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Brasil

12/03/2012

às 20:43 \ Feira Livre

‘Governo? Que governo?’, um artigo de Marco Antonio Villa

PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA SEGUNDA-FEIRA

MARCO ANTONIO VILLA

O rei está nu. Na verdade, é a rainha que está nua. Ninguém, em sã consciência, pode dizer que o governo Dilma Rousseff vai bem. A divulgação da taxa de crescimento do País no ano passado ─ 2,7% ─ foi uma espécie de pá de cal. O resultado foi péssimo, basta comparar com os países da América Latina. Nem se fala se confrontarmos com a China ou a Índia. Mas a política de comunicação do governo é tão eficaz (além da abulia oposicionista) que a taxa foi recebida com absoluta naturalidade, como se fosse um excelente resultado, algo digno de fazer parte dos manuais de desenvolvimento econômico. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, sempre esforçado, desta vez passou ao largo de tentar dar alguma explicação. Preferiu ignorar o fracasso, mesmo tendo, durante todo o ano de 2011, dito e redito que o Brasil cresceria 4%.

A presidente esgotou a troca de figurinos. Como uma atriz que tem de representar vários papéis, não tem mais o que vestir de novo. Agora optou pelo monólogo. Fala, fala e nada acontece. Padece do vício petista de que a palavra substitui a ação. Imputa sua incompetência aos outros, desde ministros até as empresas contratadas para as obras do governo. Como uma atriz iniciante após um breve curso no Actors Studio, busca vivenciar o sofrimento de um governo inepto, marcado pelo fisiologismo.

Seu Ministério lembra, em alguns bons momentos, uma trupe de comediantes. O sempre presente Celso Amorim ─ que ignorou as péssimas condições de trabalho dos cientistas na Antártida, numa estação científica sucateada ─ declarou enfaticamente que a perda de anos de trabalho científico deve ser relativizada. De acordo com o atual titular da Defesa, os cientistas mantêm na memória as pesquisas que foram destruídas no incêndio (o que diria o Barão se ouvisse isso?).

Como numa olimpíada do nonsense, Aloizio Mercadante, do Ministério da Educação (MEC), dias atrás reclamou que o Brasil é muito grande. Será que não sabe ─ quem foi seu professor de Geografia? ─ que o nosso país tem alguns milhões de quilômetros quadrados? Como o governo petista tem a mania de criar ministérios, na hora pensei que estava propondo criar um MEC para cada região do País. Será? Ao menos poderia ampliar ainda mais a base no Congresso Nacional.

Mas o triste espetáculo, infelizmente, não parou.

A ministra Maria do Rosário, dos Direitos Humanos, resolveu dissertar sobre política externa. Disse como o Brasil deveria agir no Oriente Médio, comentou a ação da ONU, esquecendo-se de que não é a responsável pela pasta das Relações Exteriores.

O repertório ministerial é muito variado. Até parece que cada ministro deseja ardentemente superar seus colegas. A última (daquela mesma semana, é claro) foi a substituição do ministro da Pesca. A existência do ministério já é uma piada. Todos se devem lembrar do momento da transmissão do cargo, em junho do ano passado, quando a então ministra Ideli Salvatti pediu ao seu sucessor na Pesca, Luiz Sérgio, que “cuidasse muito bem” dos seus “peixinhos”, como se fosse uma questão de aquário. Pobre Luiz Sérgio. Mas, como tudo tem seu lado positivo, ele já faz parte da história política do Brasil, o que não é pouco. Conseguiu um feito raro, na verdade, único em mais de 120 anos de República: foi demitido de dois cargos ministeriais, do mesmo governo, e em apenas oito meses. Já Marcelo Crivella, o novo titular, declarou que não entende nada de pesca. Foi sincero. Mas Edison Lobão entende alguma coisa de minas e energia? E Míriam Belchior tem alguma leve ideia do que seja planejamento?

