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Roberto Pompeu de Toledo: ‘Caro Golpista’

Publicado na edição impressa de VEJA ROBERTO POMPEU DE TOLEDO Você que foi à manifestação da Avenida Paulista e pediu intervenção militar, vamos lá, raciocinemos juntos. Intervenção militar precisa de militar, certo? Veja o que disseram os comandantes militares à coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo. O comandante da Marinha, almirante Júlio Soares […]

Publicado na edição impressa de VEJA

ROBERTO POMPEU DE TOLEDO

Você que foi à manifestação da Avenida Paulista e pediu intervenção militar, vamos lá, raciocinemos juntos. Intervenção militar precisa de militar, certo? Veja o que disseram os comandantes militares à coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo. O comandante da Marinha, almirante Júlio Soares de Moura Neto: “Os militares estão totalmente inseridos na democracia e não vão voltar. Isso eu garanto”. O comandante da Aeronáutica, Juniti Saito: “São coisas de extremistas. (…) não há a menor chance de essas ideias evoluírem”. O comandante do Exército, Enzo Peri: “Nós vivemos há muitos anos em um ambiente de absoluta normalidade”. O.k., mas imaginemos que em algum momento esses comandantes mudem de ideia, ou que outros venham a sobrepujá-los e aceitem aderir à sua proposta. Um golpe precisa de uma justificativa, não é verdade? O que temos à frente do país é um governo legitimamente reeleito, ainda que por pequena margem. Sim, é um governo incompetente, que levou a economia ao fundo do poço, teve medíocre desempenho na educação e na saúde, só fez trapalhadas na infraestrutura e, para culminar, se vê enredado num escândalo de corrupção gigante. Mas as instituições funcionam, em primeiro lugar as encarregadas de apurar as roubalheiras, e não há sinal de motins dentro das Forças Armadas, como em 1964. O.k., se você insiste, continuemos – mesmo assim o golpe é desfechado e instala-se a ditadura.

O quê? Será que ouvi bem? Você diz que a intervenção é “só” para afastar o atual governo, não para implantar a ditadura? Em 1964 havia também esse argumento. Mas vamos lá: depois de afastar o governo, o que se faz? Ahn? Ah, entendi: convocam-se novas eleições, você diz. Nesse caso, abrem-se duas alternativas: ou se restauram completamente as liberdades democráticas, e nesse caso o partido deposto pode participar da nova eleição, ou se restauram pela metade, e ele é proibido de participar. Se lhe é permitido participar, é grande a chance de ganhar, e desta vez ganhar com ampla vantagem, fortalecido pela aura de vítima. Lembre-se do que ocorreu na Venezuela, com o ridículo golpe desfechado contra Chávez em 2002. Foi a partir daí que ele cresceu, ganhou crescente confiança, arrebatou multidões e acabou por projetar sua sombra por cima das instituições do país. Pela segunda alternativa, propõe-se uma eleição viciada. É imperativo que as forças democráticas, inclusive da oposição, se recusem a participar de tal farsa. Inviabiliza-se a saída eleitoral. Os militares anunciam que governarão eles mesmos. Fecham o Congresso, censuram a imprensa, prendem opositores. No dia seguinte…

Não, nem será preciso esperar o dia seguinte. No mesmo momento, pela internet e pela televisão, a imagem de um general de óculos escuros sintetiza os acontecimentos no Brasil. Uma risada universal explode em resposta. Você se lembra do Bananas, de Woody Allen? Mas isso não é o pior. Seguem-se os pedidos de boicote ao Brasil pela quebra da ordem democrática. O governo dos Estados Unidos anuncia a reavaliação das relações. Países europeus chamam seus embaixadores para consultas. Dezenas de países decidem não participar da Olimpíada do Rio de Janeiro. O movimento cresce, e os Jogos são cancelados. Cineastas recusam-se a ceder seus filmes para a mostra de São Paulo e escritores recusam-se a vir para a Flip.

