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Branca Nunes

13/05/2013

às 17:14 \ Direto ao Ponto

Se o exército de jalecos cubanos não for outra mentira da série dos 6 mil, vai aumentar espetacularmente a taxa de mortalidade garantida por militantes do MST formados em medicina na ilha-presídio dos irmãos Castro

Quando a mentira que Dilma Rousseff vai contar requer alguma cifra, é sempre a mesma que o neurônio solitário lhe sopra: 6 mil. Durante a campanha de 2010, por exemplo, a candidata prometeu de meia em meia hora construir 6 mil creches. Já passou da metade do mandato e nem 50 ficaram prontas. Em janeiro de 2011, jurou que até o fim daquele ano entregaria 6 mil casas aos flagelados da Região Serrana do Rio. Até agora não entregou nenhuma.

Em janeiro de 2012, Dilma caprichou na advertência às tempestades que teimam em cair no verão: se dessem as caras de novo, topariam com exatamente “6 mil agentes da Defesa Civil treinados para agir nas áreas de risco”. Os aguaceiros ignoraram a ameaça e continuam provocando os estragos de praxe. Os 6 mil soldados guerreiros das encostas em perigo nunca foram vistos fora do cérebro baldio da comandante. A menos que tenham sido tragados por alguma inundação secreta, seguem aquartelados por lá.

Também são 6 mil, miou na semana passada o chanceler Antonio Patriota, os médicos cubanos que o governo pretende importar para transformar o Brasil Maravilha num imenso Sírio-Libanês. Exatamente 6 mil ─ nem mais nem menos, confirmou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha. A conta de mentiroso avisa que o exército de doutores formados na ilha-presídio terá o mesmo destino das 6 mil creches, das 6 mil casas e dos 6 mil agentes de saúde: a coisa vai dar em nada.

Não convém, de todo modo, subestimar a usina de ideias desastrosas administrada por uma supergerente de araque. É possível que Dilma e Padilha estejam mesmo contemplando com o olho rútilo e o lábio trêmulo a paisagem de sonho: 6 mil revolucionários de jaleco espalhados por todos os prontos socorros e hospitais públicos, curando os males do corpo e fazendo a cabeça de milhões de eleitores enfermos. Uma experiência semelhante está em curso na Venezuela bolivariana. O juízo da presidente é suficientemente escasso para que tente reprisá-la no Brasil Maravilha.

Até a Doutora em Nada perceberia a extensão da maluquice se deixasse de contemplar a paisagem cubana com as lentes coloridas usadas pelos órfãos do Muro de Berlim.  Todo nostálgico da Guerra Fria enxerga o sistema de saúde exemplar ─ gratuito, moderno, onipresente, eficaz ─ que morreu de inanição ainda na infância, quando a mesada dos soviéticos foi suspensa.

“A qualidade diminuiu e a doutrinação aumentou”. disse a jornalista Yoani Sánchez na entrevista a Branca Nunes publicada no site de VEJA. “Hoje, quando um cubano vai a um hospital, leva um presente para o médico. É um acordo informal para que o atendam bem e rápido. Levam também desinfetante, agulha, algodão, linha para as suturas”.

“A medicina cubana é uma das mais atrasadas do mundo”, constata a repórter Nathalia Watkins na edição de VEJA desta semana. “”A maioria dos seus profissionais se forma sem nunca ter visto um aparelho de ultrassom, sem ouvir falar em stent coronário e sem poder se atualizar pela internet”. Vice-presidente do Conselho Federal de Medicina, Carlos Vital completa o diagnóstico sombrio. “Cuba gradua médicos em escala industrial com formação incompleta”, informa. “Pelos padrões do Brasil, os cubanos não poderiam sequer realizar procedimentos banais como ressuscitação ou traqueostomia”.

Enquanto não chegam os 6 mil doutores prontos para aumentar as taxas de mortalidade (ou aproveitar a chance de escapar dos escombros da fantasia comunista e desfrutar da vida em liberdade), o PT, o PCdoB e os chamados “movimentos sociais” tratam de preencher com militantes de confiança as vagas reservadas pelo regime castrista a brasileiros interessados num diploma de médico.

No vídeo acima, editado por Dárcio Bracarense, estudantes indicados pelo MST e aprovados pela embaixada cubana falam sobre Cuba e contam o que pretendem fazer na volta ao país de origem. “O socialismo é o futuro”, diz uma jovem grávida de gratidão a Fidel. “Quero voltar ao meu país e plantar essa semente revolucionária que estou vivenciando aqui e que está me nutrindo”.

Imaginar essa gente cuidando da saúde de alguém é de matar de susto. É de morrer de medo.

25/02/2013

às 10:49 \ Vídeos: Entrevista

Yoani Sánchez para o site de VEJA: ‘Tentam me calar porque divulgo a Cuba real’

BRANCA NUNES E DUDA TEIXEIRA

“Solidariedade, pluralidade e, principalmente, o desejo de voltar”. Apesar das manifestações hostis de um grupo de simpatizantes da ditadura dos irmãos Castro que enfrentou na passagem pelo Brasil, a frase resume a lembrança que Yoani Sánchez levará do país. O recado aos baderneiros ligados a partidos de esquerda é igualmente conciso: ela sugere que morem em Cuba para conhecer a “realidade de um mercado racionado, dualidade monetária, falta de liberdade e impossibilidade de se manifestar na rua”.

