Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Quem olhará pelo menino do Piauí?

Um menino de 13 anos foi encontrado numa cela, debaixo da cama de um homem que cumpre pena por estupro de vulnerável

Em 5 de setembro de 2008, os irmãos João Vitor dos Santos Rodrigues, 13 anos, e Igor Giovani dos Santos Rodrigues, 12, foram assassinados, esquartejados e jogados no lixo pelo pai, João Alexandre Rodrigues, e pela madrasta, Eliane Aparecida Antunes. Ou por ter acontecido na mesma época em que Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá eram investigados pela morte de Isabella Nardoni ou porque casos ocorridos a quilômetros de distância dos centros financeiros ganham menos destaque, a história escabrosa mereceu apenas uma ligeira escala na imprensa antes de ser arquivada pelo país dos desmemoriados. Na edição de outubro de 2008, uma reportagem publicada na revista Brasileiros reconstituiu não apenas o homicídio, mas os anos de suplício que João e Igor sofreram dividindo o teto com aqueles que deviam protegê-los.

Há dias, o Brasil discute o caso da menina que tocou o corpo de um homem nu durante uma performance no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo. Com o assunto ainda fervendo, aquecido por análises de educadores, artistas, prefeitos e secretários de cultura sobre o episódio, sem contar os milhares de neo-especialistas no assunto que pululam nas redes sociais, outro caso envolvendo uma criança surgiu. Embora muito mais relevante, continua confinado no canto das páginas de alguns jornais e sites.

Num presídio do Piauí, um menino de 13 anos foi encontrado numa cela, escondido sob o estrado da cama de um homem que cumpre pena por estupro de vulnerável (ato praticado contra menor de 14 anos). Resgatado por agentes desconfiados da atitude de alguns presos, o garoto contou que fora deixado ali pelos próprios pais. O casal viria buscá-lo no dia seguinte – depois de uma noite inteira —, quando voltaria para visitar o criminoso, um “conhecido da família”.

Segundo o artigo 4º do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), “é dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária”. Entre as prioridades, está “a primazia de receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias”. O artigo 5º determina que “nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”.

Apesar da clareza da lei, dos 55,6 milhões de menores de 14 anos que vivem no Brasil, 12% são vítimas de violência doméstica. Segundo o Disque Denúncia, a cada hora cinco delas sofrem algum tipo de agressão — 80% causadas por parentes próximos. Os casos de negligência — quando as crianças são deixadas, por exemplo, sem comida, banho ou remédios — correspondem a 73% das denúncias. Em seguida estão a violência psicológica (50%), física (42%) e sexual (25%). O que será que sente quem é violentado justamente por quem deveria protegê-lo? Quando os pais não cumprem seu papel, a quem cabe substituí-los?

Um exame de corpo de delito constatou que não houve qualquer tipo de violência sexual contra a criança, que voltou para a guarda dos pais. Também João e Igor, protagonistas da história resumida no primeiro parágrafo, voltaram inúmeras vezes. Mesmo depois de 5 anos de fugas, denunciando os maus tratos que sofriam a delegados e conselheiros tutelares, os irmãos eram invariavelmente remetidos de volta para a casa dos algozes. Os meninos de Ribeirão Pires acabaram assassinados. O menino do Piauí parece não ter sofrido nenhuma violência física. Ainda.

Comentários
Deixe um comentário

Olá, ( log out )

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

  1. Valentina De Botas

    Grande texto. A notícia é chocante mesmo para o país em permanente perplexidade e a história está muito mal contada, restando esclarecer por que os pais deixaram o menino lá e por que ele foi devolvido a pais capazes de uma coisa dessas. Me lembro do caso insuportável de João Vitor e Igor Giovani, também relatado aqui num texto magnífico de Augusto e Branca Nunes. Quanto às meninas que brincaram de roda com o peladão do MAM e a outra que tocou o corpo dele incentivada pela mãe, não é preciso ser especialista em nada para desconfiar da inadequação – para dizer o mínimo – dessa situação.

    Curtir

  2. Claudio Stainer

    Somos mesmo uma Nação de miseráveis.

    Curtir

  3. Claudio Stainer

    Essa do peladão do MAM é Surreal.

    Curtir

  4. Rodrigues Junior

    O texto chama a atenção para desproporcionalidade do barulho, exatamente como vem acontecendo. Tudo é grave, mas temos que diferenciar o “monstruoso” do “inadequado”, como bem apontou Valentina no seu comentário. Saudações, prezado Augusto!

    Curtir

  5. Claudio Stainer

    Os cantores, atores e atrizes, o Caetano e o Chico, as atrizes/modelos/motoristas de caminhão estão consternados e vão se reunir para cobrar do CNJ uma posição sobre o fato. O Dallagnol também vai fazer uma palestra sobre o assunto e cobrará mil reais para ajudar a si mesmo.

    Curtir

  6. Alguns que se acham pais apenas porque geraram um filho submetem a inocéncia de uma criança a crueldades inimagináveis. Este garoto não tem pais pois são monstros e as crianças do museu infelizmente tem alienados como pais. Dizer que é arte um homem nu no museu é no mínimo uma aberração. Se os pais queriam levar os filhos pra verem pessoas nuas basta aderirem a um campo de nudismo e todos inclusive eles terão toda a liberdade do mundo no campo se é este o objetivo de levar as crianças o nudes como natural.

    Curtir

  7. Leonardo Bittar

    Caro Augusto
    Se no caso do MAM, a mesma cena, só que :
    Um professor de Ciências do ginásio ou colegial deitado pelado na escola, chama os alunos do pré primário para ter uma aula de ciências.
    Os alunos de 4,5 6 anos são convidados e estimulados a tocar no professor, tudo em nome da ciência, isto poderia ser considerado uma aula de ciências ?
    Será que os defensores da “arte” defenderiam o professor e a escola?
    E se o professor fosse o Bolsonaro ? Defenderiam o direito ao conhecimento ?
    Realmente o Brasil está doente socialmente.

    Curtir

  8. Leonardo Bittar

    P.S Acho o Bolsonaro um idiota, mas mais idiota que ele são os que se opõem a qualquer ato ou pensamento simplesmente pelo fato de não concordar com ele.

    Curtir