Como numa chanchada da Atlântida, seguem as obras da Copa do Mundo de 2014. Todas estão atrasadas. As referentes à infraestrutura nem sequer foram licitadas. Dá até a impressão de que o evento só vai ser realizado em 2018. A tranquilidade governamental inquieta. É só incompetência? Ou é também uma estratégia para, na última hora, facilitar os sobrepreços, numa espécie de corrupção patriótica? Recordando que em 2014 teremos eleições e as “doações” são sempre bem-vindas…

Não há setor do governo que seja possível dizer, com honestidade, que vai bem. A gestão é marcada pelo improviso, pela falta de planejamento. Inexiste um fio condutor, um projeto econômico. Tudo é feito meio a esmo, como o orçamento nacional, que foi revisto um mês após ter sido posto em vigência. Inacreditável! É muito difícil encontrar um país com um produto interno bruto (PIB) como o do Brasil e que tenha um orçamento de fantasia, que só vale em janeiro.

Como sempre, o privilégio é dado à política ─ e política no pior sentido do termo. Basta citar a substituição do ministro da Pesca. Foi feita alguma avaliação da administração do ministro que foi defenestrado? Evidente que não. A troca teve motivo comezinho: a necessidade que o candidato do PT tem de ampliar apoio para a eleição paulistana, tendo em vista a alteração do panorama político com a entrada de José Serra (PSDB) na disputa municipal. E, registre-se, não deve ser a única mudança com esse mesmo objetivo. Ou seja, o governo nada mais é do que a correia de transmissão do partido, seguindo a velha cartilha leninista. Pouco importam bons resultados administrativos, uma equipe ministerial entrosada. Bobagem. Tudo está sempre dependente das necessidades políticas do PT.

A anarquia administrativa chegou aos bancos e às empresas estatais. É como se o patrimônio público fosse apenas instrumento para o PT saquear o Estado e se perpetuar no poder. O que vem acontecendo no Banco do Brasil seria, num país sério, caso de comissão parlamentar de inquérito (CPI). Aqui é visto como uma disputa de espaço no governo, considerado natural.

Mas até os partidos da base estão insatisfeitos. No horizonte a crise se avizinha. A economia não está mais sustentando o presidencialismo de transação. Dá sinais de esgotamento. E a rainha foi, desesperada, em busca dos conselhos do rei. Será que o encanto terminou?

07/03/2012

às 20:22 \ Sanatório Geral

Surto de sinceridade

“Eu não admito atraso. Eu admito que a infraestrutura do Brasil como um todo está atrasada”.

Cândido Vaccarezza, líder do governo na Câmara dos Deputados, indignado com quem só critica o atraso das obras da Copa, como se as outras não estivessem fora do prazo ou ainda no papel.

07/03/2012

às 12:00 \ Feira Livre

‘O noticiário da TV me faz agradecer aos céus por não ter nascido na Europa’, de Mauro Pereira


 MAURO PEREIRA

Depois de assistir aos principais telejornais, todos patrocinados por alguma estatal e veiculando nos intervalos de generosas propagandas de algum dos 40 ministérios, agradeci aos céus por não ter nascido europeu: de acordo com os informativos televisivos, trata-se do continente mais subdesenvolvido do planeta. Reportagens extensas e minuciosas me permitiram conhecer mais a fundo o atraso cultural, a instabilidade política e a miséria social que vêm flagelando alemães, ingleses, franceses, dinamarqueses, holandeses ao longo de suas histórias. Mais uma vez minha presidente me encheu de orgulho ao dar uma descompostura naqueles governantes medíocres, incompetentes e corruptos, e ensinar-lhes o que fazer com seus dólares.

Tive a oportunidade, também, de avaliar como sou privilegiado por residir num país que pratica uma das políticas de distribuição de renda mais avançadas do mundo. Responsável direta pela erradicação da pobreza, foi concebida sob a ótica revolucionária do capitalismo de resultado, principalmente o eleitoral. Descobri que vivo em uma nação cuja população está condenada a ser rica: a pobreza caminha celeremente para ganhar status de contravenção penal. Um único senão fica por conta de meia dúzia de miseráveis que agora deu para querer andar de avião, transformando os saguões dos moderníssimos aeroportos nacionais num inferno.

O desenvolvimento espetacular do sistema educacional garantiu a mais de 20% dos adolescentes a alternativa inovadora de concluir o ensino fundamental sem sequer ter frequentado salas de aula, além de criar um método particular no ensino médio que estimula o potencial intelectual do aluno obrigando-o a percorrer os limites da compreensão para sair ileso das provas do ENEM. Sou um cidadão despreocupado e protegido e os investimentos pesados na segurança pública, confesso, até me fazem sentir saudade dos tempos em que religiosamente me prostrava em frente à televisão para assistir aos brasís urgentes.