Com os intermináveis cabelos castanhos presos num rabo de cavalo, saboreando uma pastilha para aliviar a rouquidão e com a expressão serena de quem efetivamente acredita no que diz, a jornalista cubana relatou nesta sexta-feira à reportagem de VEJA um pouco do cotidiano dos moradores da ilha no Caribe. Leia trechos da entrevista.

Como a senhora viu as manifestações hostis dos últimos dias? Por um lado me sinto feliz por estar num país onde existe liberdade democrática e pluralidade. O problema é quando essas manifestações impedem e boicotam algo tão pacífico quanto a apresentação de um documentário ou uma sessão de autógrafos. Acho contraditório usar um espaço democrático para impedir que alguém se expresse livremente.

A senhora ficou amedrontada? Não, porque conheço esses métodos do meu país: a coação e a difamação. Infelizmente, nos últimos anos vivi situações semelhantes em Havana e outras cidades.

Eles conhecem a realidade cubana? Lamentavelmente, a maioria não conhece meu país, minha história ou meus textos. Eles acreditam numa Cuba estereotipada, uma ilha de esperança, com liberdade para todos. Cuba não vive um comunismo, mas um capitalismo de estado. Recomendaria que cada um deles morasse um tempo em Cuba para viver na pele a realidade de um mercado racionado, dualidade monetária, falta de liberdade, impossibilidade de se manifestar na rua. Depois desse tempo, duvido que continuem a defender o governo cubano. Tentam me calar porque divulgo uma Cuba menos parecida com o discurso político e mais parecida com a rua. Uma Cuba real.

Que Cuba é essa? Uma Cuba linda, mas difícil. É importante diferenciar Cuba de um partido, de uma ideologia, de um homem. Ela é muito mais do que isso. É um país onde as pessoas precisam esconder suas opiniões com medo de represálias, onde muitos jovens querem emigrar por falta de expectativa, onde o estado tenta controlar todos os detalhes da vida. Onde colocar um prato de comida em cima da mesa significa submergir-se diariamente à ilegalidade para conseguir dinheiro.

Muitas pessoas de vários países costumam elogiar o sistema de saúde e o sistema educacional de Cuba. Esses elogios são pertinentes? Nos anos 70 e 80, Cuba viveu o florescimento de toda a estrutura de saúde e educação. Foram construídas escolas e postos de saúde em toda parte graças aos subsídios soviéticos. Quando a União Soviética caiu, Cuba teve que voltar à realidade econômica. Os professores imigraram por causa dos baixos salários, a qualidade diminuiu e a doutrina aumentou. Exatamente como na área da saúde. Hoje, quando um cubano vai a um hospital, leva um presente para o médico. É um acordo informal para que o atendam bem e rápido. Levam também desinfetante, agulha, algodão, linha para as suturas. O governo usa a existência de um sistema gratuito de saúde e educação para emudecer os críticos, silenciar a população. Não passo todos os dias doente ou aprendendo, quero ler outros jornais, viajar livremente, eleger meu presidente, poder me manifestar, protestar.

Como funciona o sistema de aposentadoria em Cuba? Esse é um dos setores mais pobres. Um aposentado ganha cerca de 15 dólares conversíveis por mês. Como a maioria dos cubanos não vive do salário, mas do que pode roubar do estado dentro do local de trabalho, quando se aposenta ele perde essa fonte de renda. Em Havana é possível ver muitos velhos vendendo cigarros nas ruas.

Que tipo de racionamento existe em Cuba e como ele funciona? Cada cubano tem direito a uma cota mensal de alimento com preços subvencionados pelo estado. Estudos dizem é possível se alimentar razoavelmente bem por duas semanas com essa cota. Nela existe arroz, açúcar – que por sinal é brasileiro –, um pouco de café, azeite e, às vezes, frango. Para sobreviver a outra metade do mês os cubanos precisam ter os pesos conversíveis. O salário médio na ilha é de 20 dólares. Um litro de leite custa 1,80 dólares. Por isso, as pessoas apelam para a ilegalidade: roubam do estado e vendem no mercado negro, prostituem-se, exercem atividades ilegais, como dirigir taxis ou vender produtos para os turistas. Graças a isso e às remessas enviadas pelos cubanos exilados é possível sobreviver. Uma revolução que rechaçou esses exilados agora depende deles.

A senhora disse que os gritos de ordem dos manifestantes brasileiros já não se escutam mais em Cuba. Qual lhe surpreendeu mais? “Cuba sim, ianques não”, por exemplo. É uma expressão fora de moda. Em Cuba não usamos mais a palavra ianque para os americanos. Ela é usada apenas nos slogans políticos. Falamos yuma, que não pejorativo. Ao contrário, mostra um certo encanto em relação a eles. A propaganda oficial, de ataques aos Estados Unidos e ao imperialismo, criou um sentimento contrário ao esperado. A maioria dos jovens hoje é fascinada pelos americanos. Até acho ruim esse enaltecimento por outro país, mas é uma realidade.

O que os cubanos nascidos depois da revolução acham de figuras como Fidel Castro e Fulgêncio Batista? Nasci em 1975, quando tudo já estava burocraticamente organizado. Na escola, apresentavam Fidel como o pai da pátria. Era ele quem decidia quantas casas seriam construídas, o que iríamos vestir. Na juventude, Fidel passou a ser uma figura distante. Diferente dos nossos pais, que viveram uma fascinação pela figura de Fidel, minha geração é mais crítica. O Fulgêncio Batista era o ditador anterior. A revolução tirou um ditador do poder e se converteu em uma ditadura.

