Coluna do

Augusto Nunes

Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido.
E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido.

Posts com a tag ‘Agaciel Maia’

O País do Carnaval está sem tempo para pensar em escândalos

23 de dezembro de 2009

castelo

Em fevereiro deste ano, logo depois de encerrado o recesso parlamentar, o país foi surpreendido com a descoberta, no interior de Minas Gerais, de um castelo de deixar rubro de inveja qualquer duque da Inglaterra: 36 suítes - uma delas ocupando três andares de uma torre estilo Rapunzel -, banheiros forrados com mármore, piscinas, lagos, saunas, elevadores, adega para 8.000 garrafas de vinho e incontáveis requintes adicionais. O dono da aberração histórica e arquitetônica era Edmar Moreira, corregedor da Câmara dos Deputados.

Aturdido com o monumento ao absurdo de R$ 25 milhões que o Barão da Roça esquecera de incluir na declaração de imposto de renda, o Brasil ficou ainda mais espantado ao saber, em março, que Edmar Moreira detinha o recorde parlamentar da gastança com segurança particular. O serviço, encomendado a empresas pertencentes ao próprio congressista, era pago com o dinheiro da verba indenizatória - afago mensal de R$ 15 mil a que cada um dos 513 deputados têm direito para despesas feitas nos Estados de origem.

O caso foi empurrado para fora das primeiras páginas pela farra das passagens aéreas. Com voos de sobra e passageiros de menos, descobriu-se que os bilhetes privativos dos parlamentares eram usados por parentes e amigos, ou engordavam suas contas bancárias com a comercialização no mercado negro de pousos e decolagens.

Em junho, o Estadão fez a fila andar com a localização, nos labirintos do Congresso, de 300 atos secretos produzidos no Senado para a criação de cargos de confiança ─ vários deles reservados a familiares e aliados do presidente José Sarney. Um dos beneficiados foi o namorado da neta do senador maranhense. Ao escândalo somou-se o desvio de R$ 500 mil do empréstimo de R$ 1,3 milhão feito pela Petrobra à Fundação Sarney. O dinheiro acabou nas contas bancárias de  empresas fantasmas a serviço da Famiglia.

A série de reportagens foi interrompida pela censura imposta ao jornal pelo desembargador Dácio Vieira a pedido de Fernando Sarney, filho de José. Dias depois, foi divulgada a fotografia do doutor em censura ao lado do patriarca do clã maranhense na festa de casamento de Mayanna Maia, filha de Agaciel Maia. O país também ficou sabendo a extensão dos poderes do diretor-geral do Senado,  acusado de chefiar o esquema de corrupção no Senado. A mordaça, aprovada pelo Supremo Tribunal Federal, foi dispensada há dias pelo próprio Fernando Sarney, em respeito à liberdade de imprensa. Mas a censura só vai acabar depois do recesso do Judiciário.

Ainda perplexo com os vídeos estrelados pela Turma do Panetone, sob a direção de José Roberto Arruda, o país que presta acompanha a esperta caminhada do ultraje para longe dos holofotes da imprensa. É preciso arrumar espaço para a negociata da Sapucaí, tramada por deputados brasilienses, bicheiros do samba e Ongs carnavalescas.

2009 foi um ano de escândalos. Para sorte dos delinquentes, nesta época o Brasil esquece más notícias ainda mais rapidamente.  É hora de concentrar-se nos preparativos para o Carnaval.

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Candidato a mandante

5 de outubro de 2009

“Ele nos procurou tem umas duas semanas pedindo para que, se até junho do ano que vem não existir mais nenhum processo contra ele, que ele gostaria de submeter seu nome à convenção do partido para sair candidato a deputado federal”.

Divino Omar Nascimento, presidente do diretório regional de Brasília de um certo Partido Trabalhista Cristão, vulgo PTC, revelando que Agaciel Maia pretende trocar o emprego de executor de crimes pela carreira de mandante com imunidades parlamentares.

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A trinca não falha

3 de setembro de 2009

“Cargo de confiança é cargo de confiança. Os critérios técnicos são levados para o terceiro plano. É mais importante ter-se alguém de confiança do que um técnico inconfiável”.