Coisas do passado. A excelência no serviço de saúde oferecido pelo governo federal atingiu um estágio de excelência tão avançado que nossas autoridades são as primeiras a dar o exemplo. Quando necessitam de atendimento médico não hesitam em usar o Sistema Sírio-Libanês de Saúde. Estamos próximos da perfeição! Porém, inquestionavelmente é no plano político e na seara administrativa que percebo o maior de todos os avanços.

O Congresso Nacional é uma beleza! Constituído por homens públicos de integridade moral acima de qualquer suspeita, meus deputados e senadores são notáveis. Sobressaem-se pelo respeito devotado aos cidadãos quando nomeiam para suas Comissões os melhores quadros da Casa. A de Justiça, por exemplo, é comandada por um réu em processo de corrupção, e a da Educação tem como destaque um parlamentar que não se acovardou ante a dificuldade extrema imposta por uma oposição invejosa, utilizando menos que hora e meia para desenhar o seu nome diante de um juiz eleitoral. Há momentos em que o ufanismo se exacerba e não consigo me conter, reiterando minha gratidão por ter nascido no meu país!

O Executivo é o meu maior orgulho. Só presidentes como os meus seriam tão competentes para produzirem, sozinhos, quase duas dezenas de ministros corruptos em pouco mais de nove anos. E escaparem ilesos! O desempenho dos ministros é assombroso e o índice de aprovação apurado junto a fornecedores e ONGs companheiras sempre os premia com notas altíssimas. Uns ganham as de 50; outros, as de 100. É virtude demais. Posso estar errado, mas sou capaz de apostar que no relacionamento internacional o governo do meu país é reconhecidamente o único entre todas as nações que só funciona quando leva um pé no traseiro.

Sou duplamente abençoado, pois, além de ter nascido no meu país, habito o continente mais desenvolvido entre todos a América. Desconsiderando-se o Norte, que míngua à própria sorte, sou bafejado pela fortuna por viver na outra ponta continental e compartilhar de uma vizinhança da mais alta qualidade. Mais ao centro, percebe-se uma explosão de democracia, e é concedido aos oposicionistas o direito de morrerem de fome, sem nenhuma interferência governamental. Ao Sul, estende-se uma malha invisível que dá guarida a democratas legendários e inquestionáveis. Kirchner, a Evita de Nestor; Morales, A Grife do Índio; Lupo, O Pai de Todos; Chavez, O Tio Sam de Boina e Correa, O Peito de Aço. É democracia demais. E futuro de menos.

Como desgraça pouca é bobagem, de tempos em tempos todos se juntam à Dona da Pensão em algum ponto dessa América destroçada para se autoproclamarem heróis nacionais, dissertarem sobre as delícias do socialismo capitalizado e ofender os americanos do norte. Entre um descuido e outro, até comentam a miséria extrema que devasta a América. A América que eles devastaram. Éter na mente, latino-americano!

Quando termina o último dos quatro telejornais vai-se junto a sensação de êxtase que deles emana e fica apenas a certeza de que esse é o meu país. Mas, decorrente dessa convicção, sei, também, que esse jamais será o meu governo!

06/03/2012

às 17:49 \ Direto ao Ponto

Quase dois anos antes do chute no traseiro, houve um pontapé na canela dos tratantes

Quase dois anos antes do pedagógico chute no traseiro, Jérôme Valcke enquadrou o bando de tratantes com um certeiro pontapé na canela. Como estavam os preparativos para 2014?, perguntou-lhe um jornalista no encerramento da Copa da África do Sul. “Falta tudo”, resumiu o secretário-geral da Fifa, alarmado com o espetáculo da irresponsabilidade produzido, dirigido e estrelado pelo ainda presidente Lula. O olhar perplexo do repórter induziu Valcke a deixar claro que não estava exagerando. “Tudo”, enfatizou.

