Coluna do

Augusto Nunes

Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido.
E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido.

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SEÇÃO » Homem sem Visão

Dilma manda passar o terninho. Amorim e Tarso disputam voto a voto a medalha de prata

21 de dezembro de 2009

A poucas horas da festa de premiação do maior evento cívico d3 2009, a Comissão Organizadora do Homem sem Visão do Ano compilou algumas singularidades da disputa que já tem campeã ─ Dilma Rousseff, a Pacheco de Terninho ─ mas ainda não definiu o nome do vice. No momento, com a votação avançando para a histórica marca dos 4.000 votos, Tarso Genro luta para eliminar a reduzida diferença que o separa de Celso Amorim e conquistar a medalha de prata. Para diminuir a tensão dos leitores-eleitores e dos concorrentes, a coluna divulga a lista montada pela Comissão Organizadora.

O berço dos HSVs - Dos seis Estados representados na eleição, três emplacaram trincas de campeões: Rio Grande do Sul (Marco Aurélio Garcia, Tarso Genro e João Pedro Stedile), Minas Gerais (Dilma Rousseff, Edmar Moreira e Joaquim Barbosa) e São Paulo (Celso Amorim, Aloísio Mercadante e José Antonio Toffoli). Os candidatos restantes são filhos de Sergipe (Ayres Britto), de Pernambuco ( Dom José Cardoso Sobrinho) e do Maranhão (José Sarney).

Berço de feras - Dos três paulistas, dois brincaram na mesma rua, frequentaram a mesma praia, tomaram sorvete na mesma sorveteria e faltaram às aulas nas mesma escolas. Ambos nascidos em Santos, Celso Amorim e Aloízio Mercadante não foram amigos de infância pela diferença de idade, mas os caprichos do destino acabaram por reuni-los no mesmo governo, no mesmo partido e na mesma finalíssima. Bonito, isso.
Não para a terra natal, acha a Câmara de Vereadores de Santos: num manifesto aprovado por unanimidade, o legislativo municipal comunicou nesta tarde que a boa gente da aprazível cidade litorânea não tem nada a ver com isso.

O decano e o caçula - Com 79 anos, Sarney é o mais idoso dos concorrentes. O mais novo é Toffol, com 42. Dono da maior votação individual do ano (973 votos em junho), Madre Superiora é um dos três representantes do Poder Legislativo.

Grupo de elite - Computados mais de 3.600 votos, os três primeiros colocados, todos produzidos pela montadora do Executivo, somavam 60% do total.  O índice sobe para 90% se forem incluídos os três seguintes.

Mulher é o Homem - Única mulher a conquistar uma vaga na finalíssima, Dilma Rousseff estreou nas urnas com o pé direito: a caminho dos 1.000 votos, já garantiu o troféu de 2009.  Ao ganhar a disputa de agosto, a filhote do Lula exigiu que o título não fosse adaptado às circunstâncias. ”Não quero ser a Mulher sem Visão do Ano”, explicou. ”Quero ser o Homem sem Visão do Ano, porque isso vai mostrar que uma mulher pode ser presidenta das brasileiras e também dos brasileiros”. Um assessor confidenciou que a versão feminina de Pacheco já mandou passar o terninho de gala que usará na cerimônia de premiação.

A luta está chegando ao fim, mas continua! A enquete só tem fera! Que os três piores subam ao pódio! E que vença o pior!

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Começou a sensacional eleição que todo candidato quer perder

15 de dezembro de 2009

Qual é o pior entre os piores? Desafiados pela pergunta aflitiva, milhares de leitores-eleitores terão de escolher, a partir deste dia 15, o supercraque do time formado por 12 campeões da lambança, a estrela principal da constelação de espantos, o melhor da classe que reúne os gênios da sub-raça ─ o  Homem sem Visão do Ano.  É uma missão cívica e tanto.

As vagas do primeiro trimestre já tinham donos quando a coluna nasceu, em 22 de abril. Os vencedores de abril e maio foram escolhidos pelo colégio eleitoral composto pelos comentaristas. A partir de junho, o ganhador do troféu mensal foi apontado na enquete disputada pelos quatro mais votados no colégio eleitoral.

