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artigo

12/07/2011

às 17:45 \ Direto ao Ponto

Por que os brasileiros não reagem?

Intrigado com a mansidão das vítimas da corrupção endêmica que assola o país, o jornalista Juan Arias, correspondente no Rio de Janeiro do diário espanhol El Pais, procura respostas para a pergunta que serve de título para o artigo reproduzido na seção Feira Livre.

07/07/2011

às 19:02 \ Feira Livre

“O problema do ‘ex’”, por Roberto DaMatta

TEXTO PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA QUARTA-FEIRA

Roberto DaMatta

Depois dos 80 anos bem vividos e sucedidos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, a quem eu envio meus parabéns pela passagem do seu aniversário; e da passagem definitiva do igualmente ex-presidente e senador Itamar Franco, a quem eu rendo modesta homenagem pelo que fez pelo Brasil, vale especular sobre o que é ser um “ex”.

Sobre o que significa deixar de ter sido um protagonista de um cargo ou papel social. Todos, diga-se logo, somos “ex” de alguma coisa ou pessoa. Por isso, o prefixo tem um lado ambíguo quando não claramente negativo, sobretudo em sociedades como a nossa, na qual a regra é sempre acumular poder (sobretudo o poder público) e, assim, multiplicar nosso patrimônio (real ou simbólico), porque os rios correm para o mar e quem é rei jamais perde a majestade. Nosso ideal é ficar por cima da carne-seca; isto é, por cima das leis. De todas as leis!

Hoje, temos uma clareza muito maior das diferenciações e das contradições entre atores e papéis, sobretudo os que se realizam por meio de cargos públicos. Mas chegar a essas distinções entre atores e papéis não é fácil num sistema que ainda não conseguiu desmistificar-se e até hoje deseja ter ídolos, e resiste a abandonar velhas hierarquias e utopias políticas ultrapassadas. Ainda somos o país do “maior” disso ou daquilo e do “número 1″ nisso ou naquilo. Amamos as hierarquias que nos distinguem uns dos outros e nos situam como privilegiados, mas, simultaneamente, queremos também a igualdade e continuamos a ter o coração do lado dos pobres e dos oprimidos. As duas mãos, como o papel e o ator, ainda não se encontraram.

No fundo, distinguir pessoas de papéis é poder ver com clareza os sacrifícios impostos pelos cargos, pois se eles são do povo, é a coletividade quem os controla. Mas não é fácil fazer isso sem perder de vista o modo pelo qual os atores deles se apropriam. Pois se o papel coage, obrigando a enxergar deveres, os atores que neles entram quase sempre só querem ver os seus privilégios. Esse encontro do papel (que não nos pertence) e do ator que cada um de nós pode ser conduz à tal “ética” e ao tal “bom-senso”, tão em pauta neste Brasil que vai ficando cada vez mais igualitário.

Hoje, o mal-estar da política está justamente nessa apropriação de cargos públicos sem uma discussão apropriada dos laços que devem unir os atores aos cargos públicos (ou coletivos) que ocupam. A democracia depende dessa conta de chegar, pois os cargos são instrumentos da coletividade e não marionetes de partidos e de pessoas.

Mas não se precisa ir muito longe para ver que o diálogo entre atores que abusam do papel e o papel que precisa englobar os atores é o grande drama de todo processo democrático igualitário. Pois, o que é um caudilho ou um ditador senão um sujeito que se apossou do papel de presidente da República, violando-o quando o interpreta do ponto de vista dos seus privilégios e jamais dos seus deveres? No Brasil, a eleição ainda é um mecanismo que sanciona mais o abuso do ator no papel do que o seu contrário.

Aliás, em certos países, quem ocupa um cargo público tem a sua vida pessoal controlada. A entrada num cargo do Estado obriga a redefinir os laços com a sociedade, pois, como dizia Tom Paine em pleno século 18, a sociedade é positiva e diz sim; ao passo que o Estado é sempre controlador, disciplinado e negativo, dizendo não. Um vai na nossa direção com suas amizades e seus compadrios; o outro, porém, com seus impostos e obrigações, vai contra nós. A democracia é um cabo de guerra entre essas duas tendências. Tensão para a qual não há leis ou códigos, mas apenas bom-senso e senso de limites.

Daí o elo importante entre saber ser um “ex” quando se ocupa certos cargos. A demanda de transparência (e de consciência) entre o mundo público e o universo privado – entre a casa e a rua – é um tema complexo e delicado, mas fundamental numa sociedade que adotou o ideal da igualdade e da democracia como guia ou causa perdida. Essas causas, acrescento com Frank Capra, pelas quais vale a pena viver e lutar.