As gerações mais antigas continuam fiéis à revolução? Existem os que creem realmente na revolução, sem máscaras nem oportunismo, um pequeno grupo. Os que já não creem, mas não querem aceitar que se equivocaram, porque entregaram a ela seus melhores anos, e aqueles que deixaram de acreditar no sistema e se transformaram em pessoas críticas.

Em 2007, o governo brasileiro deportou os boxeadores cubanos Guilhermo Rigondeaux e Erislandy Lara, que tentavam o exílio na Alemanha. Qual sua opinião sobre isso? O governo brasileiro teve um triste papel neste caso, de cumplicidade. Quando os atletas retornaram, o governo cubano fez um linchamento público na imprensa oficial, com vários insultos. Fidel Castro falou na televisão que um deles foi visto com uma prostituta na praia. Os filhos e a mulher desse homem foram expostos a isso. Foi um episódio bastante lamentável.

Por que a ditadura cubana ainda tolera suas críticas? Penso que a visibilidade que alcancei me protege. Sou vigiada constantemente, meu telefone é grampeado e existe uma série de mecanismos e estratégias para matar a minha imagem. Se não podem matar a pessoa, matam sua imagem.

A senhora é frequentemente acusada de receber dinheiro de governos contrários a Cuba para manter seu blog. Qual a origem desses rumores? Faz parte da estratégia de difamação: não discutir as ideias, mas a pessoa. Para ter um blog é preciso muito pouco dinheiro. O meu está num software livre, o wordpress, e fica hospedado num servidor da Alemanha que custa 36 euros por ano. Em 2006, um amigo alemão pagou vários anos a esse servidor. Quanto à conexão, aprendi alguns truques. Por exemplo, vou a um hotel e compro um cartão de conexão que custa 6 dólares a hora. Como preparo quatro ou cinco textos em casa, programo para que sejam publicados em dias diferentes. Com esse método, consigo me conectar mais de cinco vezes com um único cartão. No twitter, publico via mensagem de texto.

Que lembranças levará do Brasil? Muita solidariedade, pluralidade e, principalmente, o desejo de voltar. O pão de queijo também me encantou. Vou levar uma mala cheia deles para Cuba.

22/02/2013

às 17:59 \ Direto ao Ponto

O vídeo mostra um trecho da entrevista de Yoani Sánchez ao site de VEJA

A entrevista concedida por Yoani Sánchez ao site de VEJA será publicada neste sábado. No vídeo de 48 segundos, a jornalista cubana responde a uma das perguntas dos entrevistadores Duda Teixeira e Branca Nunes.

09/05/2012

às 21:55 \ Direto ao Ponto

Voltei, amigos

Voltei, amigos. Devo um abraço muito especial a cada um de vocês: de novo, os leitores e o timaço de comentaristas ajudaram o pessoal da coluna a preservar este espaço que é de todos nós. Estou lendo todos os comentários e colocando as informações em dia. Mas, como avisa a enquete que acabou de entrar no ar, a briga já vai retomando o ritmo de sempre. AN

22/08/2011

às 20:46 \ Direto ao Ponto

O que poderia ser feito com o dinheiro enterrado no Itaquerão?

O que o governo estadual e a prefeitura poderiam fazer com o dinheiro enterrado no estádio do Corinthians em Itaquera? Leia a reportagem de Branca Nunes na seção O País quer Saber.

22/08/2011

às 18:23 \ O País quer Saber

Alguém trocaria 16 hospitais por um estádio de futebol?

Terreno onde será construído o Estádio do Corinthians, mais conhecido como Itaquerão, São Paulo (SP) (Fernando Cavalcanti)

Branca Nunes

Poderiam ser 400 unidades de educação infantil, 100 escolas técnicas, mais de 40 quilômetros de corredores de ônibus, 16 hospitais bem equipados, 1.400 pistas profissionais de atletismo, 820 aparelhos de Raio X de última geração, ou 10.500 casas populares. Será um estádio de futebol.

Depois de passarem meses garantindo que não haveria um centavo de dinheiro público em estádios para a Copa do Mundo de 2014, foi essa a decisão do prefeito e do governador de São Paulo. Juntos, resolveram brindar a Odebrecht e o Corinthians com 510 milhões de reais. Como o custo total da obra é estimado em 890 milhões de reais, cada uma das 68 mil cadeiras do Itaquerão (como é conhecido o estádio do Corinthians) custará 13.088,23 reais.

Há 32 anos, Anilton Darci Ribeiro nasceu em Itaquera. A casa onde mora com a mulher e o filho, a dois quilômetros do local do futuro estádio, tem dois quartos, cozinha, sala, banheiro, área de serviço e um riacho de esgoto a céu aberto que corre no quintal. A prefeitura alega que não tem dinheiro para a canalização.

Há 16 anos, Diana do Nascimento chegou do Ceará e instalou-se na Favela da Paz, ocupada por 400 famílias a menos de um quilômetro do estádio. Ali, as casas são de papelão, as instalações elétricas são clandestinas e o crack extermina um adolescente por semana. No projeto do Polo Institucional Itaquera, plano urbanístico que teve suas diretrizes aprovadas em agosto de 2008, está previsto que o Parque Linear Rio Verde será construído dentro do terreno onde hoje está a casa de Diana. Ela nunca ouviu falar disso. Tampouco recebeu a visita de um agente de saúde, de um assistente social, nem de funcionários do governo. O que mais queria era a instalação de um semáforo na Avenida Miguel Inácio Curi para que seus filhos chegassem à escola com segurança. Há um mês, pintaram uma faixa de pedestres que os carros insistem em não respeitar.

