13/08/2009
às 17:37 \ Direto ao PontoOs sherloques que não investigam continuam zombando do país
Milhares de atos secretos continuam ocultos nas catacumbas do Senado, avisou a coluna no título de um post de 23 de julho. A informação foi transmitida por um funcionário graduado da Casa do Espanto, atônito com o cinismo dos pais-da-pátria: nas contas oficiais, os delitos do gênero não passavam de 663 (depois reduzidos a 511 pelo presidente José Sarney). Nesta quinta-feira, o primeiro-secretário Heráclito Fortes prometeu instalar uma comissão de inquérito ─ mais uma ─ para analisar os 468 atos secretos que apareceram ontem.
Nesse ritmo, nenhum pecador estará vivo quando as investigações terminarem. Mas eles preferem que acabem enquanto estão muito vivos. Instado a explicar como conseguiu o novo lote driblar o arrastão que deveria capturar todos os atos secretos, o detetive aprendiz tratou de colocá-los sob suspeita com a mensagem cifrada: ”Considero sabotagem, ou até mesmo molecagem, por parte de servidores que se acham fundamentalistas e acreditam que ainda vão voltar ao poder”.
Teria sido mais uma do Agaciel?, quis saber um jornalista. Heráclito ficou excitado com a chance de atribuir ao onipresente Agaciel Maia, ex-diretor-geral do Senado, crimes praticados por uma quadrilha de bom tamanho ─ liderada por senadores. ”Não gosto de fulanizar, confirmou fingindo não confirmar. “Mas, com certeza, foram pessoas de gestões passadas tentando desestabilizar a atual gestão”. Não existem “gestões passadas”. Nomeado por José Sarney, Agaciel ocupou o cargo por 15 anos.
O funcionário do Senado que revelou a imensidão de delinquências camufladas detalhou o modo de agir do bando. Vale replay: “Desde 2000, os atos administrativos de pessoal não são impressos, mas apenas disponibilizados em formato PDF na intranet do Senado. Todo dia é disponibilizado um Boletim Administrativo de Pessoal. Os chamados atos secretos são atos assinados pelas autoridades e disponibilizados muito posteriormente, depois de ficarem meses ou anos sem a devida inserção na intranet”. Essa é a primeira etapa da pilantragem. O golpe é concluído com a mágica da data retroativa.
“Quando finalmente inseridos”, informa o funcionário, “não aparecem no boletim do dia em que ocorre a inserção, sempre muito mais tarde, mas num ‘boletim suplementar’ com a data em que deveriam ter sido disponibilizados, como a lei exige. Quem acessa a intranet é confrontado com centenas de datas em que são exibidos tanto o boletim de rotina quanto um suplementar. Se alguém acessar a data de 11 de maio de 2004, por exemplo, encontrará os dois boletins, mas não terá como saber se o suplementar foi inserido em 11 de maio de 2004, em dezembro de 2006 ou ontem”.
Não é difícil implodir esse monumento ao pai-da-pátria criminoso, insistiu o post de 23 de julho. Basta uma auditoria que mereça tal nome no Prodasen, órgão do Senado responsável pela intranet. O sistema de informática registra o instante em que cada documento foi incluído na intranet. É só comparar a data verdadeira com a que aparece no boletim suplementar.
Em vez de ficar inventando conspirações de araque, o senador Heráclito Fortes deveria decorar o parágrafo anterior e cumprir seu dever. O Brasil está farto de conversa fiada.
Tags: Agaciel Maia, atos secretos, Heráclito Fortes, José Sarney







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