio de ideologia está na imprensa e em setores da elite. Hoje a sociedade é pragmática. Essa questão de direita e esquerda é de um momento do século passado.” A descoberta filosófica afifiana, um fruto dos efeitos iluminadores do convite presidencial, tem oportunas implicações práticas: “Hoje o proletário sonha em ser burguês. Isso é algo que me une ao Lula”. O “sonho do proletário” – eis o impulso que empurra o PSD rumo ao Planalto!

A abjuração afifiana tem escassa importância. Ela serve, porém, como pista para desvendar a paisagem degradada do sistema político brasileiro. Aécio Neves criticou a presidente por praticar um “governismo de cooptação”. A expressão diz algo correto, mas periférico, sobre a iniciativa presidencial. De fato, a cooptação do PSD almeja mais que arruinar as oposições: com a finalidade de se perpetuar no poder, o lulopetismo semeia a descrença nas virtudes da pluralidade política e da divergência democrática. Seu êxito nesse campo não se deve, contudo, aos poderes encantatórios de Lula da Silva ou Dilma Rousseff, mas à falência política do PSDB.

O candidato Aécio Neves não estendeu suas críticas ao próprio Afif, a Gilberto Kassab e ao PSD, o primeiro partido brasileiro criado com o propósito explícito de se oferecer à cooptação. O governador Geraldo Alckmin preferiu o curioso caminho de parabenizar a presidente pela escolha de seu vice como novo ministro. No horizonte dos dois tucanos nada existe além das fronteiras dos palácios governamentais, Casas legislativas e aparelhos da administração pública. Eles perderam o contato com as pessoas comuns.

21/05/2013

às 16:52 \ Direto ao Ponto

A presidente reconhece que foi desumano e criminoso o que o PT fez com os eleitores do Bolsa Família em 2006 e 2010

Dilma Rousseff, quem diria, acertou uma: é mesmo “desumano”e “criminoso” assustar os brasileiros cadastrados no Bolsa Família com boatos inquietantes. Segundo a própria presidente, portanto, foi desumano e criminoso o que fizeram nas eleições de 2006 e 2010 os militantes do PT e seus comparsas alugados.

Para prejudicar os candidatos oposicionistas Geraldo Alckmin e José Serra, espalharam que ambos, se fossem vitoriosos, extinguiriam sumariamente o maior programa oficial de compras de votos do mundo. Quem fabrica dossiês infames a cada eleição deve achar que a difusão de falsidades é pecado venial.

Como se viu neste sábado, os fregueses do Bolsa Família acreditam em qualquer vigarice. Essa é a notícia ruim. A boa é que agora também acreditam que o governo Dilma é capaz de tudo.

21/05/2013

às 13:44 \ Feira Livre

‘O primeiro passo de Aécio’, editorial do Estadão

PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA TERÇA-FEIRA

Nas disputas presidenciais de 2002, 2006 e 2010, o PSDB acumulou uma fieira de derrotas eleitorais e, já não bastasse, políticas. Aquelas talvez tenham sido inevitáveis, primeiro, diante do carisma avassalador de Lula, depois, em razão dos ventos favoráveis da economia que lhe permitiram investir pesadamente no social e, graças a isso, eleger o “poste” Dilma Rousseff. Mas, por seus fracassos políticos, o PSDB só tem a si mesmo para culpar. Sujeitando-se a dançar conforme a música lulista, com a sua ensurdecedora percussão contra o que teriam sido os governos neoliberais de Fernando Henrique, os tucanos se recusaram a assumir o legado de oito anos de notáveis transformações na vida brasileira.

Ora mais, ora menos, as campanhas de José Serra (duas vezes) e Geraldo Alckmin guardaram oportunística distância das políticas do ex-presidente e como que lhe pediram o grande favor de não aparecer nos seus horários de propaganda. Essa escolha pusilânime e, afinal de contas, fútil desfigurou o partido a ponto de, passados os ciclos sucessórios, se reduzir a um simulacro de oposição. Com isso, o PT ficou praticamente sozinho em cena: há anos que, na esmagadora maioria das ocasiões, o PSDB só é notícia por causa das desavenças entre os seus líderes e respectivas patotas. Mas alguma coisa pode ter começado a mudar desde a convenção de sábado que elegeu o senador mineiro Aécio Neves presidente da legenda.

