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Cuba

25/01/2012

às 21:34 \ Direto ao Ponto

A blogueira cubana obriga a presidente a escolher entre a generosidade e a infâmia

Em outubro de 2009, a blogueira Yoani Sánchez fez a primeira tentativa de viajar para o Brasil. O setor de imigração da mais antiga ditadura do mundo recusou-lhe o visto indispensável para sair da ilha-presídio. Tentou de novo em março de 2010, para assistir em Jequié, na Bahia, à estreia do documentário Conexão Cuba-Honduras, do cineasta Cláudio Galvão, que conta como vive e trabalha a mais célebre dissidente do regime totalitário. Para contornar o cerco dos carcereiros, Yoani pediu socorro a Lula por escrito.

“O senhor tem dado mostras de que confia na boa-fé do governo cubano”, observou a remetente no penúltimo parágrafo da carta remetida ao então presidente da República. “Para manter viva essa confiança”, supôs, os irmãos Castro não rejeitariam uma solicitação do amigo brasileiro. ”O senhor estaria pedindo o que para qualquer ser humano é um direito inalienável”, argumentou. O episódio foi tema de um post publicado neste espaço.

“É a chance de Lula mostrar que a opção preferencial pela ditadura companheira, sempre vergonhosa, não é de todo inútil”, escrevi. “Depois de curvar-se tantas vezes à vontade de Fidel, depois de repreender o preso político Orlando Zapata por ter morrido de fome, o presidente brasileiro pode demonstrar que atitudes desonrosas trazem algumas vantagens. Por exemplo, conseguir que Fidel e Raul Castro permitam que uma jornalista conheça o Brasil. Mais uma vez, Lula está obrigado a escolher entre as cavernas e a civilização, entre a generosidade e a infâmia. Ele decide”.

Previsivelmente, decidiu-se pelo silêncio pusilânime. Sempre obediente à partitura do oportunismo, só neste janeiro lembrou-se de Yoani. Ao saber que a blogueira resolvera fazer uma terceira tentativa, Lula mandou-lhe um conselho pelo senador Eduardo Suplicy: deveria escrever a Dilma Rousseff pedindo à afilhada que fizesse o que o padrinho não fez. A carta foi enviada nesta semana. Se a presidente não ajudar a prisioneira sem condenação formal, registrei nesta quarta-feira no comentário de um minuto para o site de VEJA, estará reafirmando que, no começo dos anos 70, não estava interessada na restauração da liberdade e da democracia. Sonhava com a substituição da ditadura militar pela ditadura comunista.

Há poucas horas, o Itamaraty anunciou a concessão do visto de entrada no Brasil a Yoani. Bom sinal. Mas falta o essencial: a permissão para a saída. Dilma precisa afirmar publicamente que o colega Raul Castro deve autorizar a viagem. Como Lula em 2010, a presidente está  obrigada a escolher entre a generosidade e a infâmia. Ela decide.

19/10/2011

às 11:14 \ Feira Livre

A dama que mudou Cuba

PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA TERÇA-FEIRA

Yoani Sánchez

Oito anos atrás, Laura Pollán era uma professora escolar que morava com o marido, Hector Maseda, líder do Partido Liberal Cubano, ilegal na ilha caribenha. A família tentava levar uma vida normal na pequena casa na Rua Netuno, em Havana.

Numa certa alvorada, batidas na porta mudaram a vida do casal. Depois de uma longa revista e um julgamento sumário, Maseda foi detido e sentenciado a 20 anos de prisão, acusado de agir contra a segurança nacional. O crime: imaginar uma Cuba diferente, opor-se politicamente às autoridades e expressar tais opiniões por escrito.

Setenta e cinco membros da oposição foram detidos e condenados naquele março de 2003, época marcada na história cubana como a Primavera Negra. O governo esperava que esse golpe convencesse cidadãos descontentes a abandonar as fileiras dos manifestantes. Acreditava também que mulheres, mães e filhas dos prisioneiros políticos permaneceriam caladas.

