Blogs e Colunistas

dilmês

14/06/2013

às 21:20 \ Sanatório Geral

Neurônio empacado

“O Pezão, de fato, fala para mim, sempre, que nós temos de ir para o PAC 4, para o 5, para o PAC 6. Eu concordo com o Pezão, a gente vai fazer vários PACs. Agora é hora de executar bem o PAC 2, agora é hora, Pezão. E eu tenho certeza que você faz isso, porque você fez isso no PAC 1″.

Dilma Rousseff, em dilmês de favela, durante anúncio de investimentos nas comunidades da Rocinha e nos complexos do Lins e do Jacarezinho, internada por Celso Arnaldo ao insinuar que já está chegando a hora de desenhar mais 12 milhões de casas e 50 mil creches

24/04/2013

às 8:07 \ Direto ao Ponto

Caxirola: a vuvuzela da Copa de 2014 chacoalha Dilma Rousseff

CELSO ARNALDO ARAÚJO

O Portal do Planalto, fornecedor oficial da coluna, anunciou agora à tarde, sem aviso prévio na agenda presidencial do dia, um novo e promissor item: “Discurso da Presidenta da República, Dilma Rousseff, na abertura da Exposição O olhar que ouve, de Carlinhos Brown – Brasília/DF”.

Olhar que ouve, Dilma Rousseff, Carlinhos Brown? Manchete que naturalmente convida a uma excursão aos domínios do dilmês oficial, o dilmês de palácio. É no Palácio do Planalto, glória da arquitetura brasileira, que Carlinhos Brown expõe a partir de hoje sua mostra de pinturas intitulada “O olhar que ouve”. Niemeyer se fez de morto para não saber disso. O tal “olhar ouvinte”, se pudesse, se faria de surdo, porque lá vem Dilmalada:

“Eu queria começar comprimentando o Carlinhos Brown. E eu estava dizendo para ele que as pessoas que têm talento, como ele tem, acham normal ter talento. E acham normal inventar a caxirola”.

Caxirola? Sim, ela decorou bem o neologismo trava-língua criado por Carlinhos Brown, que acaba de superar fuleco ─ e isso parecia simplesmente impossível ─ como a pior palavra já criada pela espécie humana desde o advento da fala. É isso mesmo: caxirola. Mas, voltando ao início do discurso da Dilma, há algo a ser dito: o mundo tem 7 bilhões de habitantes. É provável que 6.999.999.000 não achem normal inventar alguma coisa que não tenham a menor ideia do que seja, como a caxirola.

Aliás, o que vem a ser a caxirola? Vindo de Carlinhos Brown, poderia muito bem ser uma combinação de caixa com caçarola. Mas quem leu o título deste post, e verá o vídeo em seguida, já sabe: Carlinhos criou a caxirola para ser, nos estádios da Copa de 2014, sobretudo quando o Brasil estiver em campo, o que foi a vuvuzela na Copa da África do Sul. Tão ensurdecedor e exasperante como? Em tese, menos. Aquela era instrumento de sopro, terrível para os tímpanos, mesmo pela TV. Esta, de percussão bem discreta, pelo menos quando sozinha. Mas a impressão de Dilma sobre a caxirola é entusiástica:

“Nós, a mim me provoca, na minha ausência de talento musical, provoca uma surpresa que eu acho que todos aqui compartilham. A surpresa diante de uma coisa tão bonita, tão simples, tão sintética e tão representativa do Brasil”.

Ok, Dilma, confessadamente, surpreendendo a todos, tem “ausência” de talento musical ─ a par de suas múltiplas ausências de talento. Mas, embora tão simples para ela, a caxirola pareceu-lhe realmente mágica: Carlinhos Brown criou um surpreendente instrumento, representação da alma musical brasileira — inclusive nas cores, tão inusitadas para uma Copa do Mundo no Brasil: verde e amarelo.

