Nenhum farsante escapa da vala comum reservada aos falsificadores da História

“Não fale uma sandice dessas”, irritou-se o ex-presidente Lula com Denise Chrispin Marin, correspondente do Estadão em Washington. “Conheço as pessoas e sei como me referi a elas”, continuou, decidido a ampliar a coleção de momentos inverossímeis registrados na entrevista coletiva desta quarta-feira. Ao saber que o palestrante aprendiz está pronto para pacificar a Líbia […]

“Não fale uma sandice dessas”, irritou-se o ex-presidente Lula com Denise Chrispin Marin, correspondente do Estadão em Washington. “Conheço as pessoas e sei como me referi a elas”, continuou, decidido a ampliar a coleção de momentos inverossímeis registrados na entrevista coletiva desta quarta-feira. Ao saber que o palestrante aprendiz está pronto para pacificar a Líbia – é só Dilma Rousseff chamar –, a jornalista lembrou que em dezembro de 2003, num jantar em Tripoli, Lula qualificou Muammar Kadafi de “companheiro e amigo”. E então o ator canastrão incorporou o ofendido de araque para garantir que não disse o que disse.

Não parou por aí. “Jamais falaria isso por uma razão muito simples: porque eu tenho discordância política e ideológica com Kadafi”, recitou sem ficar ruborizado. Ou porque é muito gentil ou porque a perplexidade a emudeceu, Denise desperdiçou uma boa chance de emparedar o embusteiro. Deveria ter registrado que os afagos verbais em Tripoli foram confirmados pelo nicaraguense Daniel Ortega e pelo argelino Mohamed Ben Bella, presentes ao jantar. Foram também testemunhados pelo tradutor sem o qual Lula não sabe o que se passa ao redor.

Melhor ainda seria recordar ao amnésico seletivo que as carícias retóricas murmuradas em Tripoli foram reprisadas há um ano e meio em Sirte, na 13ª Reunião de Cúpula da União Africana. E desmontar a farsa com a leitura em voz alta da reportagem do enviado especial Andrei Netto, publicada pelo Estadão em 2 de julho de 2009. Um dos trechos reproduz a derramada saudação a Kadafi feita por Lula:  “Meu amigo, meu irmão e líder”, discursou o convidado de honra, mirando com olhar de noiva o psicopata anfitrião.

O restante do palavrório deixou claro que aquilo não fora um escorregão de palanqueiro sem compromisso com a verdade. Lula estava lá para reafirmar a solidariedade do governo brasileiro a estadistas incompreendidos. Elogiou abjeções mundialmente desprezadas, louvou celebrou a generosidade de assassinos, louvou o fervor democrático de liberticidas, festejou o patriotismo de corruptos de carteirinha e reiterou a admiração pela biografia infame do ditador da Líbia.

Mais de sete anos depois de Tripoli, menos de dois depois de Sirte, o companheiro, amigo, irmão e liderado de Kadafi resolveu proclamar inexistentes o acasalamento promíscuo e as cenas de cumplicidade explícita. É tarde. E é impossível. Espertalhões bem mais sagazes que Lula também tentaram substituir fatos amplamente documentados por mentiras convenientes. Nenhum dos farsantes foi muito longe. Todos acabaram vencidos pela verdade. Todos jazem na vala comum reservada aos falsificadores da História.

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  1. Comentado por:

    sandra arouxa

    Quando é que o Kadafi chega para se juntar aos iguais? No Brasil é assim, a casa da mamãe petralha.

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  2. Comentado por:

    FM

    E falar que tem gente, que não são nenhum ignorantes carentes, muito pelo contrário, idolátram uma pústula dessa sem caráter, e que pelo pouco que se conhece, não merece o mínimo respeito.

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  3. Comentado por:

    Kitty

    Meu caro Augusto,
    Pelo amor de Deus, respire fundo!!! Que texto fantástico, uma verdadeira avalanche de palavras certeiras e demolidoras, percebendo que a sua revolta está à flor da pele! Belo, contundente e DIRETO AO PONTO! Antológico…..
    Meu caro era Você quem deveria ter estado em Washington para encostar o contumaz mentiroso na parede, e derrubar uma a uma as inverdades, que, sem pestanejar sequer, disse para todo mundo ouvir que ele discordava da política de Gaddafi.
    Mas o falastrão não contou, com a boa memória de testemunhas que ouviram e assistiram quando, o apedeuta chamou Muammar de “meu amigo”, “meu mestre”, “meu líder”.
    É deprimente assistir como alguém possa ser tão cínico, ao ponto, de virar-lhe as costas invés de ter feito uma declaração de solidariedade ao amigão tirano, se unindo a ele contra a insurreição popular enviando a TASK FORCE com Ele mesmo na frente seguido de Marco Aurélio, Celso Amorim e o resto do séquito de marxistas que sempre o acompanham.
    Augusto não gosto de Chávez, mas achei que o tiranete venezuelano foi mais coerente que o embusteiro EX quando disse que ele -HC- somente reconhecerá um governo Líbio, o conduzido pelo seu amigo e aliado Muammar Gaddafi e aproveitou acusar os USA de incitar a guerra civil. Pelo menos, se solidarizou com o amigo em desgraça.
    Parabéns pelo veemente texto e lhe dizer que a sua revolta é a nossa também.
    Esta frase faz coro às últimas palavras no final da sua excelente exposição:
    QUEM ESCREVE A HISTORIA SÃO OS VENCEDORES, MAS QUEM CONTA A VERDADE É A LITERATURA—-Andres Riviera
    Neste caso , a imprensa e os jornalistas que a compõem, é a Literatura!!!!
    Um abraço!
    Kitty
    Um abraço, Kitty querida.

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  4. Comentado por:

    Artur da Távola Ribeiro

    Bravo, Augusto! Alguém precisava escrever o que você escreveu … Afinal, o ex-Presidente Mulla continua sendo o farsante que sempre foi enquanto estava oficialmente no exercício do poder …

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  5. Comentado por:

    Francisco Bruno

    E O EMBUSTEIRO TEM CERTEZA QUE NÃO FALOU, ISSO É DOENÇA, TEM DIAS QUE O DESANIMO BATE ÀS PORTAS SÓ DE PENSAR QUE AGUENTEI OITO ANOS. FELISMENTE TEMOS A IMPRENSA E JORNALISTAS QUE PELO MENOS TENTAM MOSTRAR NOSSAS REALIDADES. UM DIA MUDAREMOS ISSO.

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