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assassinato

03/02/2012

às 14:46 \ Feira Livre

O assassinato foi planejado para acobertar outros crimes

Reynaldo Rocha

O assassinato de Celso Daniel é certamente o assunto mais sério de todo o histórico que o PT deixa como herança ao Brasil. Trata-se de homicídio. O segundo. O prefeito de Campinas, Toninho do PT, já havia sido assassinado em circunstâncias jamais inteiramente explicadas. Haveria alguma ligação?

Fico tentado a comentar a baixeza moral de amigos e da ex-companheira do ex-prefeito de Santo André. A alegria incontida de ambos ao montar a farsa que tentava inocentar, a priori, os possíveis envolvidos.

Deixo este julgamento moral para cada um. As palavras com que se referem ao morto são tão intensas que não precisam de adendos para ter-se a certeza do tipo de amigos e esposa que Celso Daniel teve que suportar. Para que este julgamento moral seja feito, é essencial que se conheça os detalhes aqui expostos. E as gravações aí estão. Os petistas e asseclas, tão presentes na defesa do indefensável, desta vez têm em mãos o que sempre cobram: gravações. Inverteu-se a lógica da investigação no Brasil. É necessário gravar os envolvidos.

Parece que somente esta prova – desprezando documentos, evidências, etc. – tem validade. Neste caso, temos as gravações. Insisto: cada um faz o julgamento moral destas tristes figuras usando a própria régua e compasso que tem na vida. O que importa é o julgamento efetivo – jurídico – de indiciados, mandantes e daqueles que, sabendo dos fatos, se calaram. Todos os procedimentos são tipos penais existentes no Código Penal. O crime de homicídio na lei brasileira é de ação pública. Cabe ao Ministério Público buscar a justiça e propor ações contra suspeitos ou envolvidos. Foge do desejo até de vítimas. É a sociedade que exige – acima de partidos, ex-esposas e amigos – a apuração dos fatos. Este procedimento é a garantia de punibilidade nascida do estado de direito. Inegociável.

As gravações são elucidativas. Não se esperava que o famigerado marginal Sombra confessasse o achaque a empresários de Santo André, o esquema de envio de dinheiro, o roubo de parte deste dinheiro (ladrão que rouba ladrão…) e o homicídio. Mas causa surpresa a desenvoltura om que os personagens tratam do assunto e do tema central das conversas. Não se ouve uma palavra de revolta pela execução de Celso Daniel. Nenhuma palavra de consolo a uma viúva traumatizada pelo assassinato do ex-marido. Sem ironias. Nenhuma expressão de consternação. Absolutamente nada.

Já vimos manifestações de pesar até pela morte de marginais. De revolta, quando inocentes são assassinados. Neste caso, a vítima é somente “o cara”. Isso não é indício suficiente para que suspeitemos do envolvimento dos parceiros?

Para além do comportamento dos que foram gravados – que pode ser debitado, em uma defesa em tribunal, à falta de caráter e canalhice e, portanto, não provariam o envolvimento no crime, mas um óbvio desvio ético – o conteúdo das conversas não deixa margem para qualquer dúvida. Estavam articulando uma defesa que recaísse sobre o principal suspeito, o criminoso Sombra.

Para que defesa? Por que defesa? O objetivo mais correto não seria a descoberta dos culpados (e não ocultação de suspeitos) e a punição dos assassinos? Há detalhes em um crime mal planejado – este é um deles – que são contundentes.

O carro blindado de Sombra apresentou um defeito que o impediu de continuar circulando mesmo em fuga? A perícia diz que não. Qual defeito fez com que as portas do Mitsubishi fossem destravadas? De novo, a perícia não descobriu qualquer defeito. Entre o motorista e o acompanhante, qual a razão da escolha do carona? Por que o motorista foi deixado no local, ileso, com possibilidades de acionar a polícia de modo imediato? Qual foi o valor pedido de resgate? Zero. Nunca foi feito algum pedido. Por que a preocupação com as calças do “cara”? Por que ao passar pelo apartamento, o “cara” trocou de calças? No mesmo apartamento onde estavam documentos que desapareceram?

Qual solidariedade foi prestada aos irmãos da vítima por parte dos articuladores da armação? O que vem a ser “destilar ressentimentos”? Quais? E o que leva irmãos a apontar suspeitos e expor situações que presenciaram e que podem ter ligações com o assassinato?

Seria desejo de justiça – comum aos seres humanos normais – ou desejo de vingança? Contra o que ou contra quem? São ambos desequilibrados que não merecem credibilidade? São menos credíveis que o Sombra, por exemplo?

A conclusão óbvia é: mesmo com estas evidências, Gilberto Carvalho et caterva nunca se interessaram pela elucidação do crime. Antes, com a ocultação de provas, com “armações” (como dito nas gravações), com entrevistas (com o amigo de todas as horas – Sombra- e a pobre e inconsolável ex-esposa), com a contratação de um criminalista e com a necessidade de “acalmar” o principal suspeito.

Não são ilações. São fatos. Gravados.

Pela lógica forense, na área criminal, a primeira pergunta que se deve fazer é: a quem interessa o crime? Pelas gravações, temos a certeza de interesses na defesa do principal suspeito e na ocultação de provas, como o caso das calças do “cara”. Esta ação de acobertamento atendia a outros interesses?

Por muito menos evidências, até coronéis da PM já foram presos. Alguém duvida que, se essas gravações dissessem respeito a qualquer um dos comentaristas deste espaço, a prisão já teria sido decretada?

Qual é a acusação que o PT e milicianos farão a quem não se conforma com esta omissão criminosa? Buscarão exemplos de “queimas de arquivo” no passado, para brandir o argumento de “somos todos iguais”? Ou que é uma armação da Polícia Federal? Ou, ainda, que Celso Daniel encomendou a própria morte para incriminar adversários?