O seu quase certo candidato ao Planalto no ano que vem deu o primeiro passo para a reconstrução da identidade tucana. “Erramos por não termos defendido, juntos, todo o partido, com vigor e convicção devidos, a grande obra realizada pelo PSDB”, escreveu em carta aberta aos correligionários. No discurso de posse, foi ainda mais direto. “(Somos) o partido das privatizações que tão bem fizeram ao Brasil”, afirmou, dirigindo-se a Fernando Henrique. “Somos o partido da Lei de Responsabilidade Fiscal. Somos o partido que permitiu que milhões de brasileiros voltassem a consumir”, enumerou. O tempo – e não será tanto tempo assim – dirá se a fala representa um novo começo para fixar a posição da sigla no debate público nacional ou apenas uma exortação retórica para o seu público interno.

A dúvida tem razão de ser. Não faltaram comentaristas a elogiar Aécio pelo tributo prestado ao ex-presidente, apressando-se porém a considerar contraproducente a evocação do passado em face de uma candidata à reeleição com a popularidade nas nuvens e tida como franca favorita a levar a melhor já no primeiro turno. Quantos eleitores cuja vida melhorou nos últimos 10 anos, pergunta-se, deixarão de votar em Dilma, preferindo Aécio, porque a estabilidade econômica da era FHC é que tornou possível a melhora? Se, no correr da campanha, os tucanos sucumbirem a essa lógica, reproduzindo o erro humilhante das disputas anteriores, as palavras do político mineiro nem sequer merecerão uma nota de rodapé na crônica do partido.

Mas não há por que reincidirem. Em primeiro lugar, nada garante, nem poderia garantir, que a dianteira da presidente nas sondagens se mantenha intacta daqui a 17 meses, poupando-a dos riscos de um confronto direto com Aécio na rodada final. (É altamente improvável o cenário de um tira-teima entre Dilma e Eduardo Campos, do PSB, ou Marina Silva, da Rede Sustentabilidade, a se confirmarem as suas candidaturas.) E se o PSDB tiver uma fisionomia inequívoca a mostrar ao eleitor será um ganho, não uma perda, para o seu candidato. Seja lá o que tenha motivado o comentário do governador petista do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, ele está certo ao dizer que, depois do pronunciamento de Aécio, “a disputa terá mais conteúdo”. Não é bem o que Dilma e o seu mentor Lula devem querer.

Em segundo lugar, bem feitas as contas, o PSDB não tem escolha – isto é, se pretende se manter na linha de frente da política nacional. O seu futuro não estará exclusivamente nas urnas de 2014. Mesmo na hipótese de derrota, o seu patrimônio para novos embates eleitorais só crescerá se tiver assumido com clareza as suas verdades. A demanda da sociedade por uma oposição consistente à hegemonia petista não pode ser subestimada.

18/05/2013

às 21:10 \ Sanatório Geral

Aluguel bilionário

“O sonho de todo partido é ter um dia candidato a presidente da República. Não temos tempo para preparar uma candidatura em 2014, mas teremos tempo em 2018 e isso é uma coisa decidida”.

Michel Temer, vice-presidente da República, avisando que os valores do contrato de aluguel que garantiu o apoio do PMDB ao governo Dilma Rousseff  sofrerão reajustes muito superiores ao índice da inflação oficial.

11/05/2013

às 8:17 \ Direto ao Ponto

Dora Kramer: ‘Sem folga na direção’

Trecho: A presidente em tese vive circunstâncias mais vantajosas: não tem oposição forte como tinha o tucano, não está na administração de um escândalo das proporções do mensalão, vive em campanha eleitoral aberta no pleno uso da máquina estatal, em suma: joga sozinha e com as “brancas”. Nessas condições, 53% de intenções de voto não é grande coisa: o jogo ainda não começou para valer, a economia patina, as insatisfações se explicitam nos setores mais diretamente interessados (empresariado e políticos) e a imagem de grande gestora e governante austera vai batendo de frente com a realidade de resultados parcos e fisiologismo deslavado. Se o cenário não sinaliza perda do favoritismo, tampouco desenha vitória no primeiro turno.