Não é preciso fazer um curso de sociologia para compreender que nos comunicamos com o mundo por meio de personagens que nos são impostos por nosso grupo social. Tomamos consciência da vida através de papéis. Primeiro, como crianças, como pessoas que pertencem a uma casa onde passamos a jovens. Em seguida, viramos pais e pessoas maduras, prontas a serem julgadas por aqueles que nos criaram ou viram crescer. Finalmente, viramos velhos com a obrigação de tudo compreender, tudo dar e segurar tudo que nos atinge. Após esse tango interminável, parecido com uma masturbação sem orgasmo, somos aposentados e – doentes ou fisicamente exaustos – morremos e viramos aquele complexo “ex” eterno que cabe aos mortos.

Não é fácil ocupar papéis exclusivos e importantes como o de presidente da República numa sociedade cujo credo oscila entre leis e pessoas como solução para seus problemas. Pois todo presidente, sendo uma pessoa e tendo o poder de legislar, tem as duas capacidades. Por isso, figuras como Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso são raras. O primeiro, porque colocou o papel acima de sua pessoa e buscou consolidar instituições em vez de seguir o caminho do populismo. Hoje ele repousa na glória de sua vida produtiva. O segundo porque revela ao País que o “ex-presidente” representa o Brasil na sua integridade de sociedade e de Estado. Como um “ex” fora do sistema de politicagem, ele faz Política com “p” maiúsculo. Pois sabe que a Presidência não é de ninguém e, assim, demonstra pelo exemplo que ela deve ser preservada de causas menores, devendo ser tão grande quanto o povo a quem deve honrar e servir.

23/06/2011

às 13:34 \ Feira Livre

Festa macabra

ARTIGO PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA QUINTA-FEIRA

Demétrio Magnoli e Adriano Lucchesi

“Há uma percepção crescente de que a aritmética da Copa do Mundo é um tanto instável”, escreveu o Times de Johannesburgo um mês depois do triunfo da Espanha nos campos sul-africanos. “Temos estádios em excesso para nosso próprio uso. Talvez devêssemos exportar estádios para o Brasil, que fará sua Copa do Mundo?”. A constatação estava certa; a sugestão, errada. O Brasil, país do futebol, terá o mesmo problema que a África do Sul, país do rúgbi. Aqui, como lá, a festa macabra da Fifa é um sorvedouro implacável de recursos públicos.

Mafiosos usam a linguagem da máfia. Confrontado com evidências de corrupção na organização que dirige, Sepp Blatter avisou que tais “dificuldades” seriam solucionadas “dentro de nossa família”. As rendas de radiodifusão e marketing da Fifa ultrapassaram os US$ 4 bilhões no ciclo quadrienal encerrado com a Copa da África do Sul. O navio pirata já se moveu para o Brasil, onde a Fifa articula com seus sócios a rapina seguinte.

O brasileiro João Havelange planejou a globalização do futebol, expandindo a Copa para 24 seleções, em 1982, e 32, em 1998. Blatter concluiu a transformação, rompendo a regra de rodízio de sedes entre Europa e América. Como constatou a Sports Industry Magazine, sob um processo milionário de licitação do direito de hospedagem, as ofertas nacionais assumiram “a forma de promessas de mais e mais pródigos novos estádios para os jogos e novos hotéis luxuosos para uso dos dirigentes da Fifa e de fãs endinheirados”. A Copa é um roubo: as despesas são pagas com dinheiro público, de modo que a licitação “constitui, de fato, um esquema de extração de renda concebido para separar os contribuintes de seus tributos”.

O saque decorre da conivência de governos em busca de prestígio e de negociantes em busca de oportunidades. Na Europa a rapinagem é circunscrita por uma cultura política menos permeável à corrupção e pela existência prévia de modernas infraestruturas hoteleiras, esportivas e de transportes. Por isso a Fifa seleciona seus próximos alvos segundo critérios oportunistas de vulnerabilidade. Encaixam-se no perfil África do Sul e Brasil, países emergentes que ambicionam desfilar no círculo central do mundo, assim como a semiautoritária Rússia, sede de 2018, e a monarquia absoluta do Qatar, que bateu a Grã-Bretanha na disputa por 2022.

Antes das Copas, consultores associados às redes mafiosas produzem radiosas profecias sobre os efeitos econômicos do evento. Depois, quando emergem os resultados efetivos, eles já estão entregues à fabricação de ilusões no porto seguinte. A África do Sul gastou US$ 4,9 bilhões em estádios e infraestruturas, que gerariam rendas imediatas de US$ 930 milhões derivadas do afluxo de 450 mil turistas, mas só arrecadou US$ 527 milhões dos 309 mil turistas que de fato entraram no país.