Mas espere: Carlinhos, no vídeo, começa a sacudir a caxirola, Dilma e Marta ensaiam agitar desajeitadamente a caxirola, e…surpresa de verdade: ela soa como um chocalho. Talvez porque seja um chocalho. Um prosaico chocalho em forma de sino. Carlinhos Brown reinventou o chocalho. Um chocalho com status ─ vai chacoalhar a Copa no Brasil. Imagine 100 mil caxirolas, em uníssono, nas arquibancadas: a vuvuzela soava como uma serenata de Mozart.

Mas espere de novo: no texto do Planalto que acompanha a notícia da cerimônia, o redator descreve a pretensa vuvuzela da Copa de 2014 como “um tipo de chocalho inspirado no caxixi”. Caxixi? Segundo o Wikipedia, “um pequeno cesto de palha trançada, em forma de campânula, contendo pedaços de acrílico ou sementes, para fazê-lo soar. No Brasil, é usado principalmente como complemento do berimbau”.

Agora ligou o nome à figura? Você já viu um tocador de berimbau segurar esse instrumento com a mesma mão que empunha a vareta, de modo que cada pancada da vareta sobre a corda seja acompanhada pelo som seco e vegetal do caxixi? Já? Então você já viu e ouviu a caxirola bem antes da Copa: sim, era o caxixi. Carlinhos Brown não apenas reinventou o chocalho como copiou o caxixi. E, num laivo de criatividade, pintou-o de verde e amarelo, rebatizando-o de caxirola — já marcando um golaço na estreia oficial, no Palácio do Planalto: ver Marta Suplicy sacudindo sem graça duas caxirolas e cantando o Hino Nacional enquanto Carlinhos Brown “caxirola” a bandeira brasileira, não tem preço. Veja o vídeo.

Mas Dilma parece nunca ter ouvido um caxixi ou nem mesmo um chocalho antes. Continua tão impressionada com o novo símbolo sonoro da Copa que não acreditou em Carlinhos quando ele lhe disse, antes da cerimônia, que era normal fazer uma caxirola. Normalíssimo: era só fazer um chocalho em forma de caxixi.

“O Carlinhos é um autor e um grande artista. E ele expressa um mundo diverso, mas muito específico, do Brasil, e especialmente da Bahia. A pluralidade, o fato de que esse mundo tem milhões de aspectos. E agora o Carlinhos nessa sua quase ingênua aceitação de que ´ah, não, é muito fácil fazer uma caxirola´, nos encanta porque ele combina aí a imagem, essa imagem lá, verde e amarela da caxirola, esse fato que nós estamos falando de um plástico verde, de um país que tem a liderança da sustentabilidade no mundo e ao mesmo tempo é um objeto capaz de fazer duas coisas: de combinar a imagem com som e nos levar a gols”.

Já posso ouvir José Silvério gritando na final da Copa, no Maracanã: “Caxirola chacoalha as redes da Espanha!”.

Poucas coisas, além do Edison Lobão do Diário da Dilma, mexeram tanto com ela como a caxirola:

“Eu tenho certeza que principalmente as crianças desse país vão ter uma experiência muito fantástica com a caxirola. O Carlinhos não disse, mas ele me falou que a caxirola também tem um sentido transcendental de cura, de enfim, de paz com o mundo, de estar, de fato em sintonia com a natureza e com todos os orixás”.

Imagino babás chacoalhando a caxirola diante de crianças indóceis. Também imagino médicos do Sírio-Libanês vibrando a caxirola diante dos leitos dos seus doentes. E pais de santo jogando minicaxirolas em vez de búzios. A coisa realmente chacoalhou Dilma:

“Eu acredito que a caxirola faz parte não só do futebol, mas da imensa capacidade do nosso país de fazer um instrumento muito mais bonito que a vuvuzela”.

Neste exato momento, faltam 414 dias, 2 horas, 11 minutos e 13 segundos para começar a Copa de fuleco, caxirola e Dilma Rousseff.