Não se trata de minorar crimes anteriores e diários – roubos, corrupção, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, peculato, fraude fiscal, etc – cometidos pelo mesmo grupo que tomou de assalto o poder no Brasil. São passíveis de punição, garantido o direito amplo de defesa e o justo processo legal. E exigimos apuração.

Porém, neste caso escabroso, estamos falando de homicídio. Do crime que mais afronta a sociedade e o cidadão. De queima de arquivo. De um crime cometido para acobertar outros, o que é uma agravante no Código Penal Brasileiro. Que os personagens dessas gravações tenham o direito à defesa plena e justa para se livrarem das suspeitas ou até – quem sabe? – de condenações. Para tanto, contudo, há que se ter um processo legal instaurado.

Assim como é direito dos suspeitos terem plena defesa, é direito de todo o país exigir esclarecimentos, julgamento e punições. No devido espaço para isso, que é o Poder Judiciário. É o que todos queremos e esperamos.

Não se pode é tapar os olhos, fechar os ouvidos e aceitar que tudo está esclarecido. Não, não está.

Sei que são expectativas com pouca – ou nenhuma – chance de realização. Afinal, nem mesmo esclarecimentos o principal articulador da “armação” se dispôs a fornecer (não sou eu que digo, é o que se ouve nas gravações). O que já é mais um indício. Quem cala não tem o que dizer em sua própria defesa.

23/01/2012

às 13:01 \ Feira Livre

Sombras do passado

PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA SEXTA-FEIRA

Nelson Motta

Por mais que os ficcionistas quebrem a cabeça para inventar crimes, mistérios e conspirações complexos, surpreendentes e emocionantes, os livros, filmes e seriados acabam sempre superados pela vida real. O assassinato do prefeito Celso Daniel completa dez anos sem culpados nem condenados, e, pior, desde o início das investigações sete testemunhas e investigados já foram assassinados ou morreram em circunstâncias misteriosas. O principal acusado é digno de um pulp fiction: o Sombra.

O roteiro: prefeito de uma próspera cidade industrial faz um acordo com empresários correligionários para desviar dinheiro público para as campanhas do seu partido. Ninguém ganharia nada, não eram corruptos, eram patriotas a serviço da causa e do partido, afinal, estava em jogo transformar o Brasil, os nobres fins justificavam os meios sujos. Foi assim no início, mas o ser humano…

Com a dinheirama crescendo e rolando sem controle, o Sombra, chefe da operação e amigo do prefeito, começa a desviar um levado para sua própria causa. Outros empresários do esquema, e alguns políticos que intermediavam as contribuições, também começam a meter a mão. Até que o prefeito, que não sabia de nada, descobre tudo e ameaça detonar o esquema. Seria o fim para o Sombra e para a quadrilha.

O prefeito é atraído pelo Sombra para uma cilada, o carro dos dois é interceptado por bandidos e o prefeito sequestrado. O Sombra escapa ileso. Nenhum resgate é pedido, dias depois o prefeito é encontrado morto a tiros e com marcas de tortura. Contra as evidências, a polícia trata o caso como um sequestro comum, mas o Ministério Publico vai fundo nas conexões politicas.

O garçom que havia testemunhado a última conversa entre o prefeito e o Sombra é executado. Em seguida, uma testemunha da morte do garçom. O bandido que fazia a ligação entre os sequestradores e o Sombra é assassinado na cadeia.

O médico legista, que atestou as marcas de tortura, morre envenenado. Ameaçado, o irmão do prefeito se exila na França. O Sombra continua nas sombras, o processo não anda, logo o crime estará prescrito. E o pior de tudo: não é ficção.

28/08/2011

às 22:10 \ Sanatório Geral

Valeu a pena

“Não me arrependo de nada”.

Cesare Battisti, terrorista de estimação do governo brasileiro, feliz com a vida na praia, avisando que, se pudesse voltar no tempo, repetiria os quatro assassinatos que cometeu na Itália só para envelhecer sem trabalhar no Brasil do companheiro Lula.

15/08/2011

às 1:13 \ Direto ao Ponto

Os indignados com o uso de algemas e fotos de gente sem camisa não têm nada a dizer sobre a execução da juíza sem medo

Acusada por dezenas de bandidos de cumprir o que a lei determina e aplicar-lhes sem medo as penas previstas no Código Penal, Patrícia Acioli, 47 anos, juíza da 4ª Vara Criminal de São Gonçalo, no Rio de Janeiro, foi condenada há muito tempo à morte por fuzilamento. No fim da noite desta quinta-feira, quando estacionava seu carro no condomínio onde morava em Niterói, a sentença enfim se materializou. Empunhando armas de calibres 40 e 45 ─ de uso estrito à polícia e às Forças Armadas ─, os carrascos dispararam 22 tiros. Só um errou o alvo.

Ninguém tem o direito de surpreender-se. Em janeiro, ao ser capturado no Espírito Santo por ordem da juíza, Wanderson Silva Tavares, vulgo “Gordinho”, chefe de um grupo de extermínio que age em São Gonçalo, levava no bolso uma lista com os nomes de 12 pessoas marcadas para morrer. A presença de Patrícia Acioli na relação renovou a ameaça reiterada incontáveis vezes: se continuasse a julgar com rigor casos envolvendo policiais fora-da-lei, não teria vida longa.

Patrícia morreu indefesa e só, como morreram tantos magistrados que tentaram fazer justiça amparados exclusivamente no caráter e na coragem pessoal. Muitos mais morrerão, previne um recente levantamento do Conselho Nacional de Justiça. Espalhados pelo país, sobrevivem 69 juízes alvejados pela mesma ameaça que acompanhou a passagem pelos tribunais da colega abatida em Niterói. Dos integrantes desse grupo de altíssimo risco, só 42 têm proteção policial permanente.