O verdadeiro legado positivo da Copa de 2010 foi a mudança de paradigma no sistema de transporte público urbano, pela introdução de ônibus, em corredores dedicados, e do Gautrain, trem rápido de conexão com o aeroporto de Johannesburgo. Os ônibus enfrentavam selvagem resistência dos sindicatos de operadores de peruas, superada pelo imperativo urgente do evento esportivo. O Gautrain serve exclusivamente à classe média, com meios para adquirir bilhetes cujos preços excluem a população pobre. Mas o argumento de que sem uma Copa, não se realizariam obras necessárias de mobilidade urbana equivale a uma confissão de incompetência da elite dirigente.

Eventos esportivos globais tendem a gerar ruínas urbanas, mesmo em países mais inclinados a zelar pelo interesse público. Japoneses e sul-coreanos ainda subsidiam a manutenção das arenas da Copa de 2002. As dívidas contraídas para as obras da Olimpíada de Atenas e da Eurocopa de 2004 aceleraram a marcha rumo à falência da Grécia e de Portugal. A África do Sul incinerou US$ 2 bilhões na construção e reforma das dez arenas da Copa. Todas, com exceção do Soccer City, de Johannesburgo, usado para jogos de rúgbi e shows, figuram hoje como monumentos inúteis, conservados pela injeção de dinheiro público. A Cidade do Cabo paga US$ 4,5 milhões ao ano pela manutenção da arena de Green Point, erguida ao custo fabuloso de US$ 650 milhões e usada apenas 12 vezes depois da Copa. Lá se desenrola um melancólico debate sobre a alternativa de demolição do icônico estádio, emoldurado pela magnífica Table Mountain.

O Brasil decidiu ultrapassar a África do Sul. Aqui, serão 12 arenas, a um custo convenientemente incerto, mas bastante superior aos dispêndios sul-africanos. As futuras ruínas já drenam vultosos recursos públicos, mal escondidos sob as rubricas de empréstimos do BNDES e subsídios estaduais e municipais. O governo paulista prometeu não queimar o dinheiro do povo na festa macabra da Fifa, mas o alcaide Gilberto Kassab assinou um cheque público de US$ 265 milhões destinado ao estádio do Corinthians. São 16 centros educacionais, para 80 mil estudantes, sacrificados por antecipação no altar de oferendas às máfias da Copa. O gesto de desprezo pelas necessidades verdadeiras dos contribuintes reproduz iniciativas semelhantes adotadas, Brasil afora, por governos estaduais e municipais.

Segundo a lógica perversa do neopatriotismo, a Copa é um artigo de valor só mensurável sob o prisma da restauração do “orgulho nacional”. De fato, porém, a condição prévia para a Copa é a cessão temporária da soberania nacional à Fifa, que assume funções de governo interventor por meio do seu Comitê Local. O poder substituto, nomeado por Blatter, já obteve o compromisso federal de virtual abolição da Lei de Licitações e pressiona as autoridades locais pela revisão das regras de concorrência pública. Malemolentes, ao som dos acordes de um verde-amarelismo reminiscente da ditadura militar, cedemos os bens comuns à avidez dos piratas.

20/06/2011

às 13:15 \ Feira Livre

O poeta Yves Bonnefoy e o escritor Anthony Daniels estão entre os destaques da sétima edição de Dicta&Contradicta

O deus ali errante na manhã primeira,
Que teria esperado da palavra?
Ele nada mais fez que juntar pedras,
São montes que se vêem nas esquinas.

Veio o segundo dia. E a criança surgiu
Que, hesitante, recolhe um ramozinho
Pra oferecê-lo, infinito, com mão tendida,
A outros que, no jogo, surpresos se calam.

Olham-no avançar, eles voltam-lhe as costas,
O céu estrepitoso atravessa o arvoredo,
Seu fogo abate-se, onde eu ouvia risos.

Ao final do outro dia o mundo cessa,
O que ser poderia não será,
A noite toda chove até o fundo da relva.

Escrito por Yves Bonnefoy, um dos maiores poetas da França, o poema “A criança do segundo dia”, reproduzido acima, foi traduzido pelo premiadíssimo escritor brasileiro Mario Laranjeira. Extraídos da obra mais recente do poeta ─ “Raturer outre” ─ e inéditos no Brasil, os versos integram a seção Poemas traduzidos da sétima edição da revista Dicta&Contradicta, que será lançada nesta segunda-feira, 20 de junho. A revista também traz uma entrevista exclusiva com Bonnefoy.