Francisco Carlos da Silva treina mais de 50 crianças na pista de 200 metros que pintou na Rua Nicolino Mastrocola, em Itaquera

Há 13 anos, Francisco Carlos da Silva fundou a Associação Esportiva e Cultural Kauê a 2,5 quilômetros do local onde está sendo erguido o Itaquerão. Na pista de corrida de 200 metros que pintou no asfalto da Rua Nicolino Mastrocola, mais de 50 crianças e adolescentes treinam às segundas, quartas e sextas-feiras. As terças e quintas são reservadas à terceira idade, que também tem aulas gratuitas de computação. Entre outros atletas descobertos por Fran – como gosta de ser chamado – está Rafael Soares Santeramo, o Galego, campeão brasileiro juvenil nos 1.500 metros. Galego é hoje atleta do Clube Pinheiros. Fran, sem ganhar 1 real, continua garimpando “talentos da periferia” e sonhando com uma pista de atletismo. “Não precisa ser profissional”, faz questão de avisar desde que a Secretaria Municipal de Esportes resolveu orçar o sonho de Fran em 300.000 reais. Ele tem certeza era possível fazer por menos, mas ninguém da prefeitura voltou para discutir o assunto.

Dos 890 milhões de reais destinados à construção da arena, 400 milhões de reais serão emprestados pelo BNDES, com juros subsidiados. Outros 420 milhões de reais virão da prefeitura e, 70 milhões de reais, serão destinados pelo governo do estado a uma arquibancada móvel de 20 mil lugares, que permitirá ao Itaquerão comportar um público de 68 mil pessoas – como exige a FIFA para estádios que almejam sediar a abertura da Copa. Embora maquiados por nomes como “Certificados de Incentivo ao Desenvolvimento” e “isenção fiscal”, toda essa bolada tem a mesma fonte: o dinheiro público.

AS CONTRAPARTIDAS

Anilton Darci Ribeiro e Adriana de Aro Lima, moradores de Itaquera, ao lado do riacho de esgoto que corre no quintal da casa onde moram

O principal argumento dos 39 vereadores que aprovaram o donativo ao Itaquerão é que “toda a Zona Leste vai ganhar com o estádio”. Os 15 contrários ao Projeto de Lei 288/2011 têm dúvidas a respeito. “Em 2004, aprovamos o Programa de Desenvolvimento Econômico da Zona Leste e ele ainda não saiu do papel”, lembra Cláudio Fonseca, líder do PPS na Câmara Municipal. “Não aceito que o dinheiro público seja investido em um empreendimento exclusivamente privado. Nada garante que esses 420 milhões de reais resultarão em incentivos para aquela região. Com esse dinheiro, seria possível construir, por exemplo, mais de 400 creches que atenderiam cerca de 200 crianças cada uma”.

Em troca de um estádio de quase 1 bilhão de reais, o Corinthians terá que investir 12 milhões de reais em programas sociais na região. De acordo com uma nota da prefeitura, “a Secretaria Municipal de Planejamento ainda está definindo como este investimento será utilizado e quais secretarias ou entidades serão beneficiadas”. O clube poderá concluir um terço dessas ações até seis meses depois da Copa de 2014. As demais, até 2019.

Não há nenhuma grande exigência para a Odebrecht. O único compromisso da empresa é arcar com 1% do valor das obras mitigadoras de impacto no trânsito que será gerado pelo estádio.

OS POSSÍVEIS INVESTIMENTOS

Em compensação, o prefeito e o governador de São Paulo prometeram tornar reais o Programa de Desenvolvimento da Zona Leste, que existe desde 2004, e o Polo Institucional de Itaquera, no papel desde 2008. O primeiro prevê, entre outras obras, novas alças de ligação no cruzamento das avenidas Jacu Pêssego com a Nova Radial; uma nova avenida de ligação Norte-Sul, no trecho entre a Avenida Itaquera e a Nova Radial; uma avenida articulando a ligação Norte-Sul com a Avenida Miguel Inácio Curi; e a adequação viária no cruzamento das avenidas Miguel Inácio Curi e Engenheiro Adervan Machado. Ao todo, governo e prefeitura planejam investir 478,2 milhões de reais no programa, sendo 345,9 milhões do estado e 132,3 milhões do município.

Hoje, a Radial Leste, principal acesso à Itaquera, é a quarta via mais movimentada de São Paulo no período da manhã, e a campeã de lentidão durante a tarde. Pela estação Corinthians-Itaquera do metrô, a quarta mais movimentada da capital, passam 200 mil pessoas por dia. Para a Copa do Mundo, está previsto, de acordo com o governo, “o aumento da capacidade e a modernização da infraestrutura existente” do metrô e dos trens da CPTM que abastecem a região.

O Polo Institucional lista, entre outros projetos, a construção de novas Fatecs, um terminal rodoviário, um parque tecnológico, um centro de convenções e eventos, um novo batalhão da Polícia Militar e uma unidade da entidade filantrópica Obra Social Dom Bosco. Também estão previstas a ampliação do Fórum Judiciário, a instalação de uma unidade do Senai e a criação do Parque Linear Rio Verde, uma gigantesca área de lazer que interligará o Rio Verde ao Parque do Carmo.