É um desafio histórico apontar apenas um entre tantos candidatos de quinta. A sorte é que o eleitorado é de primeira, como mostra a relação dos finalistas, apresentada a seguir em ordem alfabética:

Aloízio Mercadante (julho)

Paulista de Santos, 55 anos, o Herói da Rendição ficou mais de um mês sem enxergar direito as ordens de Lula. Exigiu, sempre na hora errada, que Sarney deixasse a presidência do Senado, ficasse no cargo ou pensasse melhor. Demitiu-se em caráter irrevogável pelo twitter. Revogou o irrevogável na tribuna.

Carlos Ayres Britto (novembro)

Sergipano de Propriá, 67 anos, o ministro do Supremo viu em Cesare Battisti um terrorista, mas também enxergou no chefe do Poder Executivo o chefe do Poder Judiciário. Acabou  concedendo ao presidente Lula o direito de cumprir ou rejeitar uma decisão do STF.

Celso Amorim (maio)

Paulista de Santos, 67 anos, o Pintassilgo do Planalto viu uma democracia no Irã, uma ditadura em Honduras, muita liberdade em Cuba, pouca nos Estados Unidos. O cartão de visitas diz que é chanceler do Brasil. Quem vê Amorim enxerga um chanceler de bolso da Frente Bolivariana.

Dilma Rousseff (agosto)

Mineira de Belo Horizonte, 62 anos, a Mãe do PAC e Tia do Pré-Sal passou o ano concentrada no Discurso sobre o Nada. Viu o que não existe, como o trem-bala e a chance de ser “presidenta”. Não enxerga direito onde fica o sujeito ou o predicado. Não viu sequer Lina Vieira dizendo “boa-noite” ao entrar na sala.

Edmar Moreira (fevereiro)

Mineiro de São João Nepomuceno, 70 anos, o Barão da Roça não enxergou, na hora de declarar seu patrimônio à Receita Federal, o castelo que construiu no interiorzão porque teve uma visão que mostrava milhares de fregueses chegando para a jogatina que o amigo Fernando Collor prometeu liberar quando fosse presidente.

João Pedro Stédile (janeiro)

Gaúcho de Lagoa Vermelha, 55 anos, o Solano Lopez de Hospício viu quartéis onde há barracas de lona preta e, no começo do ano, colocou-se à disposição do  bispo reprodutor Fernando Lugo para combater o Brasil, à frente das tropas do MST, no segundo tempo da Guerra do Paraguai.

Joaquim Barbosa (abril)

Mineiro de Paracatu, 55 anos, o ministro brigão foi eleito graças ao bate-boca com o presidente Gilmar Mendes em que viu togas caminhando pelas ruas e jagunços em fazendas de Goiás. Não enxergou nenhuma razão para processar o ilustre acusado.

José Antônio Dias Toffoli

Paulista de Marília, 42 anos, o Doutor em Nada não viu nada demais em assumir a vaga no Supremo que ganhou do chefe com duas reprovações em concursos para a magistratura no currículo, sem livros publicados, sem experiência jurídica e sem saber português.

José Cardoso Sobrinho, Dom (março)

Pernambucano de Caruaru, 76 anos, o arcebispo de Olinda e Recife enxergou pelo avesso no caso da menina que engravidou ao ser estuprada. Viu um inocente no responsável pelo crime e viu pecadores a excomungar na equipe médica que fez o aborto e na família da vítima.

10- José Sarney (junho)

Maranhense de Pinheiro, 79 anos, Madre Superiora é o campeão de votos do HSV. Elegeu-se por não conseguir enxergar a montanha de atos secretos nem a multidão, aglomerada no cabideiro de empregos do Senado, formada por parentes, amigos, vizinhos e protegidos em geral.

Marco Aurélio Garcia (dezembro)

Gaúcho de Porto Alegre, 68 anos, provou que uma boca à espera de um dentista não enxerga além de um milímetro de distância. Contemplou com toptoptops quem estava certo e sorriu com todos os 12 dentes para companheiros bolivarianos, psicopatas amigos e vigaristas internacionais.

Tarso Genro (setembro)

Gaúcho de São Borja, 62 anos, o Príncipe da Poesia Onanista viu um perseguido político onde existe o terrorista Cesare Battisti e enxergou uma ditadura na democracia italiana. Fantasiado de ministro da Justiça, discursou até em festa de batizado para absolver todos os culpados companheiros.

