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Cuba

03/02/2012

às 20:26 \ Direto ao Ponto

Cuba proíbe a viagem de Yoani ao país que adotou a política externa da cafajestagem

“Não há surpresas”, começa a nota divulgada nesta tarde pela blogueira cubana Yoani Sanchez. “Voltaram a me negar a permissão de saída. É a ocasião de número 19 em que me violam o direito de entrar e sair do meu país”. É também a terceira tentativa frustrada de vir ao Brasil. E é mais uma prova de que o paraíso socialista dos irmãos Castro não passa de uma ilha-presídio.

Um post aqui publicado há uma semana comentou a concessão do visto de entrada no país, anunciada com pompas e fitas pelo Itamaraty. “Bom sinal”, constatou o texto. “Mas falta o essencial: a permissão para a saída. Dilma precisa afirmar publicamente que o colega Raul Castro deve autorizar a viagem. Como Lula em 2010, a presidente está  obrigada a escolher entre a generosidade e a infâmia. Ela decide”.

O que disse a presidente em Havana e, sobretudo, o que deixou de dizer anteciparam a opção vergonhosa. De novo, o governo brasileiro ajoelhou-se diante da ditadura caribenha. Nada mudou no Itamaraty. Continua em vigor a política externa da cafajestagem.

02/02/2012

às 19:57 \ Direto ao Ponto

Um estadista e duas vulgaridades políticas

Num post de 10 de março de 2010, reproduzido na seção Vale Reprise, confrontei a discurseira de Lula sobre Cuba com um artigo publicado no jornal espanhol El País por Oscar Arías, ex-presidente da Costa Rica. O que ambos diziam sobre um mesmo tema escancarou o abismo que separa um genuíno estadista de políticos vulgares. A essa categoria pertence Dilma Rousseff, confirmou visita a Havana. Comparem o palavrório indigente do neurônio solitário às lições ministradas pelo costa-riquenho premiado com o Nobel da Paz. E sintam a falta que faz ao Brasil gente parecida com um Oscar Arías.

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02/02/2012

às 17:28 \ Direto ao Ponto

Toda Dilma é uma ilha: desde a invasão da Baía dos Porcos, nenhuma incursão a Cuba foi mais desastrada

Dilma Rousseff deve ter imaginado que Celso Arnaldo estava de férias e resolveu passear em Cuba. Foi capturada em Havana, informa mais um texto magistral do grande caçador de cretinices. (AN) 

CELSO ARNALDO ARAÚJO

Enfim, um leitor ─ já não era sem tempo. Um mês depois de lançada, a biografia de Dilma ─ com o título, em dilmês, de “A vida quer é coragem” ─ tem seu primeiro leitor revelado. E um senhor leitor: Fidel Castro. É o que nos deu conta ontem, mais exultante do que no momento do top-top, o assessor Marco Aurélio Garcia, após o não-documentado encontro de Dilma com o ditador de Adidas, momento culminante da estranha viagem da presidente a Cuba.

Sem nada para fazer a não ser receber em sua dacha baba-ovos da latinidad, Fidel parecia ler o livro com muito interesse ─ sobretudo a parte em que Estela pegava em armas pelos ideais que, dez anos antes, ele já havia transformado na bem-sucedida experiência de governar um país onde todos são iguais na pobreza e não tem classe média ─ àquela altura exilada em Miami.

A Cuba que Dilma viu, 53 anos após a Revolução castrista e 30 anos depois de ter estado na ilha pela primeira vez, ainda tem o frescor, as promessas e o futuro brilhante de uma debutante socialista ─ quando, a rigor, é apenas um case político que teve 53 anos para se demonstrar um retumbante fracasso. Dilma foi a Cuba sem precisar ter ido. E ali falou sem precisar ter falado.

Caso singular de pessoa com formação universitária e há anos manipulando informações privilegiadas da máquina pública brasileira, tendo acesso a densos relatórios e conversas com os mais preparados especialistas do país em cada segmento da vida nacional e internacional sem que isso tenha resultado numa compreensão mais inteligente de si mesma, do Brasil e do mundo, Dilma deu em Havana uma entrevista histórica. Sua (sem) noção de direitos humanos, democracias e ditaduras é um Mojito sem gelo, sem açúcar e sem hortelã ─ só restando um rum velho e intragável.

