O Supremo fica bem mais sensato com uma faca imaginária no pescoço

PUBLICADO EM 22 DE DEZEMBRO DE 2011 Às nove e meia da noite de 28 de agosto de 2007, o ministro Ricardo Lewandowski chegou ao restaurante em Brasília ansioso por comentar com alguém de confiança a sessão do Supremo Tribunal Federal que tratara da denúncia do procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, sobre o […]

PUBLICADO EM 22 DE DEZEMBRO DE 2011

Às nove e meia da noite de 28 de agosto de 2007, o ministro Ricardo Lewandowski chegou ao restaurante em Brasília ansioso por comentar com alguém de confiança a sessão do Supremo Tribunal Federal que tratara da denúncia do procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, sobre o escândalo do mensalão. Por ampla maioria, os juízes endossaram o parecer do relator Joaquim Barbosa e decidiram processar os 40 acusados de envolvimento na trama. Sem paciência para esperar o jantar, Lewandowski deixou a acompanhante na mesa, foi para o jardim na parte externa, sacou o celular do bolso do terno e, sem perceber que havia uma repórter da Folha por perto, ligou para um certo Marcelo. Como não parou de caminhar enquanto falava, a jornalista não ouviu tudo o que disse durante a conversa de 10 minutos. Mas qualquer das frases que anotou valia manchete.

“A tendência era amaciar para o Dirceu”, revelou de saída o ministro, que atribuiu o recuo dos colegas a pressões geradas pelo noticiário jornalístico. “A imprensa acuou o Supremo”, queixou-se. Mais algumas considerações e o melhor momento do palavrório: “Todo mundo votou com a faca no pescoço”.  Todo mundo menos ele: o risco de afrontar a opinião pública não lhe reduziu a disposição de amaciar para José Dirceu, acusado de “chefe da organização criminosa”. Só Lewandowski ─ contrariando o parecer de Joaquim Barbosa, a denúncia do procurador-geral e a catarata de evidências ─ discordou do enquadramento do ex-chefe da Casa Civil por formação de quadrilha. “Não ficou suficientemente comprovada  a acusação”, alegou. O mesmo pretexto animou-o a tentar resgatar também José Genoíno. Ninguém divergiu tantas vezes do voto de Joaquim Barbosa: 12. Foi até pouco, gabou-se na conversa com Marcelo: “Tenha certeza disso. Eu estava tinindo nos cascos”.

Ele está tinindo nos cascos desde 16 de março de 2006, quando chegou ao STF 26 dias antes da denúncia do procurador-geral. Primeiro ministro nomeado por Lula depois do mensalão, Lewandowski ainda não aprendera a ajeitar a toga nos ombros sem a ajuda das mãos quando virou doutor no assunto. Para tornar-se candidato a uma toga, bastou-lhe a influência da madrinha Marisa Letícia, que transmitiu ao marido os elogios que a mãe do promissor advogado vivia fazendo ao filho quando eram vizinhas em São Bernardo. Mas só conseguiu a vaga graças às opiniões sobre o mensalão, emitidas em encontros reservados com emissários do Planalto. Ele sempre soube que Lula não queria indicar um grande jurista. Queria um parceiro de confiança, que o ajudasse a manter em liberdade os bandidos de estimação.

Passados mais de quatro anos, Lewandowski é o líder da bancada governista no STF ─ e  continua tinindo nos cascos, comprovou a  recente entrevista publicada pela Folha. Designado revisor do voto do relator Joaquim Barbosa, aproveitou a amável troca de ideias para comunicar à nação que os mensaleiros não seriam julgados antes de 2013. “Terei que fazer um voto paralelo”, explicou com o ar blasé de quem chupa um Chicabon. “São mais de 130 volumes. São mais de 600 páginas de depoimentos. Tenho que ler volume por volume, porque não posso condenar um cidadão sem ler as provas. Quando eu receber o processo eu vou começar do zero”. Como o relatório de Joaquim Barbosa deveria ficar pronto em março ou abril, como precisaria de seis meses para cumprir a missão, só poderia cloncluir seu voto no fim de 2012. O atraso beneficiaria muitos réus com a prescrição dos crimes, concedeu, mas o que se há de fazer? As leis brasileiras são assim. E assim deve agir um magistrado judicioso.

A conversa fiada foi bruscamente interrompida por Joaquim Barbosa, que estragou o Natal de Lewandowski e piorou o Ano Novo dos mensaleiros com o presente indesejado. Nesta segunda-feira, o ministro entregou ao revisor sem pressa o relatório, concluído no fim de semana, todas as páginas do processo e um lembrete desmoralizante: “Os autos do processo, há mais de quatro anos, estão digitalizados e disponíveis eletronicamente na base de dados do Supremo Tribunal Federal”, lembrou Barboza. Lewandowski, portanto, só vai começar do zero porque quis. De todo modo, o que disse à Folha o obriga a terminar a tarefa no primeiro semestre. Se puder, vai demorar seis meses para formalizar o que já está resolvido há seis anos: vai absolver os chefes da quadrilha por falta de provas.