22/04/2013

às 19:57 \ Direto ao Ponto

A coluna festeja o 4° aniversário fiel aos princípios que prometeu honrar

Neste 20 de abril, a reportagem de capa de VEJA comprovou que, como tem reiterado a coluna desde o desbaratamento da quadrilha investigada pela Operação Porto Seguro, o silêncio de Lula sobre o caso Rose é sobretudo uma estridente confissão de culpa. O ex-presidente emudeceu por falta de álibi. Diferentemente do que ocorreu nas bandalheiras anteriores, o chefe não pôde terceirizar o escândalo que protagonizou ao lado de Rosemary Noronha.

Foi ele quem instalou a segunda-dama na chefia do escritório da Presidência reduzido a sucursal de uma quadrilha (e ordenou à sucessora que a mantivesse no cargo). Foi ele quem presenteou a delinquente de cama e mesa com a nomeação de comparsas para a direção de agências reguladoras. Achou que a história acabaria esquecida pelo grande viveiro de amnésicos. Desta vez não vai conseguir, adverte a coluna há 150 dias. O truque não funcionou, confirma a reportagem de VEJA.

Neste 21 de abril, o Estadão rendeu-se num editorial à constatação aqui repetida há mais de três anos: a presidente da República fala dilmês, um estranhíssimo dialeto indecifrável para gente normal. É feito de frases sem pé nem cabeça, platitudes de jardim de infância, sujeitos divorciados de predicados, colisões frontais entre substantivos e adjetivos, pausas bêbadas, infinitivos amputados e outros espantos que, conjugados, denunciam aos berros o sumiço do raciocínio lógico e a erradicação de vida inteligente.

Desde 2009, graças a dezenas de textos sempre primorosos de Celso Arnaldo Araújo, posts do colunista, declarações que transformaram a autora na recordista de internações no Sanatório Geral e observações do timaço de comentaristas, quem frequenta este blog contempla o interminável cortejo de assombros proferidos em dilmês castiço, erudito, vulgar, arcaico, rústico ou primitivo. Só agora os leitores do Estadão foram confrontados com a evidência de que  Dilma Rousseff não diz coisa com coisa. Até que enfim. Os editores do jornal, de hoje em diante, estão proibidos de esconder a indigência mental da presidente com traduções para o português.

A reportagem de VEJA foi publicada na antevéspera e o editorial na véspera do aniversário da coluna ─ que, graças a vocês, completou quatro anos de vida nesta segunda-feira. Somados, os textos reafirmam que fraudes não duram muito tempo seos  jornalistas independentes cumprirem o dever de desmascará-las. E demonstram que nada tem de quixotesca a fidelidade da página nascida em 22 de abril de 2009 aos princípios resumidos no canto superior direito: apressar a chegada do futuro e lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido

Entre tantos absurdos paridos pela Era da Mediocridade, não podem ser esquecidos escândalos como o que envolve o ex-presidente. E não têm direito a sonhar com um futuro sem sombras nações incapazes de enxergar a nudez da rainha. O cérebro não é dividido em compartimentos estanques. Quem não sabe montar uma frase com começo, meio e fim jamais saberá levar um  país ao porto seguro. O Brasil Maravilha celebrado por Lula é tão real quanto a supergerente que tenta camuflar um poste.

É hora de acabar com tapeações. É hora de recuperar a sensatez perdida em algum lugar do passado.

