Coluna do

Augusto Nunes

Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido.
E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido.

Posts com a tag ‘Celso Amorim’

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Chanceler de bolso (10)

2 de fevereiro de 2010

“É importante que seja dada oportunidade para discussões com o presidente Ahmadinejad. É preciso evitar soluções que causem sofrimento ao povo iraniano”.

Celso Amorim, em Paris, explicando que o companheiro Mahmoud Ahmadinejad é um estadista tolerante, disposto a tudo para evitar que o povo sofra e muito interessado em dialogar com todos os governos, principalmente os que entregam a chefia do Ministério das Relações Exteriores a uma besta quadrada.

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Gran Circus Brazil (2)

1 de fevereiro de 2010

“É muito importante que o Haiti e a ONU sejam donos do programa de reconstrução do país”.

Celso Amorim, no começo da semana, lançando a candidatura do governo brasileiro a salvador do Haiti.

“Eu pedi ao presidente Obama uma espécie de Plano Marshall para o Haiti, implementado pela comunidade internacional sob a liderança dos Estados Unidos”.

Raymond Joseph, embaixador do Haiti nos EUA, no fim da semana, avisando ao governo brasileiro que não se deve brincar com coisa séria.

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São Jorge desceu do retrato para animar outra farra no bordel

31 de janeiro de 2010

A data escolhida para a consumação do golpe ─ 28 de janeiro de 2010 ─ pareceu mais que perfeita aos planejadores. Primeiro, porque nesse dia as salas de cinema do país inteiro continuariam atulhadas de adoradores do Filho do Brasil, todos com o coração em descompasso e uma catarata de lágrimas jorrando de cada canto de olho, prontos para liquidar a pauladas os traidores da pátria. Ai de quem ousasse discordar da canetada do presidente Lula, desferida naquela quinta-feira para livrar quatro obras da Petrobras da interdição determinada pelo Tribunal de Contas da União.

Multidões de devotos dispostos a matar ou morrer pelo chefe são um trunfo e tanto. Mas outro ainda mais poderoso viria horas depois do drible no TCU. Para desespero da elite golpista, dos pessimistas profissionais, dos louros de olhos azuis e de Fernando Henrique Cardoso, em 29 de janeiro o Cara receberia na Suiça, no encerramento do Fórum Econômico Mundial, o título de Estadista Global. Já canonizado pelas plateias do Brasil, o maior dos governantes desde Tomé de Sousa voltaria da viagem reverenciado como santo universal por chefes de governo grávidos de gratidão pelo acesso ao segredo do milagre brasileiro: enquanto eles fazem tudo errado, revelaria o discurso de agradecimento, o presidente Lula acerta todas.

Esses feitos históricos forçariam a imprensa reacionária a confinar a agressão ao  TCU numa nota de pé de página. Se os jornalistas insistissem, o herói de cinema, estadista global  e modelo do mundo contaria que batera de frente com o tribunal para evitar que a consolidação do Brasil Potência fosse ameaçada pela paralisação das obras da Refinaria Abreu e Lima (PE), da Refinaria Presidente Vargas (PR), do terminal de Barra do Riacho (ES) e do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro.

Dois ou três improvisos depois do almoço bastariam para abafar a choradeira dos técnicos do TCU, que sustaram as obras quando confrontados com copiosas evidências de “irregularidades graves” ─ preços superiores aos de mercado, despesas superfaturadas, gastanças sem justificativas convincentes, projetos que um estagiário se recusaria a assinar e outros sintomas de corrupção epidêmica.

Os cérebros delinquentes só esqueceram de combinar com os outros ─ e de prever o imprevisível. Como faltou o acerto com os brasileiros, o dramalhão hagiográfico já figura na galeria dos grandes fiascos da história do cinema. Como faltou o acordo com o destino, uma crise de hipertensão mostrou que Lula é apenas um homem e cancelou a viagem à Suiça.

Escalado para a leitura do discurso de agradecimento, foi o chanceler Celso Amorim quem ensinou o que deve fazer um país para ser Brasil quando crescer: “Precisamos de um novo papel para os governos. e digo que, paradoxalmente, esse novo papel é o mais antigo deles: é a recuperação do papel de governar”. No momento em que a plateia multinacional foi apresentada à frase, corretamente  definida pelo jornalista Clóvis Rossi como “a quintessência do vácuo”, Lula estava de pijamas numa cama de hospital. Era apenas um homem doente.