Além do escritor francês, a sétima edição de Dicta&Contradicta apresenta um artigo do inglês Anthony Daniels sobre Cesare Battisti. Depois de ler toda a obra do italiano, Daniels constatou que Battisti confessa o assassinato de um agente carcerário num dos capítulos do livro “Les habits d’ombre”.

Lançada em 10 de junho de 2008 pelo Instituto de Formação e Educação, a Dicta&Contradicta é uma revista semestral que reúne artigos e resenhas de intelectuais sobre temas como ética, cultura e artes. Todas as edições comportam seções de filosofia, humor, análise de poemas, perfis, resenhas de livros e artigos breves sobre música, artes plásticas e cinema.

O lançamento da 7ª edição de Dicta&Contradicta será marcado por uma conversa com o maestro Roberto Minczuk, diretor artístico da Orquestra Sinfônica Brasileira, que falará sobre a mediocridade na condução de questões culturais no Brasil.

Evento de lançamento do sétimo número de Dicta&Contradicta

Local: Teatro Eva Hertz – Livraria Cultura Conjunto Nacional
Endereço: Avenida Paulista, 2073. Tel.: 11 3170-4033
Quando: segunda-feira, 20 de junho de 2011, às 19h30

As entradas (duas por pessoa) serão distribuídas no dia do evento, a partir das 18 horas. As vagas são limitadas.

19/06/2011

às 17:01 \ Feira Livre

‘E a malandragem?’, um artigo de José Roberto Guzzo

ARTIGO PUBLICADO NA EDIÇÃO DE VEJA DESTA SEMANA

José Roberto Guzzo

O Brasil vem se tornando, nos últimos anos, uma espécie de paraíso mundial da tapeação. O grande responsável por mais essa realização nacional é o governo, ou quem manda no governo, com desenvolvimento de técnicas cada vez mais avançadas e eficientes para convencer a opinião pública de que coisas que todo mundo está vendo não existem ─ ou que existem coisas que ninguém consegue ver. Isso ajuda, e muito, todas as vezes que aparece uma história feia, que o governo quer esconder, ou quando ele decide fabricar uma história bonita, para mostrar méritos que não tem. Quase sempre a plateia acredita na mágica, bate palmas e diz, nas pesquisas de popularidade, que o governo é ótimo ─ ou, então, não mostra maior interesse no assunto nem nas fábulas que a propaganda oficial está lhe contando. Não acredita nem desacredita; apenas não liga. O resultado é que o Brasil, hoje em dia, se transformou num dos países onde é mais fácil para o governo passar qualquer tipo de conto do vigário no público em geral.

E a célebre “malandragem brasileira”, onde foi parar? O brasileiro, segundo rezam as nossas lendas, mitos e folclore, gosta de se imaginar no papel do sujeito esperto. (O locutor esportivo Galvão Bueno, homem de reconhecida competência em identificar com exatidão o que o público gosta de ouvir, diz que todo jogador da Seleção brasileira de Futebol, do goleiro ao ponta-esquerda, é “malandro”, sobretudo quando o Brasil está ganhando; é um dos seus maiores elogios.) Mas, se o brasileiro é tão esperto assim, por que está sempre no papel do otário em todo relacionamento que tem com o governo? Por que o ex-presidente da República, por exemplo, tem certeza de que vão acreditar nele quando diz que o mensalão, um dos casos de corrupção mais bem comprovados da história brasileira, simplesmente não existiu? Deveria acontecer o contrário, justamente: o povão, com todo o seu jogo de cintura, não se deixaria enganar por uma conversa dessas. A explicação para o fenômeno pode ter sido sugerida trinta anos atrás, talvez pelo samba Homenagem ao Malandro, de Chico Buarque de Hollanda. O compositor nos conta, ali, que quis fazer uma homenagem “à nata da malandragem”; foi então à Lapa, mas perdeu a viagem, porque descobriu que “aquela tal malandragem não existe mais”. A triste verdade, diz a canção, é que o malandro, agora, é um pobre coitado que “trabalha, mora lá longe e chacoalha num trem da Central”. Em compensação, esclarece o compositor, “já não é normal o que dá de malandro regular, profissional, malandro com aparato de malandro oficial”. Este aí, sim, conclui o samba: “Nunca se dá mal”. Os malandros trocaram de lugar, então? Deve ser isso.