21/04/2013

às 18:41 \ Direto ao Ponto

Celso Arnaldo: O Estadão descobriu o dilmês

CELSO ARNALDO ARAÚJO

Entrou para o folclore da grande imprensa brasileira a patética pretensão de um solene editorialista de O Estado de S. Paulo dos anos 60 que, depois de tentar ensinar o Padre Nosso ao vigário — no caso, o Papa Paulo VI — através de seguidos editoriais criticando determinada posição do Vaticano, assim começa um texto aplaudindo tomada de posição do Sumo Pontífice que coincidia com a mudança de rumos defendida pelo jornal: “Conforme alertáramos Sua Santidade…”

Diante do editorial deste domingo no Estadão intitulado “Dilmês castiço”, é o caso de dizer: “Conforme alertáramos…”. Não tenhamos a pretensão de imaginar que o grande periódico dos Mesquita andou bebendo na coluna de Augusto Nunes – embora cite, entre os desastres linguísticos que justificam o editorial, ipsis literis, dois sanatórios localizados, enquadrados e aqui internados esta semana. Mas esse editorial, na verdade, poderia ter sido escrito por qualquer ser pensante que se dispusesse a ouvir atentamente um improviso de Dilma sobre virtualmente qualquer assunto – nos últimos três anos, esta coluna facilitou as coisas para eventuais interessados, divulgando e arquivando pelo menos duas mil amostras do trôpego dialeto falado por uma única pessoa na face da Terra. Conforme alertáramos….

De qualquer forma, modéstia à parte, mas às favas, a edição de O Estado de S. Paulo deste domingo é histórica também para esta coluna — enfim, ali se revela uma Dilma que, embora constrangedoramente exposta quase todos os dias diante de um microfone, ainda era tão clandestina quanto a Estela dos anos de chumbo: a Dilma cuja real capacidade de presidir o país é gravemente questionada sempre que ela abre a boca. O editorial do Estadão, que usa como título um neologismo criado neste espaço e que ainda era um jargão só usado por nossos leitores e comentaristas, é a tardia, mas muito bem-vinda, chancela da grande mídia à descoberta pioneira da coluna de Augusto Nunes: já dura três anos, somando-se o período de campanha, não interrompidos por uma única, solitária frase de três palavras com algum sentido ou lampejo, a mais explícita demonstração pública de despreparo de um chefe de estado na história deste país. Despreparo incomum até em pessoas comuns.

Da saudação à despedida, qualquer agrupamento de palavras pinçado do palavrório sem forma e conteúdo de Dilma, seja diante de ex-miseráveis do Bolsa Família ou de governadores e pesos-pesados do empresariado, impediria qualquer pessoa de exercer um cargo de quinto escalão num governo sério, se houvesse no processo de seleção alguma meritocracia. Numa empresa de porte médio, um candidato a emprego que falasse como Dilma não resistiria 30 segundos de pé na sala do RH.

O mais importante: em “Dilmês castiço”, o editorialista do Estadão não apenas destaca a “dificuldade que a presidente Dilma Rousseff tem de concatenar ideias, vírgulas e concordâncias quando discursa de improviso” como vincula essa miséria vernacular – outra posição antiga e solitária da coluna – à própria incapacidade de governar, haja vista seu grotesco ato falho sobre a “conquista” da inflação: “Se a presidente não consegue se expressar com um mínimo de clareza em relação a um assunto tão importante, se ela é capaz de cometer deslizes tão primários, se ela quer dizer algo expressando seu exato oposto, como esperar que tenha capacidade para conduzir o governo de modo a debelar a escalada dos preços e a fazer o País voltar a crescer? Se o distinto público não consegue entender o que Dilma fala, como acreditar que seus muitos ministros consigam?”.

Aqui, um singelo reparo ao questionamento do jornal: ao citar o Ministério de Dilma como uma espécie de “referência nobre” para esse dilema, o editorial gasta boa vela com péssimo defunto. Dilma não tem um Ministério, mas um minestrone estragado – uma sopa de letras supostamente partidárias que ali se amalgamam para operar no fundo do prato. Nenhum ministro reclama clareza nas ordens de Dilma. Nenhum questiona a lógica infantil das 6 mil creches, a viabilidade completamente aérea dos 800 aeroportos, a sandice expressa do Trem-Bala. Nada sairá como ela ordenou – e não importa a forma como ordenou.

