Blogs e Colunistas

democracia

28/09/2011

às 12:03 \ Sanatório Geral

Doutor em fantasia

“Não conheço um governo que tenha exercido a democracia como nós exercemos.”

Lula, ao receber o título de Doutor Honoris Causa pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris, torcendo para que não houvesse na plateia nenhum francês que conheça o Brasil.

23/09/2011

às 6:08 \ Sanatório Geral

Me engana que eu gosto (328)

“Como mulher que sofreu tortura no cárcere, sei como são importantes os valores da democracia, da Justiça, dos direitos humanos e da liberdade.”

Dilma Rousseff, no discurso na ONU, explicando que aprendeu a valorizar a democracia e a liberdade, fora o resto, quando lutava para substituir a ditadura militar pela ditadura do proletariado.

01/06/2011

às 18:08 \ Sanatório Geral

Conselheiro doidão

“Os eventos das últimas semanas e o clima do retorno de Zelaya foram uma grande vitória para a democracia, e o Brasil estava presente”.

Marco Aurélio Garcia, uma boca à espera de um dentista e conselheiro para complicações cucarachas, explicando que a democracia foi vitoriosa em Honduras graças aos cinco meses em que a embaixada brasileira foi transformada em Pensão do Lula, sob a direção do companheiro Manuel Zelaya e dona Ximena.

28/04/2011

às 23:31 \ Sanatório Geral

Alma penada (3)

“Eu duvido que na história da democracia praticada pela humanidade tenha havido um governo que tenha exercido a democracia na plenitude que nós exercitamos”.

Lula, capturado pelo comentarista Hermenegildo Barroso quando revelava, na palestra gratuita para os metalúrgicos da CUT, que resolveu trocar o “nunca antes na história deste país” por um “nunca antes na história da humanidade”, mais adequado a quem fez doutorado em Coimbra.

22/04/2011

às 17:04 \ Direto ao Ponto

Na festa do segundo aniversário, a coluna ergue um brinde ao timaço de comentaristas

No momento em que escrevo esta frase, a coluna completa dois anos de vida e alcança a marca de 193.829 comentários publicados. Quase 200 mil. A quantidade vale uma festa. A qualidade merece ser celebrada com pompa e circunstância.

Em 730 dias, aqui se consolidou o melhor elenco de comentaristas da internet. Amplificados pela visibilidade crescente deste espaço, os comentários do timaço mostram o que vai pela cabeça dos brasileiros que amam a democracia e a liberdade, rejeitam qualquer tipo de autoritarismo, praticam o convívio dos contrários, acreditam que a lei deve valer para todos, abominam os deliquentes em geral e os corruptos em particular, defendem o respeito aos códigos morais, não têm compromisso com o erro, sabem que a firmeza de princípios não é incompatível com o bom humor, cultivam a fina ironia, procuram tratar a língua portuguesa com carinho, não aceitam a institucionalização da impunidade e, sobretudo, não capitulam.

A coluna deve a boa saúde aos milhares de amigos que garantem o altíssimo índice diário de leitura. Mas não seria tão vigorosa, e por isso mesmo tão assediada pelas milícias da Era da Mediocridade, se não contasse com a lealdade militante dos comentaristas. Um brinde ao timaço. Vocês são grandes, amigos. Até domingo.

21/04/2011

às 14:18 \ Feira Livre

“A inteligência está na rede”, entrevista com Don Tapscott

ENTREVISTA PUBLICADA NA EDIÇÃO 2212 DA REVISTA VEJA

André Petry

O canadense Don Tapscott, 64 anos, fala em um ritmo pré-digital: lento, cadenciado, meticuloso. Nada nele trai que foi um rebelde nos anos 60, insurgindo-se contra a guerra no Vietnã e a opressão da mulher, ou que seja hoje um dos mais respeitados estudiosos do impacto da tecnologia nas empresas e nas sociedades. Autor ou coautor de catorze livros, Tapscott participará no dia 3 de maio, em São Paulo, a convite do grupo TV 1, de um seminário sobre o futuro do marketing. A internet, diz ele, não muda o que aprendemos, mas o modo como aprendemos – e o impacto disso será tão intenso quanto a invenção dos tipos móveis da imprensa por Gurenberg. “Não vivemos na era da informação. Estamos na era da colaboração. A era da inteligência conectada”, explica. Na entrevista a seguir, Tapscott diz como vê as empresas e os governos da nova era.

Há tecnologias que melhoram a vida humana, como a invenção do calendário, e outras que revolucionam a história humana, como a invenção da roda. A internet, o iPad, o Facebook, o Google são tecnologias que pertencem a que categoria?