A implosão do calendário criminoso obrigou o presidente a improvisar explicações para a audácia. Alegou que a retomada das obras permitirá a recriação de 25 mil empregos. (Se a preservação de postos de trabalho é mais importante que o respeito à lei, o governo deve estimular e subsidiar a utilização da mão de obra dos morros pelos bandos do narcotráfico). Alegou que o governo perde muito dinheiro com a interrupção das obras. (Quem perde são os pagadores de impostos, vítimas de administradores ineptos e venais). Fez de conta que não agiu fora da lei sobretudo para melhorar a agenda eleitoral que divide com Dilma Rousseff, até aqui dominada por inaugurações de creches e pedras fundamentais. E para melhorar a vida de empreiteiros que saberão retribuir a gentileza com o custeio de despesas de campanha.

Agora se sabe por que Lula atravessou o ano tentando desmoralizar o TCU e achincalhando todos os organismos que ousaram apontar os incontáveis canteiros do PAC infectados pela ladroagem. Agora se sabe porque afirmou que o PAC da Copa só chegará a bom porto se percorrer a rota que passa ao largo da lei e da moralidade administrativa. Agora se sabe que, no 28° Dia do Ano da Graça de 2010, o Padroeiro dos Pecadores Companheiros achou pouco absolver, abençoar ou proteger os corruptos festejando no salão.

Depois de sete anos pendurado na parede, nosso São Jorge do Agreste desceu do retrato para confraternizar com os farristas ─ e patrocinar outra festança no bordel.

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O mundo em perigo (2)

30 de janeiro de 2010

“O que aconteceu com o mundo nos últimos sete anos? Podemos dizer que o mundo, igual ao Brasil, também melhorou? Podemos dizer que, nos últimos sete anos, o mundo caminhou no rumo da diminuição das desigualdades, das guerras, dos conflitos, das tragédias e da pobreza? Podemos dizer que caminhou mais vigorosamente em direção a um modelo de respeito ao ser humano e ao meio ambiente? Podemos dizer que interrompeu a marcha da insensatez?”

Celso Amorim, no Fórum Econômico Mundial, ainda no discurso que Luiz Dulci escreveu para Lula não ler, ao avisar que o mundo só tem problemas porque não elegeu um presidente que não lê nem rótulo de garrafa, não proibiu a prisão de corruptos, não trocou empregos pela bolsa-esmola, não devastou todas as florestas e não nomeou uma Dilma Rousseff para liderar a marcha da sensatez.

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O mundo em perigo

30 de janeiro de 2010

“É hora de reinventarmos o mundo e suas instituições”.

Celso Amorim, ao estrear Fórum Econômico Mundial como leitor interino dos discursos que Luiz Dulci escreve para Lula não ler, agora explicando que, depois de reinventar o Brasil, o chefe só espera passar o piripac para exigir da ONU o emprego de reinventor do planeta.

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Orador interino

30 de janeiro de 2010

“O Brasil não quer ser um destaque novo em um mundo velho. A voz brasileira quer proclamar, em alto e bom som, que é possível construir um mundo novo”.

Celso Amorim, no Fórum Econômico Mundial, durante a leitura do discurso que Lula não pôde ler porque o piripac chegou antes da azia, insinuando que o mundo novo é alguma coisa parecida com a Venezuela de Chávez.

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Sabujo campeão

26 de janeiro de 2010

“Na realidade, isso que está ocorrendo aqui já faz parte do plano Lula, porque o primeiro a falar em uma conferência de doadores, quando outros ainda estavam incertos, foi o presidente Lula, em conversa com o presidente Obama”.

Celso Amorim, durante a conferência preparatória para a reconstrução do Haiti, mostrando que vai dedicar o último ano do governo ao curso de aperfeiçoamento em sabujice internacional.