E também não adianta especular se Dilma só fala tão mal em público e seria cristalina na zona de conforto dos gabinetes, seu habitat natural. Se fosse o caso, por que a caríssima Secretaria de Comunicação Social da Presidência ainda não lhe arrumou um midia trainer decente? Será porque a quase doutora que diz ser voraz consumidora de livros e de artes múltiplas nunca assimilou nada do que podia ter aprendido nas escolas que frequentou, nas reuniões que comandou, nos seminários a que assistiu? Estamos lidando com um fenômeno?

Ou você conhece mais alguém que diria isto?

“A Rede Cegonha é um tratamento da mãe antes do parto, durante a gravidez, no parto e depois no pós-parto, o tratamento da mãe e da criança. Em todas as fases, a gente olha duas pessoas que são essenciais para a saúde do povo brasileiro: a mãe a criança”.

Alguma chance de a Rede Cegonha decolar?

Mas, ministros e cegonhas à parte, o simples reconhecimento do Estadão de que há algo profundamente errado numa presidente incapaz de iniciar, concatenar ou terminar um raciocínio ao se expressar sobre virtualmente qualquer tema, sinalizando provavelmente um erro de pessoa, pode ser o começo de um novo nível de percepção da opinião pública em relação ao governo Dilma,cuja sintaxe é representada por obras que não começam, não terminam ou se desfazem no meio.

Como os pensamentos em dilmês castiço.

04/04/2013

às 22:16 \ Direto ao Ponto

Celso Arnaldo: As falas em dilmês são mais que um escândalo. São prova literal da grande farsa política de nosso tempo

Exatamente às 22h41 de 3 de junho de 2009, menos de três meses depois da inauguração do Sanatório Geral, Dilma Rousseff foi internada pela primeira vez na instituição da qual se tornaria a mais ilustre e assídua freguesa. A frase de estreia inspirou-se em outra leva de  patifarias, denunciadas por senadores do DEM, protagonizadas por José Sarney. Convidada a comentar as denúncias, a então ministra-chefe da Casa Civil tentou explicar que aquilo era mais uma invencionice da oposição. Só conseguiu balbuciar o seguinte:

─ Então, eu acho que tem um modelo no Brasil que dá pizza, que é esconder a questão debaixo do tapete.

Em 15 de outubro de 2009, o post republicado na  seção Vale Reprise marcou a estreia no Direto ao Ponto da coletânea de posts dedicados exclusivamente ao besteirol produzido em escala industrial pelo neurônio solitário. A coisa está feia, constatou o país que pensa. O texto de Celso Arnaldo reafirma que, no Brasil, o que está ruim demais sempre pode piorar. (AN)

O POLONÊS E O DILMÊS

Celso Arnaldo Araújo

O paciente claudicante, um imigrante polonês, vai fazer exame de vista e o oftalmologista projeta na parede a primeira sequência de letras para o teste de acuidade visual:

C J W K J Y Z K

O médico pergunta:

– O sr. consegue ler isso?

─ Claro, esse é muito meu amigo.

Quem frequenta esta coluna com alguma assiduidade já se habilitou a bater o olho em qualquer frase de Dilma com a sintaxe original e afirmar, sem pestanejar, mesmo omitida a indicação de autoria: isso é Dilma.

O índice de identificação será de 100%, mesmo se a frase em dilmês estiver misturada a outras mil, de autores diversos. O dilmês, ao contrário dos exóticos Quimbumbo, Yoruba, Palaúngico, Miáquico e Mundurucu, é idioma que não pertence a nenhum tronco linguístico e é desprovido de canais comunicantes ─ já que falado por um único usuário, Dilma Rousseff. Por isso, é inconfundível. E é trágico.

As falas oficiais de Dilma, transcritas do dilmês sem nenhuma revisão e cerimônia pela própria Secretaria de Comunicação Social da Presidência no Portal do Planalto, só ganham senso e sentido lidas por alguém com o espírito do simplório polonês do teste de optometria. Para um brasileiro que ouve, lê direito e pensa, essa exposição sem pejo do despreparo de Dilma é mais do que um escândalo – é prova literal da grande farsa política de nosso tempo.