Senador Papaléo Paes, tucano do Amapá a serviço da base alugada, internado no Sanatório Geral em 30 de julho graças à declaração reproduzida acima, avisando com mais de um mês de antecedência que para quem joga no time de José Sarney e Gilvan Borges a contratação da mulher de Agaciel Maia é só mais uma anotação no prontuário de brother do PCC.

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Os sherloques que não investigam continuam zombando do país

13 de agosto de 2009

Milhares de atos secretos continuam ocultos nas catacumbas do Senado, avisou a coluna no título de um post de 23 de julho.  A informação foi transmitida por um funcionário graduado da Casa do Espanto, atônito com o cinismo dos pais-da-pátria: nas contas oficiais, os delitos do gênero não passavam de 663 (depois reduzidos a 511 pelo presidente José Sarney). Nesta quinta-feira, o primeiro-secretário Heráclito Fortes prometeu instalar uma comissão de inquérito ─ mais uma ─ para analisar os 468 atos secretos que apareceram ontem.

Nesse ritmo, nenhum pecador estará vivo quando as investigações terminarem. Mas eles preferem que acabem enquanto estão muito vivos. Instado a explicar como conseguiu o novo lote driblar o arrastão que deveria capturar todos os atos secretos, o detetive aprendiz tratou de colocá-los sob suspeita com a mensagem cifrada:  ”Considero sabotagem, ou até mesmo molecagem, por parte de servidores que se acham fundamentalistas e acreditam que ainda vão voltar ao poder”.

Teria sido mais uma do Agaciel?, quis saber um jornalista. Heráclito ficou excitado com a chance de atribuir ao onipresente Agaciel Maia, ex-diretor-geral do Senado, crimes praticados por uma quadrilha de bom tamanho ─ liderada por senadores. ”Não gosto de fulanizar, confirmou fingindo não confirmar.  “Mas, com certeza, foram pessoas de gestões passadas tentando desestabilizar a atual gestão”. Não existem “gestões passadas”. Nomeado por José Sarney, Agaciel ocupou o cargo por 15 anos.

O funcionário do Senado que revelou a imensidão de delinquências camufladas detalhou o modo de agir do bando. Vale replay: “Desde 2000, os atos administrativos de pessoal não são impressos, mas apenas disponibilizados em formato PDF na intranet do Senado. Todo dia é disponibilizado um Boletim Administrativo de Pessoal. Os chamados atos secretos são atos assinados pelas autoridades e disponibilizados muito posteriormente, depois de ficarem meses ou anos sem a devida inserção na intranet”. Essa é a primeira etapa da pilantragem. O golpe é concluído com a mágica da data retroativa.

“Quando finalmente inseridos”, informa o funcionário, “não aparecem no boletim do dia em que ocorre a inserção, sempre muito mais tarde, mas num ‘boletim suplementar’ com a data em que deveriam ter sido disponibilizados, como a lei exige. Quem acessa a intranet é confrontado com centenas de datas em que são exibidos tanto o boletim de rotina quanto um suplementar. Se alguém acessar a data de 11 de maio de 2004, por exemplo, encontrará os dois boletins, mas não terá como saber se o suplementar foi inserido em 11 de maio de 2004, em dezembro de 2006 ou ontem”. 

Não é difícil implodir esse monumento ao pai-da-pátria criminoso, insistiu o post de 23 de julho. Basta uma auditoria que mereça tal nome no Prodasen, órgão do Senado responsável pela intranet. O sistema de informática registra o instante em que cada documento foi incluído na intranet. É só comparar a data verdadeira com a que aparece no boletim suplementar.

Em vez de ficar inventando conspirações de araque, o senador Heráclito Fortes deveria decorar o parágrafo anterior e cumprir seu dever. O Brasil está farto de conversa fiada.

