Blogs e Colunistas

Baú de Presidentes

09/01/2011

às 20:00 \ Baú de Presidentes

O duelo entre o colunista e meio presidente (em dois capítulos)

Publicado em 14 de junho


CAPÍTULO 1

Sou o único jornalista contemplado com mensagens malcriadas por um presidente e meio. O presidente é Itamar Augusto Cautiero Franco, vice promovido a titular pelo despejo de Fernando Collor. A metade que fecha a conta é Antônio Paes de Andrade, que acumulou a presidência da Câmara e a chefia do Executivo durante as viagens internacionais de José Sarney, vice promovido a titular pelos micróbios do Hospital de Base de Brasília. Numa delas, o cacique do PMDB do Ceará fundou na cidade natal a República de Mombaça. A soma disso tudo vale meio presidente. No mínimo.

Não foi difícil despertar a cólera de Itamar Franco: dois ou três artigos bastaram para que o mineiro briguento revidasse com um manuscrito desaforado. Essa história fica para depois. Hoje sai do baú o relato, dividido em duas partes, do entrevero que me rendeu um texto enviado por fax em 5 de janeiro de 2005.  Subscrito pelo então embaixador do Brasil em Portugal, o documento histórico começou a nascer em 1985, quando garanti a Paes de Andrade um mandato imaginário de 15 dias.

Já contei esse caso mais detalhadamente num post. Duas semanas antes da eleição municipal, numa reportagem publicada na VEJA, incluí o candidato a prefeito de Fortaleza pelo PMDB  entre os cinco ou seis que já podiam preparar a festa da posse. Baseada nas pesquisas do Instituto Gallup, a informação foi espetacularmente desmentida pelo triunfo de Maria Luiza Fontenelle, do PT. E então o dono do Gallup explicou o naufrágio: Paes de Andrade parecia tão favorito que as pesquisas foram suspensas em 1° de novembro. Os ventos mudaram, as urnas desmentiram a pesquisa e o derrotado só foi prefeito na revista.

Em vez de ficar agradecido pelo mandato imaginário, Paes de Andrade resolveu dividir com a reportagem a culpa pelo fiasco. Os cabos eleitorais ficaram tão certos da vitória, alegou, que relaxaram na reta final. A hora do troco chegou em fevereiro de 1989, quando José Sarney foi passear no Japão por uma semana e o presidente da Câmara decidiu fazer bonito no Planalto.

Sarney acabara de decolar quanto Paes de Andrade entrou em ação. Requisitou um Boeing 707 da presidência e voou para Fortaleza com os 66 integrantes da comitiva. Da capital cearense, a multidão deslocou-se para Mombaça ─ a 300 quilômetros de distância ─ em dois Buffalo da FAB, que pousaram no aeroporto ampliado em tempo recorde especialmente para receber o filho mais ilustre da cidade.

Acomodados em 25 carros oficiais, os viajantes seguiram para a festa de inauguração da agência do Banco do Nordeste, em funcionamento desde o ano anterior.  Era o pretexto para a cerimônia de fundação da República de Mombaça. A população inteira compareceu ao comício estrelado pelo presidente conterrâneo. Voz embargada, chorando em alguns momentos, Paes de Andrade fez um discurso de quatro horas. Recordou a história da cidade natal, celebrou a bravura do sertanejo e citou, entre outros, Jesus Cristo, Getúlio Vargas, Napoleão Bonaparte, Padre Cícero, Lampião, José Sarney, Pelé, Frei Damião, Tiradentes, Buda e Nelson Ned.

Traduzi meu espanto em alguns artigos no Estadão. Paes de Andrade ficou irritado, mas engoliu em seco. O que achou insuportável foi o texto que publiquei no Jornal do Brasil 15 anos mais tarde. Mas isso fica para quinta-feira, quando aqui se lerá a segunda e última parte do duelo entre o colunista e meio presidente.

02/01/2011

às 20:00 \ Baú de Presidentes

A noite em que Aureliano Chaves quis sair no braço com quatro jornalistas da revista Veja (fim)

Publicado em 3 de maio


A tempestade amainou, mas pode recrudescer a qualquer momento, alerta a previsão do tempo no apartamento de Aureliano Chaves. A respiração está mais compassada, mas o vice-presidente continua mirando os jornalistas da revista VEJA com cara enfezada. E as pupilas se dilatam ameaçadoramente quando o olhar enquadra o repórter A.C. Scartezini.

José Roberto Guzzo, Elio Gaspari e eu recorremos ao manual da imprensa: para entrevistas pesadas, perguntas leves. Por exemplo: o que gosta de fazer nas horas livres?

─ Faço exercícios todo dia ─ começa o cinquentão com estampa de caminhoneiro.  ─ Pratico levantamento de peso desde moço ─ completa, conferindo com orgulho o bíceps direito exposto pela camisa de mangas curtas.

De manhãzinha, deita-se numa prancha estendida no chão e flexiona 15 vezes os braços que sustentam 70 quilos de halteres. Em seguida, outras 60 flexões ─ 30 com cada braço ─ segurando 16 quilos. Aquele mineiro corpulento tem 53 anos, penso. Se resolver sair no braço, vai ser uma parada dura.