Leia a íntegra na seção Feira Livre.

26/04/2013

às 18:11 \ Feira Livre

”Diálogo’ na Venezuela’, editorial do Estadão

PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA SEXTA-FEIRA

Como se sabe, Nicolás Maduro venceu a eleição presidencial venezuelana por um fio, uma vantagem de menos de dois pontos porcentuais sobre seu adversário, Henrique Capriles, mas seu governo está agindo como se tivesse tido 100% dos votos e como se Capriles representasse não metade do eleitorado, mas um bando de delinquentes.

É esse o tom do “diálogo” que Maduro ofereceu à oposição em seu discurso de posse. “Estou disposto a conversar até com o diabo”, afirmou o eleito, no mesmo pronunciamento em que comparou os opositores aos nazistas.

Mal acabou a cerimônia de posse, porém, Maduro e seus correligionários passaram a articular a condenação de Capriles sob a acusação de ter incitado os protestos após a eleição, nos quais houve nove mortos – todos chavistas, segundo o governo, que tem sido a única fonte de informações a respeito das vítimas. Por ora, não foram exibidas provas, e Capriles nega responsabilidade.

O cerco a Capriles segue o figurino chavista: finge-se cumprir a lei e prestigiar as instituições para chegar a um resultado totalmente arbitrário e danoso para a democracia. Seguindo esse modelo, Capriles está sendo acusado num processo cujo desfecho, mantidas as atuais condições, é conhecido de antemão: ele poderá ser exemplarmente condenado.

A Assembleia Nacional instalou uma comissão para apurar a responsabilidade pelos confrontos. Todos os seus 11 integrantes são do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), a agremiação chavista. Segundo o presidente da comissão, deputado Pedro Carreño, a oposição foi deixada de fora porque “não é democrática e não pode fazer parte de uma comissão democrática”, já que não reconhece a eleição de Maduro.

Carreño não deixou dúvida sobre a isenção dos trabalhos que ele presidirá. Segundo o deputado, serão investigadas “todas as ações fascistas geradas pelo assassino Capriles e seu comando de campanha”, e a comissão parlamentar “servirá para desmascarar a canalha midiática, o golpismo e o fascismo, além da direita reacionária, criminosa e assassina que Capriles dirige”.

O próprio presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, que cassou a palavra dos deputados da oposição, disse que “as mortes ordenadas pelo fascista assassino Capriles não podem ficar impunes”. No mesmo tom, a ministra para os Serviços Penitenciários, Iris Varela, disse que já está “preparando a cela” para Capriles, porque ele “tem de pagar por seus crimes”.

Não são apenas Capriles e os deputados oposicionistas que estão sofrendo perseguição implacável. Há informações de que funcionários públicos estão sendo assediados e demitidos porque se declararam eleitores da oposição. Além disso, sob o pretexto de acabar com as “sabotagens” que, segundo os chavistas, são a causa dos constantes apagões no país, Maduro militarizou a estatal de eletricidade, usando a oposição como bode expiatório para a incompetência do governo na gestão do setor, que está sucateado.

Foi nessa atmosfera de intimidação que o governo de Maduro recebeu o respaldo integral da presidente Dilma Rousseff, que logo lhe telefonou para dizer que estava “pronta para trabalhar junto” com ele. Ao justificar seu apoio e o dos demais países da Unasul (União das Nações Sul-Americanas) a Maduro, Dilma disse que reiterava “os compromissos com os processos democráticos”. Ora, se assim é, Dilma e a Unasul deveriam ter ao menos mencionado, em algum momento, a necessidade da restauração de um mínimo de normalidade democrática na Venezuela.

Mas não. Enquanto as instituições republicanas são destroçadas na Venezuela, e o principal líder da oposição, dono de mais de 7 milhões de votos, pode ser encarcerado num processo claramente viciado, Dilma e seus parceiros bolivarianos agem como se vigorasse naquele país o mais perfeito Estado de Direito, como se o “diálogo” prometido por Maduro fosse possível diante de tanta truculência.