Em vez de concentrar-se na caçada aos matadores, os sherloques de Niterói invocaram a hipótese de crime passional para abastecer jornalistas com informações sobre a vida íntima da vítima. Descobriu-se, por exemplo, que Patrícia manteve uma tumultuada relação amorosa com o PM Marcelo Soubel. Descobriu-se que o casal protagonizou pelo menos duas brigas de acordar vizinho. Falta agora descobrir a identidade dos assassinos. Evidências e indícios veementes conduzem a policiais que escondem sob a farda vínculos com milícias, grupos de extermínio e máfias que controlam frotas de vans.

CONVERSA FIADA
Na sexta-feira e no sábado, em textos publicados nas primeiras páginas dos jornais que traziam a foto do carro esburacado por balas, inúmeros pais-da-pátria manifestaram-se sobre um caso de polícia. A presidente Dilma Rousseff qualificou-o de “acintoso”. Para o ex-presidente Lula, é “inaceitável”. O vice-presidente Michel Temer declarou-se “chocado”. O ex-ministro Márcio Thomaz Bastos indignou-se com o “abuso”. E todos enxergaram no episódio “uma grave ameaça ao Estado de Direito”.

Não, nenhum deles se referia ao caso da juíza assassinada. Dilma, Lula, Temer e Márcio não encontraram tempo para dedicar ao fuzilamento em Niterói uma mísera interjeição de espanto. Eles estão à beira de um ataque de nervos por causa de outra história. Não conseguem parar de pensar no tratamento dispensado pela Polícia Federal aos bandidos de estimação que caíram na malha da Operação Voucher. Já injuriados com as algemas nos pulsos dos larápios federais, os padrinhos se transformaram num pote até aqui de cólera depois das fotos que mostram parte da quadrilha sem camisa e com uma plaqueta de identificação.

A julgar pela discurseira, endossada por dezenas de figurões governistas, o Estado de Direito não é ameaçado por policiais que matam juízes, nem pela cleptocracia que Lula pariu e Dilma amamenta. O perigo mora em policiais que ousam prender e algemar assaltantes de cofres públicos sem pedir licença ao Planalto. Pior ainda, também se atrevem a fotografá-los sem antes cobrir-lhes o peito com terno e gravata.

Conversa fiada, rebate a nota de esclarecimento divulgada pela Associação Nacional de Delegados de Polícia Federal. O que os indignados de araque pretendem é destacar o acessório para ocultar o essencial. Querem concentrar os holofotes em argolas metálicas para obstruir a visão dos prontuários do bando. Os padrinhos acham intolerável o que a polícia fez para mostrar os afilhados. O país decente acha intolerável o que eles andaram fazendo. E quer saber o que ainda escondem.

“A Polícia Federal é republicana e não pertence ao governo nem a partidos políticos”, ensina no fecho do documento dos delegados a frase de Márcio Thomaz Bastos que o autor tenta agora revogar. Ao executar mandados de prisão sem verificar a carteira de identidade, o CPF e a filiação partidária do capturado, como exige Lula, a Polícia Federal apenas reafirmou que a lei vale para todos. Os agentes fizeram o que sempre fez a juíza Patrícia Acioli.

No faroeste brasileiro, fazer a coisa certa ficou perigoso.

05/05/2011

às 18:42 \ Sanatório Geral

Ditador-de-adidas

“Quaisquer que fossem os atos atribuídos a Bin Laden, o assassinato de um ser humano desarmado e cercado de familiares constitui um fato repulsivo”

Fidel Castro, ditador-de-adidas,  capturado pelo Guilherme Macalossi ao comentar a morte de Bin Laden, exigindo para o companheiro terrorista o tratamento que negou aos 17 mil cubanos fuzilados no paredón.

14/12/2010

às 22:34 \ Direto ao Ponto

O canalha inventado por Chico Anysio reencarnou no PT: ‘Sou, mas quem não é?’

Tavares, o canalha, foi um dos grandes tipos criados por Chico Anysio. Sempre de pileque, copo de uísque na mão, topete de galã de antigamente, terno e gravata amarfanhados que identificam boêmios de botequim, o personagem passava o tempo tentando conciliar o noivado com a moça rica e feia com assédios explícitos às empregadas da casa ou às amigas do alvo do golpe do baú. O quadro terminava com o bordão popularíssimo no Brasil dos anos 70: “Sou, mas quem não é?”

Passados 30 anos, o canalha inventado por Chico Anysio reencarnou no PT: a cada canalhice consumada, a seita dos devotos de Lula alega ter feito o que todo mundo faz. Eles começaram a incorporar a criatura do humorista genial em 2005, quando o escândalo do mensalão revelou que o templo das vestais era só o esconderijo das messalinas. Aperfeiçoado ao longo do segundo mandato do chefe, o script se repete com ligeiros retoques a cada bandalheira descoberta pela imprensa. Enquanto atribui a denúncia da vez a “manobras políticas”, o partido que antes reivindicava o monopólio da ética agora prefere acusar o inimigo de ter incorrido no mesmo pecado. Todos são canalhas.

Contemplada pelo olhar deliberadamente estrábico do PT, a história recente do país não tem nada a ver com o mundo real. Informa, por exemplo, que a roubalheira do mensalão não foi o maior de todos os escândalos, mas uma confusão envolvendo recursos não contabilizados. Muito mais graves foram o mensalão mineiro, coisa do PSDB, e o mensalão do DEM, protagonizado em Brasília pela turma do ex-governador José Roberto Arruda.

Na campanha presidencial, a mesma alquimia amparou a tentativa de equiparar Erenice Guerra, que fez da Casa Civil o covil da quadrilha chefiada pela melhor amiga de Dilma Rousseff, a um certo Paulo Preto, que na hipótese mais sombria embolsou dinheiro doado por empresas privadas à campanha de José Serra. Também ampliada pela lupa da malandragem, a partilha de obras do metrô combinada por grandes empreiteiras nem precisou acontecer para ser apresentada como um crime bem mais hediondo que o estupro do sigilo fiscal de dirigentes do PSDB.