Assim nasceram as Damas de Branco, grupo de mulheres que, por meio da luta pacífica, exigiu e conseguiu a libertação de todos os prisioneiros de consciência. No início, o movimento pareceu pequeno e desorganizado, levando-se em consideração os quilômetros de distância que separavam uma mulher da outra. Mas a indignação delas funcionou como elemento unificador, e suas marchas pelas ruas de Havana, vestidas de branco e carregando um gladíolo, se seguiram domingo após domingo por mais de sete anos. Uma voz se destacou entre elas: a de uma mulher de baixa estatura e olhos azuis que lecionava espanhol e literatura a adolescentes.

Laura Pollán estava se firmando como porta-voz e líder das Damas de Branco, dedicadas à defesa dos direitos humanos e à libertação dos seus entes queridos. Num país movido pela polarização do discurso ideológico, elas se mostravam diferentes. Não optaram por se organizar em torno de uma doutrina, mas sim da inatacável posição da afeição familiar. Assim conquistaram a simpatia de muitos na ilha. Provocaram as autoridades, que deram início a uma campanha de insultos contra elas.

Se houve um grupo que a mídia cubana difamou além dos limites do crível, foi o das Damas de Branco. O regime lançou uma espécie de guerra midiática. “Comícios de repúdio” – ônibus lotados de manifestantes “espontâneos” convocados para berrar insultos e até para agredir – fizeram da porta da frente de Laura Pollán seu altar principal.

Jornalistas oficiais as chamavam de “Damas de Verde”, alusão ao apoio econômico recebido dos cubanos no exílio para que pudessem levar comida aos maridos aprisionados. O governo hesitou em recorrer aos cofres públicos para financiar ataques políticos. Parte do dinheiro – que poderia ser usado para alimentar os cubanos – foi gasto arrancando das mãos dessas mulheres necessitadas cada centavo que chegava a elas.

A imprensa nacional continuou a difamar Laura até no dia 7 de outubro, quando ela deu entrada na Unidade de Terapia Intensiva de um hospital de Havana para tratar de dores nos ossos, falta de ar e fraqueza extrema.

Levando-se em consideração a gravidade do estado dela, funcionários do governo pediram à família que a paciente fosse transferida para uma clínica de luxo reservada aos militares. “Quero ficar no hospital do povo”, disse ela. Morreu sexta-feira, depois de um atraso de cinco dias até a conclusão do diagnóstico, dengue, num país que há meses sofre com uma epidemia forte da doença.

O Granma, jornal oficial do Partido Comunista, se manteve em silêncio – como todos os jornais das províncias. O regime Castro nunca foi capaz de fazer uma breve pausa na sua beligerância, de oferecer condolências. Esse silêncio também emana do medo em relação à pequena professora de espanhol, medo que faz o governo engolir em seco. A líder das Damas de Branco está morta, e ninguém em Cuba poderá carregar um gladíolo nas mãos sem pensar em Laura Pollán.

01/10/2011

às 6:01 \ Sanatório Geral

Tremenda viagem

“Muitas coisas vão mudar em Cuba, mas vão mudar por nosso esforço próprio e apesar dos Estados Unidos. Talvez antes aquele império caia.”

Fidel Castro, Ditador-de-Adidas, revelando em setembro de 2011 que está em setembro de 1961.

22/07/2011

às 19:28 \ Feira Livre

Quatro rodas, mil problemas

TEXTO PUBLICADO NO ESTADÃO DO DIA 17 DE JULHO

Yoani Sánchez

A céu aberto, o Lada seguiu, engolindo poeira, com portas e para-choques já corroídos pela ferrugem. O carro havia sido fabricado nos anos 60, na longínqua região do Volga central, e chegou a Cuba graças ao Conselho para Assistência Econômica Mútua (Comecom) e o “intercâmbio justo” entre os povos.

Sua proprietária o conseguiu por meio de um sistema de méritos, quando ela disputou o benefício em intermináveis assembleias com os demais trabalhadores de seu hospital. A briga foi dura, pois vários médicos haviam participado de missões em vários países africanos, mas a lista dos sacrifícios que ela acumulara era muito maior.