24/04/2013

às 18:40 \ Feira Livre

‘Um inferno cheio de boas intenções’, de José Nêumanne

PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA QUARTA-FEIRA

JOSÉ NÊUMANNE

A presidente Dilma Rousseff não compreendeu a evidência que emergiu das urnas venezuelanas na última eleição presidencial. A Venezuela é – sempre foi – um país dividido ao meio. Nos últimos anos, o carisma de Hugo Chávez, apoiado numa capacidade de comunicação e numa loquacidade similares às do compadre dele e padrinho dela Luiz Inácio Lula da Silva, fez a balança pesar mais para o seu lado. Mas sua morte restaurou o equilíbrio de antanho e de nada adiantaram os truques continuístas incorporados às instituições políticas e eleitorais do país pelo comandante bolivariano para evitar que a calamitosa situação econômica se refletisse nas urnas.

A pequena margem da maioria de Nicolás Maduro sobre Henrique Capriles e o fato de ela contrariar o resultado de pesquisas de boca de urna não caracterizam, por si sós, ter a contagem de votos sido fraudada. Mas também não faltaram evidências de uso abusivo da máquina pública em favor do presidente reeleito. Só o fato de ter ele feito propaganda partidária à véspera do pleito na televisão pública evidencia a quebra de um conceito elementar de uma disputa eleitoral numa democracia digna dessa denominação: a igualdade de oportunidades para quem dispute a preferência do eleitor.

Não dá para questionar a legitimidade da escolha de Dilma para presidir o Brasil. Mas a lisura dos resultados eleitorais brasileiros, que nunca foi posta seriamente em dúvida, não a autoriza a apoiar, em nome da Nação toda, nenhum dos lados numa eleição sobre a qual paire alguma dúvida. Até porque a votação foi parelha demais e a evidência dessa igualdade exige um mínimo de respeito democrático a quem optou pela substituição do escolhido por Chávez por um oposicionista. Dilma não é presidente apenas de quem a sufragou. Vigendo neste país uma democracia de fato, e ninguém tem o direito de duvidar disso, ela governa em nome de todos. Só que não deveria usar esse peso para ajudar um amigo ou parceiro de crença ideológica.

Ainda mais quando o amigo e companheiro apoiado levou a ferro e fogo até a última faísca a convicção que ela mesma já expressou, em plena campanha antecipada para continuar no poder, de que é lícito “fazer o diabo” para ganhar uma eleição. Felizmente, o Brasil não é a Venezuela. As instituições de nosso Estado Democrático de Direito não permitem a licenciosidade de que os bolivarianos lançaram e lançam mão no país vizinho para controlar Judiciário e Legislativo como se fossem não Poderes autônomos, mas instâncias subordinadas aos mandatários do Executivo. E, Dilma seja louvada, a livre comunicação nestas plagas impede que nossos governantes transgridam as leis.

Convém, no entanto, que as forças vivas da sociedade brasileira atentem para manobras, nem sempre muito sutis, às quais a aliança que sustenta o governo federal, com fome e força de leão, apela para não largar o osso suculento das presas da caçada institucional. Tudo tem sido feito no atual governo para assegurar à sua chefe a vitória – e sem ter de disputar segundo turno – no pleito federal do ano que vem. Diante da perspectiva de retirada do aliado histórico Eduardo Campos, presidente nacional do Partido Socialista Brasileiro (PSB) e governador de Pernambuco, a chefe do governo tratou de ampliar sua base de sustentação atraindo para o palanque o Partido Social Democrático (PSD), do ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab. E de manter a sociedade com o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), com direito ao bis de vice.

Para evitar deserções ela tratou ainda de jogar no lixo as abandonadas intenções de sanear a Esplanada dos Ministérios, trazendo de volta para lá os maiorais do Partido Democrático Trabalhista (PDT) e do Partido da República (PR), que haviam sido defenestrados em nome da decência cívica e da probidade administrativa.

