Roberto Pompeu de Toledo: Perdendo feio

Publicado na versão impressa de VEJA A crise do vírus zika, com epicentro no Brasil, internacionalizou-se na semana passada. O presidente Barack Obama reuniu funcionários da área da saúde e pediu urgência nas pesquisas sobre as doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti. O governo dos Estados Unidos, do Reino Unido e de outros países europeus […]

Publicado na versão impressa de VEJA

A crise do vírus zika, com epicentro no Brasil, internacionalizou-se na semana passada. O presidente Barack Obama reuniu funcionários da área da saúde e pediu urgência nas pesquisas sobre as doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti. O governo dos Estados Unidos, do Reino Unido e de outros países europeus alertaram seus cidadãos contra os riscos de viagens ao Brasil. Em reunião de emergência convocada pela Organização Mundial de Saúde, em Genebra, o representante da Organização Pan-Americana de Saúde, Marcos Espinal, previu uma expansão explosiva de pessoas infectadas nas Américas, chegando a 3 ou 4 milhões, 1,5 milhão das quais no Brasil. Nos meios políticos brasileiros, enquanto isso, crucificava-se o ministro da Saúde, Marcelo Castro, por ter declarado que estamos “perdendo feio” a guerra contra o Aedes aegypti. A máquina de moer ministros, com motor instalado no interior do Palácio do Planalto, entreviu aí uma oportunidade e pôs-se a espalhar que a presença de Castro no governo estava com os dias contados.

Não há razão para crer que Marcelo Castro seja um bom ministro. Pelo contrário, ele e todos os demais ministros do governo Dilma Rousseff são por definição ruins, dadas as motivações e circunstâncias de sua nomeação. Ocorre que, no caso, ele estava certo. “O vírus zika, por causa da microcefalia e da síndrome de Guillain-Barré, provocou esse alvoroço e o desespero para a implantação de medidas que já deveriam ter sido tomadas há mais de vinte anos”, disse ao colunista o infectologista José Luís Baldy, professor aposentado da Universidade Estadual de Londrina. Nesse tempo todo, lembra o doutor Baldy, nunca se falou de medidas simples de prevenção, como repelentes ou mosquiteiros. Só se começa a falar nelas agora. “Depois dos 7 a 1, resolvemos mudar a estratégia.”

Curioso é que o Brasil já teve êxito em campanhas passadas contra o Aedes aegypti, no tempo em que o problema era a febre amarela, também transmitida pelo mosquito. Em 1955, ao final de um esforço articulado pela Organização Mundial de Saúde e pela Organização Pan-Americana de Saúde, cobrindo toda a América Latina, o mosquito foi declarado erradicado no país. No fim da década de 60 houve uma ressurgência. Desencadeou-se nova campanha e, em 1973, de novo o Aedes aegypti foi declarado erradicado. Nos anos 1980 ele ressurgiu ainda uma vez, em toda a sua glória, agora trazendo de presente a dengue, que desde então assola o país. Nota-se nesse vaivém um padrão característico da nacionalidade: esforço/vitória/relaxamento. Assim como no caso das obras públicas, manutenção não é o nosso forte.

A Organização Mundial de Saúde programou para segunda-feira nova reunião, para decidir se é o caso de declarar uma “emergência internacional de saúde”, tal qual se fez no caso do vírus ebola, em 2014. A medida facultará à organização recomendar restrições de viagens e mobilizar mais recursos no combate ao problema. A internacionalização da crise tem o lado bom, para o Brasil, de abrir a perspectiva de ajuda vinda de fora. Não se espera nada de parecido com o que ocorreu nos anos 1920-1930, quando o governo brasileiro entregou à Fundação Rockefeller a exclusividade do combate ao Aedes aegypti nas regiões Norte e Nordeste, mas a colaboração em pesquisas e o compartilhamento de experiências podem nos ser benéficos. O lado mau é que a internacionalização joga mais pressão sobre o Brasil. Nossa seriedade e nossa competência estarão à prova, num jogo em que até agora, como bem assinalou o ministro, o placar nos é amplamente desfavorável.

Merece reprise, em benefício de quem não leu no Globo, o exercício do colunista Jorge Bastos Moreno para pôr na ordem correta a declaração de honestidade da alma viva Luiz Inácio Lula da Silva. Moreno inspirou-se no que fez Millôr Fernandes com uma frase de José Sarney, ao assumir a Presidência. “O destino não me trouxe de tão longe para ser o síndico da catástrofe”, dissera Sarney. Millôr reorganizou-a para: “A catástrofe não me trouxe de tão longe para ter o destino de síndico”. Lula agora disse: “Não há uma alma viva que seja mais honesta do que eu”. Moreno revirou-a para: “Não há alma honesta que seja mais viva do que eu”.