Parque do Carmo, Itaquera

Com quase meio milhão de habitantes, Itaquera é um dos poucos bairros paulistanos que ainda contam com dezenas de metros quadrados de áreas verdes desocupadas. “É uma oportunidade única para se pensar um ambiente aprazível não só para os dias de jogos”, observa o arquiteto e urbanista Kazuo Nakano, do Instituto Pólis. “É preciso pensar o estádio inserido dentro do bairro e não como uma coisa isolada. As áreas vazias possibilitam um planejamento do entorno”. Nakano chama a atenção para a importância da instalação de parques, centros culturais, e restaurantes. “Com isso, quem sabe alguém não se interessa em construir ali um centro de convenções”, anima-se. “Normalmente temos o planejamento, sem a previsão concreta de investimentos. Agora, pela primeira vez, temos o dinheiro antes de tudo. Não podemos desperdiçar a oportunidade de um bom planejamento”.

Nos mais de 55 quilômetros quadrados de Itaquera existem hoje 10 Assistências Médicas Ambulatorias (AMAs), um hospital municipal, cinco escolas municipais de ensino fundamental, dois parques, 11 escolas municipais de educação infantil e 23 Unidades de Básicas de Saúde (UBS). Pode não ser pouco, mas está muito longe do ideal. “Itaquera ainda é um bairro dormitório”, diz Francisco Carlos da Silva, nascido e criado na Zona Leste. “Temos carências nas áreas de saúde, educação, transporte. Vivem falando da cracolândia da região central de São Paulo. Temos 20 pequenas cracolândias por aqui”.

NA MIRA DA JUSTIÇA

A forma como foi feita a negociação entre o poder público, a Odebrecht e o Corinthians, gerou duas ações no Ministério Público de São Paulo. A primeira investiga se, ao conceder isenção fiscal de R$ 420 milhões de reais para a construção de um estádio privado, a prefeitura estaria cometendo improbidade administrativa. A segunda está sendo analisada pelo promotor de Habitação e Urbanismo José Carlos de Freitas. Ele quer saber quais os reais impactos sociais que a construção vai causar na região e descobrir por que a Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental (Cetesb) concedeu licença ambiental à obra sem exigir, segundo o promotor, “um profundo estudo de impacto ambiental”.

“É preciso saber qual o impacto social para a população de baixa renda”, argumenta Freitas. “Ninguém disse quantas casas serão desapropriadas, nem para onde essas pessoas serão removidas”.

Quanto à questão ambiental, a prefeitura afirmou, por meio de nota, que a primeira etapa do processo – o Relatório de Impacto de Vizinhança (RIVI) – foi aprovada pelos técnicos responsáveis da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente e da Câmara Técnica do Conselho Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. Até a semana passada, a Cetesb não havia mandado para o Ministério Público a documentação pedida. Freitas avisa que a investigação não tem prazo para terminar.

A POPULAÇÃO

Embora céticos, os moradores de Itaquera – a grande maioria formada por corintianos militantes – tentam acreditar que o poder público não vai desperdiçar mais essa oportunidade de investir numa área da periferia da cidade. O poder público quer manter essa confiança. Segundo o município, entre as benesses imediatamente ligadas à arena estão a criação de 700 empregos – 200 permanentes e 500 nos dias de jogos e eventos –, a valorização do mercado imobiliário, e a geração de receita de 442 milhões de reais até 2014 ligada a eventos esportivos.

Pelo menos a especulação imobiliária já começou. Cláudia Santorsula, corretora da Renascer, uma das imobiliárias mais antigas de Itaquera, conta que os apartamentos da Cohab – localizados bem ao lado de onde será erguido o estádio –, antes vendidos a 95.000 reais, agora estão custando 135.000 reais. Casas em condomínios fechados avaliadas em 150.000 reais subiram para 230.000 reais. “O problema é que a renda da população ainda não acompanhou a valorização”, observa Cláudia. “Por isso as vendas diminuíram bastante nos últimos meses”.

Franklin Rusig, proprietário da imobiliária Rusig, confirma. “Houve um aumento de cerca de 30% no preço dos imóveis da região”, conta. “Mas a procura baixou. Muitos clientes também desistiram de vender seus terrenos, dizendo que preferem esperar a Copa do Mundo para ver se eles valorizarão ainda mais”.

O governo informou que, nos últimos anos, a Secretaria de Educação investiu 7 milhões de reais em programas de reformas e melhorias nas 23 escolas estaduais da região de Itaquera, e 2 milhões de reais – desde 2007 – na Escola Técnica do bairro. Também foram 38 milhões de reais entre verbas de custeio e folha salarial da USP Leste. A soma equivale a 11% do valor que será destinado a um estádio de futebol.

Vista aérea do parque aquático do Sesc Itaquera, na Zona Leste de São Paulo, uma das poucas opções de lazer da região

06/07/2011

às 18:24 \ O País quer Saber

A boa vida nos elefantes brancos do Planalto

Branca Nunes e Bruno Abbud

O ministro Wellington Moreira Franco assumiu oficialmente o cargo de chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos em 4 de janeiro deste ano. Mas os dois primeiros compromissos ocorreram só 24 dias depois: uma visita ao Ipea e um encontro com um deputado do PMDB, partido a que é filiado. Naquele mês, a agenda de Moreira Franco registrou apenas mais uma anotação: “despachos internos”, às 17h do dia 31. Em fevereiro, esteve fora de Brasília duas semanas. Em 1º de março, seguiu para o Rio de Janeiro, onde aproveitou o Carnaval até o dia 10 e para onde voltou horas depois de dois compromissos na capital federal. A rotina de Moreira Franco manteve o ritmo sonolento até 23 de maio, quando subitamente ganhou tal velocidade que, em 40 dias, os registros na agenda superaram a soma dos cinco meses anteriores.