O fato é que vão se multiplicando, em ritmo cada vez mais rápido, e com audácia cada vez maior, as histórias milagrosas para explicar todo tipo de coisa que não tem explicação. O clima, no fim, acaba ficando cômico. Uma das demonstrações mais recentes disso foi dada pelo ex-presidente Lula ─ um dos catedráticos na matéria, sem dúvida. Na sua atual carreira de palestrante para grandes empresas, que a cada negócio fechado o faz subir mais um degrau no mundo dos milionários brasileiros, Lula fez uma conferência para a Tetra Pak, multinacional do ramo de embalagens; recebeu, pelas informações disponíveis, 200 000 reais. Não se trata, Deus nos livre, de “consultoria” do tipo que acaba de levar o ex-minsitro Antonio Palocci à sua segunda ruína; é só palestra, certo? Mas acabou surgindo, nesse caso da Tetra Pak, uma questão enjoada: a empresa pediu ao ex-presidente que conseguisse uma redução de impostos para as embalagens de leite, e ele se comprometeu a tratar do assunto “com o companheiro Mantega”. Estaria certa uma coisa dessas ─ um ex-presidente receber dinheiro de uma empresa e advogar para que ela pague menos imposto? Perguntado, Lula disse que estava batalhando para “levar leite de qualidade para a casa das pessoas”. Ou seja, ele pede a todos que acreditem no seguinte: seu real interesse não foi receber os 200 000 da Tetra Pak, nem atender ao pedido da empresa; o que realmente queria era ajudar o povo a comprar leite. Qual é o problema? Alguém aí vai duvidar?

Palocci, como se sabe, caiu pelo conjunto da obra, mas um dos seus piores momentos foi meter-se numa história de devolução de impostos para uma construtora. Deve haver alguma diferença com o caso da Tetra Pak, claro. Qualquer hora dessas talvez nos digam qual é.

16/06/2011

às 18:40 \ Feira Livre

‘Dilma pisa na bola’, um artigo de Juremir Machado da Silva

ARTIGO PUBLICADO NO CORREIO DO POVO DESTA QUARTA-FEIRA

Juremir Machado da Silva

Todo mundo, cedo ou tarde, pisa na bola. Dilma Rousseff pisou cedo. Não falo da escolha de Antônio Palocci para a Casa Civil. Nem do fato que ele estava mais interessado em apartamento. Também não falo da sua escolha da truculenta Ideli Salvatti para a função de negociadora do governo. Algo como colocar um elefante para atender a uma loja de cristais. Com Dilma, Ideli e Gleisi, inauguramos a República das Sargentonas. Não é isso. Refiro-me à recusa da presidente em receber a iraniana Shirin Ebadi, prêmio Nobel da Paz de 2003, que esteve em Porto Alegre nessa segunda-feira palestrando no ciclo Fronteiras do Pensamento. Shirin tem enfrentado o machismo religioso do islamismo e desafiado os aiatolás e o ditador de plantão no Irã, o obtuso Ahmadinejad.

Pisou mais uma vez na bola ao dar uma desculpa esfarrapada para a sua atitude. Como presidente, só receberia chefes de Estado e de governo. Conversa fiada. Recebeu a Shakira e o pessoal do U2. Presidente recebe qualquer um. Tem tempo para vestir boné disso e daquilo. Trata-se de uma função simbólica. Cada gesto sinaliza isto ou aquilo. Dilma fez de conta que estava adotando uma política diferente daquela praticada por seu tutor, Lula, em relação ao Irã. Deu discurso bonito fora de casa. Foi fogo de palha. Já amarelou. O estilo Dilma de governar começou a encolher. Na primeira encrespada, chamou Lula para apagar o fogo e botar ordem na casa. A mulher famosa por falar grosso acabou com um fio de voz. Ficou bem feio.

A visita de Shirin Ebadi, mulher corajosa, defensora dos direitos humanos, crítica implacável de práticas como o apedrejamento de adúlteras teria de ser saudada com fogos de artifício. Ela deveria ser recebida com tapete vermelho no Planalto. Melou. Ebadi não subirá a rampa. Nessa, quem desce é Dilma. Shirin tem dito que os direitos humanos não param de regredir no Irã. Os fundamentalistas atacaram a sua casa e picharam insultos. Pelo jeito, a moça ainda tem ilusões. “Se ela defende os direitos humanos, me receberá”, declarou, certa de que Dilma Rousseff não pipocaria. Em bom português, deu com os burros na água. Razões de Estado levaram Dilma a pisotear as razões do humanismo. Assim vai a coisa. O pragmatismo fala alto.