São esses os craques em campo! Escolha o vencedor da eleição que todos os candidatos querem perder! Depende do gosto do freguês! Não deixe de votar sem remorso em quem ninguém merece! E que vença o pior entre os piores!

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Ayres Britto leva o troféu de novembro e empata a disputa entre os grandes construtores

30 de novembro de 2009

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“Dedico o troféu a todos os companheiros do Supremo Tribunal Federal e ao Primeiro Magistrado Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República e presidente em exercício do Judiciário”, emocionou-se o ministro Ayres Britto ao saber que acabara de ser eleito Homem sem Visão de Novembro.  Um assessor do vitorioso confidenciou que, logo depois da boa largada na enquete, o candidato consultou o chefe para perguntar se estava autorizado a elogiá-lo.

O Juiz do Lula foi eleito com 564 votos (35% do total de 1589). Edison Lobão conquistou a medalha de prata (408 votos, 26%). Marco Aurélio Mello (348, 22%) completou o pódio. Em quarto lugar, morreu de novo na praia Ideli Salvatti  (189, 12%). Atrás até da Musa do HSV, segurou a lanterninha o sempre decepcionante Ricardo Berzoini (80, 5%).

O resultado de novembro provocou um sensacional empate  no campeonato de marcas, disputado pelos principais construtores de HSVs. Ao lado de José Antônio Toffoli e Joaquim Barbosa, Ayres Britto compõe a trinca de togas com vaga assegurada na disputa do Homem sem Visão do Ano. Como o Executivo (Celso Amorim, Dilma Rousseff e Tarso Genro) e o Legislativo (Edmar Moreira, José Sarney e Aloyzio Mercadante), o Poder Judiciário terá pelo menos três representantes na finalíssima. O time de 11 eleitos é completado por representantes de pequenos construtores: João Pedro Stedile (Movimentos Fora-da-Lei) e dom José Barbosa Sobrinho (Igreja Católica).

Ayres Britto começou ainda na festa da vitória a campanha para conquistar o título de HSV do Ano. Reunido num canto da sala com o comitê eleitoral, marcou para amanhã o lançamento da ideia que não precisou usar como trunfo na batalha de novembro: como a Constituição de 1824 deixava por conta do imperador o julgamento das lambanças no parlamento, ele quer transferir para Lula a última palavra sobre bandidagens de senadores e deputados. “O primeiro caso pode ser até o do José Roberto Arruda”, confidenciou um assessor.

Edison Lobão e Marco Aurélio resolveram manifestar-se sobre o resultado da eleição durante a cerimônia de entrega das medalhas de prata e bronze, programada para quarta-feira.

Parabéns, senhores candidatos e senhora candidata! Parabéns, leitores-eleitores e leitoras-eleitoras! Mais uma vez, como sempre, venceu o pior!

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Juiz do Lula quer que o chefe julgue parlamentares e Magro Velho planeja outro apagão

26 de novembro de 2009

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O ministro Ayres Britto, que disputa o título de HSV de Novembro com o codinome eleitoral Juiz do Lula, reuniu o comitê de campanha nesta manhã, para uma análise conjunta do primeiro dia de votação na enquete. Embora entusiasmado com a boa largada, o líder do segundo turno advertiu a equipe para os riscos do otimismo excessivo. “O chefe lembrou que quem está em segundo lugar é o Magro Velho, que aprendeu tudo com a Madre Superiora”.

O Juiz do Lula segredou a um amigo que, se alguma jogada de Edison Lobão reduzir a diferença entre os dois, vai tirar da toga uma carta poderosa. “Ele e o Eros Grau escreveram 324 páginas cheias de coisas em latim explicando que, como a Constituição de 1824 deixava por conta do imperador o julgamento das lambanças no parlamento, o certo é deixar que o Lula julgue os senadores e deputados”.

Depois de uma conversa a dois com Madre Superiora, Magro Velho recorreu a um jogo de palavras irônico para comentar o quadro eleitoral desenhado pela enquete: “Se a coisa ficar preta, liquido a diferença com um apagão de meia hora”. Marco Aurélio Mello não concedeu entrevistas. “Ele está preparando cinco pedidos de vista”, informou o mordomo. Ideli Salvatti e Ricardo Berzoini nem foram procurados pela coluna.