─ Não vou precisar da imprensa para responder a agressões ─ Aureliano parece adivinhar o que estou pensando. ─ Tenho também outros métodos ─ eleva de novo o tom de voz.

Essa noite não vai acabar bem, reitera a indocilidade do entrevistado. Alguém pergunta como vai o esforço para transformar-se no candidato do PDS à sucessão presidencial. O rosto de Aureliano Chaves enfim exibe algo parecido com um sorriso. Na semana anterior, recebera o apoio formal de um bloco de notáveis do partido, entre os quais Affonso Arinos, Olavo Setúbal, Célio Borja e Ney Braga. Diz que ficou muito contente. Tão contente que resolveu fazer o possível para controlar o temperamento beligerante:

─ Não vou perder tempo com denúncias no varejo ─ promete. ─ E vou engolir sapos.

Nem todos, ressalva:

─ Vou engolir tantos sapos quanto o meu estômago conseguir digerir, mas uma coisa é a disposição para engolir, outra coisa é a capacidade de digeri-los. Quando a digestão estiver interrompida, vou expelir o sapo.

É improvável que ele engula o sapo que Scarta guarda na cabeça, desconfio enquanto a conversa atravessa garoas, chuvas mais fortes, nesgas de céu sem nuvens e zonas de turbulência. Parece calmo ao tratar das chances de algum acordo com o governador Tancredo Neves, candidato da oposição à presidência. Fica irritado quando ouve se é verdade que a relação com o presidente Figueiredo anda crispada. Perto das dez da noite, os visitantes informam que a conversa foi muito boa, há assunto de sobra para a reportagem de capa. Começamos a levantar-nos. É a senha para a entrada de Scarta em campo minado.

─ O senhor me desculpe tratar deste assunto, mas preciso saber o que o senhor pensa dos rumores sobre doença…

─ Como? ─ aparteia Aureliano já de pé, o rosto retomando a cor do perigo.

─ Essas coisas que os adversários estão dizendo ─ entra na zona do agrião o bravo repórter.

─ Que coisas? ─ começa a ouvir-se o som da fúria.

Scarta enfim pronuncia as palavras proibidas:

─ Alguns falam em disritmia neurológica.

Fica claro que Aureliano não vai engolir o sapo:

─ Se surgir uma denúncia dessas, a resposta é uma junta médica! ─ berra enquanto avança na direção de Scarta. ─ E nesse caso os exames têm de abranger todos os candidatos!

Guzzo, Gaspari e eu nos interpomos entre os litigantes, balbuciando palavras de despedida.

─ Feito isso, meto o autor da acusação na cadeia! ─ Aureliano está com cara de quem não vai parar na barreira.

Ouve-se uma estranha mistura de cumprimentos e ameaças ─ “boa noite”, “assim não é possível!”, “obrigado pela entrevista”, “não admito essas coisas!”. Os jornalistas recuam em direção à porta do elevador, que abre para a sala, e apertam o botão.

─ Ou faço coisa pior! ─ explode Aureliano, que acelera a investida.

Chega o elevador. Entramos, apertamos o botão do térreo e a porta se fecha a tempo. O rosto colérico do vice-presidente está colado na janelinha. Um andar abaixo, A. C. Scartezini recupera a fala:

─ Mas esse homem é doido…

Então, sem combinações nem ensaios, Guzzo, Gaspari e eu, os três ao mesmo tempo, colocamos o indicador na vertical e emitimos em veemente surdina o toque de silêncio:

─ Psssssssssssssssssssssssss!!!

E batemos em corajosa retirada.

25/12/2010

às 20:30 \ Baú de Presidentes

A noite em que Aureliano Chaves quis sair no braço com quatro jornalistas da Veja (parte 1)

Publicado em 21 de abril


O avião flutua poucos metros acima da pista do Aeroporto da Pampulha quando ouço José Roberto Guzzo, sentado uma fileira à frente, fazendo a pergunta em voz baixa:

─ Quem vai levantar o assunto da doença? ─ quer saber o diretor de redação da revista VEJA do diretor-adjunto Elio Gaspari, que lê um jornal na poltrona ao lado.

Pressinto a aproximação do perigo. No fim da tarde de 2 de fevereiro de 1984, estamos chegando a Belo Horizonte para uma conversa com o vice-presidente Aureliano Chaves, um dos três pré-candidatos do PDS à sucessão do general-presidente João Figueiredo. Aquele mineiro de pavio curto é o tema da próxima capa da revista, e a reportagem vai contar se são procedentes ou não os rumores de que anda sofrendo convulsões atribuídas à epilepsia. Entendo que Guzzo e Elio estão prestes a escolher o encarregado da missão de alto risco. Desconfio de que serei vítima da hierarquia. E uso as prerrogativas de redator-chefe para afastar de mim aquele cálice.

─ O Scarta conversa muito bem com o Aureliano ─ aparteio. ─ Ele cuida disso.