À das que revolucionam a história. O que está acontecendo no mundo de hoje é semelhante ao que se passou com a sociedade agrária depois da prensa móvel de Gutenberg. Antes, o conhecimento estava concentrado em oligopólios. A invenção de Gutenberg começou a democratizar o conhecimento, e as instituições do feudalismo entraram num processo de atrofia. A novidade afetou a Igreja Católica, as monarquias, os poderes coloniais e, com o passar do tempo, resultou nas revoluções na América Latina, nos Estados Unidos, na França. Resultou na democracia parlamentar, na reforma protestante, na criação das universidades, do próprio capitalismo. Martinho Lutero chamou a prensa móvel de “a mais alta graça de Deus”. Agora, mais uma vez, o gênio da tecnologia saiu da garrafa. Com a prensa móvel, ganhamos acesso à palavra escrita. Com a internet, cada um de nós pode ser seu próprio editor. A imprensa nos deu acesso ao conhecimento que já havia sido produzido e estava registrado. A internet nos dá acesso ao conhecimento contido no cérebro de outras pessoas em qualquer parte do mundo. Isso é uma revolução. E, tal como aconteceu no passado, está fazendo com que nossas instituições se tomem obsoletas. Os exemplos estão por toda parte. As instituições globais não conseguem resolver a crise da divida na Europa. Os jornais estão entrando em declínio. As universidades estão perdendo o monopólio da educação superior. São inscrições da era industrial, que está finalmente chegando ao fim.

Quais são, na sua visão, as principais características da sociedade pós-industrial?

Na era industrial, tudo é feito para a massa. Criamos a produção de massa, a comunicação de massa, a educação de massa, a democracia de massa, a sociedade de massa. A característica central da sociedade industrial é que as coisas começam com um (aquele que tem o conhecimento) e chegam a muitos (aqueles que não têm o conhecimento). No modelo da educação de massa, eu sou o professor, porque tenho o conhecimento. e os outros são os alunos, porque não têm o conhecimento. O fluxo é sempre no sentido de um para muitos. No sistema de saúde, eu sou o médico, porque tenho o conhecimento. E os outros são os pacientes, não apenas porque estão doentes, mas porque não têm o conhecimento. De novo, é de um para muitos. A democracia de massa funciona nos mesmos moldes. Os eleitores votam num dia, mas apenas um governa por alguns anos. Na sociedade pós-industrial, o conhecimento será transmitido não mais de um para muitos, mas de um para um ou de muitos para muitos. Será a era da inteligência em rede, num sistema de colaboração de massa.

No melhor espírito capitalista, as pessoas cuidam de seus próprios interesses. Por que subitamente se entregariam à colaboração coletiva?

Porque a internet está derrubando radicalmente o custo da colaboração e será do interesse das pessoas colaborar umas com as outras. Por exemplo: a indústria chinesa de motocicletas é formada por centenas de pequenas empresas que cooperam entre si. Não há uma empresa central, uma sede, uma fábrica nos padrões tradicionais da era industrial. Os envolvidos se encontram em casas de chá ou conversam on-line. Cada um responde por uma parte do negócio. Um fabrica o sistema de ignição. Outro faz os freios, um recolhe o dinheiro, outro opera o marketing do produto. Em pouco tempo, essa rede se tornou a maior indústria de motocicletas da China. No meu penúltimo livro, chamei esse sistema de wikínomia, a fusão de “wiki” com “economia”. É o princípio da Wikipédia aplicado à economia. A Wikipédia não tem dono, é feita por 1 milhão de pessoas, já é dez vezes maior que a Enciclopédia Britannica e é traduzida em 190 idiomas. Os estudos mostram que a Wikipédia é quase tão precisa quanto a Britannica. A wikinomia é a arte ,e a ciência da inovação colaborativa. Será a mudança mais profunda na estrutura das corporações em um século. Vai mudar o modo como inovamos, o modo como criamos bens e serviços. Como a internet reduz brutalmente custo da colaboração, as pessoas podem se juntar e criar valor, sem o sistema tradicional de hierarquias.

Qual é o setor da economia que melhor aplica os princípios da wikinomia?

Há exemplos de empresas isoladas, não setores inteiros. A Procter & Gamble, conglomerado de produtos de higiene e limpeza, está usando a colaboração em massa. Começou procurando uma molécula capaz de tirar mancha de vinho tinto da roupa. Em vez de buscar a resposta entre os 7.000 engenheiros químicos da própria empresa, criou um site e foi procurá-la entre os milhões de engenheiros químicos fora da empresa. Multiplicou a probabilidade de encontrar o que busca. Quem sabe um químico aposentado em São Paulo ou um químico recém-formado em Nova Délhi aparece com a resposta certa. Nesse caso, a P&G paga 300.000 dólares ao químico e fica com um novo produto.