“Quanto mais mentiras contarem sobre nós, mais verdades diremos sobre eles”, prometeu José Serra às vésperas do lançamento oficial da candidatura à Presidência.  Cabe ao governador Alberto Goldman cumprir a promessa que Serra esqueceu no discurso. Com a determinação e a ênfase que faltaram ao candidato, Goldman precisa cobrar o pronto esclarecimento do assassinato de Walderi Braz Paschalin, prefeito de Jandira eleito pelo PSDB. Só a identificação dos criminosos e a aplicação do castigo que merecem podem evitar que o PT transforme Paschalin num Celso Daniel tucano e Jandira numa Santo André do PSDB.

Quem acha que os fins justificam os meios é capaz de vender a mãe (e entregar em domicílio), tratar o pai a bofetadas, roubar a poupança da avó, encontrar semelhanças entre Lula e Winston Churchill ou entre os dois crimes sem parentesco. Celso Daniel já fora escolhido para exercer na campanha de 2002 as funções que, repassadas a Antonio Palocci, pavimentaram o caminho que o levaria ao Ministério da Fazenda. Paschalin era só mais um entre centenas de prefeitos tucanos. Os cofres abarrotados da prefeitura de Santo André continham boladas suficientes para bancar campanhas do partido e a boa vida da companheirada. Não é o caso de Jandira.

Mas os companheiros já decidiram que houve na cidade um crime decorrente de motivações políticas que negam ter existido em Santo André. E agora desconfiam de que o prefeito tucano andou pagando a vereadores o que batizaram de “mensalinho”. É preciso ser muito canalha para agir dessa forma, dirão os leitores. Mas quem não é?, retrucarão os sócios do clube dos cafajestes. É hora de mostrar-lhes que milhões de brasileiros não são.

O PSDB só poderá hastear a bandeira da moralidade caso consiga livrar-se dos próprios esqueletos no armário. A oposição oficial não chegará a lugar nenhum se continuar algemada a um Eduardo Azeredo, ou se hipotecar a honra em solidariedade a delinquentes refugiados no ninho. O homicídio em Jandira pode se tornar o inadiável ponto de inflexão. Se algum tucano estiver atolado no episódio, que acerte as contas com a Justiça já expulso do partido.

O Brasil decente espera que os responsáveis pela elucidação do assassinato encerrem o quanto antes o espetáculo da desfaçatez ensaiado pelo PT. Para tanto, basta que o crime seja inteiramente desvendado e se aplique aos autores, seja qual for sua filiação partidária, a punição devida. Feito isso, que o caso exemplar seja estendido aos ainda pendentes, começando por Santo André. Não se pode permitir que o PT utilize cinicamente o prefeito morto em Jandira para escapar da maldição que o persegue há oito anos ─ e há de persegui-lo até que sejam eliminadas as sombras que encobrem a verdade sobre a execução de Celso Daniel.

19/11/2010

às 20:49 \ Sanatório Geral

Secretário do Cinismo

“Perdemos um companheiro. Celso Daniel seria sem dúvida um ministro no governo Lula”.

Gilberto Carvalho, carregador de malas do presidente da República, que há oito anos tenta impedir o esclarecimento do assassinato do companheiro que seria ministro.

16/08/2010

às 21:47 \ O País quer Saber

Pimenta Neves, ainda em liberdade

Bruno Abbud

Em 1997, o jornalista Antônio Marcos Pimenta Neves dirigia a redação da Gazeta Mercantil e tinha 60 anos quando conheceu Sandra Gomide, de 29. Dois anos depois, ao assumir a direção de redação do jornal O Estado de S. Paulo, nomeou a namorada editora de Economia e decidiu incorporá-la ao seu patrimônio pessoal. Inconformado com o fim do romance em maio de 2000, primeiro perseguiu-a profissionalmente, depois passou a agredi-la fisicamente e, finalmente, condenou-a à morte.

Executou a sentença em 20 de agosto de 2000 com uma bala nas costas e um tiro de misericórdia na cabeça. Foragido, repreendeu por telefone os antigos subordinados: achava que a cobertura do caso feita pela Folha era melhor. Depois de entregar-se, censurou com rispidez o delegado que o interrogava: estava insatisfeito com o teor das perguntas. Pimenta Neves comportou-se todo o tempo com a arrogância dos que se sabem condenados à impunidade.

Até 1979, quando o colunável paulistano Raul “Doca” Street foi condenado à prisão por ter assassinado a socialite mineira Ângela Diniz, os criminosos passionais escapavam da cadeia pelo túnel aberto no Código Penal por uma excrescência jurídica: “o direito à legítima defesa da honra”. Como o truque fora revogado, Pimenta Neves valeu-se do método utilizado por quem tem dinheiro suficiente para pagar os honorários calculados em dólares por bons advogados. Nesta sexta-feira, fará dez anos que continua em liberdade graças a apresentação de sucessivos recursos às distintas instâncias da Justiça. Condenado em 2006 a 19 anos de prisão (depois reduzidos para 15) só ficou numa cela durante sete meses.

Hoje, enquanto aguarda o julgamento do recurso que, a julgar pelo histórico do caso, nunca será o último, vive numa casa de 930 metros quadrados na Chácara Santo Antônio, zona sul da capital paulista. Costuma passar o dia lendo e navegando pela internet, como descreve a reportagem da edição 2131 de VEJA. Sai pouco, não lhe sobraram amigos.

Vai morrer desfrutando da liberdade que Sandra perdeu ao procurar um namorado e encontrar o algoz.

02/03/2010

às 21:12 \ Sanatório Geral

Boa dupla (2)

“Lula sabe há muitos anos que aqui nunca se ordenou o assassinato de ninguém”.

Fidel Castro, no mesmo artigo lido por um locutor em TV estatal, aparentemente convencido de que Lula, que nunca sabe de nada, nem ouviu falar em paredón.