Guzzo e Elio retomam sem comentários a leitura dos jornais. Deduzo que quem cala consente e me cumprimento em silêncio por ter repassado a bola para Scarta, como é chamado pelos amigos o jornalista A. C. Scartezini, repórter da sucursal de Brasília. Alheio à pequena traição que acaba de sofrer, ele está à nossa espera no aeroporto. Nem imagina que foi o escolhido.  Tampouco Aureliano, que aguarda no seu apartamento a visita marcada para as oito da noite, pode imaginar que, pela primeira vez, a conversa vai invadir o território interditado. A invasão será anunciada por Scarta, acaba de avisar José Roberto Guzzo no banco da frente do carro que segue para o endereço de Aureliano.

─ Entre nessa história no fim da entrevista ─ diz o diretor de redação. ─ E não fale em epilepsia. Só pergunte se é verdade que ele tem alguma disritmia neurológica.

A tranquilidade aparente de Scarta me deixa em dúvida. Ou meu amigo é um bravo ou não sabe direito o que é disritmia neurológica. Também não sei. Mudamos de assunto até chegar ao prédio de um apartamento por andar. Aureliano abre a porta do elevador. Explica que está sozinho e por isso, infelizmente, só pode servir água. Mau começo de noite, penso. Ele se acomoda num sofá, Guzzo e Elio em outro, Scarta e eu ocupamos duas poltronas. Começa a entrevista.

Cinco minutos de amenidades depois, Scarta quer saber se Aureliano vai usar o jatinho da vice-presidência nas viagens como candidato à sucessão de Figueiredo. E então se desencadeia, repentina e ruidosamente, a sequência de espantos.

─ Essa pergunta é idiota! ─ explode o anfitrião subitamente rubro de cólera. ─ Não me faça perguntas idiotas! ─ continua agora aos berros e já erguendo do sofá o corpanzil de halterofilista aposentado.

No segundo seguinte, os jornalistas estão dizendo que houve algum mal-entendido, ninguém quis ofender o vice-presidente, ele que desculpe possíveis agravos. Aureliano vai baixando o tom de voz mas segue fuzilando Scarta com um olhar de hospício. Volta a sentar-se uns três minutos mais tarde. Mas a respiração descompassada informa que ainda não está posto em sossego.

Era só o começo, saberemos no segundo e último capítulo deste relato sobre a assombrosa noite de fevereiro em que  Aureliano Chaves, várias vezes presidente interino do Brasil, quis sair no braço com quatro jornalistas.

23/11/2010

às 13:08 \ Baú de Presidentes

Três assaltos com Paulo Maluf, aquele que por pouco não virou presidente do Brasil

PRIMEIRO ASSALTO (sala de estar da casa na Rua Costa Rica, no Jardim América)

─ Que livro o senhor está lendo? ─ pergunto ao governador Paulo Maluf no meio da entrevista para as páginas amarelas de VEJA.

Eu decidira introduzir o tema por dois motivos. Primeiro: interromper a discurseira sobre Petropaulo, rodovias, viadutos e outras façanhas administrativas do entrevistado ─ em São Paulo, como se sabe, tudo foi Maluf quem fez. Segundo: como políticos brasileiros não têm muita intimidade com estantes, queria pegá-lo no contrapé.

– A Terceira Onda, do Alvin Tofler – responde de bate-pronto.

Era o sucesso da hora. Tratava de novas tendências da economia, como a terceirização de serviços, e já vendera milhões de exemplares no mundo inteiro. Ele nota que estou surpreso e parte para a ofensiva.

– Você já leu?

– Ainda não.

– Pois leia. Vai aprender alguma coisa.

O Doutor Paulo vence o primeiro assalto.

SEGUNDO ASSALTO (estúdio da TV Gazeta, Avenida Paulista)

─ Que livro o senhor está lendo? – volto a perguntar dois anos mais tarde ao ainda governador Paulo Maluf.

Como a conversa no programa Veja Entrevista se arrastava por canteiros de obras e promessas a cumprir quando chegasse à Presidência da República, resolvera repetir o truque.

– A Terceira Onda, do Alvin Tofler ─ responde de bate-pronto.

Contenho o entusiasmo ao deduzir que ele havia esquecido a conversa anterior. Chegou a minha vez, penso enquanto saboreio antecipadamente a vingança. Solto o direto no fígado:

─ Ainda não acabou de ler ou está lendo de novo?

─ Como assim? ─ ele parece intrigado.

─ Há dois anos, o senhor me disse que estava lendo esse livro. Quero saber se não chegou ao fim ou se gostou tanto que resolveu reler.

Maluf parte para o improviso sem pausa:

─É o meu livro de cabeceira.

Acuso o contragolpe e ele retoma a ofensiva:

─ E você, já leu?

Não, ainda não lera.

─ Está perdendo uma boa chance de melhorar a cabeça ─ ironizou.

O Doutor Paulo vence o segundo assalto.

TERCEIRO ASSALTO (estúdio da RBS TV, Porto Alegre)

– Que livro o senhor está lendo? – pergunto oito anos depois do segundo assalto ao agora prefeito Paulo Maluf.

A entrevista está chegando ao fim, eu nem planejara surpreendê-lo, só resolvera mudar de assunto. Maluf, sempre sem pausas:

– A Terceira Onda, do Alvin Tofler.