Nada está definido! a luta continua! Que vença o pior!

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Magro Velho vence 1º turno e disputa o troféu com Ideli, Marco Aurélio, Berzoini e Ayres Britto

25 de novembro de 2009

“Dedico minha vitória a José Sarney, meu mestre, minha eterna Madre Superiora”,  emocionou-se Edison Lobão ao ser informado do resultado do 1º turno da eleição do Homem Sem Visão de Novembro. “Foi ele quem sugeriu que eu colocasse a culpa do apagão em Deus e declarasse o assunto encerrado antes mesmo do começo da investigação”.  Com o apoio de 42 dos 132 comentaristas que formam o colégio eleitoral, Magro Velho liderou a turma de finalistas, composta pela primeira vez por cinco candidatos: Marco Aurélio Mello (25 votos), Ideli Salvatti (24), Ricardo Berzoini e Ayres Britto, ambos com 9 votos.

A fila segue com a governadora Ana Julia Carepa (3), empatada com Fernando Haddad, e Eduardo Suplicy (2), com a mesma quantidade de votos conferidos a Hélio Costa, inventor do “Bolsa Celular”. Todos com um voto, foram lembrados Heitor Pinto, reitor da Uniban, Guilherme Cassel, Guido Mantega, José Genoino, Franklin Martins, Roberto Requião, Eros Grau, Arthur Virgílio, Eduardo Kassab, Carlos Minc, o Supremo Tribunal Federal, a Família Luiz Carlos Barreto e o Povo Brasileiro.

Com mais de dois terços dos votos conquistados na última semana, Marco Aurélio Mello contou a amigos que está estudando, junto com Tarso Genro, a possibilidade de conceder exílio político a terroristas afegãos recomendados por Cesare Battisti. Pela terceira vez na final, Ideli berrou no ouvido de uma assessora que desta vez não vai morrer na praia.  “A Dilma representa bem a alma feminina, mas só uma mulher Homem sem Visão é pouco”. Empatados em quarto lugar, Ricardo Berzoini e Ayres Britto apostam numa reviravolta. “O ministro está pensando em transferir para Lula a decisão final sobre a turma do mensalão”, revelou um assessor do STF.

A votação na enquete começou neste momento! A disputa promete fortíssimas emoções! Nada está decidido! Que vença o pior!

SEÇÃO » Sanatório Geral

Ameaça confirmada

24 de novembro de 2009

“Trata-se, na verdade, de um episódio marcante na história do direito e da democracia no país e o ministro Ayres Brito, mais aqueles que já tinham votado com a sua posição, passarão à história como exemplo de sensatez e respeitabilidade cívica”.

Tarso Genro, em entrevista ao site “Carta Maior”, confirmando a ameaça de candidatar-se ao  Supremo Tribunal Federal na primeira vaga que aparecer depois da derrota na eleição gaúcha.

SEÇÃO » Sanatório Geral

Esclarecimento à nação

21 de novembro de 2009

“Não inovei em nada. Há dois meses, quando da extradição de um israelense, o tema foi debatido, ainda que com mais rapidez. Eu disse isso com todas as letras: quem tem competência para entregar o extraditando ou o extraditável é unicamente o presidente da República. Só fiz confirmar isso anteontem. Não foi invencionice, não foi improvisação”.

Ayres Britto, deixando claro que a ideia de subordinar o Supremo Tribunal Federal ao presidente da República, considerada por muita gente invencionice ou improvisação, foi apenas uma imbecilidade.

SEÇÃO » Sanatório Geral

Supremo e supremos

20 de novembro de 2009

“Cada coisa em seu lugar. O Supremo decide sobre a extraditabilidade, a parte jurídica, encerra aí. Em sequência vem a parte política, que é de responsabilidade do presidente da República”.

Ayres Britto, explicando que o Supremo Tribunal Federal que ele e mais quatro ministros fundaram é supremo só na parte jurídica, porque na parte política o supremo é o Lula, na parte econômica o supremo é o Mantega, na parte parlamentar o supremo é o Sarney, na parte penitenciária o supremo é o Marcola e assim por diante.