Qual é o setor mais atrasado da wikinomia?

Sem dúvida, o setor financeiro. Os bancos funcionam na velha base da sociedade industrial. Pelo menos nos Estados Unidos, eles têm sido a própria negação dos cinco princípios centrais da nova economia, que são: colaboração, abertura, compartilhamento de propriedade intelectual, interdependência e integridade. A crise financeira de 2008 é resultado da mais perfeita negação desses princípios.

Na economia tradicional, há uma tensão permanente entre o estado e a iniciativa privada. Na wikinomia, qual é o papel do estado?

Os governos, com as toneladas de informações que possuem, podem se transformar em plataformas para criação de valor. Recentemente, numa conversa com autoridades de Melbourne, a segunda maior cidade da Austrália, pedi um exemplo de dados arquivados pela policia local. Eles citaram estatísticas sobre acidentes com bicicletas. Eu disse: “Ótimo. Então coloquem essas estatísticas na internet e aposto que, dentro de 24 horas, alguém vai aparecer com algum tipo de mapa interativo dos lugares mais perigosos. Em breve, as pessoas estarão evitando os locais mais perigosos e Melbourne estará salvando vidas sem gastar um tostão”. É um exemplo trivial de como os governos podem atuar como plataforma para criação de valor. Considerando que os governos têm milhares de categorias de dados que poderiam divulgar, o potencial é enorme.

Os governos têm tendência a esconder informação, e não a distribuí-la. Como mudar isso?

A ideia de que a concentração de informação é sinônimo de poder faz parte do velho modelo industrial. Quando retemos conhecimento e informação, criamos poder sobre as pessoas. No novo modelo, criaremos poder por meio das pessoas. O caso da Goldcorp, empresa do setor de mineração, é exemplar. A companhia estava insegura sobre onde tentar explorar ouro e tomou uma atitude inédita: divulgou seus dados geológicos, que normalmente são o grande segredo desse setor, e ofereceu um prêmio a quem tivesse a melhor análise que indicasse onde fazer uma exploração. A empresa pagou 500.000 dólares em prêmio e encontrou 3,4 bilhões de dólares em ouro. O valor de mercado da Goldcorp pulou de 90 milhões para 10 bilhões de dólares.

Na era da colaboração em massa, as pessoas serão mais influentes do que hoje, seja como cidadãos, eleitores ou consumidores?

As revoluções no Oriente Médio são a prova de mudança dessa natureza. Até três meses atrás, todas as revoluções eram verticais. Havia um líder e uma vanguarda. Eles organizavam a revolução e, quando o velho regime caía, tomavam o poder. A mesma dinâmica pautava todas as revoluções, pouco importando seu arcabouço ideológico. Foi assim com George Washington, com Fidel Castro ou Mao Tsé-rung. Agora, como a internet reduz o custo da colaboração, as pessoas podem se unir da noite para o dia com uma força tão extraordinária a ponto de, no Egito. derrubar Hosni Mubarak. O Oriente Médio está fazendo wiki-revoluções. São revoluções que só aconteceram de modo repentino e horizontal em decorrência das mídias sociais, principalmente o Facebook. Na Tunísia. havia franco-atiradores da polícia escondidos nos telhados para disparar contra os manifestantes nas ruas. Os jovens rebeldes tiravam foto, triangulavam a localização dos franco-atiradores e mandavam os dados para aliados nas unidades militares, que, em seguida, saíam às ruas para desmobilizar os atiradores. As mídias sociais não servem só para localizar a namorada ou fazer comunidade de jardinagem. Elas salvam vidas. Isso não quer dizer que a tecnologia esteja instigando levantes populares pelo mundo. Apenas que mudou o modo como são feitos. Antigamente, a militância saía colando cartazes nos postes.

Mas os regimes autoritários não censuram o fluxo de informação na internet, controlam a rede, podendo até tirá-la do ar?

É verdade, mas os governos árabes que tentaram cortar a internet deram um tiro no próprio pé. Os ditadores queriam impedir que os jovens se articulassem, mas o efeito colateral foi que o pequeno comerciante não pôde fazer sua encomenda on-line, a mãe não recebeu o diagnóstico do filho doente, e assim por diante.

Atualmente, em muitos países os jovens são maioria, vivem numa economia de desemprego altíssismo e têm acesso a uma tecnologia poderosa. É uma mistura explosiva, não?