Shirin Ebadi teria de contentar-se em conversar com Marco Aurélio Garcia, assessor da Presidência para Assuntos Internacionais. Ele poderia tentar convencê-la de que Ahmadinejad é um bom sujeito. Dilma Rousseff vai ficar devendo essa. Cada presidente tem direito a certo número de pisadas na bola. No ritmo em que a coisa vai, Lula já está fazendo embaixadinhas para voltar em 2014. Eu ainda acredito que a presidente vá virar o jogo. Aposto muito mais nela do que no Falcão. Só que estou cansado de ver gol contra. Quero o Inter e Dilma jogando no ataque e não perdendo chances claras de marcar posição. Entre nós, nessa, Dilma nos deixou de cara no chão. Vai ver que entendi tudo errado. Certamente é intriga da mídia. Ou a cinza vulcânica é que atrapalhou.

15/06/2011

às 17:00 \ Feira Livre

‘Fantasia e realidade’, um artigo de Marco Antonio Villa

ARTIGO PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA QUARTA-FEIRA

Marco Antonio Villa

O primeiro quadrimestre da Presidência Dilma Rousseff dava a entender que teríamos um governo novo. Parecia que ela queria, discretamente, libertar-se do seu criador. O processo brasileiro tão clássico da rebelião da criatura contra o seu criador iria se repetir. Setores da mídia e da política nacional passaram a apostar nesse rompimento. Para isso era essencial realçar os méritos da presidente, sua competência, sua pertinácia e seu tirocínio. Tudo o que ela parecia fazer era motivo de largos elogios.

Porém, mais uma vez, a realidade sobrepôs-se à fantasia. Primeiro, com a inoperância governamental. Nenhum projeto do governo federal está com o cronograma em dia. Os tão falados “gargalos” não só permanecem, como foram ampliados. A equipe ministerial é de uma incapacidade raramente vista na História republicana brasileira. Ou os ministros são omissos ou, quando são notados, os motivos são as constantes trapalhadas. A presidente acabou ficando perdida em meio à burocracia oficial e demonstrou uma enorme dificuldade gerencial, sem saber destacar o que era relevante e fundamental para o País das questões comezinhas do cotidiano administrativo. Confundiu seriedade com minúcia digna de um dono de armazém. Dessa forma, o governo está paralisado, somente o que funciona é o que foi herdado da gestão anterior. E, claro, com tempo de validade restrito. Afinal, a conjuntura mundial vai mudando e novos desafios são apresentados ao Brasil.

Nestes cinco meses, a presidente ainda não conseguiu apresentar ao País o que pretende fazer. Ela administrou o varejo, ampliou o número de Ministérios (como se a quantidade dos então existentes fosse pequena) e requentou programas já conhecidos. As propostas apresentadas durante a recente campanha eleitoral foram arquivadas. Dessa forma, evidentemente, não foi possível dar a sua cara ao governo. E não pode dizer que encontrou dificuldade com a oposição.

Politicamente, deve ser recordada a crise entre o governo e o PMDB. A razão mais explícita foi a votação do Código Florestal. O então ministro-chefe da Casa Civil, Antônio Palocci, bateu boca com o vice-presidente da República, Michel Temer. Coisa ao estilo de um fim de feira, na hora da xepa, e não de um governo que se apresentava como sólido, com uma base congressual consolidada. A presidente confundiu energia presidencial com indisposição para negociação e isolamento com dedicação administrativa.

A inexperiência política colaborou para aumentar a tensão. Quando foi obrigada a chamar o ex-presidente Lula para apagar o incêndio, resolveu um problema imediato, mas criou outro muito maior. Desvelou para o Congresso Nacional que não consegue resolver uma crise rotineira da base. Divergências são comuns entre Executivo e Legislativo. Querer cobrar um comportamento de absoluta obediência e subserviência dos partidos da base leva necessariamente ao enfrentamento e quem perde – na atual composição de forças – é o Executivo. Tanto que o PMDB acabou saindo como vencedor.

A demora para solucionar a crise gerada pelas denúncias que envolveram o ex-ministro Palocci reforçaram a sensação de que Dilma pode estar caminhando para um processo de sarneyzação da Presidência. E sem a perspectiva de um Plano Cruzado. Convenhamos que é muito cedo. Mal completou cinco meses de mandato. Para piorar ainda mais, só falta o tema da sucessão, em 2014, começar a ocupar o noticiário político. Se isso ocorrer, Dilma estará seguindo os passos de Epitácio Pessoa. Eleito em 1919, meses depois o assunto não era mais o seu governo, mas a sucessão presidencial, que ocorreria somente em 1922. O próprio Estadão criou uma seção fixa do jornal para tratar do tema.

É evidente que, no caso Palocci, Dilma estava com as mãos atadas. O ex-ministro fazia parte da cota pessoal de Lula. Ela tinha, primeiro, de negociar com o padrinho, antes de demitir o afilhado. Mas o padrinho endureceu e tentou manter Palocci a qualquer custo. A estratégia lulista de aguardar o parecer – já sabido – do procurador-geral da República foi um fracasso. O fulcro da questão não era legal, mas principalmente ético. E aí apenas restou aguardar a solicitação de demissão.