Continuava no papel o mundaréu de obras prometidas pelo chefe do governo no comício improvisado em Zurique no dia 30 de outubro de 2007. “Faremos uma Copa para argentino nenhum botar defeito”, gabou-se então o colecionador de bravatas. “Vocês verão coisas lindas da natureza e nossa capacidade de construir bons estádios”. Passados quase três anos, registrei no post republicado na íntegra na seção Vale Reprise, nenhum argentino conseguia enxergar algo que merecesse atenção. Só estavam prontas ─ desde o Dia da Criação ─ as coisas lindas da natureza.

O primeiro pontapé desferido por Valcke atingiu Lula no meio da campanha para eleger Dilma Rousseff. “Terminou uma Copa do Mundo na África do Sul agora e já começam aqueles a dizer: ‘Cadê os aeroportos brasileiros? Cadê os estádios brasileiros? Cadê os corredores de trem brasileiros? Cadê os metrôs brasileiros?’”, replicou o palanque ambulante. “Como se nós fôssemos um bando de idiotas que não soubéssemos fazer as coisas e não soubéssemos definir as nossas prioridades”.

Neste começo de março, o descompromisso de Valcke com as boas maneiras atestou o descompromisso da turma no poder com a verdade ─ e comprovou que o governo não sabe mesmo fazer as coisas nem definir prioridades. Um certo PAC da Copa morreu de inanição ainda no berço e foi enterrado sem velório. Em vez de construir ou reformar os aeroportos, Dilma Rousseff esperou até o verão deste ano para livrar-se dos mais próximos do colapso com uma privatização apressada. Outras perguntas feitas pelo falastrão vocacional continuam à procura de respostas. Cadê os corredores de trem? Ninguém sabe. Cadê os metrôs? Ninguém viu.

O pontapé no traseiro também informa que, ao contrário do que Lula imaginou, o cartola da Fifa nunca achou que lidava com um país atulhado de idiotas. Ele descobriu faz muito tempo que lida com um punhado de governantes vigaristas.

05/03/2012

às 18:01 \ Sanatório Geral

Nascidos um para o outro

“Mando um beijo para ela”.

Hugo Chávez, com sorriso de namorado na fila do cinema e voz de candidato a noivo, ao saber que Dilma Rousseff anda se queixando da falta de parceiros.

05/03/2012

às 17:14 \ Direto ao Ponto

Tropa de choque do Planalto ameaça a Fifa com a Guerra da Preferência Nacional

Sempre que precisam açular o fervor patriótico dos governados, os governantes cucarachas recorrem aos pretextos de sempre.

Fidel Castro, o ditador-de-adidas, anuncia outra iminente invasão americana.

Hugo Chávez, o bolívar-de-hospício, rascunha mais uma declaração de guerra à Colômbia ou ameaça anexar um pedaço da Guiana.

Evo Morales, o lhama-de-franja, avisa que vai retomar nas próximas horas o litoral que perdeu para o Chile em 1883.

Rafael Correa, o libertador-da-imprensa, olha enviesado para a fronteira com o Peru.

Cristina Kirchner, a viúva-de-tango, recita que as Malvinas são argentinas.

Fernando Lugo, o reprodutor-de-batina, exige a revisão do Tratado de Itaipu.

Sem inimigos ostensivos a enfrentar, sem pendências territoriais a resolver, a tropa de choque do governo Dilma Rousseff resolveu mobilizar os brasileiros para um confronto internacional com o pretexto inovador: foi uma afronta à nação o merecidíssimo chute no traseiro desferido pelo secretário-geral da Fifa nos organizadores da Copa de 2014. A entidade que explora o futebol é tão confiável quanto o primeiro escalão federal. Mas está apenas cobrando o que ficou combinado em 2007.

Caso o tiroteio verbal desemboque numa troca de chumbo de verdade, não convém chamar o espasmo beligerante  pelo nome apropriado. Que tal batizá-lo de Guerra da Preferência Nacional?

24/02/2012

às 19:36 \ Sanatório Geral

Perfeição criminosa

“A saúde no Brasil está se transformando, cada vez mais, em caso de polícia”.

Pedro Simon, senador pelo PMDB do Rio Grande do Sul, revelando que não é freguês do Sírio-Libanês e sim do sistema de saúde que, segundo Lula, está perto da perfeição.

