O Rio mais gostoso do que nunca

Branca Nunes Poucas coisas são tão gostosas como uma boa comida. Se vier acompanhada por um bom papo, melhor ainda. Se, além disso, houver a oportunidade de conhecer um lugar diferente, o programa está completo. É isso o que propõe o Guia Carioca da Gastronomia de Rua, idealizado pelo cineasta Sérgio Bloch, com textos da […]

Branca Nunes

Poucas coisas são tão gostosas como uma boa comida. Se vier acompanhada por um bom papo, melhor ainda. Se, além disso, houver a oportunidade de conhecer um lugar diferente, o programa está completo. É isso o que propõe o Guia Carioca da Gastronomia de Rua, idealizado pelo cineasta Sérgio Bloch, com textos da jornalista Inês Garçoni e fotos de Marcos Pinto, que foi lançado há um mês no Rio de Janeiro e terá, nesta quinta-feira, sua première em São Paulo.

As 19 histórias conseguem provar que a antiga (e eterna) capital vai infinitamente além do mate com biscoito Globo no Posto 9, em Ipanema – embora isso já valha uma visita à Cidade Maravilhosa. Lá está, por exemplo, o angu da Lucinha, uma negona jeitosa que há décadas comanda a barraca na Pedra do Sal, perto de onde funcionou o maior mercado de escravos do Rio.

Enquanto coloca no prato o angu à baiana – ou o angu à quilombola, uma criação própria –, Marilucia Luzia vai contando que exerce o mesmo ofício das negras libertas dos séculos XIX e XX, que aprendeu a cozinhar com a mãe e a avó, e que é bisneta de negros alforriados.

A muitos quilômetros dali, Arnaldo Barcellos instalou um restaurante japonês ambulante na barraca de peixes nas feiras da Ilha do Governador, de Grajaú e de Jaquarepaguá. “Volta e meia alguém me perguntava se não era possível vender o peixe já cortado como sashimi”, conta Barcellos num dos capítulos do Guia. “Um dia resolvi contratar um sushiman para ver o que acontecia. Foi um sucesso”.

Embora poucos turistas saibam (e mesmo cariocas da gema ignorem), o Rio tem um acarajé de tirar o fôlego de qualquer baiano e um pastel com caldo de cana de fazer paulista morrer de inveja. O prato típico da Bahia é preparado pela Nega Teresa, uma filha de Iansã que, de quinta a domingo, veste a saia rodada e a blusa de renda branca, coloca o turbante na cabeça e monta o tabuleiro em frente ao número 1458 da Rua Almirante Alexandrino, em Santa Tereza.

No documentário de 13 minutos dirigido por Sérgio Bloch que acompanha o livro, Tereza conta que, das sete irmãs, só ela decidiu viver de acarajé. As outras são costureiras. “Eu não gosto muito de casa não, eu gosto é de rua”, diz, com um sorriso que parece reproduzir o desenho da praia de Copacabana.

Foi justamente esse filme que deu origem ao livro. Depois de pronto, Bloch pensou na embalagem mais adequada para fazê-lo chegar ao público. Conheceu Inês pelo blog Anastácia na feira, e os dois descobriram juntos outros personagens e sabores. Deu tudo certo. Os próximos passos da dupla abrangem 11 estados brasileiros, onde deverão gravar 13 episódios do A Boca do Povo, série que irá ao ar na TV Brasil, em 2012.

Concebido como um falso-guia, por fugir da forma tradicional “indicação-nota-serviço”, o Guia Carioca de Gastronomia de Rua é, essencialmente, um livro de histórias. “Nossa idéia foi valorizar a cultura da comida de rua e as pessoas que estão por trás”, conta Inês. Há também textos curtos que revelam curiosidades como a origem do sorvete ou do nome do bairro de Guadalupe, e os motivos que favoreceram a popularização do sushi. Por percorrer lugares que ultrapassam os límites da tríade Ipanema- Leblon-Copacabana, os autores convidam a incursões por paragens cariocas tão desconhecidas quanto encantadoras.