A designação de uma figura politicamente anódina para a Casa Civil tende a congelar a crise política. Era a hora de nomear alguém de peso, que permitisse dar novo fôlego ao governo. Mas a presidente ficou temerosa de não ter o domínio absoluto da Casa Civil. E é justamente essa obsessão, a de controlar tudo o que acontece no Palácio do Planalto, que acaba enfraquecendo a sua ação. Dilma não entendeu que um governo democrático tem de delegar funções e autoridade. A concentração do mando na presidente não é demonstração de força, muito ao contrário. Mostra fraqueza e desconfiança no desempenho dos seus ministros.

As últimas quatro semanas confirmaram o que era evidente para qualquer observador com um mínimo de criticidade. O governo é frágil, tem uma base congressual gelatinosa, comunica-se muito mal com a população e vive ainda com base no prestígio adquirido pela gestão presidencial anterior. Ninguém consegue identificar um programa governamental que esteja caminhando bem e represente a nova administração. E as pesquisas de opinião devem demonstrar, daqui para a frente, o crescimento do sentimento de frustração entre seus eleitores.

Tudo indica que o governo ganhará novo fôlego nas próximas semanas. A ministra da Casa Civil deverá ser momentaneamente transformada numa grande especialista em administração pública. Será elogiada pelos motivos mais banais, típicos de um país onde não há debate político. Logo a máscara vai cair. Novamente o imperativo da realidade política vai se impor. E a crise tende a continuar, ora mais aguda, ora mais amena. O problema é que governo não tem um projeto para o País.

10/06/2011

às 12:39 \ Feira Livre

‘Lição de pornopolítica’, por Nelson Motta

ARTIGO PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA SEXTA-FEIRA

Nelson Motta

“Quando atacam um companheiro nosso, temos que defendê-lo. Nem que depois a gente o chame num canto e diga que ele está errado.”

A frase poderia ser de um chefão mafioso para a quadrilha, ou de um lobo para a matilha, mas é a mais perfeita expressão do conceito lulista de ética, que se aplica tanto a Delúbio e Zé Dirceu como a Sarney, Renan e Severino.

Claro que depois Lula os chamou num canto e disse que eles estavam errados, nós sabemos como Lula é rigoroso. Na ética companheira o mais importante não é fazer errado, é não ser flagrado. Falar com a língua presa não é nada, o problema é ter preso o rabo.

Assim como os livros do MEC ensinam que 10 – 7 = 4, e que falar errado é só um preconceito linguístico, o lulismo trouxe conceitos éticos inovadores, como o que aceita o roubo e a corrupção, desde que seja para o partido. Mas, se for em causa própria, basta chamar o partido para defender o companheiro e salvá-lo da cadeia. Depois será chamado de lado para ouvir que estava errado.

No Brasil pós-Lula ninguém se envergonha de ser eleito para defender os interesses do País e dos seus eleitores ─ e também dar consultas para empresas privadas que só têm interesse em seus lucros.

Mas não é ilegal, gritam. É apenas imoral. Em países sérios seria, mas aqui nunca será, porque os deputados jamais vão legislar contra seus próprios interesses. É só uma afronta a homens e mulheres honestos que lutam para ganhar a vida e pagar impostos para sustentar essa gentalha. O traficante de influência é pior do que o de drogas, porque vende o que não lhe pertence.

Mesmo assim eles não conseguem viver com o salário de R$ 25 mil ─ maior do que o de parlamentares americanos e japoneses ─ e por isso precisam manter outro emprego, como Palocci e outros “consultores”. São deputados part time, que servem mais a seus clientes do que ao País.

Com todo respeito pela minoria que ainda resiste, atualmente a deputança parece apenas uma boquinha meio período, um trampolim para subir na vida e nivelar por baixo. Como diz a velha piada, mais atual do que nunca, eles estão fazendo na vida pública o que fazem na privada.

03/06/2011

às 17:09 \ Feira Livre

‘Proposta para a educação’, um artigo de Fernando Reinach

TEXTO PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA QUINTA-FEIRA

Fernando Reinach

Você lembra o número do telefone de seu dentista? Onde estão suas músicas preferidas? E a história de seu país? Essas informações estão fora de seu corpo, talvez no seu telefone celular, nos CDs e nos livros que enchem as estantes.