A presidente do Brasil – e sobre isso não existe a mais remota dúvida — é incapaz de formular um raciocínio minimamente inteligente sobre qualquer assunto que venha a abordar, num palanque ou entrevista, e é especialmente desastrosa ao reproduzir ideias de outrem, piorando muito o raciocínio até de um matuto.

É o caso da estranha definição de futuro que teria sido dada pelo suposto cangaceiro citado por Dilma dia 2 de abril, num discurso em Fortaleza sobre a seca no nordeste. Não se conhece o teor original da sábia fala do cangaceiro que inspirou Dilma — graças ao Portal do Planalto, conhece-se apenas a versão em dilmês, divulgada ao vivo pela porta-voz dos raciocínios mais desconexos já formulados por um ente público neste país:

“O futuro está em cima, em cima no sentido de que o futuro é sempre uma exigência maior que a gente se faz a nós mesmos”.

Se tivesse dito isso, exatamente assim, é provável que o poético tabaréu, arremedo de Riobaldo, recebesse severa punição dos chefes, por introduzir mais enigmas, completamente indecifráveis, no árido mistério da vida por aquelas bandas do sertão. Esse “a gente se faz a nós mesmos” foi forte, muito forte. Dilma é dose.

Mas pálidas tentativas de mostrar à opinião pública a extensão da farsa ainda esbarram na “Síndrome do exame de vista do polonês”, que aparentemente acomete os 80% de brasileiros que, segundo o IBOPE, acham Dilma um colosso.

Hoje, em seu blog n´O Globo, Ricardo Noblat reproduz, sem nenhum adendo pessoal, um dos sanatórios internados há pouco nesta coluna – extraído de outro discurso de Dilma no Ceará, no mesmo dia do anterior. O pensamento fala por si. O dilmês não é uma via de pensamento, mas um fim em si mesmo, um laudo definitivo:

“Eu queria dizer para vocês, nesta noite, aqui no Ceará, em Fortaleza e nessa escola, o compromisso forte, o compromisso que é um compromisso que eu diria o maior compromisso do meu governo. Porque é que o compromisso com a educação tem que ser o maior compromisso de um governo”.

Dos 300 comentários até este momento publicados no blog do Noblat sobre mais esse espanto do dilmês, pelo menos 60% não notaram nada de errado na redundância rudimentar da pensata de Dilma — própria de quem vive “defendendo” a educação como um cacoete de político, jamais com o menor conhecimento de causa. Seus seis “compromissos” num raciocínio oco de três linhas equivalem, na prática, a nenhum. E a repetição não pode ser confundida com recurso retórico – apenas com absoluta falta de recurso analítico. Dilma provavelmente não saberia ordenar, sem hesitação, os diferentes níveis de ensino do organograma da educação brasileira.

Mas a redundância tacanha não perturbou mais do que um punhado de comentaristas. Muitos outros, mesmo não gostando de Dilma, preferiram questionar o compromisso da presidente com a educação – não os seis compromissos. Estes passaram despercebidos. O dilmês parece já ter se amalgamado, numa versão linguística do roteiro do clássico “Vampiros de Almas”, ao nosso substrato instintivo da psique – aquilo que Freud e redatores de palavras cruzadas com duas letras chamam de Id.

Já um petralha subiu nas sandálias de dedo na seção de comentários do blog do Noblat:

“Não entendi. Qual é a aberração da oração?

É a repetissão (sic) da palavra compromisso?”

Está explicada a síndrome do velho polonês que só enxerga amizade e pureza numa sequência desconexa de letras à sua frente?