13/01/2010

às 19:21 \ O País quer Saber

O caso dos meninos assassinados pelo pai e pela madrasta

Em 5 de setembro de 2008, os irmãos João Vitor dos Santos Rodrigues, 13 anos, e Igor Giovani dos Santos Rodrigues, 12, foram assassinados, esquartejados e jogados no lixo pelo pai, João Alexandre Rodrigues,  e pela madrasta, Eliane Aparecida Antunes. Depois de uma ligeira escala na imprensa, foi arquivada pelo país dos desmemoriados a história reconstituída na edição de outubro de 2008 da revista Brasileiros.

Presos desde 13 de setembro de 2008 em diferentes penitenciárias de Tremembé, João Alexandre e Eliana aguardam julgamento. Os meninos foram enterrados pouco mais de um mês depois do crime.

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A inocência esquartejada

Augusto Nunes e Branca Nunes

“Acho que você precisa saber disso”, ouviu Itamar Martins assim que atendeu o celular. O delegado-titular de Ribeirão Pires reconheceu a voz do delegado de plantão. Estranhou o tom aflito. Duas da madrugada, viu no relógio sobre o criado-mudo. Um policial não interrompe o sono de outro, sobretudo na madrugada de um sábado, para tratar de miudezas. Nem se perturba por pouco. Alguma coisa grave devia ter acontecido.

Acontecera:
“Uns garis encontraram pedaços de dois corpos no caminhão do lixo”.

Não dormiria direito no fim de semana, conformou-se, já mudando de roupa e ansioso por cruzar no limite da velocidade os 17,5 quilômetros que separam a casa onde mora em Santo André da delegacia de Ribeirão Pires. As duas frases seguintes preveniram que não se livraria de visitas da insônia em muitas outras madrugadas.

“Os sacos foram recolhidos no fim da noite, numa rua da Vila Aurora”.
(Itamar lembrou que aqueles dois meninos moravam lá.)

“Parecem pedaços de crianças.”
(São eles, soprou-lhe o instinto aguçado no convívio com a face escura.)

O pressentimento tornou-se quase tangível nos 20 minutos em que o delegado viajou simultaneamente no espaço e no tempo. Enquanto os olhos vigiavam os caminhos que levam à cidade de 107 mil habitantes e a 35 quilômetros de São Paulo, a memória recuou 48 horas. Estacionada na quarta-feira, 3 de setembro, reconstituiu a noite em que o destino juntou na mesma sala o policial de 47 anos e os irmãos João Vitor dos Santos Rodrigues, 13, e Igor Giovani dos Santos Rodrigues, 12. Foi o primeiro encontro com aqueles meninos. Temia que fosse o último.

Os garis o esperavam. “A sorte é que o caminhão estava cheio”, repetiu Eduardo dos Santos Andrade, 44 anos, que recolheu os sacos. “Se estivesse vazio, seria tudo triturado”.  Jailton Evaristo, 23, ficou intrigado quando o mecanismo emperrou: “Fui ver o que era e encontrei um pé. Pensei que era de boneco”.

Era de gente, confirmou a descoberta, em outros sacos, de pedaços de duas pernas e de um crânio. A coleta foi feita na entrada de uma vila na Rua Cândido Mota, mas não tinham anotado o endereço. Nem precisavam. Itamar foi para a sua sala, pegou numa gaveta a folha de papel e copiou o que havia rabiscado dois dias antes: Cândido Mota, 254, casa 6. Para lá aqueles meninos voltaram na quarta-feira. Para lá a intuição ordenara que seguisse tão logo vislumbrou o pesadelo por trás de uma notícia transmitida por telefone.

A luz da televisão sumiu quando estava a sete metros da casa de cinco cômodos ─ dois quartos, sala, cozinha e banheiro ─ espremida no fundo da ruela interna que separa as duas fileiras de construções tristonhas, cabisbaixas, sem viço nem cor. Ninguém respondeu às batidas. Empurrou a porta entreaberta e, às três da madrugada, entrou na casa incomodado por presságios. Saiu às quatro atormentado por certezas. Conjugadas, informavam que no dia 5 de setembro de 2008 dois irmãos foram assassinados, esquartejados e jogados no lixo por João Alexandre Rodrigues, 40, e Eliane Aparecida Antunes, 36. O pai e a madrasta.

Itamar pisou na escuridão quando Eliane saía de um quarto esfregando os olhos e ajeitando os cabelos, como se tivesse acabado de acordar. Não aparentou surpresa ao topar com aquele estranho, não pareceu interessada em saber quem era, nem traiu sinais de desconforto quando ouviu a pergunta:

“Onde estão os meninos?”

“Foram para a escola depois do almoço. Ainda não voltaram.”

“Quatro da manhã e vocês não estão preocupados?”

“Isso acontece sempre. Meu marido está trabalhando.”

A aparência inofensiva recomendou a absolvição. A voz inconvincente e o raquitismo do script votaram pela condenação. O desempate foi determinado pelos odores que vinham de todos os cômodos e do corredor externo. Querosene, cândida, madeira queimada, foi rastreando o olfato do delegado. Usaram cândida para limpar o chão. Usaram querosene para queimar alguma coisa, notou no corredor que liga a cozinha ao que seria um quintal se tivesse plantas, ou flores, ou terra. Espalhadas pelo chão de cimento, lenha retorcida, cinzas e manchas de sangue sugeriram a imediata transferência da madrasta para a delegacia.

Eliane reagiu à voz de prisão com a placidez de quem ouve um convite para jantar. Aconselhou a polícia a gastar nas ruas, procurando os enteados, o tempo que estava perdendo com inocentes. Não tinha feito nada, os meninos é que fugiram. Ultimamente, murmurou, deram de voltar com olhos vidrados, falando enrolado como quem exagerou na droga. Fez o que pôde para assassinar também a memória dos esquartejados até cair na armadilha improvisada no fim da tarde.