Estamos tão acostumados a guardar, buscar e utilizar informações armazenadas em instrumentos de memória extracorpórea que é quase impossível imaginar como seria nossa existência sem essas tecnologias. Mas a realidade é que, durante a maior parte da existência do Homo sapiens, o único instrumento de que dispúnhamos para armazenar informação era nossa memória e a memória de nossos conhecidos.

O processo de acúmulo de informações surgiu quando nossos ancestrais começaram a se comunicar, talvez 1 milhão de anos atrás. Antes, a informação acumulada por uma pessoa desaparecia com sua morte.

O que para nós é difícil de compreender é que durante 995 mil desses últimos 1 milhão de anos toda a informação acumulada por nossa espécie estava armazenada exclusivamente em nossa própria memória. Não havia instrumentos de memória extracorpórea, a escrita não tinha sido inventada. Os desenhos e outras formas de arte, apesar de úteis, são incapazes de estocar muita informação. Faz menos de 5 mil anos que aprendemos a escrever e aos poucos pudemos retirar de nossa memória parte da responsabilidade de estocar a informação coletada pela humanidade. Surgiram os livros, depois os discos e os computadores.

É quase impossível imaginar como foi nossa relação com a memória cerebral durante centenas de milhares de anos. Imagine um mundo onde qualquer informação esquecida não pudesse ser recuperada. Foi neste ambiente que nosso cérebro evoluiu e foi moldado pelo processo de seleção natural. A educação de um indivíduo obrigatoriamente passava pela tarefa de memorizar as informações acumuladas por seus antepassados. As histórias, as músicas, os alimentos, como caçar e como tratar doenças. Cada indivíduo, antes de se considerar educado, deveria memorizar todas estas informações. Educar era antes de tudo lembrar.

Com o desenvolvimento da escrita, as tradições orais foram colocadas no papel e cuidadosamente replicadas. Mas só muito recentemente a prensa de Gutenberg se espalhou pela Europa e os livros puderam chegar a grande parte da população. Foi nesta época de transição, entre o uso exclusivo da memória e a introdução dos instrumentos de memória extracorpóreos, que surgiram as escolas. A disponibilidade da informação nesses instrumentos ainda era limitada e a educação tinha como objetivo “copiar” no cérebro de cada indivíduo grande parte da informação acumulada pela humanidade. Mas, enquanto esse sistema de ensino se espalhava e as crianças estavam memorizando acidentes geográficos, por exemplo, o aprimoramento dos mecanismos de memória extracorpórea permitiu que a quantidade de informação acumulada crescesse exponencialmente.

Nosso sistema de educação estava condenado ao fracasso antes de poder se espalhar. Hoje é impossível ensinar ou aprender tudo o que a humanidade sabe. Os anos de estudo se prolongam e a quantidade de informação a ser ensinada se multiplica. A especialização, grande esperança do século 20, inibe a criatividade, condena as pessoas a viverem em um microcosmo e acirra conflitos entre habitantes de cada microcosmo. São agricultores que não entendem o ecossistema, ecologistas que não entendem a evolução. E, pior, pessoas que não sabem aprender fora da escola.

Talvez seja a hora de pensar numa mudança radical no processo de educação. Ele não deve ter como objetivo copiar a informação para nosso cérebro. Da mesma maneira que deixamos de decorar o número do telefone do dentista, o objetivo da educação deveria ser capacitar as pessoas a explorar, capturar, selecionar, julgar e utilizar as informações acumuladas nos mecanismos de memória extracorpórea. Deveríamos também ensinar as pessoas a organizar, sistematizar e depositar informações nesses mecanismos extracorpóreos, tanto individualmente quanto coletivamente. As informações utilizadas durante o ensino seriam somente exemplos que permitiriam aos alunos aprender a navegar pelo mar de informações. Aos 21 anos deixaríamos para sempre o ambiente escolar, cada jovem diferente de todos os outros, mas todos capazes de estudar e aprender durante o resto da vida.

02/06/2011

às 6:08 \ Sanatório Geral

Biografia incompleta

“Tive a oportunidade de conhecer o militante Palocci, fundador de muitos diretórios do PT na região de Ribeirão Preto. Vi o dirigente do Sindicato dos Médicos organizar a CUT e lutar pelos direitos dos trabalhadores. Presenciei um vereador e deputado dedicado e visionário, um prefeito que entendeu a necessidade de inovar nas políticas públicas, referência para o Brasil”.

Edinho Silva, presidente do PT paulista, em artigo na Folha, evitando completar a biografia de Antonio Palocci para não confessar que também viu um ministro que estuprou a conta bancária do caseiro e um consultor milagreiro que multiplicou o patrimônio por 20 em quatro anos.


 

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