Quase caio da cadeira. Demoro a acreditar no que acabei de ouvir. O prodígio de memória capaz de chamar pelo nome todos os integrantes da família real saudita ─ um viveiro de Abns e Ibns ─ esqueceu que já dissera aquilo duas vezes. Dessa ele não escapa.

– Acho estranho ─ começo. ─ Há dez anos, o senhor me disse que estava lendo isso. Há oito anos, também. O senhor só leu esse livro?

O Grande Falante emudece momentaneamente. Parto para o ataque:

─ Já li o livro ─ antecipo-me.

Estou mentindo, mas Maluf não tem como saber.

─  Achei só razoável, não é coisa para se ler a vida inteira ─ tripudio.

E então consigo o milagre: ele perde a calma.

─ Eu leio o que quero! ─ esbraveja. ─ Você não tem nada com isso! E isso não é assunto para entrevista séria! Ou mudamos de tema ou paro por aqui!

Mudamos de tema e a entrevista prossegue sem mais sobressaltos.

Perdi a luta por 2 a 1. Mas achei que fui tão bem no terceiro assalto que me atribuí o título de campeão moral.

07/11/2010

às 20:31 \ Baú de Presidentes

Celso Arnaldo comenta o grande momento do debate entre Jânio e Franco Montoro

O comentário do Homem Americano (15:02 de 5/11) serviu de inspiração para mais um ótimo texto do jornalista Celso Arnaldo Araújo. Acabou sobrando para Dilma Rousseff. Não percam:

Tal diálogo entre Jânio e Montoro no debate da TV Record, que o senhor reconstitui confiando em sua memória, já foi reproduzido nesta coluna, na seção Baú de Presidentes, mais de uma vez, no vídeo original.

E é este, literalmente:

Montoro – Eu gostaria que o presidente refutasse esta afirmação de Clemente Mariani ou negasse a afirmação de Clemente Mariani

Jânio – Eu não posso refutá-la nem negá-la. Onde se encontra escrita essa informação?

– Está aqui o livro

– Muito bem

– Está aqui o livro. Página 304. Depoimento…

– O livro, de quem é?

– Depoimento de Carlos Lacerda…

– Ah, sei. Está dispensado da citação.

– Não, mas é…

– Está dispensado da citação…

– O fato ele cita…

– … porque o senhor acaba de querer citar as escrituras valendo-se de Asmodeus ou de Satanás. Não quero ouvi-la.

Na sequência, que não está no vídeo, Jânio define Lacerda como “inimigo figadal meu e do povo brasileiro”. Mas ficou por aí.

Não o culpo, Homem Americano, pela transcrição infiel. Jânio era irreproduzível de memória – para transcrever sua fala no papel, e fiz isso inúmeras vezes após entrevistas com ele, era obrigatório ouvir a fita, e ouvi-la de novo, reproduzindo-a com absoluta fidelidade.

Nunca havia uma pausa, uma elipse, um conceito fora do lugar onde deveriam estar. Transcrita desse modo, a fala transformava-se num texto escrito, sem necessidade de reparo ou adaptação. A boutade sobre Asmodeus e Satanás é exemplo de sua genialidade. Nenhum político brasileiro seria capaz de um repente desses.

Dilma é absolutamente o inverso de Jânio: o que ela fala não se escreve. Transcrevendo qualquer fala de Dilma numa redação da prova do ENEM, um candidato seria sumariamente desclassificado pelos examinadores, mesmo que acertasse todas as questões de múltipla escolha.

22/10/2010

às 22:02 \ Baú de Presidentes

Celso Arnaldo: em quantos pedaços Jânio faria Dilma num confronto direto na TV?

Celso Arnaldo enviou-me um recado que, como sempre, virou post. Desta vez na seção Baú de Presidentes, por trazer de volta Jânio Quadros. O que o grande artista da política perguntaria a Dilma Rousseff se tivesse o prazer de duelar na TV com a Doutora em Nada? Confira:

No esforço sobre-humano de acompanhar o debate entre a ignorância de Dilma e a inapetência de Serra, por mais de uma vez voltei a delirar naquela fabulosa fantasia que já experimentamos aqui neste espaço: em quantos pedaços, imprestáveis para consumo nas urnas, Jânio faria Dilma num confronto direto, tête-à-tête?

Certamente, nós dois – que o entrevistamos inúmeras vezes – teremos para sempre na memória a prosódia singular e seu extraordinário domínio da língua, bífida e venenosa, quando não destrutiva, contra seus inimigos figadais (até Jânio me explicar a raiz semântica da palavra, eu dizia, como muitos, fidagais).

Enfrentando Dilma num embate que necessariamente pressupõe um duelo de linguagens, o ippon de Jânio seria fulminante – já definido o vencedor nos primeiros segundos, a luta se estenderia pelo tempo regulamentar do debate apenas para deleite do público, e desespero do comissariado petista. Seria uma covardia.