Enquanto isso ocorre no plano externo, no interno os novos donos do poder enfrentam dificuldades. Por mais que prendam, torturem e silenciem, não conseguem conter os desafios. Goste-se dele ou não, o partido alijado do poder tem raízes profundas na sociedade. Sucedem-se as greves, que, quanto mais reprimidas, mais se multiplicam. Manifestações de rua afrontam as proibições e são engrossadas mesmo pelas forças democráticas que se opunham ao governo deposto. Mais grave é o que acontece no campo. Movimentos sociais se transmudam em forças de guerrilha. Quem temia o fantasma da Venezuela tem agora pela frente o fantasma da Colômbia. A situação se agrava, e a unidade militar, que nunca fora tão unida assim, se rompe. Nesse ponto ou eclode uma guerra civil, o país se incendeia e as ruas se juncam de cadáveres…

…ou o amigo golpista acorda, recolhe sua faixa e toma juízo. Deixe de ser besta, cara. Se você quer fazer oposição ao governo, está marcando gol contra.

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  1. Comentado por:

    Bosco

    As instituições funcionam? Onde o Senhor tem vivido nos últimos anos?

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  2. Comentado por:

    Sergius

    O único golpe possível, respeitando-se e valorizando-se as instituições, deve ser dado pela Justiça brasileira, contra crimes de apropriação indébita e formação de quadrilhas, promovidos pelo Poder Executivo, através de subornos e distribuição de intendências “lucrativas” a comparsas.
    Um Supremo Tribunal Federal renovado, não o escolhido pela Presidência da República, também deveria ser instaurado, para julgar o holocausto de gerações de brasileiros, enterrados na vala comum da ignorância, com o único propósito de encenar o falso jogo do voto de cabresto, apenas para sufragar o despotismo dos eleitos.

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  3. Comentado por:

    Iara

    Tirando o golpe militar defendido por uma parte pequena da sociedade e outra grande parte pedindo o impeachment , qual é a outra alternativa para tirar o Brasil das mãos desses bandidos? Pelo seu texto concluo que temos que engolir quietinhos esse famigerado desgoverno, e ficar torcendo para que na próxima eleição Deus se torne realmente brasileiro.

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  4. Comentado por:

    roberto viana

    Quem decide os rumos do pais é o congresso, cheio de políticos corruptos, onde a maioria deles tem processos por improbidade, e como legislam em causa própria ficam impunes. os órgãos de estado(TSE,STF, etc)tem os cargos chaves indicados pelos mesmos políticos, causando o aparelhamento. Só teremos um pais sério com um regimento interno do congresso sem protecionismo e controlado por um órgão que não seja o próprio congresso, e abrindo concurso para preenchimento das vagas dos órgãos de estado.
    E isto só é possível através de uma intervenção militar.

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  5. Comentado por:

    solange sabina de macedo

    Detalhe é que já nomearam outros,não são esses que voce cita que dizem que estão numa plena democracia

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  6. Comentado por:

    Daniela

    Basta lembrar ao alto comando que está previsto no Art. 55 do Código Penal Militar, até morte para omissos e traidores da Pátria.

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  7. Comentado por:

    Tancredo

    Prezado sr. Roberto Pompeu de Toledo,
    Entretanto, faltou nos explicar como seria se os “não-golpistas” continuarem no poder (onde já estão há mais de 12 anos); seremos Cuba, Argentina, Venezuela, Bolívia ou Equador?!?! Também faltou nos explicar o que seríamos hoje, se os “valentes corações guerrilheiros” – que se auto-denominam “democratas” – tivessem logrado colocar “o proletariado” no poder?!
    Faltou você, Roberto Pompeu de Toledo, descer do muro e dizer a que veio: você afinal é um “golpista”, é um “não-golpista”, ou é um saudosista “democrata” que “pegou em armas contra a ditadura” militar e a favor da ditadura do proletariado?!
    Hein homem, quem é você afinal e de que lado você está?!?! Diga…!
    PS: a propósito, as únicas “instituições” que funcionam no Brasil lulopetista de hoje são: a CORRUPÇÃO, a INFLAÇÃO, a DÍVIDA PÚBLICA DESGOVERNADA, A IMPRENSA CHAPA-BRANCA, o APARELHAMENTO & CAPTURA dos TRÊS PODERES pelos “NÃO-GOLPISTAS”, a POUCA-VERGONHA de quem defende isso e ainda chama de “golpistas” as dezenas de milhões de brasileiros DIREITOS & HONESTOS!

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  8. Comentado por:

    JOSÉ MANOEL

    pelo artigo 28 da lei eleitoral , os partidos filiados ao foro de são paulo devem ser extintos. e não apenas proibidos de participar de novas eleições.
    Depor um governo ladrão não é golpe. É JUSTIÇA!

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