J. R. Guzzo: Paraíso perdido

Publicado na edição impressa de VEJA Onde foi parar neste começo de 2016 o “carrinho novo” que, segundo o ex-presidente Lula, o operário brasileiro finalmente teve dinheiro e crédito para comprar, por conta das virtudes de seu governo? Onde andariam todos os trabalhadores humildes que deixaram “a elite inconformada” por começarem a viajar de avião, pela […]

Publicado na edição impressa de VEJA

Onde foi parar neste começo de 2016 o “carrinho novo” que, segundo o ex-presidente Lula, o operário brasileiro finalmente teve dinheiro e crédito para comprar, por conta das virtudes de seu governo? Onde andariam todos os trabalhadores humildes que deixaram “a elite inconformada” por começarem a viajar de avião, pela primeira vez na história deste país? Onde poderia estar circulando neste momento o “Trem-Bala” que, segundo Lula garantiu mais de uma vez, seria inaugurado dali a pouquinho e calaria a boca dos que “torcem contra” o governo? Alguém já conseguiu tirar uma caneca de água da transposição do Rio São Francisco? O que aconteceu com a conta de luz barata e com a lição de economia que a presidente Dilma Rousseff deu ao planeta em 2013? O Brasil, assegurou ela, acabava de provar que era possível, sim, crescer, distribuir renda, baratear a vida para os pobres e ter finanças sadias, tudo ao mesmo tempo, “em meio a um mundo cheio de dificuldades”. Não só isso. Seu governo acabava de colocar o Brasil numa “situação privilegiada” perante a comunidade das nações, com “energia cada vez melhor e mais barata, mais que suficiente para o presente e o futuro”. Os “pessimistas” tinham sido derrotados, informou Dilma.

E os juros? Na mesma ocasião, a presidente comunicou que “os juros estão caindo como nunca” ─ e hoje? Outra coisa: sabe-se da existência de algum posto onde seria possível comprar gasolina barata, feito de que o governo tanto se orgulhava até o encerramento da eleição presidencial de 2014? O Brasil entrou, afinal, na Opep, como Lula previa diante da nossa transformação em potência na produção de petróleo? Aliás, por falar nisso, quando foi a última festa para comemorar mais uma descoberta do “pré-sal”, com Lula e Dilma fazendo aquelas marcas pretas de óleo nos uniformes cor de laranja com que eram fantasiados? Procuram-se notícias, também, do real forte ─ tão forte que iria dispensar o dólar nas transações internacionais do Brasil, pelas altas análises do Itamaraty. Seria interessante saber onde foi parar o investment grade que as grandes agências mundiais de avaliação de risco deram ao Brasil pouco tempo atrás ─ prova definitiva, segundo o governo, de que o mundo capitalista enfim se curvava diante da gestão econômica de Lula, Dilma, PT e de suas “políticas sociais”. O mesmo se pode perguntar em relação ao “gostinho” declarado pelo ex-presidente em ver o Primeiro Mundo em “crise” e o Brasil correndo para o abraço. Onde está “o pleno emprego”? Onde está a “Pátria Educadora”? Onde está o maior programa de distribuição de renda já visto na história da humanidade?

Nada disso se encontra disponível no presente momento. Carrinho novo? A indústria automobilística acaba de ter, em 2015, o pior desempenho em quase trinta anos ─ isso mesmo, desde 1987, nas remotas profundezas do governo José Sarney. As companhias de aviação estão de joelhos; se estão perdendo até os passageiros ricos, imagine-se os pobres. A energia barata virou uma piada: as contas de luz subiram 50% em 2015, e vão subir de novo neste ano. Os juros andam perto de 15% ─ um paraíso mundial para os “rentistas” com os quais a esquerda brasileira tanto se horroriza nos discursos e a quem tanto favorece na vida real. No assunto petróleo, o que se tem, acima de tudo, é uma Petrobras que o governo quebrou, por ladroagem e incompetência, e hoje não tem dinheiro para investir nada; na verdade, ela jamais deveu tanto. O real perdeu 50% do seu valor no ano passado, e voltou, após mais de vinte anos, à sua condição de moeda bananeira. O governo presidiu uma recessão de 3,5% em 2015 ─ isso em cima de crescimento zero em 2014 ─ e prepara-se para socar na economia outro recuo neste ano, de 2,5% ou mais. Há 10 milhões de desempregados neste país, no corrente mês de janeiro. O último IDH, uma das medidas mundiais mais respeitadas para avaliar o bem-estar dos países, deixou o Brasil em 75º lugar ─ e quem pode achar que está bem, em qualquer coisa, se fica no 75º lugar? O investment grade sumiu: como o Senhor, na Bíblia, a Moody’s, a S&P e a Fitch dão, a Moo­dy’s, a S&P e a Fitch tiram.

É este o país que resultou, na prática, dos treze anos de Lula, Dilma e PT. Ninguém no governo tem a menor ideia de como sair disso ─ nem poderia ter, quando o seu único objetivo, hoje em dia, é ficar de bem com o senador Renan Calheiros e traficar no Congresso um jeito para escapar do impeachment. Daí só se pode esperar que as coisas continuem piorando, piorando, piorando ─ até que chega um dia em que continuam a piorar.

Comentários
Deixe um comentário

Olá, ( log out )

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

  1. Comentado por:

    Dadal

    Brilhante como sempre, superou parabens Guzzo

    Curtir

  2. Comentado por:

    Neto

    A “esquerda” brasileira mostrou para que veio e para que sempre esteve disposta. Roubar e dilapidar o país de tudo até da sua esperança e dignidade. Foi graças a esta quadrilha que hoje ocupa o poder que fomos empurrados para um regime de exceção que durou vinte anos. Foi graças a a estes ladrões e terroristas que temos um atraso democrático e de desenvolvimento. Parabéns organização criminosa (“esquerda brasileira”)liderada pelo pt.

    Curtir

  3. Comentado por:

    JRG

    LEIAM O RECADO DO GRANDE J.R.GUZZO, AMIGOS. ABRAÇÃO. AN
    Prezada POLIANA PERES
    Obrigada a você, pelo comentário generoso. Não pode haver recompensa maior do que ser julgado capaz, como você diz, de “transportar para o papel tudo o que o brasileiro que pensa gostaria de expressar”.
    Meus melhores agradecimentos, também, para todos os leitores que enviaram tantas palavras de apoio – especialmente Claudia, Vida Ramos, Maru, Cirval, Rosemary, Luis, Nena, Mario, Claudio, Dadal, FM, Oswaldo, Nobile, Marcio Cesar, Gilvan Macedo e, como sempre, Valentina. Vocês são a força.

    Curtir

  4. Comentado por:

    Luiz

    Nunca nomeei articulista/jornalista deste site da Veja, que frequento diariamente, mas agora vai. Para mim J.R. Guzzo é top. Texto elegante e incisivo com tiradas como “o pior desempenho em quase trinta anos ─ isso mesmo, desde 1987, nas remotas profundezas do governo José Sarney.” Me senti nas fossas das Marianas no que diz respeito a descalabros econômicos. Um bom texto faz o leitor viajar.

    Curtir

  5. Comentado por:

    Poliana Peres

    Prezado Guzzo,
    Guardei de lembrança seu recado. Ser citada por você, profissional que admiro tanto, foi um grande orgulho.
    Obrigada a você e Augusto Nunes (sensacional também), por existirem. O brilhantismo de seus textos nos engrandece.
    Abraços!!
    Obrigado, Poliana. Um abraço. AN

    Curtir

  6. Comentado por:

    JRG

    Gratíssimo, mais uma vez … Forte abraço

    Curtir