Se a madrasta trata como coisa fantasiosa uma tragédia real protagonizada por filhos alheios, pensou o delegado, a mãe talvez trate como tragédia real uma coisa fantasiosa protagonizada pelo próprio filho. Saiu da sala, voltou em menos de minutos e blefou: “O Tiago foi preso junto com o seu marido e acabou de confessar”. A menção ao filho do primeiro casamento emudeceu-a. “Ele contou que vocês três mataram os meninos”, emendou o delegado. A segunda alusão ao jovem de 21 anos devolveu-lhe a voz. A mulher que nunca foi vista chorando incorporou a personagem da mãe de preso. E começou a falar.

Capturado na manhã de sábado, ao voltar do turno de 12 horas na empresa em São Bernardo do Campo que o contratara como vigia noturno, João só se rendeu na tarde de quarta-feira. Seguia jurando que de nada sabia quando entrou na sala Laura Ribeiro dos Santos Oliveira, uma das duas irmãs por parte de mãe. Estava lá a convite da polícia, mas disso efetivamente não sabia o homem que simulava não saber de nada. “Lembre que a mãe sempre disse que não se deve fazer uma coisa errada”, sussurrou Laura. O irmão abraçou-a e chorou pela primeira vez. E o pai começou a falar.

“É uma frase velha, mas é verdade que um caso assim faz a gente morrer mais um pouco”, disse Itamar na primeira semana de outubro, um mês depois do que se transformou no primeiro dia do resto de algumas vidas. Por ter morrido um pouco, tornou-se mais atento a viventes indefesos. Depois de 5 de setembro, por exemplo, passou a entrar no quarto do filho de 10 anos e da filha de 7 quando volta para casa. Aproxima-se sem ruído das camas e verifica se as crianças dormem em paz. A paz que dois irmãos perseguiram inutilmente durante cinco anos. Hoje Itamar conhece a história dos meninos. Naquela quarta-feira, não poderia saber que estava participando do julgamento, em última instância, do derradeiro pedido de socorro enviado por dois feridos de guerra.

Vitor e Igor começaram a descobrir que só poderiam contar um com o outro às vésperas do Natal de 2003, quando a mãe deu o fora. Foi o segundo sumiço de Cláudia dos Santos. Tinha 14 quando fugiu da casa da mãe. Não lembra direito a razão da escapada. Tinha 27 quando fugiu de João Alexandre. Lembra perfeitamente o motivo: a rotina de violências instituída pelo marido genioso. Escapou para longe do perigo, levando as duas filhas do primeiro casamento porque “o João batia muito nas meninas, xingava de tudo quanto é nome porque não era pai delas”. Deixou Vitor e Igor para trás “porque eram tratados como príncipes pelo João”.

Depois da fuga, Cláudia só viu os filhos de vez em quando, sempre à distância. Talvez por isso, continuou enxergando um principado onde se consolidava rapidamente o império da perversidade. “Pelo que vi, eram muito bem tratados”, enganou-se. Só soube em junho que os pequenos príncipes imaginários tiveram de asilar-se por mais de nove meses para sobreviver ao monarca desde sempre truculento. Ficou muito preocupada, disse num dos pouquíssimos programas de TV que dedicaram ao caso alguns minutos de sua preciosa atenção. O massacre de Ribeirão Pires não valeu manchete, mas está instalado no topo do ranking dos mais medonhos episódios da história da violência doméstica no Brasil.

Para tranqüilizar-se, e sobretudo para tranqüilizá-los, a mãe procurou os meninos para transmitir a grande notícia: o atual marido prometera que todos morariam juntos. Voltaria para buscá-los. Assim que pudesse, ressalvou. Não contou que nunca teve renda própria. Fingiu esquecer que seu companheiro, com mais dois filhos a sustentar, está desempregado. Assim que pudesse, repetiu ao despedir-se. Como não existem mais os que sonharam com o prometido, já não há promessas a cumprir.

Se é que um dia existiu, o pai amoroso foi exonerado pelo tirano cada vez mais brutal. João deu-se conta de que, com a mulher, perdera também a humilhada favorita. Antes que se afogasse no pote até aqui de cólera, despejou-o sobre os príncipes destronados. Em 24 de abril de 2005, descobriu que nem todos achavam uma boa idéia o abandono das crianças na casa antiga, agora sem mãe. A polícia, por exemplo, só viu um caso de polícia. A Justiça viu um caso para cadeia. E então vieram o primeiro boletim de ocorrência, o primeiro processo judicial e a primeira grande chance de interromper a jornada para dentro da noite. Foi desperdiçada, como todas as que viriam.

Entre o primeiro boletim de ocorrência e o terceiro, que a execução dos garotos tornou desnecessário, houve duas tréguas no duelo desigual. A primeira foi decretada em 2005 pelo tirano enfraquecido pela vocação beligerante de Eliane. João tirou uma folga de 45 dias, desfrutados em companhia dos filhos no quarto cedido pela irmã Magali dos Santos Melo. Os sobrinhos guardaram boas lembranças da temporada sem sobressaltos. A anfitriã amava os meninos, conhecia o temperamento e as preferências de cada um. Eram ambos extrovertidos, o caçula um pouco mais. Vitor sempre gostou de futebol, mas a bola agora disputava seu tempo com papéis coloridos. “Ele desenhava tudo o que via”, lembrou a voz claudicante de Magali no começo de outubro. “Passava horas na janela desenhando os carros estacionados na rua. Era uma perfeição.” O estrabismo acentuado o incomodava, mas recusava-se a usar os óculos de fundo de garrafa que camuflavam a disfunção visual. “Dizia que eram feios demais”, explicou a tia.