Fiquei maquinando, para me distrair do entediante debate real, o teor de perguntas que Jânio faria a Dilma após as primeiras intervenções da oponente, em seu português de analfabeta funcional, estarrecedor para quem exibe um diploma superior no currículo. Uma delas poderia ser esta:

– Candidata Dilma Rousseff. Minha pergunta magna, neste bloco, será precedida de outras, adjuvantes, que a preparam e justificam. Tem a senhôra curso primário completo? Indago isto porque suas respostas até aqui não apontam para essa remota possibilidade. Se o tiver, gostaria que a candidata declinasse o nome de sua professora, que a esta altura deve ser um senhorinha em justo gozo de seu ócio com dignidade, usufruindo do parco pecúnio que amealhou em vida, ou, mais provavelmente, sobrevivendo à míngua dos proventos previdenciários que seu governo reajustou com impiedosa sovinice. Na pior das hipóteses, ou na melhor, já não o sei, repousa ela em floridos Campos Elíseos. Bem, mas, viva fosse, eu me atreveria a perguntar-lhe: lembra-se de ter dado aulas a uma Dilma Rousseff? Recorda-se de sua presença física em classe, materializando o nome constante na lista de chamada corrida pelo bedel? Em caso positivo, diria a senhôra ter sido ela então sua pior aluna?

Mas, candidata Dilma, na impossibilidade de desfazer desse modo o mistério que cerca sua escolaridade, e que explicaria por linhas tortas sua clamorosa insuficiência intelectual, peço-lhe vênia para ir ao cerne do enigma que nos assombra nesta noite: como ousa a senhôra candidatar-se à Presidência da República?

Precisaríamos de Jânio, de novo, só por uma noite.

14/08/2010

às 11:18 \ Baú de Presidentes

O dia em que bebi com Jânio (fim)

A grande ressaca e o golpe abaixo da linha da cintura

Meu erro foi o sexto copo, expliquei ao ouvir o humilhante “Eu não disse?” dito por Jomar Moraes na subida da Anchieta. Nunca a estrada de Santos teve tantas curvas. Lembrava que tinha capitulado na metade do copo. Jânio deu mais um gole. Lembrava vagamente que me despedi de Jânio e Gastone com voz pastosa e caminhei para o fusca com a dignidade possível. Para minha sorte, dona Eloá estava refugiada na cozinha.

─ Sexto ou sétimo copo, tanto faz ─ desdenhou Jomar. ─ Teu erro foi encarar a fera.

O sorriso superior de Pedrão avalizou o parecer. Eu só queria que a Serra do Mar parasse de girar ao meu redor, chegar em casa o quanto antes e dormir. No dia seguinte, ainda convalescendo da bebedeira, fui para prédio da Abril na Marginal do Tietê. José Roberto Guzzo, diretor de redação, estava fora naquela semana. Entrei na sala do diretor-adjunto Elio Gaspari tentando disfarçar a ressaca. Ele quis saber se tinha assunto para uma reportagem de capa. Tinha de sobra, respondi. E soltei o comentário como quem não quer nada.

─ O que o homem está bebendo é uma grandeza.

─ É mesmo? ─ Gaspari ficou curioso.

Contei o que Jânio tinha bebido, ele não acreditou. Sugeri que conferisse com Jomar. Achei irrelevante falar sobre os tragos que tomei. Jornalista não é notícia, tinha ouvido várias vezes na redação. Gaspari resumiu num trecho da Carta ao Leitor a performance do campeão: 20 latas de cerveja, 6 copos de caipirinha e 11 cálices (dos grandes) de vinho do Porto. A reportagem ficou boa. A Carta ao Leitor repercutiu ainda mais. Fiquei sabendo que Jânio se irritou. Eu me senti vingado.

Quero ver como ele vai se virar na quarta-feira, pensei. Era o dia do programa que tinha na Record, onde falava o que queria. Vai ter de comentar o que a Veja publicou, calculei. Foi o que Jânio fez no primeiro minuto do primeiro bloco. Com um exemplar da revista na mão, queixou-se de que fora vítima de jornalistas irresponsáveis. E entrou na questão alcoólica disposto a golpear abaixo da linha da cintura.

─ Di-zem-que-be-bi! — escandiu as sílabas. Pois não bebi, até por prescrição médica! Quem bebeu foram os jornalistas!

Fiquei espantado. Não é possível que ele estivesse desmentindo o desempenho admirável. Pois fez pior. Abriu a revista na página da Carta ao Leitor, a câmera fechou a lente, Jânio pôs o dedo indicador na foto e desfechou o golpe de misericórdia:

─ Vejam isto! Vejam quem está bebendo!

Para sorte de Jânio e para meu infortúnio, a foto que ilustrava a página era uma das que Pedro Martinelli fizera quando dona Eloá acabou de confiscar a garrafa de vinho e Gastone ainda não fora buscá-la. O cálice estava atrás do Lincoln do busto. Só aparecia o copo de uísque, circundado em vermelho pelo artista.

─ Aqui está o senhor jornalista com seu copo ─ bateu nas partes baixas. ─ Cadê a minha bebida?

Foi o segundo nocaute consecutivo. Perdi feio. Mas fui derrotado por um campeão.