Não foi difícil decifrar o mistério. O ministro pisou no acelerador no dia da  publicação pela Folha de S. Paulo de um artigo do historiador Marco Antonio Villa, que detalhou o cotidiano de Moreira Franco. Mas permanece outro enigma: em seis meses de governo, a presidente Dilma Rousseff não contemplou o ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos com uma audiência individual. Moreira Franco não é o único que nunca entrou sozinho no gabinete presidencial. Entre seus companheiros de ostracismo figura Pedro Novais.

As peripécias do amigo de Sarney
Aos 80 anos, o ministro do Turismo tomou posse em 3 de janeiro, semanas depois de ter festejado a mudança de emprego com uma festança num motel em São Luís. Patrocinada pelo Poder Legislativo, a noitada consumiu R$ 2.156 da verba indenizatória a que tinha direito como deputado federal. Depois de assumir o cargo, o congressista que virou ministro por ser amigo de José Sarney só reapareceu no local de trabalho em 12 de janeiro.

Recordista em audiências com parlamentares – segundo a Folha, foram 132 nos primeiros 165 dias no cargo, muito mais que as 32 somadas pelo antecessor Luiz Barretto no mesmo período de 2009 –, Pedro Novais não é apreciador de materiais impressos. Entre 3 de janeiro e a terceira semana de junho, assinou uma portaria e dois convênios. Um documento a cada dois meses. A portaria regulamentou a classificação dos hotéis brasileiros, baseando-se em padrões reconhecidos internacionalmente. Os convênios favoreceram a governadora Roseana Sarney com R$ 22,6 milhões, oficialmente destinados à infraestrutura turística do Maranhão.

Em 4 de março, uma semana antes da sexta-feira de Carnaval, o ministro concedeu uma entrevista às 17 horas. Foi seu último compromisso. Voltou ao trabalho 10 dias depois. Ele gosta muito de prolongar feriados. Como Ideli Salvatti.

As curiosidades da pesca
Nomeada ministra da Pesca e Aquicultura às 11 horas de 3 de janeiro, Ideli começou a trabalhar às 9h do dia 4. Duas horas depois, recebeu o presidente da estatal baiana Bahia Pesca. A conversa durou quinze minutos. Às 15h, reuniu-se com assessores. O dia terminou com um encontro com o advogado-geral da União, Luis Inácio Adams, às 16h30. Foi uma agenda estafante se comparada ao resto do mês. Em 10 dos 18 dias em que trabalhou em janeiro, marcou o último compromisso para às 15h. No dia 13, encerrou o expediente logo depois de uma reunião com técnicos do ministério, às 9 horas da manhã.

Entre janeiro e junho, passaram-se 125 dias úteis. Ideli e Luiz Sérgio, com quem a ministra trocou de lugar para assumir a Secretaria de Relações Institucionais, só apareceram no trabalho em 100, acumulando quase um mês de folga. A ministra também descansou nos cinco dias de Carnaval – e na quarta-feira de cinzas. Em 19 de abril, uma terça-feira, Ideli terminou o expediente depois das 22h15, quando concedeu uma entrevista a um programa de televisão. Talvez para evitar a exaustão, resolveu descansar no dia seguinte e antecipou o feriado de Páscoa. Voltou em 25 de abril.

Ideli e Luiz Sérgio trocaram de cargo em  10 de junho. Naquele mês, ela acumulou três dias de trabalho no Ministério da Pesca e Aquicultura. Ele, seis. Na semana que precedeu o feriado de Corpus Christi, o último compromisso de Luiz Sérgio ocorreu às 14h30 da terça-feira, quando o novo ministro da Pesca e Aquicultura abrilhantou a abertura da 6ª Olimpíada Brasileira de Matemática. No dia 29, acompanhou Dilma Rousseff numa viagem ao Paraguai. Em vez de aproveitar a chance de conhecer os rios Paraná e Paraguai, participou de uma reunião que debateu a importância da TV digital para os dois países.

A multiplicação dos cargos
Criada por Lula em 1º de janeiro de 2003, a Secretaria de Aquicultura e Pesca transformou-se em Ministério da Pesca e Aquicultura seis anos depois. Hoje, o governo desperdiça R$ 575 mil por mês ─ 6,9 milhões por ano ─ com o aluguel do prédio que abriga o Ministério em Brasília. São 374 funcionários nos 14 andares espelhados perto da Catedral de Brasília. Apesar do gasto, Ideli e outros 67 assessores cumprem expediente longe dali, na Esplanada. Segundo o site Contas Abertas, em fevereiro deste ano o Ministério abrigava 596 funcionários. Há superintendências nos 27 estados brasileiros, além de outros 37 órgãos, incluindo as diretorias.