Tinha até um diploma de reconhecimento firmado pelo líder máximo. E foi assim que ela conseguiu o carro: diante dos olhares felizes de alguns e invejosos de muitos. O veículo converteu-se rapidamente no seu bem mais precioso. Conduzi-lo pelas ruas era uma demonstração de seu sucesso social e de sua fidelidade ideológica incondicional.

Depois de algumas décadas, muitos dos felizes proprietários começaram a ver como sua criatura de rodas se deteriorava. O mercado de automóveis não foi liberado durante todo esse tempo, fazendo com que eles continuassem como os afortunados que desfrutavam de um privilégio remoto.

Somente carros ainda mais velhos, de marcas como Chevrolet, Cadillac ou Plymouth podiam ser comprados e vendidos legalmente dentro da improvisada estrutura do intercâmbio popular. No entanto, os carros produzidos na Europa Oriental estavam condenados a permanecer nas mãos dos ilustres trabalhadores agraciados com eles.

Uma contradição era incrível: apenas a propriedade dos carros comprados antes de 1959, sob o capitalismo, era respeitada, enquanto que os carros distribuídos sob a égide do socialismo não podiam ser transferidos.

Se o proprietário saía do país por mais de 11 meses, o carro era confiscado em nome de uma justiça social que nunca foi tão justa ou equitativa. O sorriso altaneiro sumiu do rosto de quem dirigia aqueles carros de comprovada resistência e design lamentável.

Então, aquele absurdo sistema de meritocracia acabou, ao menos na sua forma mais pura. Para adquirir os carros Toyota, Mitsubishi e Peugeot que começavam a ser importados, era preciso ter cacife político e dólares no bolso.

Com base nessa nova premissa, quem conseguia comprar carros eram músicos famosos, esportistas, membros da Marinha e artistas que vendiam suas obras no exterior. Durante muitos anos, o documento de autorização para compra de um desses veículos precisava ser assinado por Carlos Lage, vice-presidente do Conselho de Estado.

Até hoje, o processo para obter a autorização é tão complicado que pode demorar de cinco a dez anos, entre o pedido inicial e a compra. E esses reluzentes automóveis também não podem ser cedidos ou vendidos para uma outra pessoa.

Todo esse controle sobre o comércio de carros tem por finalidade impedir que as diferenças sociais se tornem tão visíveis. Da mesma maneira, o mercado imobiliário e de outros símbolos de status também foi congelado. A igualdade foi definida por decreto e não pela existência de uma proposta socialista.

A abertura de revendedoras onde não seria preciso mostrar a insígnia da fidelidade ideológica ou a bendita carta assinada por um alto funcionário era uma ideia que ofendia os orientadores do igualitarismo tosco. Foram justamente esses burocratas – que já possuíam seus carros – que criaram mais de 40 limitações legais para impedir que os outros pudessem adquirir seus veículos. A imobilidade tornou-se a norma de vida e o automóvel, um objeto inacessível.

Quando parecia que esse assunto já chegara às raias do absurdo, realizou-se o 6.º Congresso do Partido Comunista de Cuba. Entre as medidas aprovadas, foi anunciado o fim desse disparate. A abertura do mercado de compra e venda de automóveis começa a vigorar, de acordo com o conselho de ministros, antes do fim de 2011.

Finalmente, os veículos obtidos com base no ultrapassado sistema de mérito laboral poderão ser transferidos para outra pessoa. Com isso, chegaremos ao fim do último bastião de um período em que o importante não era o dinheiro que uma pessoa tinha, mas a ideologia que professava. A oferta e a demanda acabarão se impondo à chamada “distribuição racionada” e os orgulhosos proprietários de antigamente respiram aliviados ao olhar para seus carros Lada e Moskovich.

Finalmente, poderão transformar o fruto das suas virtudes políticas em dinheiro vivo. Trocarão aquele prêmio dado há décadas por uma moeda que pode ser convertida, por esse outro capital que nega tudo aquilo que um dia eles idealizaram.

20/07/2011

às 5:20 \ Sanatório Geral

Presidente perpétuo

“Estando em Havana, Moscou, Washington, Buenos Aires, é possível assinar. Não há problema”.