12/08/2010

às 18:27 \ Baú de Presidentes

O dia em que bebi com Jânio (III)

O golpe de misericórdia

Ele cambaleou, exulto ao ouvir Eloá repreendendo o marido por ter assinado o cheque na linha da data e preenchido o espaço da assinatura com o dia, o mês e o ano do duelo em curso no Guarujá. Resolvo acelerar o ritmo dos goles e partir para a contra-ofensiva infiltrando na conversa temas que costumam irritar Jânio Quadros. A história da renúncia, por exemplo. Meio mundo ainda não entendeu aquilo, provoco. Está arrependido do que fez?

─  Não, não e não ─  três esquivas antes do contragolpe. ─  Neste país, não se renuncia sequer ao cargo de síndico. É natural que poucos entendam gestos de grandeza e desprendimento.

Gastone enche gentilmente meu copo. Ataco pelo flanco com miudezas que o ex-presidente sempre achou excessivamente fúteis, mesquinhas demais para merecerem tempo e atenção de um estadista. Gosta das novelas da Globo? Prefere qual horário? Continua apreciando faroeste americano? Jânio vai respondendo com tiradas de repentista e imagens amalucadas. Nada abala o humor do meu oponente. Nem ouvir o editor de Política da revista Veja, que deveria estar lá para tratar de coisas sérias, querendo saber se ele sabe dançar.

─ Não, não sei… ─ simula um tom nostálgico para, em seguida, espantar quem espera ouvir reminiscências da juventude com a comparação absurda. ─  Sinto-me uma centopéia de 98 pernas.

Por que não arredondou para 100?, fico intrigado. Vai ver uma centopéia tem exatamente 98 pernas. Chega de dança, interrompo-me. Agora quero saber se acredita em disco-voador.

─ Sim, acredito. Eloá até já viu um em Cubatão.

Esqueço o desfile de irrelevâncias e fico procurando, calado, táticas mais eficazes. Jânio continua extraordinariamente loquaz. No fim do nono cálice, está falando das cinco cadelas que moram naquela casa quando Eloá aparece na porta vindo da direção de quem entra. Como não retoma o assunto do cheque preenchido pelo avesso, presumo que o dono do supermercado achou prudente aceitá-lo.

O marido não vê quem acabou de chegar. Ela estende lentamente o braço até alcançar o lado esquerdo da mesa, pega a garrafa de vinho do Porto, recolhe com cuidado o objeto do sequestro e desaparece. Acompanho a manobra com o canto dos olhos e cara de paisagem. Dois minutos depois, enquanto explica por que a cadela Quinta-Feira é a preferida, Jânio vê que o cálice está no fim, avança a mão esquerda e, ao chegar lá, não acha nada. Interrompe a frase no meio e olha para o espaço subitamente vazio. Parece confuso.

─  Onde está a garrafa? ─ murmura com jeito de criança perdida no supermercado.

Não conto o que vi nem sob tortura, decido. Vou ganhar por desistência, quem diria? Não importa se levaram o vinho sem o homem perceber, nem a identidade de quem levou. O motivo é irrelevante: se parar de beber, perdeu. A regra é clara. Jânio faz um minuto de silêncio pelo desaparecimento do vinho e repete a pergunta, agora com voz estridente e destinatário definido.

─ Onde está a garrafa, Gastone?

O deputado aponta a cozinha com o polegar.

─ Vá buscá-la ─ ordena a primeira ênclise.  ─ E trate de trazê-la ─ ameaça a segunda.

Gastone sai para cumprir outra missão. Logo voltam a ecoar frases truncadas mas muito esclarecedoras:  “não vou devolver”, “é o fim do mundo”, ”chega uma hora que tem que parar”, “os moços estão bêbados também”.  Torço pela eterna primeira-dama. Pedro Martinelli ressurge na janela. Jânio desta vez nem olha para o capuchinho que segue fotografando, só tem cabeça para o vinho que sumiu. Gastone reaparece com a garrafa sobre a cabeça e o mesmo sorriso de Bellini, Mauro e Carlos Alberto erguendo a taça Jules Rimet.

Jânio cumprimenta o aliado efusivamente. Pela primeira talagada, vai comemorar o resgate derrubando o décimo cálice. Está animadíssimo. Olhando para Jomar, pede ao ”senhor jornalista”  que anote e começa a a ditar:

─ O presidente Jânio Quadros vírgula depois de examinar detidamente o quadro partidário vírgula optou pelo PTB por ter feito uma constatação indesmentível dois pontos o PMDB é uma arca de Noé vírgula sem Noé ponto…

Único sóbrio no recinto, Jomar está anotando aplicadamente o que Jânio diz. Gastone continua bebendo quieto.  Jânio faz uma pausa no ditado para providenciar o 11° cálice. Paro ou continuo?, hesito. Era hora de jogar a toalha. Mas encho o copo de novo. No primeiro gole, o Lincoln da estatueta e o Lincoln do busto me olham com ar de deboche. Percebo que ultrapassei o ponto de não-retorno. Jânio ergue o cálice como se estivesse brindando. Sorri como um campeão mirando o adversário nocauteado em pé.

Meu erro foi o sexto copo.