As sucessivas manobras engendradas para adiar o julgamento confirmam que os pecadores não estão convencidos de que a bancada governista no STF é majoritária. Ficarão menos intranquilos se Cezar Peluso e Ayres Brito, que se aproximam da aposentadoria compulsória, forem substituídos por gente capaz de acreditar que o mensalão não existiu. Para impedir que o STF faça a opção pelo suicídio moral, o Brasil decente deve aprender a lição contida na conversa telefônica de 2007. Já que ficam mais sensatos com a faca no pescoço, os ministros do Supremo devem voltar a sentir a carótida afagada pelo fio da lâmina imaginária.

Comentários
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  1. Comentado por:

    Anderson Soares

    Prezado Augusto:
    Já havia esquecido o relato da coversa do ministro ao celular relatado pela jornalista da Folha. O seu lembrete vem em boa hora. Afinal, todos precisamos ficar vigilantes, pois, como demostrou o eminente ministro, esse jogo, a depender do juiz, já está perdido.

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  2. Comentado por:

    Anderson Soares

    Há que se lembrar semana sim, e outra também, desse importante julgamente que cabe aos ministros do STF. É preciso cobrar O stf com veemência, pois sabemos que a tendência condinua sendo “AMACIAR PRO DIRCEU” e para seus comparsas.

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  3. Comentado por:

    Anderson Soares

    Esse relato da jornalista da FS é, NO MÍNIMO, REVOLTANTE!. Como um ministro da mais alta corte do país se deixa patrulhar por quem quer que seja?. ISSO É UM ABSURDO!. Esse senhor deveria ter sido processado e expulso do STF. Com essa fala, demostra não ter a imparcialidade MÍNIMA QUE O CARGO REQUERE. FORA Ricardo Lewandowski!.

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  4. Comentado por:

    Márcio

    Joaquim Barbosa, na minha opinião, é a exceção que existe nessa quadrilha de togas. E não sonhemos mais. Nunca fomos nada, nunca tivemos história, mas vergonhas. Nunca seremos nada, e se algum dia a história nos brindar com uma nova colonização, que não nos tragam jesuítas e mais lixos sociais. E que sejam impecáveis na limpeza.

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  5. Comentado por:

    Gisele

    Augusto, sugestão para o movimento contra a corrupção: encabeçar a “faca no pescoço”do STF com várias manifestações para que o julgamento seja acelerado. Vamos todos participar!

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  6. Comentado por:

    Jovane mineiro

    Para mim, o Ricardowski, mais um vez, mostra de forma clara o motivo de sua presença no STF. Que me desculpe o amigo leitor, mas os outros ministros não são diferentes dele. O Brasil está longe de ser um país sério.

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  7. Comentado por:

    Nestor Oliveira

    Esse ministro não opera a favor do governo somente no atacado, mas também num mesquinho varejo. Recentemente, negou mandado de segurança a uma ex-bolsista que alegava, com carradas de razão, a prescrição da ação. Lewandowski. só pra agradar ao governo, derrubou a legítima pretensão da ex-bolsista louvando-se em argumentos tãos primários, tão indigentes do ponto de vista da doutrina do Direito, que até hoje causa perplexidade nos meios jurídicos. Na oportunidade, o ministro Peluso obtemperou que o argumento era fraco, mas manteve a “cortesia” de não afrontar o ridículo voto pró-governo. Lewandowski já foi um juiz preparado e ponderado; hoje é só um juiz grato.

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  8. Comentado por:

    Curitibano

    Dessa informação eu não sabia, fiquei boquiaberto!!!!
    Então quer dizer, que além de administrarem o país com o único objetivo de auferirem vantagens pessoais e locupletamento do dinheiro público, AINDA ganham um dinheirinho, uma bagatela, quase uma esmola, de pouco menos de R$ 2,7 BILHÕES (135 milhões eleitores x R$ 0,35)…
    Art. 38. O Fundo Especial de Assistência Financeira aos Partidos Políticos (Fundo Partidário) é constituído por:
    IV – dotações orçamentárias da União em valor nunca inferior, cada ano, ao número de eleitores inscritos em 31 de dezembro do ano anterior ao da proposta orçamentária, multiplicados por trinta e cinco centavos de real, em valores de agosto de 1995.
    Vale citar que o fator de correção utilizado pela Secretaria de Orçamento Federal/MP é o IGP-DI/FGV.
    Esse valor é simplesmente um verdadeiro absurdo…
    E ainda querem aprovar no parlamento um tal de FINANCIAMENTO PÚBLICO DE CAMPANHA!!!!
    Como se na prática já não existisse o financiamento público para esses biltres saquearem nosso país…
    Isso é uma vergonha!!!
    Fonte: http://www.justicaeleitoral.jus.br/arquivos/tse-fundo-partidario-duodecimos-de-2011
    http://www.tse.jus.br/partidos/fundo-partidario/perguntas-frequentes-fundo-partidario/#1
    http://www.justicaeleitoral.jus.br/arquivos/tse-fundo-partidario-multas-de-2011

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  9. Comentado por:

    Yolanda Heller

    Que tristeza!!Por respeito ao Augusto me calo

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  10. Comentado por:

    J.B.CRUZ

    ´´É A MISÉRIA HUMANA ——–

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