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Governo Lula ameaça vítimas do terremoto com um PAC do Haiti

26 de janeiro de 2010

As cenas de ciumeira explícita protagonizadas pelo governo brasileiro depois do desembarque dos americanos no Haiti foram sobretudo mesquinhas. Enquanto uma nação ferida de morte implorava por alimentos e socorros que tardavam a chegar, o Itamaraty implorava pelo comando de um sistema de distribuição inexistente.

As cenas de exibicionismo explícito protagonizadas pelo general Floriano Peixoto diante do palácio presidencial em Porto Príncipe foram especialmente constrangedoras. “É uma forma de marcar posição, é muito importante que haja a percepção do trabalho do Brasil”, discursou o comandante-geral da Minustah no Haiti, suando a farda na operação de entrega de cestas básicas a flagelados já atendidos pelos ianques do outro lado do muro.

“Lamentavelmente, a imprensa tem dado pouco importância à participação brasileira na ajuda humanitária”, queixou-se o general. Queixou-se do general a canadense Kim Bolduc, coordenadora de assistência humanitária da Minustah: “Tem muita duplicação. Não sabemos a ração que estão entregando é suficiente, nem em quanto tempo será consumida”. Até a ofensiva de Floriano Peixoto, os oficiais em missão no Haiti mantiveram-se fora do assédio ao Conselho de Segurança da ONU.  Palanque não é coisa para militares da ativa.

Nesta quinta-feira, o ministro Celso Amorim reincidiu na fantasia: o Haiti deve ser reconstruído por um Plano Lula, semelhante ao Plano Marshall do pós-guerra, executado sob a liderança do Brasil. Somadas às geradas pela competição impossível com os americanos, as cenas de sabujice explícita estreladas pelo chanceler ultrapassaram todos os limites do ridículo ─ e  reduziram o Brasil a protagonista de um espetáculo indecoroso.

A alma subalterna de Amorim, que se refere ao chefe como “Nosso Guia”, revogou há muito tempo o sentimento da vergonha. Pior para ele. O país não merece virar motivo de chacota em todos os idiomas. É o que ocorrerá se prosseguir a chanchada concebida para equiparar o Brasil aos Estados Unidos e infiltrar um governante desoladoramente jeca na galeria dos estadistas que reconstruíram o mundo em escombros do pós-guerra.

Promover a potência emergente um país ainda afundado no atraso é uma esperteza eleitoreira quase inofensiva se confinada em comícios. Acreditar na fantasia e tentar vendê-la ao mundo é coisa de napoleão de hospício. Se o governo acha que falta serviço, que cuide das secas, das enchentes ou dos morros conflagrados que sobram por aqui.

Se for pouco, pode tratar de outros ítems da pauta gigantesca ─ os 12 milhões de analfabetos, o sistema de saúde falimentar, a malha rodoviária em decomposição ou a multidão de excluídos da rede de saneamento básico. Se ainda assim sobrar tempo, que trate de construir efetivamente o país fictício que estaciona nas inaugurações de araque programadas para fazer de conta que o PAC existe.

Em homenagem a Zilda Arns, que doou discretamente a própria vida, é preciso acabar com a quermesse armada pelos gigolôs da tragédia. Em respeito à imensidão de mortos, entre os quais 21 bravos brasileiros, convém enterrar sem demora nem honras o Plano Lula. Um PAC do Haiti seria pior que terremoto.

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Sabujo internacional

24 de janeiro de 2010

“Por que tem que ser um Plano Marshall? Pode ser Plano Lula. Não é só quem dá dinheiro, é quem está mais empenhado”.

Celso Amorim, ao saber que o FMI sugeriu que a reconstrução do Haiti obedeça a uma versão do Plano Marshall, concebido pelos americanos no pós-guerra, mostrando que aproveita até terremoto para lustrar a imagem de sabujo profissional.

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Diplomacia da malandragem

20 de janeiro de 2010

“O Brasil não reconhece governos, ele reconhece Estados com os quais mantém ou não relações diplomáticas. Nós vamos ver como as coisas vão se desenrolar nesse caso”.

Celso Amorim, explicando que, para sair do buraco em que se meteu ao promover Manuel Zelaya a gerente da Pensão do Lula, o Brasil vai primeiro reconhecer que Honduras existe e, alguns dias depois, fingir que acabou de descobrir que, além de existir, o país tem um novo presidente eleito pelo voto popular.