Esqueçam o dilmês ─ que chocou o grande Reinaldo Azevedo em texto postado ontem. Nós, desta coluna, já sabemos: nenhum outro brasileiro em posição de comando consegue acumular tantas inadequações de linguagem num mesmo período, numa mesma frase, num mesmo pensamento. Em Cuba, o desastre maior foi o conteúdo. Dilma demonstrou, de novo, que é uma ilha cercada de desconhecimento por todos os lados. Seus conceitos sobre geopolítica internacional são tão primitivos quanto seus conceitos ─ de forma geral.

Patriota e Garcia, na volta, deveriam pedir o boné ainda no Aerodilma. Faltou aí um laboratório básico para avisar Dilma que a menção gratuita a Guantánamo, na tentativa de estender aos Estados Unidos a agressão sistemática aos direitos humanos que caracteriza os 53 anos do governo castrista, seria uma gafe irretratável. Guantánamo é uma pedra no sapato de Obama ─ que ainda não sabe bem o que fazer com esse intolerável bolsão de agressão aos direitos de 300 supostos terroristas, ironicamente localizado em território cubano. São 300 em 300 milhões de cidadãos americanos integralmente livres, fora os presidiários por crimes comuns ─ contra 12 milhões de cubanos, fora os presos políticos, impedidos de adentrar no mar que cerca a ilha a mais de 200 metros da costa. De resto, a comparação feita por Dilma entre os dois regimes, de tão descabida, deve se limitar a breves tópicos.

Os Castros estão no poder desde o tempo em que Eisenhower era o presidente dos Estados Unidos e JK governava o Brasil. Eisenhower foi o 34º presidente americano. Obama é o 44º. Juscelino é o 13º, na cronologia da República brasileira. Entre ele e Dilma, 12 presidentes revezaram-se na presidência do país. Há 53 anos, os Castros não largam o osso ─ literalmente.

Na ditadura sufocante de Tio Sam, milhares de pessoas ganham a vida, e às vezes ficam ricos, espinafrando violentamente as instituições, o way of life e o governo americano ─ de cineastas, como Michael Moore e Oliver Stone, a pensadores, como Slavoj Zizek, que nem americano é, e Noam Chomsky. Nos spas da democracia cubana, há milhares de presos ali internados apenas pelo delito de reclamar de não poder reclamar.

Dilma ainda vive no tempo em que a palavra embargo embargava a voz dos comunistas convictos. O embargo, que não é bloqueio, está expresso em leis formuladas pelo congresso americano e não impediu que os Estados Unidos sejam hoje o maior exportador de alimentos para Cuba. De resto, Cuba pode importar o que quiser de qualquer parte do mundo ─ desde que possa pagar.

Aí é que está o busílis do fracassado regime cubano. Com o fim da matriz soviética e sem um modelo econômico condizente com o século 21, a ditadura cubana depende de ajuda humanitária. Chávez ali despeja alguns bilhões por ano. Dilma se orgulha do apoio do Brasil.

Na malfadada entrevista, destacou novos 550 milhões de dólares em créditos, que vêm a se somar aos 400 milhões de dólares já concedidos ao porto de Mariel. É a política externa “multilateral” do Brasil ─ seja o que isso seja. Nada como ser um país rico e sem problemas.

Mas a retribuição, a longo prazo, pode ser ingrata ─ e é bom que Dilma, na volta, se instrua melhor sobre a geopolítica cubana. Fidel morto, Cuba não terá outra saída a não ser se tornar uma economia de mercado à moda chinesa. Essa nova Cuba, mais palatável aos Estados Unidos, forçosamente sem presos políticos e inserida na economia global, concorrerá com o Brasil em açúcar, etanol e suco de laranja – a 90 milhas das praias da Flórida.

Quando nada, esses créditos brasileiros valeram o privilégio da visita a Fidel. Não se conhece o teor da breve conversa. “Fidel está bem, com a família toda, numa casa simpática”, relataria Garcia. Um retrato à altura do avô de todas as ditaduras planetárias. Charles Dickens talvez fizesse da visita um conto – o pedinte recebendo em sua casinha humilde a rainha carregada de presentes.

01/02/2012

às 21:10 \ Sanatório Geral

Enquadrando os ianques

“Olha, as questões relativas ao Brasil ─ eu já disse isso para vocês anteriormente ─ nós discutimos no Brasil, a partir da quinta-feira”

Dilma Rousseff, em visita a Cuba, explicando que estava lá para combinar com os Irmãos Castro a melhor maneira de obrigar a ditadura estadunidense a tratar os direitos humanos com o mesmo respeito demonstrado desde 1959 pela democracia caribenha.