(Neste sábado, a última parte do duelo histórico: A GRANDE RESSACA E O GOLPE ABAIXO DA CINTURA)

10/08/2010

às 7:00 \ Baú de Presidentes

O dia em que bebi com Jânio (II)

Jânio Quadros, Gastone Righi, o colunista e Jomar Morais

Parte 2

O estilo do campeão

─ Uísque com gelo, só gelo ─ esclareço ao som de três batidas enérgicas na porta da casa no Guarujá.

─ Sou eu ─ identifica-se o deputado federal Gastone Righi sem precisar dizer o nome: o vozeirão do ex-locutor de parque de diversões vale como CIC, RG e certidão de nascimento.

O ex-presidente Jânio Quadros se alegra ao saber quem chegou. Deposita na mesa a garrafa de vinho do Porto que acabou de abrir, sai para atender e volta de braços dados com a figura imponente. Solidamente gordo,  cabelos fartos e longos, o rosto emoldurado pela barba espessa, Gastone Righi lembra um caminhoneiro de longo curso que faz bicos em programas de luta-livre.

─ Chegou na hora, meu bem, vai beber o quê? ─ Jânio fica meio meloso quando já decolou, ouvira meu pai dizer há muito tempo.

Uísque, responde, depois de um possante “boa tarde!”, o deputado nascido em Santos e janista desde vidas passadas. O anfitrião ordena ao parceiro que providencie água mineral e o material de combate: uma garrafa de Chivas, dois copos para uísque (baixos), balde de gelo e um copo de vinho.

─ Dos grandes ─ especifica. ─ Eloá está na cozinha, ela sabe onde encontrar essas coisas.

Sabe mas não quer contar, informam frases truncadas que logo começam a chegar da cozinha: “…bebeu demais…”,  “…tem limite…,  ”…’é o fim do mundo…”  Mas Gastone é teimoso, e dois minutos depois reaparece com a encomenda nos braços.  Todos se servem. O deputado senta-se num sofá branco, Jomar e eu ocupamos as duas poltronas pretas. O ex-presidente acomoda-se na cadeira por trás da mesa sobre a qual se equilibram um busto de Abraham Lincoln, uma estatueta de Abraham Lincoln, um dicionário de Português, um cinzeiro com meio charuto apagado, pilhas de jornais ainda em sacos plásticos, um capacete de revolucionário de 1932 e, agora, um cálice de vinho.  Dos grandes.

Jânio já tinha liquidado o primeiro em dois goles quando noto que está de tênis. Tiro o paletó, afrouxo a gravata e ataco o Chivas. A primeira dose desce redonda. Três da tarde, confiro no relógio. A conversa deve ir até as cinco. O regulamento é sucinto e claro: perde quem fica grogue mais cedo, e o intervalo entre cada gole não pode passar de cinco minutos.  Com seis copos ganho essa parada, calculo. Com oito, mando o homem à lona. Ninguém aguenta tanto. Nem ele.

Ele toma a iniciativa com um gancho no fígado do governador Paulo Maluf, que não aprecia a idéia de transmitir o cargo de governador ao ex-presidente.

─ Deus me deu um Adhemar de Barros com correção monetária ─  Jânio golpeia, surpreendendo Jomar com a brusca mudança de opinião sobre a figura que havia elogiado de manhã e agora, no quarto cálice, está comparando ao velho inimigo que transformou em sinônimo de corrupto.

Ainda não decidiu se será candidato a governador, fico sabendo no fim do segundo copo.

─ Se o for, considero-me imbatível ─ solta a famosa combinação próclise-ênclise.

Enquanto balança a cadeira sem sinais de cansaço, trata de temas variados ─ governo militar, inflação, Leonel Brizola, problemas domésticos ou planetários, biquíni, Alberto Pasqualini, briga de galo, Winston Churchill. Sem embaralhar o raciocínio nem claudicar no português castiço, termina o quinto cálice. Já vai derrubando o sexto entre comentários sobre governos fortes e governos fracos quando vislumbra um vulto na janela. Interrompe a discurseira, vira a cabeça para a direita, abre um sorriso e ergue a voz:

─ Olha! Parece um capuchinho!

O capuchinho é Pedro Martinelli, que segue disparando flashes como se não tivesse ouvido nada. Corpulento, barba e cabeleira compridas e ruivas, o rosto rubro de nascença avermelhado pelo sol do Guarujá, Pedrão parece mesmo um capuchinho, concordo em silêncio. Somos amigos há séculos. Como é que nunca percebi o que Jânio enxergou com tanta nitidez mesmo estando pra lá de Bagdá? E a poucos metros de Marrakesh, deduzo ao ouvir o que está dizendo sem que ninguém tenha feito alguma pergunta sobre o tema:

─ Os Estados Unidos estão em franca decadência. Para substituí-los, está emergindo a China, que aposentará o marxismo e será a grande potência do próximo século.

Coisa de profeta, saberei menos de 30 anos depois. Coisa de maluco, achei naquele instante.

─ Acham que sou louco ─ ele parece adivinhar o que estou pensando. ─ Responsabilizam-me até pelas calmarias que trouxeram Pedro Álvares Cabral a esta terra.