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  1. Comentado por:

    Rubão Matos

    É chato admitir: o Brasil ainda é de terceiro mundo.

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  2. Comentado por:

    maria-maria

    Seria muito interessante que a olim-piada do cocô fracassasse rotundamente. Se os países participantes atentarem para o risco, não mandarão seus atletas para uma cidade conflagrada pela doença e pelo crime. Nesse caso, virão os dos países em que as doenças prosperam pela incapacidade e corrupção dos desgovernantes e, então, o que está ruim ficará péssimo.

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  3. Comentado por:

    Anonyma

    Ok, Anonyma. Abraços

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  4. Comentado por:

    DIZ

    E tudo ao mesmo tempo ZICA e a mão leve do Lula. É de lascar

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  5. Comentado por:

    Ivan, o Terrível

    A Proclamação da República foi o evento mais catastrófico da História do Brasil. Vejam a quantidade impressionante de DESGRAÇAS que aconteceram nestes 127 anos…

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  6. Comentado por:

    FM

    Não sei se o ministro de corre perigo de perder o cargo. Mas creio que para ele pouco importa. Esse é um governo que tem que cumprir exigências partidárias e dane-se o povo que sofre as consequências. Seja como for, o ministro continuará dormindo tranquilo todos os santos dias. Dilma também, pois nunca desconfiou que é uma péssima presidente e na sua brutal inoperância pode se aproveitar desse momento de sinceridade do ministro, coisa que naturalmente não cai no seu agrado, para faturar a pecha de enérgica. Se ainda não o trocou é porque está procurando outro na altura do seu governo. Dias atrás ela ia conclamar os países da AL para combater o mosquito, simplesmente ridícula no seu discursório com sua costumeira empulhação. Como sempre inoperante com os problemas daqui, mostrando querer resolver os problemas dos outros lá fora. Até a imaginei de rede em punho atrás do maduro e do morales caçando os mosquitos, enquanto o Macri se mijava de tanto rir. Infelizmente o povo brasileiro está à mercê da Dilma e do Aedes aegypti com todos os males que possam causar. Não estranhem se Dilma aproveitar esse infortúnio que aos poucos vai se espalhando ao som das batucadas, e veja a solução lá na ilha dos irmãos Castro que estão ávidos para colher mais alguns milhões enviados pela grande irmã camarada.

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  7. Comentado por:

    olga

    Talvez, eu seja apenas ignorante… Mas, to achando tudo isto muito estranho… Principalmente este contato imediato do primeiro grau com o Sr Obama… Não confio em mais nada neste mundinho, seja primeiro, seja oitavo… Já que as grandes potencias só falam em Agenda do Clima, muito precocupadas com o clima e os animais e, como já devastaram suas belíssimas nações, talvez, já que não puderam ainda imigrar para Marte, se contentem em ficar com o Continente Africano ou América do Sul…
    Nossa apática imprensa não questiona nada, apenas acata… Ninguém questiona… Até mesmo o HIV, por exemplo, parece não mais existir…
    Se o mundo é um laboratório nós somos as cobaias!

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  8. Comentado por:

    olga

    Só para concluir.. Estão recomendando abortos, inclusive a ONU, por conta da microcefalia e, até abstinência sexual para os casais que não querem usar preservativo…
    Em primeiro lugar quase não ouvir falar em abstinência sexual em campanhas de preservação a AIDS… Era um palavrão! Outra coisa… Quem lê a “cartilha” acima dá a impressão que estamos falando apenas com famílias bem resolvidas que discutem a relação e o momento da gravidez! Nada mais distante da nossa realidade!
    Grande parte das mulheres hoje nem sabem quem são os pais dos seus filhos… E, eu não estou falando isto porque sou preconceituosa não! É só vê as estatisticas nas cracolandias e bailes funks da vida… Entre adolescentes…
    Infelizmente, a coisa é pior do que parece!
    Não adianta culpar ministro A ou B…
    Estes são os frutos de tudo que temos plantado nos últimos anos.
    É algo bom de ouvir ou falar? Não!
    Estamos felizes, não é? Em pleno carnaval… Mas, é exatamente no velório que temos consciência da nossa finitude, pequenez… Esta que ninguém quer ver!
    Então, segue o bloco…

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  9. Comentado por:

    norma

    Corrigindo o Rubão 16:51. o Brasil AINDA não é de terceiro mundo , é “de quinta” mesmo!

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