SEÇÃO » Direto ao Ponto

Cinco ministros subordinam o STF ao Grande Juiz do Planalto

19 de novembro de 2009

“Decisão do Supremo não se discute, cumpre-se”, vivia repetindo Ulysses Guimarães. Uma boa frase e um evidente exagero. Como tudo o mais, em países democráticos também decisões do Supremo Tribunal Federal estão sujeitas a discussões, debates e, se for o caso, críticas veementes. Quanto ao que vinha depois da vírgula, nenhum reparo a fazer: o que foi resolvido pelo STF é coisa para se cumprir. Supremo, segundo o dicionário, é “o que está acima de tudo”.

Não necessariamente, relativizou a espantosa decisão de entregar ao presidente da República o julgamento em última instância do caso Cesare Battisti. Na primeira parte da sessão desta quarta-feira, por 5 votos a 4, o tribunal resolveu que os crimes cometidos por Battisti não têm caráter político e aprovou o pedido de extradição formulado pela Itália. Na segunda parte, pela mesma contagem, ressalvou que, por se tratar de ”um caso de política internacional”, o que parecera uma sentença era uma autorização para que o delinquente italiano seja extraditado. A palavra final é de Lula.

Pela primeira vez na história, a Corte que, por ser suprema, deveria estar acima de tudo, colocou-se voluntariamente abaixo do chefe do Executivo. Se quiser extraditar o homicida condenado à prisão perpétua pela Justiça italiana, Lula terá a bênção do STF. Também a terá se resolver que o terrorista de estimação do ministro Tarso Genro deve ficar por aqui. Mas não pode incluir Battisti na categoria dos refugiados políticos, porque a primeira etapa da sessão inverossímil anulou a promoção decretada por Tarso Genro. É o Brasil.

Incorporados desde o começo à trama costurada para livrar Battisti do cumprimento da pena, os ministros Marco Aurélio Mello, Carmen Lúcia, Eros Grau e Joaquim Barbosa ao menos agrediram a lógica com coerência. Derrotados na tentativa de rejeitar a extradição, os quatro se juntaram para os trabalhos de parto da criatura assombrosa: o Grande Juiz do Planalto. Mais desconcertante foi o monumento à contradição erigido pelo comportamento pendular de Ayres Britto.

Em 9 de setembro, o ministro afirmou que Battisti deveria ser extraditado por não ter sido movido por motivos políticos. Menos de três meses mais tarde, invocando motivos políticos, defendeu enfaticamente a ideia de transferir para Lula a palavra final. Entre uma sessão e outra, não foram acrescentados ao processo quaisquer indícios, evidências ou provas. A única novidade foi a incorporação à tropa dos advogados de defesa do jurista Celso Antônio Bandeira de Mello, que sugeriu a nomeação de Ayres Britto para a vaga no Supremo.

“O presidente é chefe de Estado e titular da política internacional”, tentou explicar-se o ministro. Se é assim, por que o STF andou desperdiçando tempo, dinheiro e a paciência dos brasileiros que pensam e pagam a conta? ”O tribunal entra no circuito para garantir os direitos humanos”, complicou Ayres Britto. Difusas razões humanitárias provavelmente serão evocadas por Lula para driblar o tratado de extradição assinado pelos dois países.

“Não faz sentido entregar um perseguido ao carrasco”, declamou Tarso Genro. Foi exatamente o que fez o ministro da Justiça ao deportar para Cuba os pugilistas Erislandy Lara e Guillermo Rigondeaux, capturados no Rio quando tentavam a fuga para a Alemanha. A misericórdia de Tarso é seletiva. Como é amigo de Battisti, estende-lhe a mão solidária que negou aos dois cubanos por ser amigo de Fidel Castro. Em ambos os casos, Lula avalizou as decisões do companheiro gaúcho.

O tratamento dispensado aos dois episódios informa que a subordinação do STF ao Executivo abre um precedente perturbador. Imagine-se, por exemplo, que os ministros tenham de julgar um caso semelhante ao dos cubanos, e decidam que um estrangeiro perseguido no país de origem merece viver em segurança no Brasil. Se quiser, Lula poderá deportá-lo. Nesta quarta-feira, o Supremo autorizou o presidente da República a fazer a opção pela infâmia sem nenhum risco de ser corrigido. É ele quem decide em última instância.