16/02/2012

às 15:47 \ Feira Livre

‘Tudo é relativo, mas…’, um artigo de Carlos Alberto Sardenberg

PUBLICADO NO GLOBO DESTA QUINTA-FEIRA

Carlos Alberto Sardenberg

A sorte é que tem sempre alguém em situação pior que a gente. Como tudo na vida é comparação, fica fácil melhorar o desempenho, qualquer tipo de desempenho. Está se achando meio burro por não entender a dívida grega? Tranquilo. Tem gente que se espanta antes. “Aquele grego não te pagou? Manda pro pau”.

Aliás, é mais ou menos o que o governo alemão quer fazer, mas não vem ao caso aqui. O fato é que até a Grécia encontra países e povos em situação pior. E nem precisa uma nação africana desgraçada pelos conflitos internos. Por exemplo: o FMI e a União Européia acham que o salário mínimo grego é muito elevado (retirando competitividade da economia) e querem reduzi-lo para cerca de 570 euros ao mês. Isso dá R$ 1.300, o dobro do brasileiro e certamente maior que em todo mundo emergente. “Acha ruim? Pois vai trabalhar pelo mínimo lá no Rio” ─ pode dizer uma autoridade aos manifestantes em Atenas.

E se lá eles conseguem, imaginem o que se pode fazer com os números brasileiros, muito superiores. Acrescentem aí a especial habilidade do ministro Guido Mantega em escolher as comparações, digamos, mais positivas ─ e, pronto, o Brasil não perde de ninguém. O Brasil, em geral, não. O Brasil dele, da presidente Dilma e de Lula. Antes, perdia tudo. Por exemplo: o mundo está desacelerando neste ano, enquanto o Brasil, na “contracorrente”, segundo nota no site do Ministério da Fazenda, enfia o pé na tábua.

Verdade. Segundo o FMI, o mundo crescerá 3,3% em 2012, contra os 3,8% do ano passado. E peguem logo a China. Pois é, também desacelerou em 2011 e agora está crescendo em ritmo menor ainda.  Só que o andar para trás da China significa crescer 8,2% (contra 9,2% do ano passado). E a Índia cai de 7,4% para apenas 7%. Já o “pra frente Brasil”, no caso, significa avançar dos 2,9% estimados para 2011 para… quanto mesmo?

O ministro Mantega diz que vamos para 4,5% ─ um “belo crescimento” ─ se a Europa não atrapalhar. E se atrapalhar, 4%, o que estaria bom. Já no Banco Central, que também é governo, o pessoal acha que o país deve conseguir fazer uns 3,5%. Fora do governo, a previsão é ainda um pouco menor. Para o FMI, o Brasil cresce neste ano ao ritmo de 3%.

Mas se a gente deixar de lado esses detalhes dos números, a comparação continua de pé. O mundo vai para trás, a gente para a frente, ainda que seja de pouquinho para pouco. Não se pode querer tudo, certo?

Bom, mais ou menos. Ocorre que há países importantes também acelerando. Estados Unidos, por exemplo, cresceram 1,7% no ano passado e devem subir para 2%, com viés de alta. O Japão, recuperando-se do tsunami, também vem em ritmo mais forte. Assim, a frase mais correta seria: todo o mundo desacelera, menos alguns países como os EUA e Japão, além do Brasil é claro. É o nosso novo G-3.

Verdade também que estamos comparando o que aconteceu com o que acreditamos (ou dizemos) que vai acontecer. É outro método de melhorar o desempenho, comparar a dura realidade com um futuro espetacular, como os 4,5% do ministro. Em 2011, aí sim, é universal, todo o mundo desacelerou, inclusive, acreditem, o Brasil. Só que nosso tombo foi maior. O PIB, que se expandira a 7,5% em 2010, deve ter crescido menos de 3% no ano passado. Este número também nos coloca na rabeira dos emergentes.

Águas passadas, diz o ministro, esperem por 2012.

Dizem que, em economia, tanto no pessoal quanto no macro, deve-se adotar o pessimismo ou, relaxando, pelo menos algum ceticismo. Esperando o pior ou temendo o perigo, as pessoas e governos preparam-se melhor. O otimista, acreditando que vai dar tudo certo, arrisca-se além da conta e, assim, contrata prejuízos.

Por outro lado, como mostram ainda mais pesquisas recentes, economia é psicologia. O baixo astral derruba, sim, a atividade econômica. E se for assim, as autoridades econômicas têm o papel adicional de animar o país. “Vamos lá pessoal, aos shoppings, às fábricas, que a coisa vai bombar” ─ parece nos dizer o animado Mantega.