SEÇÃO » Direto ao Ponto

Podem apostar

6 de agosto de 2009

No próximo discurso, José Sarney vai jurar que não tem filhos (e, portanto, não pode ter netos), que não vê os irmãos desde a segunda fralda, que prefere um grampo da Polícia Federal  a um telefonema de sobrinho, que conhece Agaciel Maia só de vista, que jamais foi padrinho de casamento, que parou de aparecer no Senado quando o Palácio Monroe foi demolido, que o Maranhão é só um retrato na parede, que nunca ouviu falar em Amapá nem Macapá, que rompeu relações com Epitácio Cafeteira nos anos 50  e que não faz a menor ideia de quem é José Sarney. Mas lembra como se fosse hoje do dia em que se revezou com Lula pela primeira vez no mesmo torno-mecânico.

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Desembargador confia na foto para conquistar o título de agosto

3 de agosto de 2009

Minutos depois do encerramento da votação que fez do senador Aloízio Mercadante o Homem sem Visão de Julho, o desembargador Dácio Vieira abriu a lista dos candidatos ao troféu de agosto. Escalado por José Sarney para ressuscitar a censura à imprensa, Dácio emergiu do anonimato com pinta de campeão. Ansioso por cumprir a missão, não viu a Constituição e, sobretudo, não viu a foto em que aparece ao lado da turma no casamento da filha de Agaciel Maia.

Ao longo dos anos em que foi consultor jurídico do Senado, tornou-se amigo de infância de Agaciel, Renan e Sarney. Virou desembargador por isso mesmo. Por causa da foto, pode perder a pendência judicial. Mas pode conquistar o título de agosto por causa da foto.  Já avisou que, se chegar lá, o fotógrafo do casamento será contratado para documentar a festa da vitória.

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O doutor em censura só esqueceu de mandar prender a foto

1 de agosto de 2009

Dácio Vieira, Sarney e turma

Os cinco sorrisos ao lado do homem à esquerda realçam o semblante monalisa-no-primeiro-esboço. A sisudez do terno escuro-brasília corretamente suavizada pela flor na lapela, os cabelos grisalhos como as sobrancelhas, o olhar ausente sugerindo que a cabeça flutua por latitudes nada frívolas, os ombros levemente vergados dos que carregam toneladas de pendências a resolver —as aparências gritam que aquilo é um juiz. E é.

Não um juiz qualquer. É um desembargador. Não um magistrado em começo de carreira que despacha no fórum acanhado do grotão. O desembargador Dácio Vieira delibera sobre o destino das gentes e das coisas no Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios. Ele está bem no retrato do grupo de convidados para a festa de casamento. Ângela, sua mulher, e Sânzia Maia, mulher do Alto Funcionário do Congresso, não estão bem nem mal. Ambas com o corpo sitiado pelo vestido tomara-que caia, ambas com os músculos da face distendidos nos limites impostos pelo dermatologista, ambas com o sorriso à prova de angústia de quem está chegando do shopping ou saindo para o shopping, elas apenas completam a paisagem.

O problema é o resto da foto. O cenário confirma que foi feita na festa de casamento da filha do Alto Funcionário Agaciel Maia, durante 15 anos o onipotente e onipresente capataz do Senado. É o mais alegre entre os seis. À sua direita, o senador José Sarney capricha na pose de padrinho da noiva e imortal da Academia. À esquerda do anfitrião, o senador Renan Calheiros camufla com o sorriso de aeromoça a permanente desconfiança de que logo a casa vai cair.

O autor, não identificado nos créditos, talvez soubesse que fotografava um desembargador acidental confraternizando com três prontuários. Mas não poderia saber que estava produzindo a prova de um crime que ainda não fora planejado. Consumou-se neste 31 de julho, quando o homem pago pelos contribuintes para fazer Justiça se nomeou censor da imprensa brasileira e proibiu o Estadão de divulgar informações sobre bandalheiras promovidas pelo bando de que fazem parte Sarney, Renan e Agaciel.

O advogado Dácio Vieira virou juiz contornando o campo minado dos concursos pelo atalho do “quinto constitucional”, que levou um consultor jurídico do Senado ao emprego de desembargador. Amigo e parceiro de Agaciel e Renan, percorreu a trilha desbastada pelo benfeitor José Sarney. Esses defeitos de fabricação explicam tanto a decisão temerária quanto o argumento atrevido que evocou para socorrer o protetor em apuros. Dácio alegou que são coisas privadas, e não assunto público, as obscenas conversas telefônicas que comprovam o desvio de dinheiro público para empresas privadas.