Sim. Estamos caminhando para um choque de gerações. Começou na Tunísia, com a revolução do desemprego. Os jovens correspondem a uma enorme parcela da população hoje, à exceção da Europa Ocidental e do Japão. Além de numerosos, eles são a geração mais bem instruída da história, e a tecnologia lhes permite saber o que está acontecendo, distribuir informação e organizar respostas coletivas. Os jovens de hoje cresceram ouvindo que se estudassem com dedicação e não se metessem em problemas teriam uma vida confortável na idade adulta. Mentimos para eles. Chegaram ao mercado de trabalho e não há emprego. Esses jovens esperavam muito mais do que a realidade está lhes oferecendo.

A tecnologia digital conectada vai liberalizar também o regime chinês, que hoje é ditatorial?

Para mim, é inquestionável que as restrições da China à liberdade de expressão causam danos à economia. A longo prazo. a Índia, por ser mais aberta e ter uma sociedade mais colaborativa, tem melhores chances que a China. A Foxconn é a maior fabricante de componentes eletrônicos do mundo, emprega 900.000 pessoas na China, mas é descrita como uma prisão de segurança mínima. Boa parte dos trabalhadores mora na própria fábrica. A taxa de suicídio é alarmante. Pesquise as imagens da Foxconn no Google. Você verá que colocaram redes em torno do edifício para impedir que os trabalhadores se matem jogando-se da janela. A Foxconn, com seu regime militar de produção, pode ser ótima para a economia, mas seu benefício é limitado.

21/04/2011

às 0:04 \ Sanatório Geral

Churrasco da democracia

“Entendo que democracia é um jogo de dois lados da mesma moeda: é pressão e negociação. Acho legítimo que as pessoas venham demandar melhores condições para trabalhar e sobreviver. Afinal, é preciso criar uma relação de confiança”.

Jaques Wagner, governador da Bahia, explicando que reagiu à invasão do prédio da Secretaria da Agricultura com a instalação de banheiros químicos e o envio de 600 quilos de carne por dia porque a tropa do MST estava lá para jogar o jogo da democracia, em que a democracia morre se a vitoriosa for a organização criminosa chefiada por João Pedro Stedile.

19/04/2011

às 15:25 \ Feira Livre

“A verdade”, um artigo de Eliane Cantanhêde

ARTIGO PUBLICADO NA FOLHA DESTE DOMINGO

Foto: Evandro Teixeira

O artigo autobiográfico do economista Persio Arida na revista “Piauí” é uma preciosidade. Num texto primoroso, ele coloca as coisas no seu devido lugar, mostrando os erros horrendos dos militares da época, mas também reconhecendo o quão equivocada foi a luta armada. Não apenas na tática, mas igualmente nos propósitos.

Sem querer, Persio dá um roteiro impecável para a Comissão da Verdade que tramita no Congresso e se propõe a reconstituir a história como ela é, pelo lado que ganhou à época e pelo que ganhou agora.

Ali estão, contados com a serenidade possível, praticamente dispensando adjetivos, a sua prisão, a tortura, a asfixia pela asma não medicada, o impacto do assassinato do militante Bacuri. É o que a esquerda quer da comissão.

Mas ali está igualmente uma reflexão madura, honesta e corajosa sobre os erros da militância armada -e avaliação, execução e objetivo. E é isso o que os militares reivindicam da comissão.

Ao falar sobre a luta armada, Persio lembra sua angústia ao finalmente admitir para si próprio: “O que teria acontecido com os direitos humanos se aquele movimento tivesse dado certo?”. E responde: “Sua dinâmica continha o mesmo vírus que fez, em outros momentos da história, militantes de excepcional pureza revolucionária se transformarem, no poder, em mandantes de mortes em massa e de torturas. (…) O terror legitimado pela utopia revolucionária. Teríamos trocado seis por meia dúzia”.

Então, vamos trucidar mais uma vez os militantes que já foram literalmente trucidados? Desdenhar dos que foram presos, torturados, humilhados e alquebrados? Não. Nem Persio o fez.

Sua conclusão, machadiana, diz tudo numa única frase: “A militância contribuiu, por vias tortas, para a volta da democracia -mas nisso se esgotara todo o seu sentido”.

Eis uma boa reflexão para a história -não só a dele, mas a do país.

05/04/2011

às 23:39 \ Sanatório Geral

Imaginação ilimitada

“O país gasta R$ 5 bilhões por ano, mesmo sem eleição, para manutenção de uma estrutura que só existe no Brasil. Não precisamos de tutor para a democracia”.