O Ministério da Pesca sempre teve o menor orçamento da Esplanada. Em 2003, foram R$ 11,6 milhões. No ano eleitoral de 2010, a conta subiu para R$ 803 milhões. Em fevereiro, depois do corte de R$ 50 bilhões anunciado por Dilma Rousseff, a pasta poderá gastar até R$ 215,9 milhões. Por enquanto, gastou um terço do total. Durante os oito anos em que Lula esteve na Presidência, o orçamento do ministério da Pesca aumentou 72 vezes. Segundo o Estadão, no mesmo período, a produção nacional de pescado continuou estacionada em 990 mil toneladas.

O corte orçamentário foi ainda mais doloroso no ministério de Pedro Novais, que, a dois anos da Copa do Mundo e a cinco das Olimpíadas do Rio de Janeiro, teve a verba reduzida de R$ 3,6 bilhões para R$ 573 milhões. Além dos dois andares de um prédio na Esplanada, o Ministério ocupa outros três pisos de um edifício comercial de Brasília, ao preço de R$ 100 mil mensais. Bancados pelos cofres públicos, naturalmente.

Em 2003, quando Lula chegou à Presidência, havia 26 ministérios. Em menos de nove anos, outros 12 foram criados, aumentando em 204 mil o número de funcionários da União e multiplicando o gasto anual com a folha de pagamento do governo federal de R$ 75 bilhões para R$ 179,5 bilhões, em 2010.

Em seis meses, Dilma Rousseff encontrou-se com o artista plástico Romero Britto, com a cantora colombiana Shakira e com Bono Vox, vocalista da banda irlandesa U2. Garibaldi Alves Filho, ministro da Previdência, e Wagner Rossi, da Agricultura, só conseguiram uma audiência com a presidente no começo de abril. Outros não conseguiram nem isso. Se continuar recitando que todos os 38 ministérios – a última invenção foi a Secretaria de Aviação Civil – são essenciais para o bom funcionamento do aparato estatal, Dilma terá de escolher entre duas opções. A primeira é encontrar tempo para saber pelo menos como é a voz de gente como Pedro Novais e Moreira Franco. A segunda é convidar Marco Antonio Villa para o cargo de ombudsman do primeiro escalão. Ele conseguiu fazer Moreira Franco trabalhar. Talvez consiga induzir o resto da turma a justificar ao menos parcialmente o salário mensal de R$ 26.723,13.

11/06/2011

às 15:09 \ Feira Livre

A história do afinador de pianos

Depois de ler a reportagem Um artista da música: o afinador de pianos, de Branca Nunes, a leitora Júnia Ramalho Teixeira decidiu compartilhar a história de seu pai, Erasto Teixeira, 77 anos, afinador de pianos há 60. Em 7 de junho, Júnia enviou à coluna este vídeo. Vale a pena ver e ouvir os detalhes da trajetória deste artista da música.

19/02/2011

às 11:36 \ Feira Livre

A tragédia longe dos holofotes

Onde antes existiam casas, pedregulhos hoje dominam a paisagem do bairro de Campo Grande, em Teresópolis (Foto: Branca Nunes)

Branca Nunes

Um mês depois da tragédia que devastou a região serrana do Rio de Janeiro, as feridas continuam abertas – e demorarão muito tempo para desaparecer. Amainado o fervor dos voluntários, interrompido o fluxo das doações às toneladas, as vítimas dos deslizamentos dependem quase que integralmente dos próprios recursos ou da ajuda dos vizinhos. Nada foi resolvido. A segunda etapa do trabalho, tão penosa e problemática quanto a primeira, começa agora, justamente no momento em que os horrores da catástrofe já não estão no centro das atenções do país.

Na teoria, boa parte do dinheiro dos governos federal, estadual e municipais já foi liberada. Na prática, nenhum centavo chegou ao bolso de um morador da região. Na teoria, todos estão bem alimentados com cestas básicas. Na prática, muitos não têm água para cozinhar o que ganharam. Na teoria, o cadastramento para o aluguel social está quase totalmente concluído. Na prática, não há casas para todos. Na teoria, um terreno foi desapropriado para a construção de 2.500 moradias. Na prática, um empreendimento dessa magnitude demorará no mínimo um ano para ser erguido. Na teoria, os mortos estão quase todos sepultados. Na prática, corpos são retirados diariamente do meio da lama e enviados a IMLs improvisados para serem submetidos a testes de DNA – única forma de identificá-los 30 dias depois da tragédia.

Só no domingo, 6 de fevereiro, 14 foram enterrados no cemitério de Teresópolis. Mais quatro nesta quarta-feira. Sepulturas abertas antecipadamente aguardam novos corpos e, como não há espaço para tantos jazigos perpétuos, quase duas centenas jazem em covas rasas identificadas com uma cruz e um número.

Covas continuam a ser abertas no cemitério de Teresópolis para receber as vítimas da chuva (Foto: Branca Nunes)

Embora as máquinas funcionem ininterruptamente – inclusive nos fins de semana – para remover lama e entulho, nos bairros da periferia, por causa da quantidade de barro, o chão ainda está dois metros acima do normal. O cheiro de podre é insuportável e as rochas que deslizaram morro abaixo deixaram para trás uma paisagem lunar, com pedregulhos e crateras no lugar das casas.

No centro de Teresópolis e Nova Friburgo, as marcas do horror estão nas nuvens de poeira levantadas pelo atrito dos pneus dos carros com a terra entranhada no asfalto e nas línguas avermelhadas desenhadas no meio do verde dos morros por causa dos desmoronamentos.