Assinada pelo desembargador, a decisão foi ditada pelo cúmplice. O doutor em censura só esqueceu  de mandar prender a foto.

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Quem não falar agora nunca mais será ouvido pelo Brasil que presta

22 de junho de 2009

O suspeitíssimo silêncio dos oposicionistas, sublinhado pelo sumiço dos éticos, foi quebrado no domingo pelo pernambucano Sérgio Guerra. ”No cargo de diretor-geral, Agaciel Maia foi o operador de um grupo de senadores”, disse o presidente nacional do PSDB. ”O que o grupo queria, ele resolvia, e por isso ficou tanto tempo. Agora continua intimidando todo mundo, com a mesma cara e a mesma autoridade”. Parecia um bom começo. Mas era tudo o que Guerra tinha a dizer.

Os brasileiros decentes exigem que Guerra complete e traduza com clareza e coragem o falatório cifrado. Quem faz parte do grupo que teve Agaciel como operador? O que é que o grupo quis e o diretor-geral resolveu? Quantos e quais senadores compõem esse “todo mundo” que o delinquente federal anda intimidando? De quais segredos Agaciel se apoderou para virar extorsionário? Sérgio Guerra é senador faz tempo. Conhece suficientemente o clube dos pais da pátria para saber quem é quem. Se não contar o que cada sócio fez ou deixou de fazer, será apenas outro  cúmplice por omissão.

Nesta segunda-feira, também renunciou à mudez o senador Artur Virgílio. As declarações e o discurso na tribuna melhoraram o ânimo dos homens honestos, mas imploram por mais capítulos. O tucano amazonense passou ao largo do coração das trevas que Sérgio Guerra apenas tangenciou. Só confirmou a desconfiança nacional: entre os chantageados por Agaciel Maia figuram remanescentes da diminuta bancada dos aparentemente honrados . Mas nenhum deles, presume-se, está no “grupo” a quem Agaciel serviu como operador.

 ”Ele acoelhou o Pedro Simon, o Eduardo Suplicy, o Cristovam Buarque”, exemplificou o tucano amazonense. Cristovam entrou em recesso por achar que deve ao superfuncionário do Senado o emprego da mulher no Congresso. Simon e Suplicy, para não terem de penitenciar-se de viagens ao Exterior ─ um com a mulher, outro com a namorada.  ”É por isso que, quando a gente fala do Agaciel, eles fogem do plenário”, disse Virgilio. “Nenhum deles fez nada de grave, mas, infelizmente, a imprensa criminalizou esses episódios”.

Se os contrange o envolvimento em episódios menores, o que esperam todos para se curarem de vez da afasia oportunista e vocalizarem a indignação aprisionada na garganta dos eleitores honestos? Se estão fora do bando mencionado por Sérgio Guerra, por que não desmascaram os senadores homiziados nas catacumbas atulhadas de atos secretos e espertezas ultrajantes?

E onde andam os outros? Por que Jarbas Vasconcelos deixou de incomodar-se com o mau cheiro que até recentemente o nauseava? O que  impede Álvaro Dias de tratar José Sarney como um pecador comum? Por que o próprio Artur Virgílio não escancara com a habitual veemência o que fizeram, fazem e farão os renans, jucás, idelis e outras abjeções vizinhas? 

É bom que os senadores sem vínculos com a quadrilha recuperem a voz de imediato. Que falem agora ou se calem para sempre, o mais silenciosamente possível. Porque nunca mais conseguirão ser ouvidos pelo Brasil que presta.

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Me engana que eu gosto (5)

14 de junho de 2009

“Eu sou um perseguido político”.

Agaciel Maia, ex-diretor-geral do Senado, pelo jeito já pensando em contratar o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh para exigir da Comissão de Anistia uma indenização de bom tamanho e uma propina mensal.