Jovair Arantes, deputado federal da base alugada, setor PTB, guichê de Goiás, em reunião do colégio de líderes da Câmara, ao prometer apresentar uma proposta de emenda constitucional que extingue a Justiça Eleitoral, preparando-se para propor em seguida a extinção da polícia porque os bandidos não precisam de vigilância para cumprir a lei.

05/04/2011

às 16:21 \ Feira Livre

“O ‘fascismo do bem’”, de Ricardo Noblat

COLUNA PUBLICADA NO JORNAL O GLOBO DESTA SEGUNDA-FEIRA

Imaginem a seguinte cena: em campanha eleitoral, o deputado Jair Bolsonaro está no estúdio de uma emissora de televisão na cidade de Pelotas. Enquanto espera a vez de entrar no ar, ajeita a gravata de um amigo. Eles não sabem que estão sendo filmados. Bolsonaro diz: “Pelotas é um pólo exportador, não é? Pólo exportador de veados…” E ri.

A cena existiu, mas com outros personagens. O autor da piada boçal foi Lula, e o amigo da gravata torta, Fernando Marroni, ex-prefeito de Pelotas. Agora, imaginem a gritaria dos linchadores “do bem”, da patrulha dos “progressistas”, da turma dos que recortam a liberdade em nome de outro mundo possível… Mas era Lula!

Então muita gente o defendeu para negar munição à direita. Assim estamos: não importa o que se pensa, o que se diz e o que se faz, mas quem pensa, quem diz e quem faz. Décadas de ditaduras e governos autoritários atrasaram o enraizamento de uma genuína cultura de liberdade e democracia entre nós.

Nosso apego à liberdade e à democracia e nosso entendimento sobre o que significam liberdade e democracia são duramente postos à prova quando nos deparamos com a intolerância. Nossa capacidade de tolerar os intolerantes é que dá a medida do nosso comprometimento para valer com a liberdade e a democracia.

Linchar Bolsonaro é fácil. Ele é um símbolo, uma síntese do mal e do feio. É um Judas para ser malhado. Difícil é, discordando radicalmente de cada palavra dele, defender seu direito de pensar e de dizer as maiores barbaridades.

A patrulha estridente do politicamente correto é opressiva, autoritária, antidemocrática. Em nome da liberdade, da igualdade e da tolerância, recorta a liberdade, afirma a desigualdade e incita a intolerância. Bolsonaro é contra cotas raciais, o projeto de lei da homofobia, a união civil de homossexuais e a adoção de crianças por casais gays.

Ora, sou a favor de tudo isso – e para defender meu direito de ser a favor é que defendo o direito dele de ser contra. Porque se o direito de ser contra for negado a Bolsonaro hoje, o direito de ser a favor pode ser negado a mim amanhã de acordo com a ideologia dos que estiverem no poder.

Se minha reação a Bolsonaro for igual e contrária à dele me torno igual a ele – eu, um intolerante “do bem”; ele, um intolerante “do mal”. Dois intolerantes, no fim das contas. Quanto mais intolerante for Bolsonaro, mais tolerante devo ser, porque penso o contrário dele, mas também quero ser o contrário dele.

O mais curioso é que muitos dos líderes do “Cassa e cala Bolsonaro” se insurgiram contra a censura, a falta de liberdade e de democracia durante o regime militar. Nós que sentimos na pele a mão pesada da opressão não deveríamos ser os mais convictamente libertários? Ou processar, cassar, calar em nome do “bem” pode?

Quando Lula apontou os “louros de olhos azuis” como responsáveis pela crise econômica mundial não estava manifestando um preconceito? Sempre que se associam malfeitorias a um grupo a partir de suas características físicas, de cor ou de origem, é claro que se está disseminando preconceito, racismo, xenofobia.

Bolsonaro deve ser criticado tanto quanto qualquer um que pense e diga o contrário dele. Se alguém ou algum grupo sentir-se ofendido, que o processe por injúria, calúnia, difamação. E que peça na justiça indenização por danos morais. Foi o que fizeram contra mim o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) e o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Mas daí a querer cassar o mandato de Bolsonaro vai uma grande distância.

Se a questão for de falta de decoro, sugiro revermos nossa capacidade seletiva de tolerância. Falta de decoro maior é roubar, corromper ou dilapidar o patrimônio público. No entanto, somos um dos povos mais tolerantes com ladrões e corruptos. Preferimos exercitar nossa intolerância contra quem pensa e diz coisas execráveis.

E tudo em nome da liberdade e da democracia…


 

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