29/03/2012
às 22:21 \ História em ImagensOs cariocas merecem conhecer esse Rio de Janeiro que só o governador, o prefeito e um cineasta sabem onde fica
“Acordei e, no outono carioca, o mar, o céu, o sol e a montanha lutavam para ver qual era o mais bonito”, comoveu-se Millôr Fernandes em 1990. “A natureza não é sábia”, ressalvou anos mais tarde. “Se não, não faria uma cidade maravilhosa bem no meio da especulação imobiliária”. A melancolia decorrente dos maus tratos impostos pelos homens ao lugar onde nasceu seria sintetizada em outra grande frase: “Roma não se fez num dia, mas o Rio foi destruído em dez anos”.
E reconstruído em exatamente 2min24, garante o vídeo produzido pela dupla Sérgio Cabral e Eduardo Paes. Nem o mais ranzinza dos argentinos resistiria à vontade de morar no Rio do cineasta Fernando Meirelles. Já na primeira bateria de imagens, jovens sarados se exercitam ao ar livre nas areias finas e brancas, pescadores empurram barcos em direção às águas cristalinas iluminadas pela luz da aurora, dois ou três nadadores que avançam entre as ondas confirmam que enfim foi concluída a despoluição da Baía de Guanabara.
Se tudo vai bem no mar, as coisas em terra parecem melhor ainda. Ciclistas pedalam na orla sem carros por perto, um guarda de trânsito apita em ritmo de samba, remadores cruzam a Lagoa Rodrigo de Freitas sem quaisquer vestígios de peixes mortos, homens e mulheres de fina estampa jogam jogam vôlei na praia. Todo mundo sorri. É difícil ser infeliz num lugar assim, atestam as cenas seguintes.
Um moreno saudável batuca na caixa de fósforos e cantarola os primeiros versos de Cidade Maravilhosa e todos vão aderindo à cantoria. O gari passista transforma a vassoura em cabrocha, o motorneiro risonho ressuscita o bondinho de Santa Tereza no alto dos Arcos da Lapa, um pescador com vara e anzol mostra que agora se fisga peixe a dois metros da praia, o bondinho do Pão de Açúcar fica com cara de trem-bala, o Cristo do Corcovado abre os braços para uma paisagem sem morros ─ e, portanto, sem favelas, milícias ou quadrilhas de traficantes.
Em contrapartida, sobram alpinistas, surfistas, garotões cavalgando esquis e skates, deficientes físicos que encestam a bola de basquete na primeira tentativa ─ aparece até uma mãe recente pilotando o carrinho com o bebê a bordo. Os estádios foram reformados para a Copa de 2014, a grama é de matar inglês de inveja, torcedores que viviam em guerra agora trocam gentilezas na capital mundial da paz ─ e, como não se vê um único pobre, pedinte ou mendigo, também também capital da prosperidade. A sede da Olimpíada de 2016 está pronta. Se melhorar, estraga.
Pena que só Cabral, Paes e Meirelles saibam onde fica esse Rio. Os cariocas continuam vivendo na cidade que aparece na oportuníssima remixagem feita por Cláudio Martins, amigo da coluna. Todos adorariam morar na fraude forjada para zombar do povo e enganar turista.
Tags: Cidade Maravilhosa, Fernando Meirelles, Olimpíadas 2016, Rio de Janeiro











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