01/02/2012

às 19:37 \ Direto ao Ponto

Solidária com a democracia cubana, Dilma Rousseff ataca a ditadura ianque

O comentário de 1 minuto para o site de VEJA, nesta quarta-feira, trata de parte da discurseira de Dilma Rousseff em Havana. Num dos piores momentos, a presidente ensinou que quem luta pelo respeito aos direitos humanos deve deixar em paz a democracia consolidade pelos irmãos Castro e declarar guerra à ditadura ianque. Quem não enxerga diferenças entre os Estados Unidos e Cuba sofre de confusão mental ou de miopia seletiva. Ou de ambas as coisas. É o caso de Dilma.

31/01/2012

às 20:35 \ Sanatório Geral

Neurônio em trânsito

“Quem atira a primeira pedra, tem telhado de vidro. No Brasil, temos os nossos”.

Dilma Rousseff, em Havana, capturada pelo comentarista Hermenegildo Barroso ao explicar que, por causa das ditaduras que controlaram o Brasil no passado, não pode abrir a boca sobre a ditadura que controla Cuba no presente.

25/01/2012

às 21:34 \ Direto ao Ponto

A blogueira cubana obriga a presidente a escolher entre a generosidade e a infâmia

Em outubro de 2009, a blogueira Yoani Sánchez fez a primeira tentativa de viajar para o Brasil. O setor de imigração da mais antiga ditadura do mundo recusou-lhe o visto indispensável para sair da ilha-presídio. Tentou de novo em março de 2010, para assistir em Jequié, na Bahia, à estreia do documentário Conexão Cuba-Honduras, do cineasta Cláudio Galvão, que conta como vive e trabalha a mais célebre dissidente do regime totalitário. Para contornar o cerco dos carcereiros, Yoani pediu socorro a Lula por escrito.

“O senhor tem dado mostras de que confia na boa-fé do governo cubano”, observou a remetente no penúltimo parágrafo da carta remetida ao então presidente da República. “Para manter viva essa confiança”, supôs, os irmãos Castro não rejeitariam uma solicitação do amigo brasileiro. ”O senhor estaria pedindo o que para qualquer ser humano é um direito inalienável”, argumentou. O episódio foi tema de um post publicado neste espaço.

“É a chance de Lula mostrar que a opção preferencial pela ditadura companheira, sempre vergonhosa, não é de todo inútil”, escrevi. “Depois de curvar-se tantas vezes à vontade de Fidel, depois de repreender o preso político Orlando Zapata por ter morrido de fome, o presidente brasileiro pode demonstrar que atitudes desonrosas trazem algumas vantagens. Por exemplo, conseguir que Fidel e Raul Castro permitam que uma jornalista conheça o Brasil. Mais uma vez, Lula está obrigado a escolher entre as cavernas e a civilização, entre a generosidade e a infâmia. Ele decide”.

Previsivelmente, decidiu-se pelo silêncio pusilânime. Sempre obediente à partitura do oportunismo, só neste janeiro lembrou-se de Yoani. Ao saber que a blogueira resolvera fazer uma terceira tentativa, Lula mandou-lhe um conselho pelo senador Eduardo Suplicy: deveria escrever a Dilma Rousseff pedindo à afilhada que fizesse o que o padrinho não fez. A carta foi enviada nesta semana. Se a presidente não ajudar a prisioneira sem condenação formal, registrei nesta quarta-feira no comentário de um minuto para o site de VEJA, estará reafirmando que, no começo dos anos 70, não estava interessada na restauração da liberdade e da democracia. Sonhava com a substituição da ditadura militar pela ditadura comunista.

Há poucas horas, o Itamaraty anunciou a concessão do visto de entrada no Brasil a Yoani. Bom sinal. Mas falta o essencial: a permissão para a saída. Dilma precisa afirmar publicamente que o colega Raul Castro deve autorizar a viagem. Como Lula em 2010, a presidente está  obrigada a escolher entre a generosidade e a infâmia. Ela decide.

19/10/2011

às 11:14 \ Feira Livre

A dama que mudou Cuba

PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA TERÇA-FEIRA

Yoani Sánchez

Oito anos atrás, Laura Pollán era uma professora escolar que morava com o marido, Hector Maseda, líder do Partido Liberal Cubano, ilegal na ilha caribenha. A família tentava levar uma vida normal na pequena casa na Rua Netuno, em Havana.