As memórias de Magali retratam duas crianças em nada diferentes de milhões de meninos já distanciados da pobreza assumida, mas longe das reservas da classe média genuína. Somados salários e benefícios, João ganhava R$ 1.300 por mês. No Brasil reinventado pela Fundação Getúlio Vargas, teria freqüentado o mundo maravilhoso da nova classe média, à disposição de famílias cuja renda ultrapasse a divisa dos R$ 1.064. Na Vila Aurora, o pequeno-burguês honorário sustentava a família com o que sobrava depois do pagamento do aluguel e de outras urgências. Sem direito a ambições materiais inexistentes em lojas na linha R$ 1,99, Vitor e Igor divertiam-se com desenhos animados na televisão e peladas no campinho perto da casa da tia.

“Eles se contentavam com pouco”, disse Magali. Um prato de strogonoff para Igor e batata-doce na sobremesa para Vitor tornavam mais entusiasmadas as intermináveis conversas entre os irmãos, e menos complicadas as tarefas estabelecidas pelos professores da escola estadual onde cursavam juntos o quinto ano. (Bom aluno, Vitor foi reprovado em 2007. Só tinha problemas fora da sala de aula.) Fisicamente, eram bastante parecidos. Os mesmos cabelos crespos que pentes não domam, a luminosidade nos olhos castanhos, a morenice de brasileiro sem ancestrais europeus, o corpo magro e saudável de quem nunca teve comida de sobra, mas também não soube o que é passar fome. “Quando alguém achava que eram gêmeos, eu dizia para prestarem atenção no cabelo.” Vitor gostava de cortá-los rente à cabeça ou raspá-los parcialmente. Igor sempre cultivou um pequeno topete. O detalhe ajudaria os legistas no trabalho de identificação dos meninos esquartejados.

São muito parecidos, Itamar também achou. Notou que Vitor era um pouco mais alto e mais loquaz. Desde a primeira pergunta, ficou claro que o caçula preferia deixar as respostas por conta do mais velho, limitando-se a endossá-las com movimentos verticais da cabeça. Era um menino tímido, equivocou-se. Depois ele saberia que Igor recorria a silêncios e laconismos para não escancarar um problema no aparelho vocal que o fazia trocar o r pelo l. Era apenas um sintoma do medo crônico. Em 2005, ele começou a embaralhar consoantes com mais freqüência e a urinar na cama. Em casa, era Igor quem traçava os planos da dupla. Com estranhos por perto, o outro virava porta-voz.

“A madrasta expulsou a gente”, falou pelos dois quando quiseram saber o que faziam longe de casa. Na noite de 3 de setembro, como fizera em 27 de agosto, Eliane deu-lhes algum dinheiro e ordenou que fossem morar com a mãe. O pai saíra de casa depois de detalhar a ação de despejo com a mulher, a quem sempre cumpria a execução de violências e iniqüidades planejadas em parceria. Os meninos não se sentiram mais infelizes. Longe dali, ao menos por algum tempo não estariam sob o domínio do medo. Mas ficaram de novo confusos com o segundo item do decreto. Ainda que desejassem, não conseguiriam encontrar a mãe. Desde que Cláudia fugiu do marido, eles nunca souberam exatamente onde morava.

Na expulsão do fim de agosto, não deu certo a idéia de asilar-se na casa de Magali. Foram bem recebidos, mas a tia achou prudente contar ao pai o que a madrasta fizera. Em menos de uma hora materializou-se no portão a figura mais temida. Negou aos berros a história do despejo e reclamou a posse dos enteados. Magali ligou para João, que deu razão a Eliane. A penúltima batalha terminou como todas as outras: os algozes venceram. “Não podia passar por cima da autoridade de um pai”, justificou-se 20 dias depois da tragédia, sempre remoendo as lembranças da noite em que viu os sobrinhos vivos pela última vez. “Tudo o que eu queria era voltar até aquela quarta-feira”, repetiu.

(“É claro que eu conhecia meu irmão”, reconheceu em outubro, à espera da permissão para visitar na cadeia o assassino dos sobrinhos. “Mas como eu iria imaginar que ele faria uma coisa dessas? Só pode ter sido um acesso de fúria.” Magali também conhecia a extensão da ira de Eliane. É menos complacente com a cunhada, mas lhe estende a mesma atenuante concedida a João. A polícia garante ter reunido evidências suficientes para provar que o crime foi premeditado. Nessa hipótese, a teoria da explosão de cólera é tão consistente quanto a linha de defesa apresentada pelos carrascos. Nada teria acontecido se o caçula não resolvesse provocar o pai num mau momento).

Não iriam reincidir no erro, combinaram depois de formalizada a expulsão do começo de setembro. À falta de portos seguros a perseguir, resolveram caminhar pela cidade. Decidiriam o que fazer antes que a manhã chegasse. Os guardas chegaram primeiro. Na sala do delegado, reapresentaram a reivindicação: não queriam voltar para casa. Ao confronto com o pai e a madrasta, preferiam a companhia dos pequenos sem-teto alojados no Abrigo Novo Rumo, onde viveram em sossego entre abril de 2007 e janeiro deste ano. Itamar achou sensato convocar Edna Aparecida Ribeiro Amante, funcionária do Conselho Tutelar que acompanha desde o começo o drama dos irmãos.

Edna entrou na delegacia em pouco mais de 10 minutos, ouviu por cinco minutos o que tinham a dizer as vítimas e não precisou de um minuto para emitir o parecer: Vitor e Igor ficariam bem na casa da Vila Aurora. Os meninos foram forçados a render-se. Perderam o combate que precederia a derrota definitiva. “Senti uma sensação de desconforto muito estranha quando os meninos partiram”, contou o delegado. Ele agora sabe que assim se sentem os que se despedem dos que irão morrer.

A viatura policial que os levou para o campo de extermínio, escoltados por Edna e um guarda municipal, estacionou diante da casa 6 no meio da madrugada. Eliane abriu a porta e fechou a cara. Irritou-se ao rever os enteados sem-teto. Mal conteve a cólera ao ouvir de Edna que deveria comparecer à delegacia na segunda-feira, junto com o marido, para a feitura de um boletim de ocorrência, o BO. Odiava BOs. Submeteu-se ao ritual duas vezes. Ao BO que registrou a tentativa de abandono, sobreveio em 14 de abril de 2007 o BO que resume as incontáveis violências físicas e psicológicas impostas aos meninos. Não haveria uma terceira, prometeu-se.