E da mesma forma que abre mão de nobres princípios assumidos como bandeira no início de seu governo, Dilma Rousseff também recorre ao pretexto de uma providência necessária para reduzir o déficit de representatividade na democracia nacional apenas para atender ao mais deslavado oportunismo. Com a mesma desfaçatez com que cria ministérios para abrigar o maior número de partidos na base governista, a presidente levou a Câmara dos Deputados a aprovar a toque de caixa novas regras para impedir que ex-aliados e eventuais adversários no futuro inflem seus palanques. A lei aprovada na Câmara e encaminhada ao Senado modificando os critérios de distribuição das verbas do Fundo Partidário e dos segundos no horário da propaganda partidária no rádio e na televisão é a mais deslavada prova de acerto da filosofia avoenga segundo a qual “de boas intenções o inferno está cheio”. Prova-o o emprego de dois pesos e duas medidas no tratamento de sombra e água fresca dado ao futuro aliado Kassab, oposto à dieta de pão e água a que submeterá os ex-companheiros de jornada Eduardo Campos e Marina Silva. Com direito ao cínico comentário do ministro-chefe da Secretaria da Presidência, Gilberto Carvalho, que atrelou o expediente malandro de desfalcar desde já adversários prováveis de daqui a 18 meses ao preceito democrático da fidelidade partidária, corretíssima demonstração de respeito à soberana vontade da cidadania.

Ainda que o presidente do PSDB de Minas, deputado Marcus Pestana, exagere ao comparar a iniciativa de Dilma ao “pacote de abril”, que garantiu à ditadura militar a vitória eleitoral em 1977, mas não lhe assegurou a sobrevivência, o casuísmo continuísta excede em cuidados. Como a reeleição da presidente é muito provável, mesmo que só ocorra no segundo turno, essa pressa toda na corrida de sede ao pote deixa no ar um preocupante desapreço à igualdade de oportunidades, sem a qual a democracia é uma falsa ilusão enganosa e injusta.

19/04/2013

às 15:30 \ Direto ao Ponto

Editorial do Estadão: O apoio de Dilma Rousseff a Nicolás Maduro

Trecho: Quando estiver hoje na Venezuela para prestigiar a posse do presidente eleito Nicolás Maduro, a presidente Dilma Rousseff estará dando apoio formal, pretensamente em nome de todos os brasileiros, a um governo cuja legitimidade é, no mínimo, controversa.

Leia a íntegra na seção Feira Livre.

19/04/2013

às 13:25 \ Feira Livre

‘O apoio de Dilma a Maduro’, editorial do Estadão

PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA SEXTA-FEIRA

Quando estiver hoje na Venezuela para prestigiar a posse do presidente eleito Nicolás Maduro, a presidente Dilma Rousseff estará dando apoio formal, pretensamente em nome de todos os brasileiros, a um governo cuja legitimidade é, no mínimo, controversa.

O modelo de democracia que subsiste na Venezuela à custa de sucessivas vitórias eleitorais perdeu o viço com o “empate” do último pleito, expondo, sem mentiras e meias palavras, o caráter autoritário da “revolução bolivariana”. Não há mais uma figura carismática como a de Hugo Chávez, nem mesmo na forma de um passarinho, capaz de fazer os venezuelanos acreditarem que o país em que vivem, com toda a sua violência, corrupção e carestia, é o paraíso socialista na Terra. Restaram apenas os medíocres lugar-tenentes do falecido caudilho, que só se garantem no poder graças ao aparelhamento governista de todas as instituições da república, uma máquina ubíqua montada para intimidar qualquer forma de oposição.

É por isso que, a despeito das justificadas desconfianças oposicionistas sobre a lisura da eleição de Maduro, o herdeiro de Chávez assume o poder sem que se lhe oponha qualquer resistência jurídica. Quando a presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Luisa Morales, acusa o candidato derrotado Henrique Capriles de “enganar” os venezuelanos, por exercer seu direito de pedir a recontagem dos votos, é porque não há mais uma verdadeira democracia – se é que, sob o chavismo, algum dia houve.

No Conselho Nacional Eleitoral (CNE), a farsa foi completa. Em tempo recorde, proclamou-se Maduro vencedor, mesmo com a reticência do único de seus integrantes que não é chavista, Vicente Díaz, que defendera a recontagem. É esse mesmo CNE que não apurou nenhuma das denúncias sobre o uso ilegal, à luz do dia, da estrutura do Estado para favorecer o candidato oficialista; que não se incomodou com a exposição permanente desse mesmo candidato em todas as emissoras de TV, fazendo campanha explícita inclusive no período em que isso era expressamente ilegal, num favorecimento flagrante; e que não investigou as centenas de denúncias de intimidação de eleitores, de urnas fraudadas e de propaganda governista ilegal.