Numa certa alvorada, batidas na porta mudaram a vida do casal. Depois de uma longa revista e um julgamento sumário, Maseda foi detido e sentenciado a 20 anos de prisão, acusado de agir contra a segurança nacional. O crime: imaginar uma Cuba diferente, opor-se politicamente às autoridades e expressar tais opiniões por escrito.

Setenta e cinco membros da oposição foram detidos e condenados naquele março de 2003, época marcada na história cubana como a Primavera Negra. O governo esperava que esse golpe convencesse cidadãos descontentes a abandonar as fileiras dos manifestantes. Acreditava também que mulheres, mães e filhas dos prisioneiros políticos permaneceriam caladas.

Assim nasceram as Damas de Branco, grupo de mulheres que, por meio da luta pacífica, exigiu e conseguiu a libertação de todos os prisioneiros de consciência. No início, o movimento pareceu pequeno e desorganizado, levando-se em consideração os quilômetros de distância que separavam uma mulher da outra. Mas a indignação delas funcionou como elemento unificador, e suas marchas pelas ruas de Havana, vestidas de branco e carregando um gladíolo, se seguiram domingo após domingo por mais de sete anos. Uma voz se destacou entre elas: a de uma mulher de baixa estatura e olhos azuis que lecionava espanhol e literatura a adolescentes.

Laura Pollán estava se firmando como porta-voz e líder das Damas de Branco, dedicadas à defesa dos direitos humanos e à libertação dos seus entes queridos. Num país movido pela polarização do discurso ideológico, elas se mostravam diferentes. Não optaram por se organizar em torno de uma doutrina, mas sim da inatacável posição da afeição familiar. Assim conquistaram a simpatia de muitos na ilha. Provocaram as autoridades, que deram início a uma campanha de insultos contra elas.

Se houve um grupo que a mídia cubana difamou além dos limites do crível, foi o das Damas de Branco. O regime lançou uma espécie de guerra midiática. “Comícios de repúdio” – ônibus lotados de manifestantes “espontâneos” convocados para berrar insultos e até para agredir – fizeram da porta da frente de Laura Pollán seu altar principal.

Jornalistas oficiais as chamavam de “Damas de Verde”, alusão ao apoio econômico recebido dos cubanos no exílio para que pudessem levar comida aos maridos aprisionados. O governo hesitou em recorrer aos cofres públicos para financiar ataques políticos. Parte do dinheiro – que poderia ser usado para alimentar os cubanos – foi gasto arrancando das mãos dessas mulheres necessitadas cada centavo que chegava a elas.

A imprensa nacional continuou a difamar Laura até no dia 7 de outubro, quando ela deu entrada na Unidade de Terapia Intensiva de um hospital de Havana para tratar de dores nos ossos, falta de ar e fraqueza extrema.

Levando-se em consideração a gravidade do estado dela, funcionários do governo pediram à família que a paciente fosse transferida para uma clínica de luxo reservada aos militares. “Quero ficar no hospital do povo”, disse ela. Morreu sexta-feira, depois de um atraso de cinco dias até a conclusão do diagnóstico, dengue, num país que há meses sofre com uma epidemia forte da doença.

O Granma, jornal oficial do Partido Comunista, se manteve em silêncio – como todos os jornais das províncias. O regime Castro nunca foi capaz de fazer uma breve pausa na sua beligerância, de oferecer condolências. Esse silêncio também emana do medo em relação à pequena professora de espanhol, medo que faz o governo engolir em seco. A líder das Damas de Branco está morta, e ninguém em Cuba poderá carregar um gladíolo nas mãos sem pensar em Laura Pollán.

01/10/2011

às 6:01 \ Sanatório Geral

Tremenda viagem

“Muitas coisas vão mudar em Cuba, mas vão mudar por nosso esforço próprio e apesar dos Estados Unidos. Talvez antes aquele império caia.”

Fidel Castro, Ditador-de-Adidas, revelando em setembro de 2011 que está em setembro de 1961.

22/07/2011

às 19:28 \ Feira Livre

Quatro rodas, mil problemas

TEXTO PUBLICADO NO ESTADÃO DO DIA 17 DE JULHO

Yoani Sánchez

A céu aberto, o Lada seguiu, engolindo poeira, com portas e para-choques já corroídos pela ferrugem. O carro havia sido fabricado nos anos 60, na longínqua região do Volga central, e chegou a Cuba graças ao Conselho para Assistência Econômica Mútua (Comecom) e o “intercâmbio justo” entre os povos.