28/03/2013

às 21:59 \ Direto ao Ponto

Os palavrórios em dilmês exigem tradução simultânea, legendas e versão dublada

Incompreensível em qualquer tema, o dilmês se torna impenetrável quando o assunto é economia. A confusão armada por Dilma Rousseff ao tentar explicar o que acha da inflação nada tem de surpreendente para os leitores da coluna. Como no discurso que inspirou o post republicado na seção Vale Reprise, o neurônio solitário fez o que sempre faz quando penetra nesse campo minado: não disse coisa com coisa.

A performance na África do Sul confirmou que a presidente não pode falar de improviso sem ter ao lado  um craque em tradução simultânea. E os vídeos que registram o palavrório em dilmês exigem legendas em português. Caso a inovação pareça excessivamente constrangedora, a coluna sugere aos marqueteiros do Planalto o imediato lançamento da versão dublada.

25/03/2013

às 22:00 \ Sanatório Geral

Aula de terror

“Escola em tempo integral não é aquela que primeiro ensina matemática, português e uma língua e ciências de manhã e de tarde faz arte e faz esportes. Não é isso não. Escola em tempo integral faz português, matemática, ciências, um língua o dia inteiro”

Dilma Rousseff, em mais um discurso aterrador transcrito na íntegra pelo Portal do Planalto, durante cerimônia de entrega de um trecho do Sistema Adutor Pajeú, em Pernambuco, internada por Celso Arnaldo ao descrever a estranha escola de seus sonhos, que deve ensinar dilmês em tempo integral.

23/03/2013

às 14:38 \ Direto ao Ponto

O QUARTO SEGREDO DE DILMA

CELSO ARNALDO ARAÚJO

Três anos de dilmês intensivo – em carga horária que me credenciaria a um pós-doutorado no estudo desse dialeto – e ainda estremeço ao ouvir Dilma. A reprodução que ela fez do diálogo privativo com o Papa Francisco, na coletiva depois do encontro, beira a insanidade narrativa — como o Augusto demonstrou magistralmente em post anterior. Não importa o que ele efetivamente disse a ela — certamente num português mais escorreito que o da presidente do Brasil — ou o que ela tentou dizer a ele, em dilmunhol. O grande problema é o que ela disse que ele teria dito. Não bastando dizer o que diz, Dilma ainda põe palavras suas nos lábios dos outros – e justo do papa!

Ao transcrever a conversa — que heresia — Dilma fez o novo papa falar dilmês: “Ele estava me dizeno que ele espera uma presença grande dos jovens na medida em que ele é o primeiro papa, ele é várias coisas primeiro”.

Em dilmês é assim: a conversa já tinha acabado, Dilma dava entrevista à imprensa, mas o papa ainda estava dizendo alguma coisa lá dentro. Deve ter ficado falando sozinho. E, segundo Dilma, além de sua beatitude natural, o papa tem também uma imensa platitude – a ponto de afirmar que espera grande presença de jovens numa jornada mundial de jovens. Francisco, que é “várias coisas primeiro”, é também o primeiro papa a se tornar ventríloquo de Dilma Rousseff.

Se o papa falasse como Dilma o transcreve, Jorge Mario Bergoglio não seria sacristão da capelinha da Villa 31, o bairro mais pobre de Buenos Aires. Ela empobrece e vulgariza tudo o que passa por sua fala – dos sentimentos mais nobres a uma receita de omelete. Dilma, que se diz economista e só não é doutora porque descobriram que não era, é a única usuária desse estranho patois que é o dilmês – expressão verbal que parece não ter passado por um processo completo de aquisição da linguagem. Imagine qualquer brasileiro presente na Praça de São Pedro no dia da entronização descrevendo uma hipotética conversa com o papa — nenhum diria as coisas que Dilma disse, como disse.

Assista ao vídeo de novo: a senhora que fala baixinho, dizendo em voz beatífica as maiores bobagens para soar como uma chefe de governo sintonizada espiritualmente com o pontificado de Francisco, parece uma estadista? Só se for pela pompa e pela circunstância de sua comitiva pagã – donos de agências de turismo calculam em 500 mil dólares, no mínimo, fora a parte aérea, os gastos com o beija-mão papal em Roma. Dilma não mediu custos. Foram 52 suítes no The Westin Excelsior e não se fala mais nisso. É aquela história – país rico é pais sem pobreza.