Como Dilma deveria saber, democracia não se torna autêntica apenas pelo ato de depositar um voto numa urna. Os chavistas, cada vez que se expõe o autoritarismo de seu governo, enfileiram como argumentos para provar seu caráter democrático as tantas eleições que Chávez venceu, cuja lisura foi atestada por observadores internacionais. Como toda malandragem retórica, esta ignora o fato de que eleições são apenas um dos instrumentos da democracia, que só funciona se houver instituições sólidas e independentes e estiverem garantidas a liberdade de expressão e a alternância no poder. Nada disso há na Venezuela, como acaba de provar o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, que mandou destituir os oposicionistas das comissões parlamentares. “Deputado opositor que não reconhecer Nicolás Maduro presidente não será reconhecido pela Assembleia Nacional”, anunciou Cabello, mui democraticamente.

Diante dos mortos em confrontos de rua e das incertezas sobre os resultados da eleição, diversos países adiaram o reconhecimento da vitória de Maduro. Para os EUA e a União Europeia, a recontagem pedida por Capriles seria importante para conferir ao eleito a legitimidade que está sob suspeição. Mas o governo de Dilma, alinhado a bolivarianos de carteirinha como Argentina, Bolívia e Equador, tratou rapidamente de endossar Maduro e, por tabela, criar um clima de confronto com os EUA – que Maduro tratará de explorar ao máximo, para ganhar legitimidade no grito.

Ao manifestar apoio integral a Maduro, o ex-presidente Lula, chefe de Dilma, escancarou essa estratégia: “De vez em quando, os americanos se dedicam a pôr em dúvida a eleição alheia. Deveriam se preocupar consigo mesmos e deixar que nós elejamos o nosso destino”. O problema é que, na Venezuela, esse “nós” não inclui a oposição.

12/04/2013

às 17:45 \ Feira Livre

Dilma e os 40 ministros, um texto de Fernando Gabeira

PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA SEXTA-FEIRA

FERNANDO GABEIRA

É muito difícil fazer a revolução, é muito difícil vencer, mas as dificuldades mesmo começam quando se chega ao governo – essa frase é de um personagem do filme A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo. Sempre me interessei pelo tema na literatura que descreve as transformações na cabeça das pessoas que alcançam o poder. O personagem de Pontecorvo referia-se a uma guerra de libertação nacional contra o colonialismo francês, algo muito mais dramático do que a vitória da esquerda brasileira em 2002.

Minha experiência no Brasil me leva a ressaltar um ponto decisivo na corrosão dos objetivos estratégicos – quando existem – dos vencedores de uma luta prolongada: o desejo patético de continuar no poder, desde o primeiro dia em que nele se instalam. A contradição entre o discurso modernizador e as atitudes do governo fica muito mais clara no período eleitoral, embora exista todo o tempo.

Dilma Rousseff convidou o empresário Jorge Gerdau para colaborar na racionalização administrativa do governo. Gerdau foi decisivo na modernização do governo do Estado do Rio de Janeiro. Temos uma dívida de gratidão com ele, que investiu dinheiro do próprio bolso no projeto. O único efeito colateral dessa operação bem-sucedida foi o aumento do prestígio do governador Sérgio Cabral. Nada de muito grave que não pudesse ser anulado com uma noitada em Paris, a bajulação do dono da Delta, guardanapos amarrados na cabeça e as mulheres exibindo os sapatos Christian Louboutin como se dançassem um passo de cancan.

Apesar de todo o trabalho de Gerdau, Dilma criou mais ministérios. Oficialmente temos 39. Com o marqueteiro João Santana funcionando como ministro especial, podemos chamá-los de a presidente e seus 40 ministros. A racionalidade foi para o espaço porque existe apenas o patético desejo de continuar no poder.