Termina o oitavo cálice. Começa o quarto copo. Dona Eloá aparece na porta do escritório com um talão de cheques na mão, destaca uma folha e pede ao marido que coloque data e assinatura. A quantia ela vai preencher no supermercado, explica.

─ Você precisa disto para quê? ─ Jânio confirma a fama de sovina.

─ O que é que você acha? Esta casa ficou vazia dois meses e meio─  a paciência de dona Eloá não tem fim.

Ele atende à solicitação e devolve o cheque.

─ Você assinou na data e datou a assinatura ─ a paciência de dona Eloá está perto do fim. ─ Assine outro cheque.

─ Eles aceitam assim mesmo ─ encerra o assunto Jânio.

É agora, decido. Quem confunde data e assinatura não está bem. Empunho o quinto copo grávido de otimismo.  Ele empunha o nono cálice com a expressão de quem flutua sobre nuvens profundamente azuis. É a bebedeira, imagino. É a autoconfiança que identifica um grande campeão, descobriria em meia hora.

Tarde demais.

(Na quinta-feira, o último capítulo da história narra o desfecho espetacular do duelo no entardecer)

08/08/2010

às 10:13 \ Baú de Presidentes

O dia em que bebi com Jânio

Jânio usa o dicionário para ensinar alguma coisa ao colunista

Parte 1

A fera do Guarujá

─ Eu não disse? ─ ouvi meu pai dizendo em outubro de 1960.

Depois daquele comício em que Jânio Quadros comeu um sanduíche de mortadela no palanque, o prefeito Adail Nunes da Silva tinha dito que o homem seria presidente da República. E repetiu nos dois anos seguintes a profecia que acabara de ser confirmada pelas urnas.

─ Eu não disse? ─ ouvi minha mãe dizendo em agosto de 1961.

Depois daquele jantar em que Jânio lhe pediu um sanduíche de mortadela depois da sobremesa, dona Biloca tinha dito que o homem era maluco. E repetiu durante os sete meses de governo o diagnóstico que, disso ela não tinha dúvida, a renúncia à Presidência acabara de ratificar.

─ Eu não disse? ─ ouvi o repórter Jomar Morais dizendo em maio de 1980, sentado no banco traseiro do fusca que subia a Via Anchieta.

Em companhia de Jânio desde a madrugada, ele estava no jardim da casa de praia no Guarujá quando cheguei com o fotógrafo Pedro Martinelli, no começo da tarde, para a segunda etapa da reportagem de capa da edição 613 de VEJA.

─ Esse é do ramo ─ disse Jomar com voz baixa e cara de espanto. ─ Está tomando todas desde cedo e continua inteiraço. É fera.

Devia ter entendido o aviso, penitenciei-me em silêncio ao lado de Jomar no carro, com Pedrão no banco do co-piloto,  que escalava a Serra do Mar à noitinha de volta a São Paulo.  Que o homem era bom de copo eu sabia desde 1958, quando o vi derrubar mais de meia garrafa de conhaque enquanto jantava em Taquaritinga. Mas achei que o tempo conspirara a meu favor. Quase 22 anos depois da aparição lá em casa, ele já tinha 63 e eu, pouco mais de 30. Dá pra encarar, acreditei naquele 28 de maio de 1980. Foi o dia em que bebi com Jânio Quadros.

Jomar soube com quem estava lidando  logo depois de apresentar-se a Jânio em São Sebastião, última escala da rota percorrida pelo cargueiro norueguês que o trazia da temporada de dois meses na Europa. O viajante resolveu descer para  passear na cidade deserta às sete da manhã. Ele já fez o aquecimento no navio, deduziu o repórter ao ver o candidato a homem da capa de VEJA beijar com a mesma animação uma septuagenária vestida decorosamente e uma jovem de biquíni, traje que havia banido por decreto tão logo assumiu a Presidência.

Entre São Sebastião e Santos, enquanto Jomar bebia água mineral, Jânio traçou 20 latas de cerveja dinamarquesa. Era só o começo, mostraria durante o almoço. Entre garfadas no prato com arroz, feijão, bife e batatas fritas, o anfitrião derrubou seis copos americanos de caipirinha sem interromper a entrevista, sem perder em nenhum momento o ritmo e o rumo. “Quem bebe caipirinha enquanto come é craque”, observou Pedro Martinelli ao ouvir a informação sussurrada no jardim. E então  Jânio Quadros apareceu na porta da casa. Vestia um slack preto.

E continuava alegre, avisou o sorriso. Continuava loquaz, avisou a discurseira durante os cumprimentos. E continuava sedento, avisou a pergunta formulada tão logo se acomodou por trás da mesa do escritório:

─ O que os senhores jornalistas vão beber?, quis saber, estendendo a mão para a garrafa de vinho do Porto na estante.

Pedrão já estava do lado de fora da casa, testando lentes e ângulos perto da janela da sala.  Jomar pediu mais um copo de água mineral.

─ Uísque ─ caprichei na voz de frequentador de saloon.

O duelo do Guarujá iria começar.

(Na terça-feira: O ESTILO DO CAMPEÃO, segundo dos três capítulos, narra o início da histórica bebedeira)


 

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