“Eles deveriam ser obrigados a aparecer na delegacia já no dia seguinte, foi um erro deixar o BO para segunda-feira”, continua a lamentar o delegado. Como Magali, ele tem sonhado com viagens no tempo. “Se pudesse voltar àquela noite, não permitiria que fossem devolvidos. Pena que eu ainda não conhecesse a história daqueles meninos.” Não são poucos os que tiveram a chance de salvar a vida de Vitor e Igor. Entre todos, o único a penitenciar-se é o único que soube tarde demais o que todos sabiam. E o que sabiam recomendava mantê-los distantes dos pastores da morte.

Quando João voltou para casa na manhã de quinta-feira, as linhas do rosto de Eliane desenhavam uma noite maldormida. As crianças sempre atrapalharam a vida do casal. Chegou a hora da solução final. O marido concordou. Os meninos foram proibidos de ir à escola. Ficar por lá já configurava um castigo de grosso calibre. Eles nem imaginam o que virá, animou-se a madrasta ocupada com a logística da ofensiva. Já tinham as armas necessárias. A faca, a foice e a pá. Faltava o detergente. Eliane foi comprar. Faltava querosene. Ela foi buscar. Dormiu pouco, mas acordou bem disposta na sexta-feira.

Por volta de uma da tarde, a ação começou. O pai chamou “para uma conversa” o filho caçula, que saiu da sala onde assistia a um programa de TV e foi para a cozinha. Vitor foi para o quarto. João enlaçou o pescoço de Igor e começou a esganá-lo. A madrasta entrou na cozinha, voltou com a faca, invadiu o quarto e golpeou Vitor no ventre. Os irmãos que viveram juntos todos os dias morreram juntos. Separados só pela morte, seriam separados em pedaços quando os assassinos perceberam que as chamas não completaram o serviço. Cobriram os rostos queimados com sacos de plásticos, esquartejaram os cadáveres estendidos no chão de cimento e enfiaram os despojos em sacos de lixo. Ela jogou na privada as vísceras que seriam encontradas, sete dias depois, na fossa do quintal. O pai de Vitor e Igor foi trabalhar dirigindo o carro do filho de Eliane. A mãe de Tiago foi espalhar por duas quadras os restos dos filhos de João.

Às dez da noite, ele telefonou para perguntar se tudo estava bem. Ela disse que sim.

De olhos bem fechados

“Eu queria ter uma vida tranqüila”, começa o inventário dos sonhos da inocência esquartejada. As anotações na folha de papel foram feitas por Vitor, informam a letra miúda e hesitante, o pronome na primeira pessoa e a assinatura. Mas Igor decerto ajudou a montar a lista dos oito desejos, revelados numa das avaliações psicológicas a que são submetidos os meninos sem-teto do Abrigo Novo Rumo. Os irmãos tentaram por cinco anos dormir em paz. Também queriam ter a mãe que não voltou, ver o avô que já morreu, ter a bicicleta que não cavalgaram. Mas provavelmente se dariam por satisfeitos com a materialização parcial do primeiro desejo.

As avaliações periódicas são variações em torno do mesmo tema, fotografias de frente e de perfil do pesadelo recorrente. Num relatório, Igor lembra o dia em que a madrasta os obrigou a comer papel e chocolate com sal até vomitarem, para depois engolirem o que o estômago rejeitara. Noutro, Vitor revela a tortura reservada a quem urinasse na cama: atravessar a noite de pé e com as mãos encostadas numa parede da sala.

Se Isabel Cardoso da Cunha Lopes Enei, juíza de Ribeirão Pires, decidiu tirar os meninos do abrigo e devolvê-los aos algozes sem ter lido os documentos, pecou por negligência. Se os consultou, pecou por inépcia. Em qualquer hipótese, deveria admitir o erro e pedir desculpas em vez de caçar justificativas. “Não havia indícios para provar a monstruosidade”, insiste Isabel. Sempre sobram, além de indícios, provas e evidências. Dois processos judiciais, somados às pastas do abrigo, avisam que duas crianças estão tentando escapar do confronto com o coração das trevas.

Enquanto a juíza argumenta, o desembargador faz poesia em prosa. Antonio Carlos Malheiros, indicado pelo Tribunal de Justiça para acompanhar o caso, inspirou-se na menina de cinco anos atirada do sexto andar de um prédio em São Paulo para provar que erros acontecem, que faltam recursos ao Judiciário e que alguém continuará pagando por isso. Até crianças: “Vão voltar a acontecer as Isabellas. Meninos e meninas continuarão caindo das janelas do esquecimento”.

Isabella não caiu. Foi jogada. Os dois irmãos só viveriam em prédios da classe média se o pai fosse porteiro. Sobretudo, os traços comuns aos dois crimes têm menos relevância que as diferenças. Em ambos, os acusados são o pai e a madrasta. Eles estão no mesmo presídio em Tremembé, elas estão na cadeia ao lado. Mas a garota morta em março sobreviveu na imprensa semanas a fio. Vitor e Igor nunca foram manchete, fizeram uma rápida escala nas páginas policiais e sumiram do noticiário.

Na segunda semana de outubro, os restos dos irmãos continuavam no IML de Santo André. Como a lei proíbe o sepultamento de esquartejados incompletos, a polícia segue procurando os restos que faltam. Em casos assim, os simulacros de cadáveres ficam sob guarda do mesmo Estado que não soube livrá-los da morte.

Sepultada há seis meses, Isabella será lembrada por muito tempo. Vitor e Igor foram esquecidos antes que alguém soubesse quando seriam enterrados.

braguAugusto Nunes e Branca Nunes


 

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