Os desabrigados e desalojados se espalham por casas de parentes ou abrigos. Só em Teresópolis são 9.110 desalojados e 6.727 desabrigados. Alguns teimam em permanecer em locais que ameaçam desabar a qualquer segundo.

Nesta quinta-feira, a contagem assinalava 892 mortos – 423 em Nova Friburgo, 372 em Teresópolis, 71 em Petrópolis, 21 em Sumidouro, quatro em São José do Vale do Rio Preto e um em Bom Jardim. Oficialemente há 279 desaparecidos, mas esse número provavelmente está abaixo da realidade. Como algumas famílias desapareceram completamente, não há ninguém para reclamar os corpos.

Na igreja de Nova Friburgo, as marcas da madrugada de 12 de janeiro (Foto: Branca Nunes)

Todos sabem onde e com quem estavam naquela noite. Todos têm uma história para contar. Todas são tristes. Todos perderam alguém. Alguns perderam todos. “A primeira etapa foi a da coleta e distribuição de água e alimentos”, diz Herculano Abrahão, presidente da Cruz Vermelha em Teresópolis. “Agora chegou o momento de garantir a saúde física e mental às pessoas”. Mais do que doenças como a leptospirose, o lado psicológico é o que mais preocupa Abrahão. “Já tivemos quatro suicídios desde a tragédia e eu não tenho dúvidas de que haverá mais.”

Os danos psicológicos são brutais. Abrahão e outros voluntários da Cruz Vermelha jamais escutaram tantas crianças falando em se matar. Os adultos sofrem de insônia e depressão. Precisam, antes de mais nada, de psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais.

É óbvio que as carências materiais também são imensas. Não de comida e de roupas – isso há até em excesso. Remessas de gás de cozinha, no entanto, ainda são muito bem-vindas. Também faltam móveis e eletrodomésticos para equipar as casas que serão alugadas quando chegar o dinheiro do aluguel social.

E faltam sobretudo empregos. Os três alicerces da economia da região serrana – agricultura, pequenas confecções e turismo –foram levados com a enxurrada. As lavouras estão destruídas, as fábricas fechadas e os turistas fugiram com medo de uma improvável reprise da tragédia. Enquanto os alicerces não forem reerguidos, não haverá empregos. Enquanto não houver empregos, não haverá esperança.

Com pouco mais de 150 mil habitantes, a economia de Teresópolis entre 2002 e 2007 representou 17,2% do Produto Interno Bruto (PIB) de toda a Região Serrana. No mesmo período, enquanto o PIB per capita dos municípios da região cresceu em média 53,12%, o de Teresópolis teve um aumento de 48,19%. Embora inferior à média, o índice é considerado bastante expressivo. No fim de janeiro, Jorge Mário, prefeito de Teresópolis, fez uma previsão pouco animadora. Ele acredita que a cidade levará dois anos para se reconstruir e se recuperar economicamente.

Leia também: A vida depois da tragédia

Leia também: Heróis submersos no anonimato

09/02/2011

às 17:46 \ Direto ao Ponto

A lista dos que votaram contra Sarney comprova a rendição desonrosa da oposição

Depois de quatro dias de investigações, os repórteres do site de VEJA Bruno Abbud e Branca Nunes identificaram oito dos 11 senadores que rejeitaram a permanência de José Sarney no comando da instituição que ajudou a reduzir a uma Casa do Espanto. Estranhamente, preferem permanecer no anonimato três integrantes do time que evitou que a capitulação desonrosa fosse sublinhada pela unanimidade. Essa é só mais uma entre tantas revelações contidas na reportagem publicada na seção O País quer Saber.

Ali se contempla uma desoladora radiografia do Senado. Em meio a incontáveis evidências da necrose moral que devasta o Legislativo, aparecem sinais perturbadores do corporativismo, da tibieza e da mediocridade que infestam a oposição oficial. Dos 18 componentes da bancada formada por quatro partidos, por exemplo, só dois senadores do PSOL e dois tucanos aparecem no grupo dos 11. A maioria optou por submeter-se a Sarney em nome da tradição parlamentar.

Manda a tradição parlamentar que a maior bancada partidária indique o candidato à presidência da Mesa, que negociará com aliados e oposicionistas uma composição suficientemente abrangente para obter sem sobressaltos o endosso do plenário. Mas a tradição também manda que a escolha se subordine a normas éticas e se oriente por critérios sensatos. Como ninguém é obrigado a votar em qualquer um, indicações equivocadas acabam inevitavelmente em mais um naufrágio.

José Sarney tinha tudo para acabar engrossando o vasto acervo de decisões desastrosas que se amontoam nas catacumbas do Senado. Mas o PSDB, o DEM e o PPS resolveram engolir sem engasgos o prontuário intragável. Em troca do apoio a um símbolo do Brasil das cavernas, a oposição recebeu a 1ª Secretaria e uma suplência. Nunca se ofereceu tão pouco por uma rendição tão vergonhosa.

Entre a tradição parlamentar e os valores morais, entre o clube dos cafajestes e o país que presta,  fizeram a opção ultrajante. Ainda não entenderam que estão sob  estreita vigilância. Os oposicionistas precisam parar imediatamente de opor-se uns aos outros e começar a fazer oposição ao governo. Ou aprendem a traduzir o que pensam mais de 40 milhões de inconformados ou acabarão aglomerados num asterisco do capítulo brasileiro da história universal da infâmia.

 

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