Sua proprietária o conseguiu por meio de um sistema de méritos, quando ela disputou o benefício em intermináveis assembleias com os demais trabalhadores de seu hospital. A briga foi dura, pois vários médicos haviam participado de missões em vários países africanos, mas a lista dos sacrifícios que ela acumulara era muito maior.

Tinha até um diploma de reconhecimento firmado pelo líder máximo. E foi assim que ela conseguiu o carro: diante dos olhares felizes de alguns e invejosos de muitos. O veículo converteu-se rapidamente no seu bem mais precioso. Conduzi-lo pelas ruas era uma demonstração de seu sucesso social e de sua fidelidade ideológica incondicional.

Depois de algumas décadas, muitos dos felizes proprietários começaram a ver como sua criatura de rodas se deteriorava. O mercado de automóveis não foi liberado durante todo esse tempo, fazendo com que eles continuassem como os afortunados que desfrutavam de um privilégio remoto.

Somente carros ainda mais velhos, de marcas como Chevrolet, Cadillac ou Plymouth podiam ser comprados e vendidos legalmente dentro da improvisada estrutura do intercâmbio popular. No entanto, os carros produzidos na Europa Oriental estavam condenados a permanecer nas mãos dos ilustres trabalhadores agraciados com eles.

Uma contradição era incrível: apenas a propriedade dos carros comprados antes de 1959, sob o capitalismo, era respeitada, enquanto que os carros distribuídos sob a égide do socialismo não podiam ser transferidos.

Se o proprietário saía do país por mais de 11 meses, o carro era confiscado em nome de uma justiça social que nunca foi tão justa ou equitativa. O sorriso altaneiro sumiu do rosto de quem dirigia aqueles carros de comprovada resistência e design lamentável.

Então, aquele absurdo sistema de meritocracia acabou, ao menos na sua forma mais pura. Para adquirir os carros Toyota, Mitsubishi e Peugeot que começavam a ser importados, era preciso ter cacife político e dólares no bolso.

Com base nessa nova premissa, quem conseguia comprar carros eram músicos famosos, esportistas, membros da Marinha e artistas que vendiam suas obras no exterior. Durante muitos anos, o documento de autorização para compra de um desses veículos precisava ser assinado por Carlos Lage, vice-presidente do Conselho de Estado.

Até hoje, o processo para obter a autorização é tão complicado que pode demorar de cinco a dez anos, entre o pedido inicial e a compra. E esses reluzentes automóveis também não podem ser cedidos ou vendidos para uma outra pessoa.

Todo esse controle sobre o comércio de carros tem por finalidade impedir que as diferenças sociais se tornem tão visíveis. Da mesma maneira, o mercado imobiliário e de outros símbolos de status também foi congelado. A igualdade foi definida por decreto e não pela existência de uma proposta socialista.

A abertura de revendedoras onde não seria preciso mostrar a insígnia da fidelidade ideológica ou a bendita carta assinada por um alto funcionário era uma ideia que ofendia os orientadores do igualitarismo tosco. Foram justamente esses burocratas – que já possuíam seus carros – que criaram mais de 40 limitações legais para impedir que os outros pudessem adquirir seus veículos. A imobilidade tornou-se a norma de vida e o automóvel, um objeto inacessível.

Quando parecia que esse assunto já chegara às raias do absurdo, realizou-se o 6.º Congresso do Partido Comunista de Cuba. Entre as medidas aprovadas, foi anunciado o fim desse disparate. A abertura do mercado de compra e venda de automóveis começa a vigorar, de acordo com o conselho de ministros, antes do fim de 2011.

Finalmente, os veículos obtidos com base no ultrapassado sistema de mérito laboral poderão ser transferidos para outra pessoa. Com isso, chegaremos ao fim do último bastião de um período em que o importante não era o dinheiro que uma pessoa tinha, mas a ideologia que professava. A oferta e a demanda acabarão se impondo à chamada “distribuição racionada” e os orgulhosos proprietários de antigamente respiram aliviados ao olhar para seus carros Lada e Moskovich.

Finalmente, poderão transformar o fruto das suas virtudes políticas em dinheiro vivo. Trocarão aquele prêmio dado há décadas por uma moeda que pode ser convertida, por esse outro capital que nega tudo aquilo que um dia eles idealizaram.


 

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