O problema é ele acreditar mesmo na animação e não se concentrar nos importantes problemas o país deveria enfrentar. Porque, vamos falar francamente, o Brasil não é um caso excepcional. Vai bem naquilo que vão bem muitos emergentes que fixaram bases estáveis na macroeconomia e vendem muito para a China. E vai mal como os outros, na baixa competitividade de suas indústrias.

Também aqui se pode dizer que tem gente pior. Mas chega uma hora em que a pessoa, a sós, precisa se comparar com … ela mesma.

02/02/2012

às 19:57 \ Direto ao Ponto

Um estadista e duas vulgaridades políticas

Num post de 10 de março de 2010, reproduzido na seção Vale Reprise, confrontei a discurseira de Lula sobre Cuba com um artigo publicado no jornal espanhol El País por Oscar Arías, ex-presidente da Costa Rica. O que ambos diziam sobre um mesmo tema escancarou o abismo que separa um genuíno estadista de políticos vulgares. A essa categoria pertence Dilma Rousseff, confirmou visita a Havana. Comparem o palavrório indigente do neurônio solitário às lições ministradas pelo costa-riquenho premiado com o Nobel da Paz. E sintam a falta que faz ao Brasil gente parecida com um Oscar Arías.

25/01/2012

às 21:34 \ Direto ao Ponto

A blogueira cubana obriga a presidente a escolher entre a generosidade e a infâmia

Em outubro de 2009, a blogueira Yoani Sánchez fez a primeira tentativa de viajar para o Brasil. O setor de imigração da mais antiga ditadura do mundo recusou-lhe o visto indispensável para sair da ilha-presídio. Tentou de novo em março de 2010, para assistir em Jequié, na Bahia, à estreia do documentário Conexão Cuba-Honduras, do cineasta Cláudio Galvão, que conta como vive e trabalha a mais célebre dissidente do regime totalitário. Para contornar o cerco dos carcereiros, Yoani pediu socorro a Lula por escrito.

“O senhor tem dado mostras de que confia na boa-fé do governo cubano”, observou a remetente no penúltimo parágrafo da carta remetida ao então presidente da República. “Para manter viva essa confiança”, supôs, os irmãos Castro não rejeitariam uma solicitação do amigo brasileiro. ”O senhor estaria pedindo o que para qualquer ser humano é um direito inalienável”, argumentou. O episódio foi tema de um post publicado neste espaço.

“É a chance de Lula mostrar que a opção preferencial pela ditadura companheira, sempre vergonhosa, não é de todo inútil”, escrevi. “Depois de curvar-se tantas vezes à vontade de Fidel, depois de repreender o preso político Orlando Zapata por ter morrido de fome, o presidente brasileiro pode demonstrar que atitudes desonrosas trazem algumas vantagens. Por exemplo, conseguir que Fidel e Raul Castro permitam que uma jornalista conheça o Brasil. Mais uma vez, Lula está obrigado a escolher entre as cavernas e a civilização, entre a generosidade e a infâmia. Ele decide”.

Previsivelmente, decidiu-se pelo silêncio pusilânime. Sempre obediente à partitura do oportunismo, só neste janeiro lembrou-se de Yoani. Ao saber que a blogueira resolvera fazer uma terceira tentativa, Lula mandou-lhe um conselho pelo senador Eduardo Suplicy: deveria escrever a Dilma Rousseff pedindo à afilhada que fizesse o que o padrinho não fez. A carta foi enviada nesta semana. Se a presidente não ajudar a prisioneira sem condenação formal, registrei nesta quarta-feira no comentário de um minuto para o site de VEJA, estará reafirmando que, no começo dos anos 70, não estava interessada na restauração da liberdade e da democracia. Sonhava com a substituição da ditadura militar pela ditadura comunista.

Há poucas horas, o Itamaraty anunciou a concessão do visto de entrada no Brasil a Yoani. Bom sinal. Mas falta o essencial: a permissão para a saída. Dilma precisa afirmar publicamente que o colega Raul Castro deve autorizar a viagem. Como Lula em 2010, a presidente está  obrigada a escolher entre a generosidade e a infâmia. Ela decide.


 

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