“É importante fazer com que a rua não seja apenas um lugar de passagem”, observa Bloch. “É um lugar onde sempre se aprende algo novo. A rua sempre proporciona boas conversas e bons encontros”. E ótimas comidas.

Além da série para a TV Brasil, Sérgio e Inês lançarão em breve o Guia Gastronômico das Favelas, com dicas de bons restaurantes fincados nos morros pacificados do Rio.

Guia Carioca da Gastronomia de Rua
Editora: Arte Ensaio
Preço: R$ 65,00 (livro + DVD)

Lançamento: quinta-feira, dia 24. às 20h
Local: Restaurante Soteropolitano
Rua Fidalga, 340, Vila Madalena
São Paulo-SP
Tel.: (11) 3034-4881

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  1. Comentado por:

    Jam Guimarães

    Parabéns Branca!! Delícia de reportagem!! Tô com água na boca!! Com o acarajé posso resolver por aqui mesmo..na Bahia( da Cira em Itapoã,meu preferido!)..Mas eu nunca entendi o caso do “Angú baiano”…Quando morava no Rio sempre encontrei nas feiras “aquela baiana” que fazia um Angú delicioso(adorava!) mas nunca ví ninguém fazer aqui-Ba- algo sequer parecido!!(me lembra mais a polenta com ragú-prato tipico do norte da Italia)Enfim,coisas sem respostas!!(eu sinceramente não acredito que o prato seja baiano..)kkk
    Um abraço
    Ps: espero que saia em Dvd..assitir na Tv Brasil é osso duro de roer
    Oi, Jam. O DVD é vendido junto com o guia. Vale a pena. Grande abraço, Branca Nunes

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  2. Comentado por:

    Anita

    Idéia feliz a sua, Branca. Comida de rua é uma delícia e a de boteco frequentado por homens com macacões sujos de graxa é divina. Tempero autêntico, nada dessa misturada que fazem os chefes de cozinhas sofisticadas, descaracterizando pratos tradicionais. Infelizmente, as barracas da Barra Funda, junto ao Memorial da América Latina, foram removidas sabe-se lá por quê. Até o Mercadão da Cantareira acabou com o “charme” dos petiscos e a famosa sopa de cebola do Ceagesp deve ter desaparecido. Agora, falar do “um chopis e dois pastel” (caldo de cana é doce) é nostalgia, como é também o famoso peito de peru na chapa, simples ou com molho vinagrete.

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  3. Comentado por:

    Ingrid

    Muito bom vc comer onde a poluição ataca, as pessoas se debruçam e falam em cima dos alimentos…bom…muito bom….

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  4. Comentado por:

    f tavares, na resistência

    jam guimarães, 22:25h de ontem,
    – é porque é angu da bahiana, jam, e não angu à bahiana… e você, branca nunes, está convidada com seu par, de preferência que seja meu camarada, para essas mesmas delícias com outras embalagens… nem vou comentar, o livro deve estar certíssimo, apesar de estar sendo lançado na rua fidalga, vila mariana (!). mas quando você estiver por aqui com tempo pra essas delícias, é só avisar com 24 horas de antecedência. não se arrependerá, eu agarancho…
    sds, FT

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  5. Comentado por:

    Vera

    Muito interessante! A gente descobre gostos e sabores onde menos espera. Descobri em SP, no delicioso bairro de Higienópolis, um cantinho agradabilíssimo, o Café Colon. Fica na praça Buenos Aires, rua Alagoas. Parece uma vilazinha nos fundos de um sobrado. Grandes figuras da cidade aparecem lá para saborear doces e salgados, preparados pela esposa do proprietário. O papo é bom e não sentimos o tempo passar. Encontrei pessoas que compartilham deste blog. Legal!

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