Mas não foi, em absoluto, uma viagem perdida. Na conversa com o papa, a presidente teve uma visão extraordinária, dela extraindo os Três Segredos de Dilma, a saber:
1. O papa é muito normal
2. O papa é muito modesto
3. O papa é muito importante para o momento em que vivemos

Este terceiro segredo de Dilma, como o terceiro de Fátima, ainda tem uma aura de mistério: queria ela referir-se, como mandaria a lógica, ao “momento que vivemos”, indicando uma quadra específica da vida humana na Terra; ou, como de fato disse, ao “momento em que vivemos”, o qual situa os sete bilhões de seres viventes da Terra em torno da descoberta de que estamos todos vivos, e ao mesmo tempo?

Mas há um quarto segredo, esse ainda insondável – quando for enfim revelado, virá à tona, em seus bastidores espantosos, o maior escândalo da história da República. Sempre que abre a boca, não importa o assunto, Dilma Rousseff passa a impressão de ser alguém que chegou à Presidência por um terrível engano. Os auxiliares mais próximos descobriram isso faz tempo. Não são burros — longe disso. Quando constataram o erro de pessoa, no dia mesmo em que Dilma começou a falar, ainda na pré-campanha (“Pra mim sê pré”), temeram pelo pior, temeram pelo fim do lulopetismo e das lulomamatas, com a derrota nas urnas. Mas, como nada se contrapunha ao notório engano, nem da parte da oposição nem por iniciativa da mídia, a turma relaxou e a farsa acabou vingando.

A presidente revelou-se logo tão ou mais desastrosa que a candidata, mas, de novo sem contestação, as forças que colocaram Dilma na Presidência assumiram Dilma como ela é. Atualmente, o Portal do Planalto transcreve suas falas na íntegra, sem pentear um anacoluto ou disfarçar uma verruga sintática. São peças históricas – pela ousadia e pelo deboche.

Porque simplesmente não é possível, não é normal, não é aceitável que uma pessoa investida da condição de presidente da República tenha essa dificuldade patológica de expressar uma ideia, um conceito, uma opinião, uma analogia, um sentimento, uma sensação… uma conversa amena, descontraída e privilegiada com um papa que faz questão de deixar tudo e todos muito à vontade.

O que leva alguém a supor que uma pessoa com esse nível de estrato verbal tenha competência para ser presidente da República? Que entenda e processe convenientemente, por meio de argumentos bem articulados, sem platitudes contraproducentes ou pastiches de clichês, a miríade de temas nacionais que mobiliza um presidente da República?

O quarto segredo de Dilma ainda está longe, muito longe, de ser desvendado – haja vista sua extraordinária popularidade e a certeza quase estatística de que será reeleita no primeiro turno de 2014.

Será que o Papa Francisco já está habilitado a desfazer milagres?

26/10/2012

às 16:05 \ Sanatório Geral

Piada de Salão

“Esse (sic) Salão Internacional do Automóvel ele já se tornou um evento”

Dilma Rousseff, em dilmês automotivo, capturada por Celso Arnaldo ao inaugurar a 27ª edição do Salão do Automóvel, só agora descobrindo que ele se tornou um evento em 1960, quando foi realizado pela primeira vez.

23/10/2012

às 6:57 \ Sanatório Geral

Fluente em dilmês

“Fizemos uma análise geral apenas e a ideia de fazermos um bom governo, continuar fazendo um bom governo. Então foi muito a ideia de ‘Olha, Temer, vamos participar cada vez mais, vamos ter um bom governo nesses dois anos’. Que é isso que, na verdade, repercute bem na opinião pública”.

Michel Temer, vice-presidente da República, sobre a mais recente conversa com a chefe de governo, revelando apenas que já sabe falar dilmês.

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