Hugo Chávez, bolívar-de-hospício, ao explicar por que não transmitiu o cargo ao vice antes de voar para tratar de um câncer em Cuba, avisando que só deixará o poder depois de assinar o decreto determinando sete dias de luto oficial pelo próprio falecimento.

18/07/2011

às 2:58 \ Sanatório Geral

A vanguarda do atraso

“Aqui não há transição. A transição que existe aqui na Venezuela e que tem que continuar avançando é a do capitalismo para o socialismo democrático do século XXI”.

Hugo Chávez, bolívar-de-hospício, ao licenciar-se da presidência da Venezuela para tratar de um câncer em Cuba, informando que ordenou aos encarregados de tocar o governo que mantenham o país avançando para trás.

05/07/2011

às 22:45 \ Sanatório Geral

Cabeça em combustão

“Volto ao epicentro de Bolívar, e aqui é pura chama, vida pura!”

Hugo Chávez, bolívar-de-hospício, de volta à Venezuela depois de um mês internado em Cuba, revelando o que acontece à cabeça de quem passa muito tempo trocando ideias com Fidel Castro.

30/06/2011

às 22:17 \ Sanatório Geral

Conta outra, companheira!

“Presos políticos são presos por ideias. Em Cuba, não existem. Há presos por ações contra o povo, como pôr veneno na água de uma escola , tentar incendiar a telefonia. É terrorismo. Há mercenários pagos por EUA e europeus por passar ao FBI informações que prejudicam o país”.

Aleida Guevara, filha de Che Guevara, em entrevista à Folha, expondo a teoria segundo a qual Orlando Zapata Tamayo era um espião infiltrado pela CIA para derrubar a democracia dos irmãos Castro.

26/06/2011

às 3:03 \ Sanatório Geral

Bolívar-de-hospício

“Bom dia, meus companheiros. Hoje é o dia em que o meu exército e o sol amanheceram radiantes. Segue um gigantesco abraço aos meus soldados e meu povo amado”.

Hugo Chávez, presidente da Venezuela, internado em Cuba para tratar de um abscesso pélvico, ao cumprimentar no twitter os soldados pelo Dia do Exército e o sol por ter amanhecido radiante, quebrando um silêncio de 2o dias para mostrar que continua doidão.

03/06/2011

às 16:16 \ Direto ao Ponto

A coincidência de 1 bilhão de reais

Foto: David Fernandez/EFE

Depois de baixar em Brasília para piorar a crise protagonizada por Antonio Palocci, Lula resolveu aproveitar a vida no exterior. Na segunda-feira, fez uma palestra no Panamá para executivos da Odebrecht. Na terça, repetiu o numerito nas Bahamas para convidados do bilionário mexicano Carlos Slim. Na quarta, a bordo de um avião cedido por Slim, apareceu em Cuba para a escala de um dia e meio, com todas as despesas pagas pela Odebrecht. Vistoriou ao lado do ditador Raúl Castro as obras do porto de Mariel, construído pela Odebrecht ao preço de 200 milhões de dólares bancados pelo BNDES, e foi beijar a mão de Fidel escoltado por José Dirceu, Franklin Martins e Paulo Okamoto.

Na quinta, Lula levou a trinca para engrossar a plateia da palestra, paga pela Odebrecht, que faria na Venezuela. Foi recepcionado em Caracas por Emilio Odebrecht, presidente do Conselho Administrativo da construtora, e Marcelo Odebrecht, diretor-presidente. Não sobrou lugar para a imprensa no local do evento, reservado a empresários, investidores e diplomatas convidados pela Odebrecht.

Com mais de um ano de atraso, o presidentte Hugo Chávez ordenou, na véspera da chegada de Lula, o pagamento dos R$ 996 milhões que o governo venezuelano devia à Odebrecht, premiada com a construção do metrô de Caracas e da terceira ponte sobre o Rio Orinoco. Quase 1 bilhão de reais, parcialmente financiados pelo BNDES. Os diretores da Odebrecht garantem que foi só uma agradabilíssima coincidência. Em todo caso, no encontro com o amigo Chávez, Lula agradeceu a gentileza. Em seu nome e em nome da Odebrecht.


 

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