Como se não bastasse, Dilma resolveu prolongar a redução do IPI dos carros até o fim do ano. Qualquer pessoa sensata que ande pelas ruas das metrópoles brasileiras sabe que estamos chegando ao limite e a falta de mobilidade urbana é um grande desafio à produtividade nacional. Isso para não mencionar os portos, como o de Santos, com filas quilométricas de caminhões. Não conseguimos exportar nossa produção com fluidez, a mercadoria adormece no asfalto. E quando importada de avião não consegue ser liberada pela burocracia.

É surpreendente como uma esquerda que se inspirou no marxismo, mesmo sem o ter lido bem, com raríssimas exceções adota o caminho irracional com tanta naturalidade. Falando com um americano do setor de petróleo, ele se mostrou perplexo com a decisão da Petrobrás de comprar uma refinaria em Pasadena, nos EUA. O equipamento é superado, custou alguns milhões de dólares mais do que valia e nos deixou com o mico nas mãos. Não posso afirmar que essa irracionalidade esteja ligada às eleições, assim como a tentativa de entregar ilhas do patrimônio nacional ao ex-senador Gilberto Miranda. Mas se alguém ganhou dinheiro com o negócio desastroso, os dólares têm toda a possibilidade de aparecer nas campanhas.

Muitos gostam de enriquecer, comprar imóveis em Miami, alugar aviões, etc… Mas o dinheiro da campanha é sempre sagrado: the show must go on. Isso num contexto geral mais obscuro, em que eleitoralmente é possível saber quem ajuda o governo, mas, pelo fechamento do BNDES, é impossível saber quem o governo ajuda.

O trânsito para a total irracionalidade é mais nítido na esquerda venezuelana, que usa o mesmo marqueteiro do PT. Num dos anúncios criados por Santana, Hugo Chávez aparece no céu encontrando-se com Che Guevara, Simón Bolívar. Nicolás Maduro, o candidato chavista, vai mais longe: afirma que o comandante Chávez reaparece em forma de passarinho quando se reza por ele. Breve teremos passarinhos trinando nos campos verdes, a encarnação de Chávez protegendo nosso sono, aconselhando-nos nos dilemas cotidianos e, claro, batendo pesado na oposição.

Como foi possível sair da leitura de Marx para um realismo fantástico de segunda categoria? Como foi possível do caldo das teses de Marx sobre Feuerbach, mostrando a origem social do misticismo, ou do tempero de A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, a crença de que exista um canto no céu onde se encontram os ícones da esquerda latino-americana e que eles viram passarinho para nos indicarem o caminho da libertação? Mesmo sem parecer muito inteligente, não creio que Maduro leve a sério essas histórias da transfiguração de Chávez.

No caso de Lula, posso falar com mais propriedade. Ao nomear Dilma a mãe do PAC, houve uma nítida inflexão em suas ideias sobre o mundo. Lembro-me de que em 2002, na Caravana da Cidadania, ao visitarmos São Borja, onde Getúlio Vargas está enterrado, Lula hesitou em levar flores ao seu túmulo. “Não seria fortalecer um populismo desmobilizante?”, perguntou. Certamente Lula não acredita que a sociedade democrática seja uma réplica da família, na qual os governantes fazem o papel dos pais e os eleitores, de filhos obedientes.

A verdade é que a esquerda no poder deixou para trás muitas convicções. Oscila entre o paternalismo e o misticismo religioso. Suas fontes não são apenas as religiões de origem cristã. Inconscientemente, já pratica o vodu, sobretudo a ouanga, um feitiço para envenenar simbolicamente os adversários por intermédio de seus sacerdotes eletrônicos. Não percebe que o destino final de seu sonho de poder é a criação de uma nação de zumbis, manipulando gadgets, povoando supermercados, mentalmente mortos por falta de oxigênio no cérebro.

Em vez de avançar por meio da prática e da autocrítica, de aprender com os próprios erros e contribuir para o alargamento do horizonte intelectual, a esquerda em alguns países latino-americanos optou pelo atraso e pela superstição simplesmente porque tem pavor de perder o governo, como se não houvesse vida fora dele. Assim, uma jovem rebelde dos anos 60 se transformou na Mãe Dilma, apoiada pelo Pai Lula, e seu 40.º ministro produz filmes sobre a esquerda no céu para os herdeiros de um passarinho chamado Chávez.

 

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